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Ciro Yoshioka é diretor da Escola Conhecer, que atende a filhos de imigrantes brasileiros no Japão.

Decasségui é uma palavra originária do japonês que significa “trabalhar fora de casa”, utilizada para trabalhadores estrangeiros que vão trabalhar naquele país.

 

 

Ensinando na Terra do Sol Nascente

Ciro Yoshioka fala ao portal sobre a experiência de dirigir uma escola brasileira no Japão e conta como é a vida dos decasséguis no país. As escolas criadas para atender aos filhos de imigrantes, além de criar uma realidade educacional viável para essas crianças, ajudam a diminuir a taxa de marginalidade.

Atravessar o mundo, encontrar uma cultura diferente e uma língua difícil, trabalhar muito e ainda sofrer preconceito. A vida dos brasileiros que vão ao Japão em busca de melhores oportunidades não é nada fácil. Imagine então para os filhos desses imigrantes: crianças que, de repente, veêm-se dentro de uma escola na qual as barreiras relacionadas à língua e aos costumes são quase intransponíveis. Resultado: êxodo escolar e aumento da criminalidade em um país onde a marginalidade praticamente não existe e todas as escolas são públicas e consideradas “de primeira linha”.

Mas alguns empreendedores brasileiros começaram a mudar a realidade dessas crianças através da fundação de escolas no Japão. Um deles é o decasségui Ciro Yoshioka, que, há alguns anos, viu na mão-de-obra mal aproveitada de outros compatriotas a saída: juntamente com um sócio japonês, o empresário Osamu Yokoyama, deu emprego a professores brasileiros que trabalhavam em outras funções no Japão e criou, na cidade de Fukuroi, uma escola para filhos de imigrantes brasileiros naquele país, a Escola Conhecer, da qual é diretor.

O começo foi difícil, mas hoje a escola de Ciro é reconhecida até mesmo pelo Ministério da Educação do Brasil (MEC). Além de integrar as crianças à comunidade e fazer com que elas não percam anos de estudo, instituições como essa se multiplicam no Japão, melhorando a realidade social das regiões onde estão instaladas as colônias brasileiras.

Confira a entrevista que o diretor concedeu ao portal.

Como a escola começou e como ela funciona?
Estou no Japão desde 1988. Trabalhei por quatro anos em fábricas e depois, durante aproximadamente oito anos, prestei assistência a brasileiros que moram naquele país. Nesse período, eu percebi a necessidade de haver, na região onde eu trabalhava, uma escola para os filhos desses brasileiros, por causa dos problemas que principalmente os adolescentes estavam causando. Esses jovens até ingressavam na escola japonesa, mas, por causa da dificuldade oferecida pelo idioma japonês, eles não conseguiam acompanhar a turma. Como não existia uma escola brasileira na região e eles não se integravam nas escolas japonesas, a criminalidade entre os adolescentes brasileiros naquela localidade ficou muito grande. Acabei abandonando meu trabalho em uma empreiteira, onde eu era responsável por cuidar de mais ou menos 700 brasileiros, e montei a escola.

Você já tinha experiência como educador?
Não. E também não tenho formação acadêmica. Mas a escola conta com uma equipe de professores muito bem composta, o que faz com que ela funcione do mesmo jeito que as instituições de ensino no Brasil, ou talvez até melhor. No Japão, nós trabalhamos com os alunos por um tempo maior: eles têm aula durante os 12 meses do ano. Assim, um semestre no Brasil corresponde, para nós, a um trimestre.

Nossos professores, então, inserem muitos conteúdos paralelos e realizam com os alunos muito mais exercícios do que o normal.
Dessa forma, nosso curso acaba sendo bastante forte. Com certeza, todos os alunos que voltaram para o Brasil conseguiram acompanhar muitíssimo bem as aulas aqui. E aqueles que passam por avaliações são normalmente classificados para uma série acima.

E por que 12 meses? Vocês não têm férias no Japão?
No Japão, nós temos três semanas de férias: o período chamado de golden week, que acontece no mês de maio, temos recesso durante a semana do feriado de Finados, que é em agosto, e a da virada de ano, de dezembro para janeiro. Fora essas datas, trabalhamos o ano inteiro.

E como é a jornada de estudos dos alunos?
Como os alunos novinhos (até a 4.ª série) não podem ficar sozinhos em casa, a condução da escola pega-os na porta de casa entre 6h30 e 7h, e eles só voltam às 17h30 ou 19h30. Dessa forma, todos almoçam na escola, e os que só retornam às 19h30 também jantam lá antes de irem pra casa.

