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“Dar o direito de sonhar”
O antropólogo inglês Luke Dowdney conta ao portal sobre seus
estudos referentes à realidade de crianças e adolescentes envolvidos
com o tráfico no Rio de Janeiro, que deram origem ao livro Crianças
do Tráfico. Dowdney mostra como um projeto está dando a esses
jovens a oportunidade de escolher uma vida fora do crime e dá sua opinião
sobre o filme Cidade de Deus.
Depois do sucesso internacional do filme Cidade de Deus, o mundo se
voltou a um problema com o qual o brasileiro já está familiarizado
há muito tempo: a utilização de crianças no tráfico
de drogas e no crime organizado.
Sempre com a idéia de que esses jovens não passam de bandidos,
a maioria das pessoas, mesmo no Brasil, não conhecia verdadeiramente
a violência a que eles são submetidos. Isso até ela ser
apresentada no livro Crianças do Tráfico: um Estudo de Caso
de Crianças em Violência Armada Organizada no Rio de Janeiro,
do antropólogo inglês Luke Dowdney, que mora no país, é
pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (Iser), atua na ONG Viva
Rio e é um dos maiores especialistas nesse assunto. “O adjetivo
‘delinqüentes’ não é uma boa designação
para jovens que trabalham em uma hierarquia de comando, que têm salários
e aos quais são dadas armas nem gera uma resposta eficiente da política
pública”, afirma o antropólogo.
A pesquisa do livro nasceu como resposta a uma reação negativa
da comunidade internacional a uma constatação de Dowdney: a situação
que esses jovens enfrentam estando empregados no tráfico é muito
mais semelhante à realidade de uma guerra do que à de bandidos.
O antropólogo dedicou cerca de dois anos à pesquisa sobre esses
adolescentes e à escrita do livro. “Eu e minha equipe passamos
grande parte desse tempo entrevistando jovens de favelas envolvidos com o tráfico,
procurando entender por que eles tiveram de optar por esse tipo de trabalho
e o que poderíamos fazer para acabar com essa situação”,
revela.
O livro mostra que aproximadamente 5,5 mil menores trabalham hoje nas favelas
do Rio para as facções do tráfico; a grande maioria, armada.
Também faz uma comparação entre essas crianças e
as expostas a guerras: cerca de 4 mil menores morreram por ferimento a bala
no Rio de Janeiro entre dezembro de 1987 e novembro de 2001, enquanto, no conflito
entre Israel e Palestina, por exemplo, o número de mortes de menores
dos dois lados no mesmo período foi de 467. Aliando essas constatações
ao sucesso do filme Cidade de Deus, a repercussão do livro junto
à mesma comunidade internacional — que antes havia questionado
o trabalho do antropólogo — foi impressionante. Por causa disso,
Dowdney coordenará em breve uma pesquisa sobre crianças envolvidas
com a violência armada organizada em outros dez países, numa parceria
entre as ONGs Viva Rio, Iansa e Save the Children.
Além disso, o pesquisador vem liderando o projeto Luta pela Paz, que,
utilizando as informações e constatações presentes
no livro, procura oferecer a jovens do Complexo da Maré, uma favela do
Rio de Janeiro, uma vida melhor e a oportunidade de se libertar do tráfico.
“Temos que dar a eles o direito de sonhar”.
O que o trouxe para o Brasil?
Tudo começou com o mestrado em Antropologia Social que fiz em Edimburgo
(Escócia) entre 1990 e 1995. O tema da minha dissertação
era a questão das crianças que moram na rua e dos assassinatos
cometidos pela polícia — a chamada “limpeza social”,
que acontecia muito naquela época aqui no Brasil.
Em 1996, fui para Recife (PE), onde trabalhei como voluntário no Movimento
Nacional de Meninos e Meninas de Rua, o que me fez conviver bastante com esses
jovens. Assim, acabei envolvendo-me profundamente com questões relacionadas
a eles, principalmente direitos humanos e violência.
Mais tarde, voltei à Escócia para concluir meus estudos e, um
ano e meio depois, fui chamado pela ONG Viva Rio para trabalhar novamente como
voluntário aqui no Brasil e acabei incorporando-me de vez a essa instituição.
Como surgiu a idéia de escrever um livro e como ele foi produzido?
Eu estava participando de vários seminários internacionais sobre
o envolvimento de menores de idade em conflitos civis e guerras em diversos
países da África, Ásia e Leste Europeu. Nessas situações
de conflito, as crianças acabam utilizando armas, como fuzis e granadas,
e lutando nos exércitos. E, observando as favelas do Rio de Janeiro,
comecei a descobrir que, cada vez mais, os jovens estão armando-se dessa
forma e participando de confrontos entre facções do tráfico
e até contra a polícia. Então, reparei que existem poucas
diferenças entre essas crianças e as que estão em países
em guerra.
