Login: Senha:
Pesquisa escolar:
Pesquisa avançada  
Entrevistas   Entrevista da Semana
 

Kleber Gesteira é coordenador-geral de Apoio às Escolas Indígenas, do MEC.


 

 

“A realidade da educação indígena”

Kleber Gesteira, coordenador-geral de Apoio às Escolas Indígenas, do MEC, fala ao portal sobre como anda a educação dos habitantes nativos brasileiros. Ele destaca o esforço do Ministério em prol da educação dos índios, mas conta como este esbarra no problema do desvio de verbas e da má administração dos recursos. Destaca também a importância do sistema de cotas nas universidades para garantir o acesso dos índios ao Ensino Superior e diz que a educação indígena só vai melhorar quando as pessoas derem aos índios autonomia para escolher os caminhos que essa educação deve seguir.

Existem hoje no país aproximadamente 414 mil índios, distribuídos em 220 grupos, que falam cerca de 180 diferentes línguas e representam apenas 0,24% da população brasileira. De acordo com o Censo Escolar, há atualmente cerca de 7 mil professores nas 2.079 escolas indígenas, sendo 85% deles de origem indígena, atendendo 147 mil estudantes, a maioria no Ensino Fundamental. Dessas escolas, 24 oferecem também o Ensino Médio, e apenas sete têm laboratórios de informática. Desde a década de 1970, os índios já lecionavam, mas só após a promulgação da Constituição de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, eles passaram a ser reconhecidos legalmente em suas diferenças e peculiaridades. O Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas, lançado em 1998 pelo MEC, reafirmou o direito ao ensino bilíngüe e a um currículo que privilegie os conhecimentos, os costumes, a história e as necessidades de cada comunidade indígena.

A responsabilidade de articular todos esses números de forma concreta para a melhoria da educação indígena e de ajudar a mudar 500 anos de distorções nessa educação, dando a ela forma própria, é do coordenador-geral de Apoio às Escolas Indígenas, do MEC, Kleber Gesteira e Matos. Comprometido com a formação de índios professores, Kleber tem longa atuação no campo da educação intercultural indígena e experiência com as ONGs. Nos últimos anos, dedicou-se à formulação e acompanhamento de políticas públicas em educação e atuou no estabelecimento de um diálogo mais efetivo com o Estado.

A Coordenação-Geral de Apoio às Escolas Indígenas (CGAEI) tem como objetivo reforçar e valorizar a construção de uma política pública educacional para as escolas indígenas, com destaque para a formação inicial e continuada dos professores indígenas, a produção de material didático e a divulgação da temática indígena para as escolas.

Kleber atuava na rede de ensino de Minas Gerais há 28 anos. Ele iniciou sua trajetória na educação intercultural indígena há 13 anos, assessorando a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC) no projeto de educação Uma Experiência de Autoria dos Índios do Acre, do qual foi consultor até recentemente.

E, mesmo trabalhando para o MEC, critica a atuação dos órgãos públicos no que diz respeito à educação dos índios do país. “O Estado brasileiro é muito pouco permeável à participação indígena. E mais impermeável ainda ao controle”, sentencia.

Você tem uma longa história de atuação na educação indígena, assessorando órgãos governamentais e ONGs. Em sua opinião, o que falta para o índio brasileiro ter seu direito à educação garantido?
Falta execução correta das políticas públicas; cumprimento da lei em toda a extensão em que a legislação prescreve as obrigações e deveres do Estado, seus órgãos e agentes públicos; uma boa gestão das políticas e dos programas, pois existem alguns entraves que são causados única e exclusivamente por gestão ineficaz; e, principalmente, controle social indígena em dois níveis: primeiro, na formulação, implantação e acompanhamento das ações — tudo isso deveria ser previamente discutido com os índios para que fosse executado da maneira mais adequada, conduzida pelos próprios índios —, e em segundo lugar, as comunidades indígenas deveriam poder fiscalizar e avaliar a aplicação dos recursos, a execução dos serviços, a adequação das ações educativas, etc.

Apesar de os índios quererem discutir com os órgãos e com os agentes do Estado e estarem prontos para gerir as políticas juntamente com o governo, participando até mesmo dentro dos órgãos de Estado, sua atuação nessas decisões é muito tímida. O Estado brasileiro é muito pouco permeável à participação indígena e mais impermeável ainda ao controle. Quando se diz a um gestor que ele deve prestar contas à comunidade indígena sobre a quantidade de recursos que empregou do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) em suas escolas, este quase tem um infarto, acreditando que não há razão para fazer isso.

