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"O pedreiro da literatura"
Conheça a história
de Evando dos Santos, um sergipano radicado no Rio de Janeiro que transformou
a paixão pela leitura numa biblioteca comunitária com 40 mil livros.
Trabalhando como pedreiro, Evando dos Santos, um sergipano radicado no Rio
de Janeiro, ajudou a construir muitas casas. Por muitos e muitos anos, essa
foi sua rotina de vida. Apaixonado pela literatura, em certo dia, Evando viu
sua vida dar uma guinada quando ia ao trabalho. Naquele dia, ao deparar com
uma pilha de livros em cima do balcão de uma loja, Evando teve a idéia
de iniciar outro tipo de construção: a de uma biblioteca. Foi
assim que surgiu a Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes,
no bairro Vila da Penha, na capital do Rio de Janeiro. Segundo ele, nela o lema
é dizer sim à cultura e não à burocracia. Lá,
o usuário pode pegar quantos livros quiser e devolvê-los quando
bem entender. Caso não devolva algum, não há problema:
se ficou com ele é porque gostou, e isso é um bom sinal.
Fundada em 1998 com apenas 50 livros, a biblioteca conta hoje com um acervo
de 40 mil exemplares. Para chegar a esse número, as dificuldades enfrentadas
foram grandes. Muitos livros foram transportados por Evando de ônibus,
sob o escaldante sol carioca. Além disso, o fundador da biblioteca teve
de superar mais um problema, o preconceito. “As pessoas acham que sou
desqualificado para lidar com livros porque tenho um ‘intelecto não
lapidado’, ou seja, não sei escrever”. Mas a palavra desanimar
não faz parte do vocabulário de Evando. Apesar das dificuldades,
ele conseguiu montar e expandir a biblioteca em um curto espaço de tempo
e conquistou o apoio de gente importante, como Oscar Niemeyer, que, sensibilizado
com a história de Evando, deu-lhe de presente o projeto arquitetônico
da nova biblioteca, que deverá ser construída em breve.
Em entrevista exclusiva ao portal, Evando fala sobre como surgiu a idéia
de montar a biblioteca, as dificuldades encontradas e os planos para o futuro.
Quando e como surgiu seu interesse por livros?
Esse interesse começou na época em que eu morava em Sergipe, quando
vi cordel na feira de Aquidabã. Vindo para o Rio de Janeiro, tornei-me
membro da Igreja Batista, em Vista Alegre, e foi o pastor José Evangelista
de Oliveira quem praticamente me ensinou a ler, na Bíblia. Foi a partir
desse episódio que comecei a gostar de livros. Logo em seguida, fui trabalhar
como pedreiro na Vila do João, no Rio de Janeiro, e lá encontrei
Dernival Pereira Santos, que também era pedreiro. Então, ele me
apresentou grandes autores — como Tobias Barreto, Lima Barreto, Machado
de Assis, Shakespeare, Pablo Neruda, Sílvio Romero —, e eu me interessei
mais por Tobias e Lima Barreto. Quando fundamos a biblioteca, no dia 17 de julho
de 1998, escolhemos Tobias Barreto para ser o patrono dela por acharmos que
ele é o maior escritor brasileiro.
Como surgiu a idéia de montar a biblioteca?
Eu já tinha lido diversos livros, gostava muito de ler e comprava alguns.