Um dos méritos do livro é reconhecer esses jovens não
como bandidos, pois eles estão morrendo mais aqui do que em alguns conflitos
de guerra ao redor do mundo. E a diferença é que, em outros países,
eles são considerados vítimas, enquanto, no Brasil, são
vistos como delinqüentes. Não quero dizer que eles são inocentes,
mas queria entender esse problema de uma forma um pouco mais profunda na esperança
de encontrar uma solução. O adjetivo “delinqüente”
não é uma boa designação para os jovens que trabalham
em uma hierarquia de comando, que têm salários e aos quais são
dadas armas nem gera uma resposta eficiente das políticas públicas,
já que eles não são bandidos, mas, sim, fazem parte de
um grupo organizado. Portanto, eles deveriam ser tratados de outra forma.
Depois de constatar todas essas coisas, o segundo passo foi conseguir apoio
internacional para fazer o livro. E essa ajuda veio da ONG sueca Save the Children,
do governo britânico e de algumas outras fontes. Durante dois anos, realizamos
uma pesquisa na qual entrevistamos jovens de favelas envolvidos com o tráfico.
Nosso objetivo era entender por que eles “ingressaram” nessa atividade
e o que poderíamos fazer para acabar com essa situação.
Foi um trabalho muito importante para que pudéssemos conhecer os “ingredientes”
que fazem parte da vida desses jovens e definir as formas de lidar com eles,
seja atuando nas comunidades onde moram, seja por meio das autoridades. E tudo
isso com o objetivo de impedir que essas pessoas ingressem no mundo do crime
ou de reintegrá-las à sociedade (até mesmo aquelas que
já estão envolvidas com a criminalidade).
E que conclusões obteve em seus estudos?
Concluí que, obviamente, esse é um problema muito complexo e,
por isso, difícil de se sanar. Serei honesto em dizer que ninguém
tem uma resposta definitiva. No entanto, ficou bem claro, com base na pesquisa,
que existe uma série de fatores que fazem com que os jovens escolham
viver nessa situação. Se conseguirmos suprir algumas necessidades
básicas dessas pessoas, diminuiremos muito a chance de que elas ingressem
no crime.
A primeira questão que vem à nossa cabeça é o dinheiro.
Mas ressalto que esse não é o principal fator que leva ao crime.
Na minha opinião, as razões mais fortes são a vontade de
melhorar o próprio status social, poder e reconhecimento. Os jovens marginalizados
têm grande dificuldade em serem incluídos na sociedade, seja com
relação a emprego, aceitação ou ascensão
social.
No momento em que eles entram no tráfico e recebem uma arma, são
tratados de maneira muito diferente na comunidade de que fazem parte. Passam
a ser pessoas com status e poder e que podem ascender na estrutura de comando
que existe nas facções das favelas. Essa é uma trajetória
que esses meninos e meninas conseguem entender, e eles passam a correr atrás
desse tipo de realização pessoal.
Essa questão é muito importante para entendermos o problema das
crianças e o tráfico. A sociedade precisa começar a apresentar
alternativas para que o jovem possa reconhecer uma possibilidade de ascensão
social que não seja o crime. E tem de ser uma coisa positiva. É
fundamental dar a essas pessoas o direito de sonhar.
Outra coisa importante é disseminar a cultura de paz, o que está
muito presente no trabalho do Viva Rio.
E quais são as saídas que você vê para essas crianças?
A pesquisa feita para o livro permitiu que implantássemos um importante
projeto, chamado Luta pela Paz, no Complexo da Maré, uma grande favela
no Rio de Janeiro. É um trabalho de caráter esportivo que oferece
uma alternativa para os jovens, diminuindo assim a chance de eles passarem a
fazer parte dos grupos armados locais.
A presença do tráfico é muito forte na favela. Quando
falamos em cultura de paz, é no sentido de tentar criar uma cultura local
que, em vez de mostrar que o tráfico é ruim e errado — o
que não funciona —, estabeleça alternativas melhores para
essa comunidade, ou seja, opções de escolha diferentes do sonho
de se tornar um traficante.
Quando implantamos projetos positivos nessas comunidades, os próprios
jovens começam a se interessar por eles. E é isso que o Luta pela
Paz faz, tomando por base cinco fundamentos. Um deles é o chamado “esporte
na vida”, ou seja, fazer as crianças dizerem “sou um lutador,
não sou bandido”. Oferecemos a elas a oportunidade de terem aulas
em uma academia de boxe e, em breve, também haverá a opção
de aprender capoeira e jiu-jítsu. Nesse lugar, os jovens aprendem um
esporte, treinam e fazem apresentações uma vez por mês,
as quais têm a simpatia da comunidade: em uma das edições,
recebemos um público de duas mil pessoas.
