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O berço do grande “vilão” dos mares
Pesquisador descobre, no litoral de São Paulo, um local onde um
dos maiores predadores dos mares, o tubarão, passa os primeiros estágios
de vida. A descoberta pode acarretar, entre outras coisas, a sobrevivência
de espécies ameaçadas de extinção e o estudo dos
hábitos desses animais com o objetivo de evitar ataques a banhistas.
Em junho de 1996, o pesquisador e professor do curso de Ciências Biológicas
da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Otto Fazzano Gadig, dava início
ao Projeto Cação. Ele pretendia iniciar uma série de pesquisas
em Itanhaém (litoral de São Paulo) para conhecer e estudar os
hábitos de novas espécies de tubarões, descobrir do que
elas se alimentavam, como se reproduziam e, até mesmo, quantos desses
animais havia na região.
Passados alguns anos, Gadig, juntamente com sua equipe, e contando com o auxílio
de alguns pescadores do município, observou que havia inúmeras
espécies de tubarões recém-nascidos naquela área.
A conclusão do trabalho do pesquisador foi a descoberta de um “berçário”
desses animais, ou seja, local onde as fêmeas costumam dar à luz
seus filhotes e estes passam os primeiros estágios da vida.
Gadig é considerado um dos maiores especialistas em tubarões
no país e, graças a suas pesquisas na área, é chamado
freqüentemente para identificar espécies que atacam banhistas em
diferentes locais do país. Em entrevista exclusiva ao portal, ele falou
sobre a importância dessa descoberta em Itanhaém e de que forma
isso pode ajudar na preservação da espécie. O pesquisador
explica que, conhecendo-se o lugar em que esses animais passam as primeiras
fases da vida, será possível evitar futuros ataques, como os que
ocorrem constantemente nas praias de Recife (litoral nordestino).
Quando e por que começou o seu interesse em pesquisar tubarões?
O meu interesse já é relativamente antigo. Na verdade, o trabalho
que faço agora, que culminou com a descoberta do “berçário”,
é mais um desdobramento de um trabalho de uns 25 anos. O meu interesse
se deve ao fato de os tubarões serem animais extremamente interessantes,
apesar de serem predadores mal vistos pelo público em geral. Eu acreditava
que era necessário conhecê-los melhor para ver que a verdade é
outra; o contrário do que o público pensa.
Aproximadamente, quantas espécies de tubarão existem
e quais são as mais perigosas para o homem?
São conhecidas pouco mais de 450 espécies diferentes de tubarão.
O público em geral pode achar que esse número é muito alto,
pois geralmente se imagina que existem poucas espécies, as quais seriam
conhecidas justamente por morder e atacar as pessoas, como o tubarão-branco,
o tubarão cabeça-chata e o tubarão-tigre. Esses três
são muito conhecidos e considerados os maiores envolvidos nos ataques
a seres humanos no mundo. O tubarão cabeça-chata e o tubarão-tigre
são espécies que atacam nas regiões tropicais, enquanto
o tubarão-branco prefere águas frias. Estes são, sem dúvida,
os que representam maior perigo para os surfistas, banhistas, mergulhadores,
etc. Existem ainda mais umas seis ou sete espécies diferentes que, eventualmente,
envolvem-se em acidentes, que são de menor gravidade.
Qual o peso e a estatura máxima que um tubarão pode atingir?
Os três que eu citei anteriormente são muito grandes. O tubarão
cabeça-chata cresce até três metros de comprimento e pesa
quase 300 quilos, ou seja, ele é um animal muito robusto. O tubarão-tigre
pode medir até seis metros e pesar uma tonelada (embora não seja
comum encontrar um desse tamanho), e o tubarão-branco é um pouco
maior: pode chegar a sete metros e pesar até duas toneladas, pois é
mais gordo, mais robusto. São três espécies de grande tamanho,
e isso é um fator que as torna também potencialmente perigosas.
A cidade de Recife vem sendo, ao longo dos últimos anos, alvo
de grande preocupação no que diz respeito a ataques de tubarões
na costa brasileira. A que você atribui essa onda de ataques e o que acha
que deve ser feito para que não ocorram mais tragédias?
