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"Uma luz no fim do túnel"
Por meio do estudo
e dedicação, o jovem Cleonder Evangelista deixou a criminalidade e hoje leva
uma vida normal, sendo até autor de livro. Confira essa incrível história e
veja como ela pode servir de exemplo para outros que estão na mesma situação.
Imagine
um adolescente envolvido com o tráfico de drogas. Preso por assalto a mão armada,
ele é encaminhado para a Febem. Depois, é condenado novamente por tentativa
de homicídio. Como há milhares de casos semelhantes, as pessoas, de modo geral,
tendem a acreditar que muito dificilmente esse jovem será recuperado, tendo
seu destino inevitavelmente ligado a uma vida de crimes, certo? Errado!
A prova
de que esses jovens, ao receberem apoio adequado, podem levar uma vida normal
é a trajetória de Cleonder Evangelista. Ele foi parar na Febem aos 15 anos e,
hoje, cursa a faculdade de Direito, sendo autor do livro "Uma Luz no Fim
do Túnel: A História de Sucesso de um Ex-interno da Febem", que narra sua
história. Aos 18 anos, Cleonder fez o que, para muitos, é inesperado para um
ex-interno da Febem: por meio dos estudos e do apoio de educadores e da família,
saiu da vida do crime e hoje é uma pessoa feliz. Leva uma vida normal, cursando
o segundo ano do curso de Direito, no qual está indo "muito bem, obrigado".
Cleonder prestou vestibular enquanto ainda estava na Febem e foi aprovado como
12.º colocado. Trabalha numa editora, tem uma namorada e acaba de ser pai. "Para
ressocializar alguém que infringiu a lei, acredito que a educação é o único
caminho que existe", afirma.
Na entrevista
que concedeu ao portal, Cleonder conta como ingressou na criminalidade e saiu
dela e como teve sua vida transformada por insistir em estudar.
Como era sua vida antes da Febem?
Antes de entrar na Febem, aos 12
anos, acabei envolvendo-me com drogas. O processo foi bem rápido. De 13 para
14 anos, comecei a traficar para custear o uso. Com o tempo, tornei-me um dos
maiores fornecedores de entorpecentes da região. Como isso normalmente não dura
muito, a polícia acabou prendendo-me por tráfico de drogas e fui encaminhado
à Febem. Antes desse meu envolvimento com as drogas, minha vida era normal como
a de qualquer garoto.
O que levou você a ingressar
no mundo das drogas?
Como escrevi no meu livro Uma
Luz no Fim do Túnel, no início foi por curiosidade; mas, em seguida, fui
influenciado pelo meio em que vivia.
Como era a vida de interno?
Fui reincidente na Febem. A primeira
internação durou um ano e seis meses e aconteceu por causa de tráfico de drogas
e assalto à mão-armada. Durante esse período, concluí seis cursos profissionalizantes.
Logo ao chegar à Febem, agredi outro adolescente e acabei respondendo por tentativa
de homicídio. Nessa instituição, existe atendimento psicológico, uma equipe
técnica que ajuda a desenvolver o trabalho; mas, isso, claro, também depende
de o adolescente realmente querer "ser trabalhado".
Saí de lá após um ano e meio e consegui
emprego; entretanto, por causa da infração que havia cometido dentro da Febem,
fui sentenciado novamente a mais uma internação. Na segunda vez, acabei sendo
mandado para a unidade 31, de Franco da Rocha, na grande São Paulo, que é considerada
a "Carandiru mirim", pois lá se encontram os detentos de níveis quatro e cinco,
ou seja, que cometeram infrações graves ou gravíssimas.
Você deixou de estudar quando
foi para a Febem? Como fez para continuar os estudos?
Em momento algum deixei de estudar,
até porque o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê o direito
do jovem à educação, que é dada lá dentro para quem quiser. Como minhas duas
internações, somadas, totalizam mais de três anos, acabei concluindo o Ensino
Médio dentro da Febem. Depois, senti vontade de prestar vestibular e dar continuidade
aos meus estudos. Não achava que, por ser interno, isso seria inútil. Ao contrário.
Dei prosseguimento aos estudos, fui aprovado e consegui uma bolsa de estudos
por intermédio da Secretaria de Educação e da Universidade Paulista (Unip).