Essa situação se deve àquela velha mentalidade de protecionismo do Estado sobre os índios?
Exatamente. Acho que existem dois vetores muito fortes nessa questão. O primeiro é uma visão muito equivocada sobre quem são os índios. Eles são nossos contemporâneos, nossos compatriotas e têm todo o direito de exercer as mais diversificadas funções públicas, já que são cidadãos plenos de direito. Mas as pessoas do mundo não indígena ainda remetem os índios para um lugar que é o do não-civilizado. Na melhor das hipóteses, os bem-intencionados os consideram como o bom selvagem, com uma visão idealizada e romântica. Dificilmente alguém os vê como cidadãos brasileiros. Em segundo lugar, por mais que tenhamos avançado, o Estado brasileiro é muito pouco transparente. Os gestores ainda têm muita dificuldade para se abrirem ao público e serem avaliados e julgados pelos cidadãos.

Já que você citou o Fundef, na semana passada surgiram denúncias de que esses recursos são quase todos desviados. Como ele está sendo empregado na área indígena?
Se fizéssemos uma caminhada geográfica do centro da cidade para o campo e do campo para a área indígena, constataríamos a degradação dos serviços escolares à medida que nos aproximássemos da área indígena. Se nas cidades, principalmente nos grandes centros, as coisas não estão funcionando muito bem, na zona rural isso é pior, e na área indígena a situação é de muito baixo atendimento, com algumas exceções. A insatisfação da comunidade indígena com o desempenho dos órgãos públicos é muito grande; e, nesse momento, assumimos a parte que nos cabe nessa crítica, tanto ao MEC quanto às Secretarias de Educação que estão atendendo às áreas indígenas. Nós temos de trabalhar e melhorar muito nossos serviços para que tenhamos realmente orgulho do que está sendo feito.

Quanto aos recursos do Fundef, recebemos delegações indígenas dizendo que não há lápis e cadernos nas escolas. Quando se verifica o número de alunos e se multiplica isso pelo valor do Fundef do respectivo estado, encontramos números acentuados. Se você fizer essa conta e somar os valores dos estados que têm recursos para escolas e alunos indígenas, esse número ultrapassou os 101 milhões de reais em 2004. No entanto, experimente visitar algumas escolas em alguns municípios para ver a situação em que se encontram.

Nós assessoramos os diversos sistemas de ensino para fazer o melhor trabalho possível com as comunidades indígenas. É preciso que os órgãos públicos fortaleçam o controle social, incentivando os cidadãos de suas organizações de base a ajudar na fiscalização do uso desses recursos.

O MEC assume a responsabilidade de tornar o mais públicas possível as informações a respeito da educação escolar indígena, até mesmo sobre os mecanismos de financiamento da educação, como o Fundef.

Nos meios escolares, discute-se muito a questão de dar ou não aos índios uma educação convencional. Qual é sua opinião sobre isso?
Para responder a essa questão, temos de ouvir a opinião dos índios. Eles experimentaram a instituição escolar quando os jesuítas chegaram ao país, em 1549. E essa escola sempre impôs valores, negando a identidade e a língua indígenas e destruindo seu patrimônio cultural.

Só que a resistência dos índios, o progresso e a abertura da sociedade brasileira e o desenvolvimento das lutas sociais mostraram que a escola pode ser um instrumento extremamente importante para as comunidades se fortalecerem de maneira cultural e politicamente, entenderem melhor os diversos grupos sociais não indígenas e dialogarem bem com eles.

A opção por ter escolas funcionando em suas aldeias, com o currículo mais adequado a cada povo, é das próprias comunidades indígenas. Alguns povos têm um currículo extremamente diferente daquele da escola rural ou urbana de sua região. Outros têm um currículo bem parecido. Isso depende da estratégia, da necessidade de contato e do projeto de futuro de cada povo, e não cabe a nós julgar. O que nos cabe é apresentar às comunidades indígenas quais são as reflexões que suas escolas podem fazer e sua construção curricular. E, após um diálogo qualificado, devemos assessorá-las nessas escolhas.

Mas, na prática, como é a aceitação de uma escola numa aldeia?
Isso varia muito de povo para povo e de região para região, mas, geralmente, a escola é muito bem vista, principalmente quando respeita a estrutura social e os hábitos culturais desses povos. Ela é considerada uma ferramenta importante para melhorar a qualidade de vida na aldeia.

De maneira geral, do ponto de vista dessas comunidades, a escola sempre exerce um papel muito positivo. Uma prova disso é o quanto os índios têm reivindicado a implantação de escolas e a melhoria da qualidade dos serviços. Eles estão ansiosos por ter uma boa escola funcionando nas aldeias, sob o controle deles.

E como está a utilização de novas tecnologias na educação indígena?
Infelizmente, ainda estamos nos primeiros passos, que já foram dados há algum tempo. Existem escolas que já possuem computadores, outras sete têm laboratórios do Proinfo (Programa Nacional de Informática na Educação), e há experiências com rádio comunitária, televisão e até Internet. Assim como todos os grupos humanos, as comunidades indígenas necessitam de tecnologias mais sofisticadas, de ponta, pois elas abrem muitas possibilidades.

