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“Nenhum instrumento de avaliação é completo em si mesmo”
A especialista em avaliação escolar Jussara Riva Finatt,
fala ao portal sobre os resultados das avaliações escolares e
as colocações que os estudantes brasileiros vêm obtendo
nelas.
Todos os anos, os alunos e as instituições de ensino brasileiros
passam por diversas sabatinas, verdadeiras misturas de siglas e letras que grande
parte das pessoas nem sabe o que significam e o que avaliam: Enem, Provão,
Saeb, Pisa. E quando os resultados dessas avaliações são
divulgados, eles mostram sempre o mesmo: a qualidade do ensino brasileiro não
podia estar pior.
Ao menos neste ano, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Básica — Saeb — deu uma pequena “boa notícia”:
pela primeira vez desde 1995, a média de desempenho dos alunos da 4.ª
série do Ensino Fundamental na prova de leitura aumentou — foi
para 169,4 —, mas ainda está muito abaixo de 200, que é
a considerada satisfatória.
“A maioria desses testes acaba promovendo um grande gasto para apontar
dificuldades que já são conhecidas, sem que haja igual esforço
e investimento para evitá-las”, afirma a pedagoga Jussara Riva
Finatti, especialista em avaliação escolar. O Educacional ouviu
a especialista para saber até onde se pode traçar um real perfil
da educação no Brasil por meio desses testes.
Leia a entrevista com a professora.
Os estudantes das escolas brasileiras vêm sendo submetidos a inúmeras
avaliações que pretendem verificar a qualidade do ensino em nosso
país. Nesta semana, o programa Fantástico, da Rede Globo, levou
essas discussões para os lares e escolas. O “provão”
do Fantástico foi realizado dentro de padrões satisfatórios
para diagnosticar a situação do ensino público no Brasil
e serve como instrumento consistente de avaliação? Até
que ponto os pais podem confiar nos resultados desse tipo de teste?
De maneira nenhuma esse tipo de instrumento pode ser confiável. As
falhas vão desde a escolha de alguns acadêmicos de uma única
universidade para elaborar os testes e seguem pela amostra demasiado pequena
para ser representativa e científica. Esse tipo de “pesquisa”
tem um grande efeito — alarmar a todos sem apresentar saída alguma
— e só contribui para prejudicar ainda mais a já exausta
escola pública!
Muitas das concepções de ensino contemporâneas propõem
avaliações contextualizadas, construídas para cada situação
de ensino-aprendizagem em particular. Na sua opinião, a incorporação
dessas provas ao cotidiano escolar pode induzir o(a) professor(a) a centrar
a atenção no dia-a-dia com os alunos e esquecer de considerar
o contexto social para traçar objetivos e propor avaliações
e em que medida isso acontece?
R: A avaliação deve ser coerente com a concepção
de educação adotada pelo professor e pela escola. Ela incide sobre
o aproveitamento escolar dos alunos, ou seja, procura analisar de que maneira
os estudantes elaboram suas formas de pensar e relacionar os conteúdos
que são objeto do processo de ensino-aprendizagem para que, de posse
dessas informações, o professor continue a planejar, buscando
as melhores maneiras de propor soluções para as dificuldades encontradas
pelos estudantes ou novos desafios que respondam aos seus interesses e necessidades.
Nesse momento é que podem acontecer interpretações errôneas,
pois quem indica quais são essas necessidades? Pode acontecer, caso o
professor considere somente a realidade em que os alunos vivem, de ele perder
de vista fatores igualmente importantes no momento de planejar o encaminhamento
das atividades pedagógicas, como, por exemplo, a relevância social
do conhecimento e aspectos constitutivos da própria natureza da área
do conhecimento. É preciso ter uma visão local e outra mais ampla
para se enxergar tanto as águas do rio como suas margens e, assim, realizar
uma navegação segura.
Você acha que provas nacionais como Saeb, Enem e Provão avaliam
satisfatoriamente a situação da educação no Brasil?
Nenhum instrumento de avaliação é completo em si mesmo.
É preciso muito mais do que um teste para fazer análises confiáveis.
A aplicação de um teste representa apenas a fotografia de um determinado
momento e, como tal, não constitui a avaliação. Entretanto,
esses testes, que são passíveis de muitas críticas, apresentam
um valor em relação ao do Fantástico, qual seja, o de serem
elaborados por uma equipe mais ampla de especialistas e de serem aplicados a
uma amostra bem maior e significativa de alunos, além de não se
destinarem exclusivamente à escola pública. De qualquer forma,
sem abordar todas as críticas a que estão sujeitos, sofrem todos
do mesmo mal: é realizado um grande gasto para apontar dificuldades que,
na maioria das vezes, já são conhecidas, sem que haja igual esforço
e investimento para evitá-las.
O Saeb será aplicado em todas as escolas públicas no final
de 2004. O Enem deve se tornar obrigatório para egressos do Ensino Médio.
Você considera essa obrigatoriedade positiva?
Tenho por formação aversão ao que é imposto.
Por outro lado, acredito que o poder público precisa conhecer bem o sistema
educacional para poder garantir a tão propalada educação
de qualidade a todos. De alguma forma, um governo democrático teve delegado
a ele, pelos eleitores, a tarefa de definir os rumos do país e somente
conhecendo bem a realidade é possível estabelecer metas e (re)direcionar
investimentos. Entretanto, só acredito em um processo de avaliação
que vai orientando as interferências e a ajuda necessária para
solucionar os problemas enquanto eles vão aparecendo. A maioria das dificuldades
já é amplamente conhecida. O que é preciso é tratar
de investir em sua solução. De que vale constatar na última
etapa do Ensino Médio que as coisas não andaram bem? Isso é
mera constatação e não contribui para a melhoria.
A última
prova do Saeb mostrou que a média dos alunos em relação
à leitura aumentou um pouco, mas não chegou ainda ao esperado.
Como você acha que a escola pode contribuir para que os estudantes possam
não só se sair melhor em testes, mas, principalmente, melhorar
sua capacidade de ler e interpretar textos e dados do cotidiano?
Não cabe à escola preparar o aluno para se sair melhor em
testes, mas, sim, prepará-lo para ler e interpretar (seja um texto escrito,
sejam dados numéricos, imagens gráficas ou a linguagem artística),
além de escrever com propriedade, conhecer a forma de funcionamento do
mundo social, natural e tecnológico em que vive, compreender e solucionar
problemas de toda a ordem, estabelecendo as relações e os sentidos
possíveis, de tal forma que se sinta, e efetivamente seja, participante
de seu tempo e de sua comunidade. A escola pode contribuir para isso garantindo
aos estudantes o papel de sujeitos participantes de sua aprendizagem, que sabem
como e por que estão aprendendo, que assumem gradativamente cada vez
maior autonomia intelectual, tendo no professor a figura do interlocutor mais
experiente, que pode orientá-los e ensiná-los. Pode também
utilizar a avaliação como fonte de reflexão para o aluno
em relação aos seus progressos individuais, e, para o professor,
em relação ao que fazer para melhor orientar o processo de aprendizagem
dos estudantes, percebendo o que vai bem na ação pedagógica
que desenvolve e investindo, por meio do estudo e da pesquisa, para melhorar
sua própria prática.
*****
Por Diogo Dreyer

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