Já que vocês têm uma carga horária muito superior à do Brasil, além de maior quantidade exercícios, o que mais vocês oferecem aos alunos?
Como atividades extracurriculares, nós temos a escolinha de futebol, aulas de judô, piano e violão, além do ensino da língua japonesa, como já foi citado.

Você disse que a escola é reconhecida no Brasil. E como é a aceitação dela junto às autoridades educacionais japonesas?
Para elas, nós somos apenas uma empresa como qualquer outra; não somos reconhecidos como escola.

Quantas crianças estudam na sua escola?
Hoje, a escola tem aproximadamente 230 alunos (quando começamos, em 2000, tínhamos apenas 14 estudantes).

E os alunos são todos descendentes de japoneses?
Sim.

Como é o conteúdo curricular? Ele acompanha o currículo brasileiro?
Com exceção do ensino da língua japonesa, é exatamente igual. Aliás, ensinar esse idioma foi um pedido feito pelo MEC. Não foi nem uma exigência, mas, como a escola fica no Japão e a função da gente é facilitar a vida dos alunos, fizemos questão de adicionar esse conteúdo ao currículo. Muitas vezes, a criança não consegue nem fazer uma compra para sua mãe no mercado, e se acontecer de ela se perder, não sabe nem pedir informações para voltar para casa.

E como é a adaptação das crianças que vão do Brasil para o Japão?
Com relação ao aspecto educacional, acredito que a adaptação delas talvez seja até mais fácil do que quando voltam para o Brasil, porque no Japão o período de permanência na escola é muito maior.

Lá, elas estudam das 8h às 12h e têm aulas de reforço das 13h às 15h15 — durante essas aulas, fazem os trabalhos e as tarefas e, se tiverem prova, estudam para exame, na própria escola, com o acompanhamento do professor. Ao chegarem em casa, as crianças não têm mais nada da escola para fazer.

Nós organizamos as atividades desse jeito porque elas já ficam muito pouco tempo com seus pais. Elas voltam para casa por volta das 19h. Dessa forma, do tempo em que a criança está acordada, deve ficar com seus pais apenas uma hora e meia ou duas horas, e não seria justo ela preencher esse tempo com afazeres da escola. Além disso, passando esse período todo na escola, ela não sofre tanto ao se adaptar ao dia-a-dia japonês.

E quanto à continuação dos estudos? Se o pai de uma criança, por exemplo, não retornar ao Brasil, ela tem como ingressar no ensino tradicional japonês depois?
Sim. O governo japonês já está dando essa possibilidade. Se o aluno estiver cursado o Ensino Médio, mesmo que em escola brasileira no Japão, tem direito de prestar o vestibular em universidades japonesas. No entanto, o ensino japonês tem duração diferente do brasileiro: são seis anos de primário, três de ginásio e mais três de colégio (Ensino Médio). No Brasil, ele dura onze anos: oito de Ensino Fundamental mais três de Médio. Por isso, o governo japonês pede ao aluno que, depois de cursar o Ensino Médio, estude por mais um ano para fazer a equiparação, completando assim os 12 anos de estudo.

Nós temos lutado para que se valide e inclua nessa contagem a alfabetização, ou seja, o chamado Infantil III, porque dessa etapa nossos alunos já saem alfabetizados. Assim, o estudante que concluísse o Ensino Médio poderia em seguida prestar vestibular em uma universidade japonesa.

Os professores que trabalham na sua escola são todos brasileiros?
Sim, com exceção do meu sócio, que é japonês e dá as aulas de língua japonesa.

Como é a formação desses professores? Eles precisam passar por algum curso ou outra forma de adaptação?
Não. Todos os professores que contratamos são formados no Brasil. São descendentes de japoneses (ou casados com descendentes) que foram parar no Japão como imigrantes. Nós temos aproveitado essa mão-de-obra, que estava sendo, na verdade, desperdiçada. Eles estudaram tanto tempo para poder lecionar e acabaram trabalhando em uma fábrica, fazendo serviço braçal. Uma de nossas professoras é formada pela PUC de São Paulo, outra pela USP e outra pela Mackenzie, que são universidades renomadas.

Mesmo com essa formação, por causa do problema de desemprego no Brasil, essas pessoas acabam indo para o Japão, já que são descendentes. Com certeza, se não tivéssemos a oportunidade de ir para o Japão, estaríamos todos “nos virando” aqui no Brasil mesmo.

