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"Baixas calorias nas escolas"
Refrigerantes, doces e frituras estão sendo banidos de algumas escolas
onde a preocupação com uma alimentação saudável
já faz parte do cardápio.
A preocupação com a alimentação nas escolas vem
aumentando à medida que cresce o número de crianças e adolescentes
acima do peso no país. Problemas de saúde antes vistos apenas
em adultos, como colesterol alto e hipertensão, agora atingem também
os mais novos. Várias instituições de ensino brasileiras
já optaram por incluir uma dieta light em suas cantinas. Salgadinhos,
balas e refrigerantes são alguns exemplos de alimentos já extintos.
Alguns estados brasileiros, como o Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina,
proibiram a venda, nas cantinas das escolas, de alimentos pouco saudáveis
e que colaboram com esse quadro, mas isso não é suficiente: é
preciso mudar os hábitos alimentares de crianças e adolescentes,
o que é um processo demorado e que exige que pais e escolas trabalhem
juntos.
Leia a entrevista com a nutricionista do portal, Gisele Pontaroli Raymundo,
que fala sobre a importância da modificação dos hábitos
alimentares desde a infância.
Alguns estados brasileiros já estão proibindo, nas escolas,
a venda de alimentos que não são considerados saudáveis,
como refrigerantes, frituras e guloseimas. Esse seria o melhor caminho para
a conscientização de crianças e jovens sobre uma alimentação
saudável?
O consumo de alimentos pouco nutritivos, também chamados de “junk
food”, tem crescido muito nos últimos anos. E isso é
preocupante, uma vez que interfere diretamente na saúde, principalmente
de crianças e adolescentes. E foi uma série de fatores que nos
levou a esse aumento. Rever esses hábitos é imprescindível
para melhorar a qualidade de vida, pois, em médio e longo prazos, eles
podem causar diversas conseqüências desagradáveis ao organismo.
Essa lei que proíbe a comercialização desses alimentos
nas escolas é um dos caminhos para a formação do hábito
de “deixar” de consumir alimentos pouco nutritivos. Mas, além
disso, é fundamental a implantação de um programa de conscientização
de crianças, jovens e seus familiares sobre a importância do consumo
de alimentos mais saudáveis e o impacto destes na saúde.
Na sua opinião, seria mais apropriado fazer algum trabalho de conscientização
nas escolas em vez de proibir a venda desses alimentos tão adorados por
crianças e adolescentes?
Apenas a conscientização é um caminho mais longo. Fazer
um trabalho paralelo, como não ofertar esses produtos, ajuda crianças
e jovens a optarem por alimentos alternativos e desenvolverem o hábito
e o gosto por produtos menos calóricos e gordurosos.
Algumas escolas alegam que não é possível proibir
determinados alimentos, pois, em casa, os alunos os consomem sem problemas.
Cuidar da alimentação de crianças e adolescentes ao menos
enquanto eles estão na escola pode ajudar a melhorar seus hábitos
alimentares?
Infelizmente, isso é verdade. Muitas escolas oferecem aulas de Educação
Alimentar e lanches como frutas, sucos e salgados assados em vez de salgadinhos
industrializados, refrigerantes e frituras, mas os pais não aderem aos
novos hábitos. No entanto, é melhor ter pelo menos uma parte das
refeições mais saudável que uma dieta desbalanceada em
tempo integral. Daí a necessidade de as famílias se envolverem
em um programa de reeducação alimentar.
É possível fazer um trabalho conjunto com os pais? Palestras
ou cartilhas educativas seriam uma solução? Qual é a importância
de pais e escolas trabalharem juntos?
É possível, sim. Existem vários programas que podem ser
desenvolvidos por nutricionistas nas escolas e que envolvem tanto os alunos
como suas famílias e incluem palestras, jogos, cartilhas, etc. E estes
podem englobar desde a Educação Infantil até o Ensino Médio,
independentemente da idade dos alunos, pois sempre é possível
criar hábitos alimentares mais saudáveis. Mostrar aos pais, por
meio de palestras, por exemplo, que o consumo de frutas e vegetais, cereais
integrais e carnes magras, leite e derivados diariamente só contribui
para a manutenção da saúde não só dos pequeninos
como da família inteira, na maioria dos casos, faz com que eles se conscientizem
de que todos devem se envolver nesse processo. E a escola é de grande
importância nesse trabalho, pois é a base da educação.
A lei que proíbe a venda de alimentos não saudáveis
nas escolas em alguns estados brasileiros objetiva não apenas a redução
de peso entre os jovens, mas também mudar seus hábitos alimentares.
Você acha possível alcançar esse objetivo entre adolescentes
e crianças menores da mesma maneira?
O ganho de peso é apenas uma das conseqüências do consumo
de “junk food”. E é pensando no comprometimento da
saúde que se deve apoiar o programa de conscientização
da importância da adoção de novos hábitos alimentares.
Os adolescentes geralmente são mais relutantes à mudança
de hábitos alimentares, pois estes já estão incorporados
em seu estilo de vida. As crianças, como ainda estão em desenvolvimento,
são mais suscetíveis e abertas a essas modificações.
Mas, mesmo assim, utilizando uma abordagem adequada a seu público-alvo
e despertando seu interesse, é possível conseguir grandes resultados.