Em 1998, fui consertar um vazamento. Eu havia descido do ônibus na Avenida
Braz de Pina, depois do Hospital Getúlio Vargas, quando deparei com uma
loja onde havia 50 livros em cima do balcão. Entrei no estabelecimento
e perguntei ao proprietário se ele iria montar um sebo. Ele respondeu
que não e disse que ia doar aqueles livros. Então, peguei os livros,
coloquei-os dentro de um saco e fui consertar o vazamento. Entre eles, estavam
História do Brasil, de Pedro Calmon, Os Titãs, em
dez volumes, e Os Sertões, de Euclides da Cunha. Voltei para casa
e, quando coloquei os livros na sala, ocorreu-me que o Rio de Janeiro tinha,
na época, 23 bibliotecas municipais e quatro estaduais. Até aí,
estava tudo bem. O problema é que existe uma “burrocracia”
em torno do livro; as pessoas acham que ele é propriedade delas. Então,
Deus me inspirou a fazer uma biblioteca sem burocracia, onde o usuário
emprestasse o livro e, se não quisesse devolvê-lo, isso seria motivo
de festa e não de tristeza, porque o livro foi feito para circular. Abrimos
esse espaço com 50 obras; hoje temos 40 mil. E quem levou o livro e não
devolveu fez muito bem; isso é sinal de que gostou. Esta é a filosofia
da Biblioteca Tobias Barreto: não à burocracia e sim à
cultura.
Quais foram as principais dificuldades que você encontrou para montar
a biblioteca?
Eu não acredito na palavra analfabeto: uma vez que a primeira
manifestação do indivíduo quando vem ao mundo é
o choro, nesse momento, a pessoa usa várias letras do alfabeto sem conhecer.
Isto é, não existe analfabeto, o que existe é “intelecto
não lapidado”. É preciso lapidar o próprio intelecto,
aprender a desenhar as letras, formar as palavras, o que é o começo
desse processo. A maior dificuldade que enfrentei foi o fato de ser um “intelecto
não lapidado”: não tenho diploma e, de antemão, não
tenho afinidade. Ou seja, as pessoas me rotulam de desqualificado para lidar
com livros. Considero-me uma pessoa que vence os obstáculos — não
sei escrever, só sei ler, mas, aqui, faço boletins, folhetos culturais,
etc. E tenho até mesmo um projeto em mente, que se chama “Adote
um Poeta”. Imagine se cada pai de família adotasse um poeta e o
apresentasse a seu filho? Por isso, o slogan do nosso folheto cultural
deste mês é: “Adote um poeta. Não deixe a poesia da
sua pátria ficar no esquecimento”. E vou distribuí-lo na
rua.
Você se incomoda com esse tipo de preconceito?
As pessoas até podem me discriminar, mas, como diria o poeta, “Eu
sei que nada sei, mas uma coisa eu sei: só o livro é capaz de
acabar com as desigualdades na Terra. Sem ele, não se chega a lugar nenhum”.
Não me preocupo quando alguém me rotula de analfabeto; eu me intitulo
“intelecto não lapidado” porque não tenho diploma.
Mas lapido meu intelecto por meio dos livros. Costumo ler de 10 a 12 livros
por mês. Mas é importante a pessoa “sentir” o livro.
Eu tenho uma receita para quem quer aprender a ler e ter na mente uma boa leitura.
Se você não leu Triste Fim de Policarpo Quaresma, não
conhece o Brasil. Se não conheceu Emília no País da
Gramática e da Aritmética, de Monteiro Lobato, é um
fracasso em português. Se não leu O Alienista, de Machado
de Assis, falta muita coisa a você, e se nunca leu Menores e Loucos
em Direito Criminal, de Tobias Barreto, não conhece o Brasil juridicamente
e o comportamento do menor e do povo brasileiro na época de 1876, durante
o império de D. Pedro II. O grande problema do Brasil é que ele
anda para trás e não progride, e a falta de leitura contribui
muito para essa situação. Por isso, tivemos a idéia de
colocar livros na cesta básica para que o trabalhador levasse para casa
a coisa mais preciosa: o conhecimento. Apareceu uma pessoa ligada ao governo
de Lula dizendo que essa idéia lhe pertencia, mas ela já está
registrada em cartório e me veio à mente desde que se começou
a distribuir cestas básicas. Já imaginou se ela se concretizasse?
O governo fazendo uma parceria com as editoras para publicar livros a preço
de custo? Todo mês, um livro diferente, começando pelos de poesia.
Essas são idéias para melhorar a disseminação do
livro em nosso país e que gostaria muito que nosso governo colocasse
em prática.
De que maneira o acervo foi sendo montado?