O problema de ataques de tubarões na região metropolitana de Recife
está relacionado com o fato de que, próximo a essa área,
foi construído o porto de Suape. É uma obra que custou caro e
que acabou determinando alterações importantes no ecossistema
regional. Por exemplo: eles destruíram e modificaram o ambiente de tal
forma que algumas espécies de tubarão potencialmente perigosas,
como é o caso do tubarão-tigre ou do tubarão cabeça-chata,
ficaram sem lugar para ter seus filhotes e também sem alimento. Então,
eles começaram a atacar pessoas no litoral do Recife, já que é
uma área intensamente povoada. Esse é um problema grave e que
deve ser resolvido de médio a longo prazo, sobretudo com implementação
de trabalhos de educação, para que as pessoas adotem comportamentos
de menor risco. Lá em Recife, já se sabe quais são as espécies
de tubarões que atacam, em que situações e horários,
bem como quais são os locais mais apropriados para o banho e onde a incidência
de ataques é maior. Agora, é importante que isso seja passado
ao público de uma forma eficiente para que efetivamente as pessoas comecem
a entender que lá existe um problema localizado e que é possível
diminuir o risco dos ataques. Infelizmente, reduzir a zero é impossível,
pois em nenhum lugar do mundo isso foi conseguido.
Como você avalia a importância da sua recente descoberta
do “berçário” de tubarões em Itanhaém,
no litoral paulista?
A descoberta do berçário de tubarões no litoral de São
Paulo é importante sob vários aspectos. Primeiramente porque a
divulgação desse fato vai fazer com que outros pesquisadores atentem
para a possibilidade de que em outras regiões existam “berçários”,
o que de fato é muito provável. Na verdade, esse berçário
é nada mais, nada menos, que a comprovação de uma idéia
que todo mundo tem, ou seja, a de que existem berçários de tubarões
ao longo de toda a costa brasileira e em vários lugares do mundo. No
entanto, não se tem pesquisas feitas em longo prazo que comprovem isso;
no Brasil, essa foi a primeira região a ser descoberta, e, no mundo,
só se conhecem mais quatro.
O segundo aspecto é que encontrar uma região que possa ser utilizada
pelos tubarões nessa fase importante da vida deles (nascimento e crescimento)
é uma descoberta que ajuda muito na conservação do meio
ambiente e dos próprios animais, pois podemos criar um mecanismo para
preservar essas áreas. Dessa forma, preservamos automaticamente além
dos tubarões, todos os outros animais que vivem nesse ecossistema. Portanto,
a descoberta de um “berçário” é uma informação
prioritária e estratégica para se criarem medidas de conservação
do ecossistema marinho costeiro.
Como se deu essa descoberta?
A descoberta desse “berçário” foi conseqüência
de um trabalho que começou em julho de 1996 (na semana passada completou
oito anos). Inicialmente o projeto tinha como objetivo apenas conhecer quais
espécies de tubarões viviam nessa área, o que elas comiam,
como elas se reproduziam e o quanto havia de tubarões por lá.
Assim foi durante os anos iniciais, em que nós fazíamos estudos
com a ajuda dos pescadores artesanais da praia de Itanhaém (litoral de
São Paulo). Com o passar do tempo, descobrimos que lá havia muitos
tubarões recém-nascidos. Então imaginamos que poderia haver
um “berçário” desses animais, o que foi confirmado
nos últimos anos. Descobrimos ainda que pelo menos cinco das espécies
de tubarões que encontramos utilizam essa área para ter seus filhotes.
Existem outros “berçários” de tubarões
no Brasil? A destruição do hábitat desses animais pode
gerar problemas populacionais para determinadas espécies por causa das
mudanças na cadeia alimentar?
Sem dúvida, existem outros “berçários”
no Brasil. Porém, é necessário que sejam feitas pesquisas
a longo prazo para descobri-los, o que nem sempre acontece, por causa de questões
logísticas e financeiras. Mas tenho certeza de que, se forem feitas outras
pesquisas como essa, em outros pontos do litoral brasileiro, grande parte delas
vai constatar que outros locais estudados também são “berçários”.
Quanto à questão da destruição do hábitat,
esse é um problema muito sério não só para a população
de tubarões, mas também para a de vários animais marinhos,
pois afeta consideravelmente a vida deles. O litoral de Recife é um bom
exemplo de lugar onde provavelmente a destruição de algum sistema
marinho gerou vários problemas, como o ataque de tubarões. Mas
o problema maior é a diminuição da quantidade de tubarões:
a pescaria de grande porte e a destruição do ambiente natural
têm sido os principais fatores para a diminuição da população
de várias espécies desse animal, que está em risco de extinção.