Depois que saiu da Febem, você
começou a trabalhar?
Após sair de lá, procurei emprego,
mas não consegui. Então, comecei a vender vassouras de palha para ter uma renda.
Qual foi a reação de seus parentes
e das pessoas próximas quando você foi internado pela segunda vez?
Elas ficaram frustradas porque eu
estava indo bem, e ser preso novamente foi como se tivessem tirado o chão debaixo
dos meus pés. Eu estava trabalhando, namorando, com a imagem e a dignidade resgatadas,
e foi muito difícil passar por tudo novamente. Quando cheguei a Franco da Rocha,
fiquei com uma leve depressão pelo fato de a lentidão do poder judiciário ter
resultado em uma segunda internação. Segundo o ECA, o crime que cometi lá dentro
não deveria ter gerado uma segunda internação e, sim, ter sido unificado em
uma só.
O que você sentiu quando recebeu
a notícia de que teria de retornar à Febem?
Fiquei inconformado! Na hora, é
difícil entender, fiquei muito nervoso. Mas, após uns 30 dias, melhorei. Acabei
conformando-me e consegui obter todas essas conquistas.
Quando você começou a pensar
em vestibular?
Depois que terminei o Ensino Médio,
pois queria dar continuidade a meus estudos. Eu tinha um sonho: cursar Direito.
Por isso, comecei a pensar em vestibular mesmo estando dentro da Febem.
Quais foram os obstáculos para
fazer as provas e como foi sua preparação?
Os funcionários da Febem me ajudaram
muito, providenciando livros preparatórios pré-vestibulares. Em relação à Justiça,
foi tudo muito tranqüilo, até porque eu não estava pedindo nada além do meu
direito, que é estudar. Para ressocializar alguém que infringiu a lei, acredito
que a educação é o único caminho que existe.
Como foi o dia da prova?
Eu fiquei bastante nervoso, mas
acabei acertando 54 das 60 questões e fiquei em 12.º lugar. No dia da prova,
fui escoltado por dois funcionários da Fundação até a faculdade.
E o dia da aprovação? Você foi
liberado assim que passou?
Fiquei sabendo da minha aprovação
pelos funcionários da Febem. A festa foi muito grande, era a realização de um
sonho! Dois meses após o resultado ter sido divulgado, fui liberado da Febem,
já que não havia mais motivo para eu estar ali. Assim que saí, recebi uma bolsa
integral de estudos da Unip.
Como passou a ser sua vida quando
você saiu da Febem?
O principal problema foi conseguir
um emprego. Comecei a vender vassouras de palha para me sustentar. Era uma rotina
cansativa, de estudo e trabalho, mas que valia muito a pena. Depois de um tempo,
consegui emprego em uma editora.
Como surgiu a idéia para o livro?
Foi logo que comecei a trabalhar
na editora. Eu tinha vários rascunhos que havia escrito sobre minha história,
e, lá, interessaram-se e resolveram lançar meu livro. Fiquei muito contente
com isso, pois tudo o que passei, desde minha primeira internação na Febem,
até minha recuperação, a entrada na universidade, enfim, minha superação, tudo
está relatado no livro. Creio que ele serve como exemplo para muitos jovens
mudarem de atitude, ou seja, vencer as dificuldades e alcançar seus objetivos.
Como ex-interno, você acredita
que instituições possam recuperar os jovens que lá estão?
Infelizmente, a realidade do atual
sistema carcerário é a seguinte: não funciona de fato, não recupera o indivíduo.
Eu vejo, é claro, o lado das vítimas desses jovens. Mas vejo também que, do
jeito que estão as coisas, o sujeito sai delas pior do que entrou. Hoje eu sei
que só saem do crime aquelas pessoas a quem são dadas oportunidades e condições
de reeducação.
Você é a favor da redução da
maioridade penal?
Não. Quando o jovem está com 16
anos, pensa de uma forma. Com 18, de maneira um pouco diferente. Já com 20,
pensa de um modo totalmente diferente. Uma pessoa com 16 anos ainda não tem
maturidade física e psicológica para responder por seus atos.
Por Diogo Dreyer e Guilherme Prendin
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