E como é a readaptação desses alunos quando voltam ao Brasil?
Acredito que os estudantes que passaram por uma escola brasileira no Japão não encontram tanta dificuldade ao voltarem para o Brasil.
Entretanto, nem todas as crianças têm essa possibilidade. Infelizmente, muitos pais, pensando somente no aspecto financeiro, matriculam seus filhos em uma escola japonesa, pois lá o ensino é obrigatório e gratuito. Se eles colocassem em uma escola brasileira, teriam uma despesa maior. E, de fato, como nós não temos apoio financeiro de órgão nenhum, nem do governo brasileiro nem do japonês, a escola é mantida somente com o dinheiro das mensalidades.

Todo o ensino no Japão é gratuito?
Sim, pelo menos até o Ensino Médio. Contudo, apesar de o ensino no Japão ser gratuito, como existem custos com refeição, uniforme e materiais, não sai tão barato assim. De qualquer forma, custa cinco vezes menos manter um aluno em uma instituição de ensino japonesa do que em uma escola brasileira instalada lá. Por causa disso, muitas vezes os pais acabam optando por colocar seus filhos em uma escola japonesa, pensando apenas no aspecto financeiro. Mas a dificuldade de adaptação deles, tanto lá quanto na volta para o Brasil, depois de passar por uma escola japonesa, é bastante grande. Enquanto se adapta ao novo país em uma escola japonesa, a criança sofre discriminação. Não adianta falar que não existe, porque ela existe sim. E a mesma coisa acontece quando ela volta para o Brasil. Lá, somos tratados como gaijins, como estrangeiros, e no Brasil a gente acaba sendo tratado como japonês. Desse modo, a criança acaba sofrendo duas vezes. Mas se o aluno estudou em escola brasileira, pelo menos a dificuldade com relação à língua e aos costumes ele não sofre ao voltar para o Brasil.

Existem outras escolas como a sua no Japão?
Acredito que atualmente haja entre 60 e 70 escolas brasileiras lá — dessas, aproximadamente metade já é reconhecida pelo MEC.

Outros países também mantêm escolas como a sua no Japão?
Sim. Há, por exemplo, comunidades coreanas e chinesas bastante grandes no Japão, que fundaram nesse país suas escolas. No entanto, tanto a Coréia quanto a China não reconhecem essas instituições como escolas.

Como é a vida dos decasséguis hoje no Japão? Eles querem voltar para o Brasil?
Se você perguntar a qualquer brasileiro se ele quer retornar ao Brasil, com certeza ele vai responder que sim. No entanto, o brasileiro aprendeu a viver no Japão como um japonês: muitas vezes não tem dinheiro para colocar a mensalidade em dia, mas consegue comprar um carro novo. E, mesmo que a maioria dos que estão lá queira voltar, são raros os que realmente têm um projeto ou um plano para poder retornar. Por causa do padrão de vida do brasileiro no Japão, ele acaba não guardando dinheiro, pois tem uma máquina digital de último tipo, o melhor computador, carro, som, etc. Além disso, com o salário que se ganha no Brasil, ele jamais teria condições de manter aqui um padrão de vida como tem lá em termos de acesso à tecnologia.

No Japão, nós temos tudo o que há de mais avançado. Talvez seja porque queremos que nossos filhos tenham tudo aquilo que nossos pais não conseguiram nos dar. Lá, todas as crianças, em qualquer casa em que se entrar, têm vídeo game e computador. E isso, de certa forma, faz com que poucos consigam fazer uma poupança para poder voltar ao Brasil.

Mesmo assim, o valor em dinheiro enviado pelos decasséguis ao Brasil é muito alto, maior até mesmo que o mandado pelos brasileiros que estão nos EUA, pois muitos vão para esse país com a idéia de lá morar, conseguindo financiamentos (de casas e carros) de “perder de vista”. No Japão, isso não acontece, pois não é o tipo de país onde a maioria dos brasileiros gostaria de morar: é apertado, tem maremotos, terremotos, furacão, neve... Tudo de ruim que a natureza pode oferecer é possível encontrar naquela ilhazinha (risos).

Mas existem tantos brasileiros morando lá que os hospitais e até escolas já contrataram gente que fala português só para poder atendê-los. Infelizmente, há também tradutores nos presídios e advogados que falam nossa língua para prestar serviço a brasileiros.

E como é a participação dos brasileiros nos índices de marginalidade no Japão? Como as escolas brasileiras estão mudando essa realidade?
Estamos conseguindo afastar muitos adolescentes da marginalidade porque cuidamos dos alunos enquanto eles crescem. Entretanto, muitos daqueles que não conseguiram ingressar na escola infelizmente acabam cometendo delitos, como arrombar carros e mexer com drogas. Em alguns presídios japoneses, a maior parte dos detentos é brasileira — principalmente na região de Shizuoka, onde existe uma grande concentração desses imigrantes.

Por Diogo Dreyer

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