Nós começamos da seguinte forma: eu liguei para o jornal O
Dia e, uma semana depois, a jornalista fez uma matéria comigo. Em
seguida, fiz o folheto cultural para distribuir nas ruas. Participei do programa
“Boca Livre”, na rádio Bandeirantes do Rio de Janeiro, e
nesse dia ganhamos 1.012 livros. Então, a biblioteca começou a
“decolar”. Depois disso, veio a televisão. A TV Bandeirantes
foi a primeira emissora a fazer uma matéria na biblioteca e veiculá-la
em rede nacional. Em seguida, vieram a Globo, o RJ TV, e até mesmo ao
Programa do Jô eu fui. Do acervo de 40 mil livros que temos hoje, 4 mil
fui buscar de ônibus. Já estive em todos os lugares do Rio de Janeiro
atrás de livros, carregando sempre um saco e, às vezes, tomando
até quatro conduções.
Que tipo de livro se encontra na Biblioteca Comunitária?
Ela tem livros que não existem sequer na Biblioteca Nacional. Por exemplo:
uma gramática da língua bunda, que era muito falada pelos escravos
vindos da África no início do século, e um livro com capa
feita de pele de carneiro, de 1700. Nela, existem enormes pilhas de livros —
porque não há estantes para guardá-los —, que são
divididas por assunto — como Matemática, História e Geografia
— e têm sua respectiva plaquinha de indicação. As
pessoas vão até as pilhas e escolhem o que precisam. Algumas levam
até 50 livros para estudar em casa, pois não há restrições
quanto à quantidade. As palavras não pode, roubo
e não devolveu não existem na Biblioteca Comunitária
Tobias Barreto de Menezes. E quanto à gramática da língua
bunda, que é raríssima, fiz um xerox dela para evitar problemas.
Quantas pessoas a biblioteca costuma receber por dia?
Graças a Deus, recebe de oito a dez pessoas, às vezes até
quinze por dia. É a única do Brasil que funciona de domingo a
domingo, das 6h da manhã às 11h da noite.
Como você vê o sistema bibliotecário do Brasil atualmente?
Eu me considero um amante da Biblioteconomia. Queria ser um bibliotecário
formado, mas não tenho mais tempo para isso. Considero essa profissão
interessante, só acho que existe muita burocracia nela. Os profissionais
precisam aprender com quem faz, ou seja, o curso de Biblioteconomia deveria
levar os amantes dos livros para falarem na universidade, tanto na USP como
aqui no Rio de Janeiro. Já fiz uma palestra na Faculdade de Biblioteconomia
do Rio de Janeiro, onde fui tratado de maneira magnífica. Claro que há
grandes professores no curso; entretanto, o que atrapalha é a burocracia.
Há aquele “empastelamento do saber”, e isso não leva
ninguém a lugar nenhum. No ano passado, participei do 2.º Congresso
de Biblioteconomia da Universidade de São Carlos (SP) como palestrante.
Que tipo de público freqüenta a biblioteca?
Todos os tipos, pessoas de 5 a 80 anos de idade. Às vezes, as mães
vão com o filho no carrinho; outras pessoas, com o cachorro, porque ela
é uma biblioteca viva, que não é bonita por fora e cheia
de ossos e burocracia por dentro. Ela é feia por fora e bonita por dentro
porque livro é vida.
Quais são os planos para o futuro?
Temos uma filosofia: incentivar a abertura de novas bibliotecas como a nossa.
E até mesmo já ajudamos a fundar 18 bibliotecas nos mesmos moldes.
Enviamos cinco mil livros à cidade de Santa Inês, no Maranhão,
graças ao jornal Extra, do Rio de Janeiro, à TVE e à
TV Itapemirim, que nos ajudaram. Foi a maior aventura livresca da biblioteca
até agora. Há livros nossos em outros estados. Para se ter uma
idéia, recebemos um pedido de 500 livros de uma cidade da Bahia. O problema
é que não temos apoio, precisamos de uma parceria, alguém
que nos ajude a levar os livros até lá, uma transportadora talvez,
mas, infelizmente, ainda não conseguimos. A idéia da biblioteca
é não ficar entre quatro paredes: todo mês, ela vai para
a rua por meio de um folheto cultural que sempre tem um assunto diferente. Nós
produzimos a história da Vila da Penha por intermédio dos moradores,
e esse livro — que possui 119 páginas e 45 fotografias —
vai ser editado pela universidade da cidade e é a primeira obra brasileira
que foi escrita por pessoas comuns.