No caso particular das imagens, do vídeo e do computador, existem dois fatores que favorecem muito seu uso nas áreas indígenas. O primeiro é o fato de os índios terem uma cultura icônica e visual muito forte, o que faz com que eles se dêem muito bem com o computador. Eles entendem com muita facilidade a linguagem de janelas e usam-na de maneira bem rápida e criativa. Um segundo aspecto é o fato de essas mídias favorecerem a oralidade, que está muito mais relacionada à prática social das áreas indígenas que o mundo da escrita, que é o campo da escola.

Como é a formação dos educadores indígenas?
Como eles têm de atender a um currículo muito diferenciado, sua formação é especial e está relacionada a projetos conduzidos por universidades, organizações não-governamentais ou secretarias estaduais, que organizam a formação dos professores num currículo quase sempre aberto ou em construção. Atualmente, já temos educadores indígenas formando novos professores indígenas. Mas, até bem pouco tempo atrás, era necessário reunir uma gama de profissionais da educação, da antropologia e da história, que davam as aulas e orientavam as atividades.

A respeito do ingresso dos índios no Ensino Superior, você acredita que o sistema de cotas é a melhor maneira de dar oportunidade aos indígenas ou eles precisam de uma educação diferenciada até mesmo na universidade?
Penso que são necessárias três grandes linhas de atuação para garantir Ensino Superior aos índios. Em primeiro lugar, está o sistema de cotas, pois os índios, assim como algumas outras parcelas de nossa sociedade, por diversos fatores, na prática são proibidos de chegar e se manter na universidade. Então, as cotas são uma política da qual precisamos. Também necessitamos de cursos especiais para formar atores sociais indígenas em habilidades específicas, como é o caso do magistério, em que existe, como já expliquei, um currículo diferenciado que deve ser seguido. Uma licenciatura para uma área indígena requer que a pessoa se aprofunde mais nos estudos de antropologia, lingüística e política indianista que a formação de um professor não indígena. Então, é preciso que se pense em uma linha de cursos especiais. Também são necessárias estratégias para manter e valorizar os conhecimentos indígenas dentro das universidades, para que estes sejam utilizados em cursos de Medicina, Engenharia, Veterinária e em todas as especialidades relacionadas com a área agrícola. Toda essa gama de ações é fundamental para que as universidades se abram realmente para os índios.

Existe até uma idéia de uma universidade essencialmente indígena, mas ela ainda tem de ser bem aprofundada. Não concebemos hoje uma universidade voltada apenas para uma parcela da população. Podemos ter até uma universidade temática, do sertão, ou da floresta, por exemplo, que concentre habilidades mais relacionadas com esses meios. Parece-me que, antes disso, os índios têm interesse num intenso intercâmbio cultural, que inclui trocas variadas, já que cada cultura indígena é singular e algumas sociedades indígenas diferem mais entre si que da nossa sociedade. Mas uma universidade exclusiva para índios, concentrando apenas temas indígenas, não me parece a melhor estratégia que contemplaria os interesses tanto do país quanto dos próprios índios.

O que vai representar de fato para as políticas públicas de educação indígena a inclusão das línguas indígenas na pesquisa do Censo Escolar?
Temos uma riqueza lingüística extraordinária no Brasil, que é um dos países mais ricos do mundo nesse sentido. Aqui, existem mais de 170 línguas em uso. O Censo Escolar ainda não detectou isso. Pela primeira vez, o Inep está incluindo no levantamento dos dados da escola indígena o levantamento das línguas.

Depois que os dados forem tabulados, vamos ter muitas informações relevantes. Em primeiro lugar, está o registro dessas línguas, que em si já é um fato importante. Em segundo, poderemos detectar o que está acontecendo. Por exemplo: se em uma área em que sabemos que uma língua indígena é usada, ela não estiver sendo utilizada na escola, isso significa risco de perda lingüística no futuro. Teremos de reorientar o trabalho. Se detectarmos o contrário, estaremos vendo o fortalecimento do ensino das línguas indígenas. Podemos aprender, nesse processo, como fazer que isso se propague para outras áreas.

Então, se os dados forem bem trabalhados, eles poderão nos trazer indicações muito preciosas de políticas públicas, além de serem, em certa medida, uma avaliação do trabalho que foi feito até então, já que nos últimos anos o MEC tem investido na valorização das línguas indígenas. Se constatarmos um desprestígio dessas línguas nas escolas dos índios, isso significará que nossas ações não estão sendo bem executadas.

Mas também existem afirmações de que as línguas indígenas poderiam estar em processo de extinção. Isso é verdade?
Tudo isso é muito complexo. No Brasil, temos sociedades multilíngües, isto é, que falam várias línguas indígenas, além do português. Nas áreas de fronteiras nossos índios falam uma língua estrangeira, o português, e uma ou duas línguas indígenas. Existem ainda variações dialetais dessas línguas. Há comunidades indígenas que perderam seu patrimônio lingüístico e outras que estão em processo de fortalecimento da língua indígena, sendo algumas muito vigorosas.

*****

Por Diogo Dreyer

   


         
<< voltar  
         


Copyright © 2001, 2009. Portal Aprende Brasil. Todos os Direitos Reservados. Termos de uso | Quem somos