Alguns pais não se preocupam com os hábitos alimentares de
crianças e adolescentes porque seus filhos não são obesos.
Essa preocupação deve existir independentemente do peso que os
filhos têm?
Como já disse, a obesidade é apenas uma das conseqüências
do consumo exagerado de alimentos calóricos e gordurosos. As gorduras,
principalmente as saturadas e do tipo trans, vêm gerando um número
crescente de crianças hipertensas, por exemplo, ainda que estas tenham
um peso considerado adequado para sua altura e idade. E esse novo quadro de
doenças típicas de adultos em crianças é preocupante.
O diabete é outra doença que está atingindo o público
infantil. Além disso, é preciso lembrar que nossa saúde
pode ser prejudicada por hábitos alimentares inadequados, alimentação
desbalanceada, falta de nutrientes importantes para o crescimento e desenvolvimento
adequados (como proteínas de alto valor biológico que são
encontradas nas carnes e seus derivados e no leite, por exemplo) e pelo consumo
muito pequeno ou inexistente de fibras que ajudam no controle do trânsito
intestinal, além da falta de atividade física regular. Esses fatores
contribuem para o aparecimento de diversas patologias, tanto na infância
como na fase adulta.
Que problemas uma alimentação pouco saudável pode trazer
para os jovens em curto e longo prazos?
A hipertensão e as altas taxas de colesterol — chamadas de hipercolesteremia
— já são uma realidade entre nossos jovens e até
crianças menores. Infelizmente, como não produzem sintomas, são
diagnosticadas tardiamente, o que pode gerar, por exemplo, doenças cardíacas
ainda na adolescência e, certamente, na fase adulta. Antes, esses problemas
eram comuns em pessoas adultas de aproximadamente 50 ou 60 anos de idade, sedentárias
e com uma vida muito estressante. Atualmente, já são diagnosticados
em crianças de 8 a 10 anos. É possível imaginar as conseqüências
disso quando elas forem adultas. E é preciso, realmente, tomar atitudes
preventivas com urgência.
As crianças em geral não costumam comer verduras e legumes.
Mal os vêem, já dizem que não gostam, mesmo sem ter experimentado.
Uma apresentação melhor ou criativa desses alimentos é
uma solução para que eles sejam aceitos?
A apresentação dos pratos é uma opção muito
interessante, mas o principal é habituar as crianças desde muito
pequenas a consumir verduras e legumes. O exemplo dos pais também é
um ponto decisivo. É importante que elas percebam nos familiares o prazer
em consumir frutas e verduras todos os dias e não apenas eventualmente.
Dessa forma, vão incorporar esse hábito a sua alimentação.
Quando ainda assim elas relutam em consumir esses alimentos, é necessário
iniciar a inclusão deles aos poucos. No caso das frutas, pode-se oferecê-las
sob a forma de sucos, em vitaminas, tortas, saladas de frutas, bolos e pudins.
E os legumes e verduras, em tortas, panquecas, junto com arroz, no molho do
macarrão, etc. Percebemos, em nosso dia-a-dia no consultório,
que isso traz resultado.
Se um adolescente se alimenta apenas com um tipo de alimento, mesmo que
este seja saudável, está alimentando-se corretamente? Qual é
a importância de se ter uma alimentação variada?
Infelizmente, não existe um alimento completo, ou seja, que tenha todos
os nutrientes na quantidade exata que precisamos para manter nossa saúde.
Cada um é rico em determinados tipos de nutriente. Quando os juntamos
em uma refeição, um acaba complementando o outro. Um exemplo disso
é o arroz e o feijão. E as cores dos alimentos também indicam
em que nutrientes ou substâncias nutritivas eles são ricos. Um
prato bem colorido, além de oferecer diferentes nutrientes, é
muito mais atrativo.
Que dicas você daria para as escolas se adequarem a essas novas leis?
As escolas podem fazer uma pesquisa entre os alunos para verificar, entre os
alimentos classificados como saudáveis, quais são os preferidos
por eles. Assim, vão conseguir contentar grande parte dos consumidores.
E também mostrar, com um material educativo bem colorido e de fácil
compreensão, o motivo dessa modificação nas cantinas. As
pessoas têm relutância em aceitar alimentos saudáveis, pois
se costuma achar que o que é saudável tem gosto ruim ou nenhum
sabor. Existem várias preparações feitas com frutas, verduras,
cereais, etc. que são extremamente gostosas e de grande aceitação.
O pão de queijo é um exemplo disso. Pode-se trocar um pastel,
que é frito, por pão de queijo; e refrigerantes, por sucos naturais
de diferentes frutas, conforme a safra. Existe uma infinidade de opções
que poderão agradar aos estudantes.
Como a nutricionista da escola pode ajudar nesse trabalho?
Com seu conhecimento técnico, esse profissional pode explicar, usando
uma linguagem mais simples, a importância dos nutrientes para o crescimento
e a saúde, em que alimentos eles são encontrados e em que quantidade
devem ser consumidos e sobre as doenças e sua relação com
a alimentação. Outra maneira é ajudando no planejamento
da cantina: na elaboração de preparações, na seleção
e compra de alimentos e até mesmo em seu gerenciamento. Um programa incluindo
palestras e atividades lúdicas sobre alimentação para as
diferentes faixas etárias e níveis de ensino também é
um trabalho bem interessante.
Por Gizáh Szewczak
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