Como você conseguiu o apoio de uma figura tão importante da
arquitetura brasileira como Oscar Niemeyer?
Eu costumo dizer que não fui eu que consegui, foi Jesus. Um dia, cheguei
em casa às 13h e liguei a televisão na Rede Bandeirantes. Exatamente
naquela hora, Oscar Niemeyer estava participando de um programa em que apareciam
na tela um telefone e a frase: “Ligue e faça sua pergunta ao professor
Niemeyer”. Eu anotei rapidamente o número e liguei. A moça
da produção atendeu, e contei minha história para ela.
Então, ela me disse para falar diretamente com ele, com o programa no
ar. Eu pedi a ele um projeto, e ele respondeu que eu o procurasse quando tivesse
o terreno. Logo depois, liguei para a fundação: Analucia Niemeyer
me atendeu e me levou até o gênio que é o avô dela.
Eu fiquei nervoso quando estava ao lado do homem mais importante do Brasil,
que, na minha opinião, não é Pelé, mas Oscar Niemeyer,
que é um gênio. Ele fez as obras mais importantes do século
passado e do início deste. Então, ele nos entregou o projeto,
o que muito nos orgulhou. O ministro da Cultura da época esteve aqui
antes de sair, prometendo ajuda. O projeto foi aprovado: custará 414
mil reais, e precisamos fazer uma parceria. O empresário que doar essa
verba poderá descontá-la do imposto de renda, mas não conseguimos
nenhum até agora, e o prazo termina em dezembro. Não vamos desistir,
pois temos o projeto de um gênio e, nele, além da sala da biblioteca,
consta a primeira faculdade comunitária, que terá professores
aposentados e o curso de Letras Machado de Assis, no qual serão estudados
língua bunda, tupi-guarani, latim, espanhol e alemão.
Quais são seus autores favoritos?
O primeiro deles é Tobias Barreto, que introduziu o Condorismo na poesia
brasileira, foi o primeiro homem a falar e escrever em alemão no Brasil
e criou a escola de Direito do Recife, da qual saíram Sílvio Romero,
Clóvis Beviláqua e Graça Aranha. Este último foi
aluno de Tobias na escola de Recife aos 12 anos. Antes de morrer, Graça
Aranha disse que tudo o que sabia devia a Tobias. Para mim, ler Tobias é
progredir, e não ler é regredir. Ele também foi o primeiro
a introduzir a literatura comparada na literatura brasileira, assim como o darwinismo
no direito brasileiro. Um de seus alunos, Clóvis Beviláqua, elaborou
o Código Civil que foi promulgado em 1.º de janeiro de 1917 e usamos
até hoje. Ele foi modificado recentemente, e um discípulo de Tobias,
um gênio chamado Miguel Reale, participou dessa tarefa. Tobias é
o maior escritor brasileiro. Castro Alves foi aluno dele e, quando chegou à
Universidade de Recife, Tobias já era um poeta conhecido nessa cidade.
Também sou um admirador do Romantismo. Para mim, o maior romancista é
Lima Barreto; e o maior historiador, Sílvio Romero, que foi aluno de
Tobias e escreveu a primeira história da literatura brasileira. Outro
autor que admiro muito é Manoel Bonfim, que escreveu América
Latina. Nesse livro, ele diz que o colonizador português foi um parasita
e que o negro africano que aqui chegou construiu tudo o que aí está.
E ele comprovou antropologicamente a força do negro. Esses são,
na minha opinião, os maiores autores brasileiros.
Por Guilherme Prendin
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