Existe alguma pesquisa mostrando que esses tubarões podem voltar
sempre ao mesmo “berçário” para ter seus filhotes?
Esse local geralmente fica afastado da praia?
Os nossos “berçários” e alguns outros espalhados
pelo mundo se encontram em regiões perto da costa. Para que se possa
ter certeza de qual é o grau de fidelidade, ou seja, se os tubarões
voltam sempre para a mesma área para ter os filhotes (embora isso seja
aceitável e aconteça por lógica), precisaria haver outro
método de pesquisa, o que, por questão de financiamento, a gente
ainda não tem, que consistiria em marcar para observação
as fêmeas e os adultos machos que se aproximam da costa, para ver se eles
aparecem novamente no ano seguinte. Esse seria um procedimento relativamente
simples, mas envolve uma logística complicada, que no Brasil nem sempre
é possível fazer. Existe ainda outro método mais complicado
em termos de financiamento, que é colocar no tubarão um radiotransmissor
e depois acompanhá-lo através de um radiorreceptor instalado no
meio ambiente. Quando o animal chegasse perto desse radiorreceptor, a informação
seria ser gerada por satélite. Embora seja uma tecnologia muito avançada,
talvez nós consigamos utilizá-la no Brasil a curto prazo. Na verdade,
o equipamento já foi usado por aqui em um trabalho realizado em Fernando
de Noronha, que a propósito sugere a existência de um “berçário”
naquela região. O volume de informações obtidas não
foi adequado, pelo menos se comparado com esse trabalho recente que nós
fizemos aqui em São Paulo.
Os tubarões atacam os surfistas porque os confundem com focas
ou leões-marinhos? E os banhistas em geral também podem ser atacados?
Com relação à primeira pergunta, isso nem sempre
é verdade. Essa idéia surgiu nos EUA e foi transmitida para várias
outras nações, não só para o Brasil. Os norte-americanos
levantaram essa hipótese quando estavam estudando um modelo que envolve
o tubarão-branco, as focas e os surfistas. Aqui no Brasil praticamente
não há tubarões-brancos e focas, portanto, nem sempre é
possível estabelecer o mesmo parâmetro. É difícil
comprovar essa história de que os tubarões atacam porque confundem
os surfistas com focas ou leões-marinhos.
A respeito dos ataques aos banhistas, de vinte anos para cá, os surfistas
passaram de fato a serem as principais vítimas de tubarões, pois
o esporte praticado por eles se difundiu. Contudo, mesmo antes de o surfe se
espalhar pelo mundo todo, os banhistas eram as presas preferenciais, e continuam
sendo, até porque eles e os surfistas ocupam praticamente a mesma região
costeira. Estes ficam um pouco mais no fundo, e isso aumenta a chance de sofrer
ataques. No entanto, os tubarões podem chegar à área onde
os banhistas ficam, tanto que foram registrados vários ataques nessas
regiões, em Recife e pelo resto do mundo.
Existem algumas espécies de tubarões que estão
ameaçadas de extinção em decorrência do interesse
de grandes indústrias em comercializar as nadadeiras desses animais.
Na sua opinião, quais medidas devem ser tomadas para evitar que isso
aconteça?
A extinção de várias espécies de tubarão
por conta da pesca industrial para se retirarem as nadadeiras é um problema
muito sério, e a solução para ele não é simples,
pois envolve política internacional e adoção de medidas
rigorosas no sentido de fiscalizar as embarcações de grande porte
que fazem isso. O problema é que aplicar esse tipo de medida é
algo muito complicado, uma vez que o mercado internacional de nadadeiras de
tubarões é muito forte e tem um apelo econômico bastante
grande. Então, politicamente falando, é uma ação
complicada. Eu acho que se deveria educar o povo, fazendo com que ele entendesse
que os tubarões são animais importantes e devem ser preservados,
pois são fundamentais para o ecossistema e, a partir daí, começar
a criar uma idéia nova nas pessoas, para que elas pressionem as autoridades
competentes a implementar medidas que resolvam esse problema.
Por Guilherme Prendin
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