Por meio desse tipo de trabalho, o jovem passa a ver a si mesmo de uma maneira
diferente daquela como a sociedade em geral o enxerga (como um bandido). Participando
desse tipo de atividade, ele passa a ser um lutador. E esse resultado também
pode ser obtido de muitas outras formas, como, por exemplo, utilizando-se a
cultura ou outros tipos de esporte.
O segundo ponto do projeto é promover a cultura da paz. Para fazer isso,
ministramos aulas de cidadania, nas quais conversamos com os jovens sobre drogas,
violência, desemprego, futuro, entre outros assuntos. Para esses encontros,
podem ser convidados alguns palestrantes famosos — já estiveram
conosco Gabriel, O Pensador e o ator Leandro Firmino, o Zé Pequeno do
filme Cidade de Deus —, que visitam a comunidade e conversam com os adolescentes.
São pessoas positivas e que acabam transformando-se em novos ídolos
para esses jovens.
O terceiro elemento nós chamamos de “educação para
o futuro”. Para participar do projeto, não é necessário
que os jovens estejam estudando, mas fazemos uma certa “pressão”
para que isso ocorra, explicando-lhes a importância dos estudos. Por conta
disso, 95% dos meninos e meninas que fazem parte do projeto estão na
escola.
O quarto elemento, que é muito importante como alternativa ao tráfico,
é a entrada deles no mercado de trabalho. Temos uma parceria com uma
grande multinacional, que contrata o serviço dessas pessoas na forma
de estágios remunerados.
A quinta é o que chamamos de “jovens lideranças”,
em que esses adolescentes trabalham na coordenação do projeto.
Então, somando esses cinco elementos, conseguimos que essas pessoas
estudem na parte da manhã, trabalhem no mercado formal de trabalho à
tarde — aprendendo assim o que é a cultura do trabalho —,
treinem algum esporte ou participem de aulas de cidadania à noite e,
nos fins de semana, participem de apresentações de boxe ou outras
atividades culturais. Dessa forma, esses meninos e meninas não têm
mais tempo de ingressar no tráfico. E vários jovens também
já abandonaram a criminalidade por causa dessas novas opções.
Com todo esse trabalho, comprovamos que, quando são oferecidas alternativas
ao jovem, ele deixa de entrar no mundo da marginalidade — que fatalmente
o levaria à morte.
Qual é sua opinião sobre o filme Cidade de Deus? Ele retrata
de maneira fiel a relação entre as crianças das favelas
e o tráfico?
As roupas que os atores usavam e as músicas do filme sugerem que a história
se passa na década de 1970 e início de 1980. Naquela época,
no Rio, as crianças não foram usadas de forma armada no tráfico
de drogas. Isso só começou a ocorrer entre o final dos anos 80
e o começo dos 90. Então, do ponto de vista histórico,
não é correto dizer que havia crianças daquela idade andando
armadas nas favelas. Entrevistamos muitos moradores de diversas comunidades,
e até muitos traficantes, para sabermos sobre o envolvimento de menores
de idade no tráfico. E eles afirmaram que, naquela época, protegiam
muito as crianças. E o tipo de armas que os traficantes utilizavam resumia-se
a pistolas e revólveres; era raro eles utilizarem fuzis, como é
mostrado no filme.
O que Cidade de Deus faz, na verdade, é apresentar a realidade do tráfico
hoje. Acho que, nesse ponto, o filme não está errado. Não
vejo problema na maneira como a situação foi mostrada, já
que o envolvimento de menores com o tráfico é bastante avançado
mesmo.
Mas acho errado dar ao filme o nome de uma comunidade que existe e é
real. Isso acaba complicando muito a vida dos moradores daquela localidade,
fazendo com que todos sejam vistos como bandidos e criando um estereótipo
mundial, por causa do sucesso do filme. Devemos lembrar que o tráfico
de drogas, mesmo o que domina determinada comunidade, é feito por aproximadamente
1 ou 2% dos moradores. Os 98% restantes são pessoas que trabalham e que
pagam INSS e imposto de renda! Isto deve ser ressaltado: favela não é
sinônimo de tráfico de drogas.
Até o livro que escrevi deve ser tratado com cuidado. Quem está
envolvido com o tráfico nessas comunidades é a minoria, mas a
violência gerada por ele afeta todo mundo. É importante enfatizar
isso.
Você acredita que a sociedade de modo geral sabe disso?
A mídia tem uma grande responsabilidade por apresentar à sociedade
o que é uma favela. Hoje em dia, você lê ou vê na televisão
duas coisas sobre esses lugares: ou se retratam essas pessoas como coitadas
e vítimas (participando de projetos sociais) ou como bandidas. E isso
não reflete a realidade. Quem tiver vontade de conhecer melhor esse ambiente,
pode visitar o site Viva
Favela, cujo conteúdo é produzido por jornalistas
que são das favelas e para os moradores dessa comunidade e ressalta o
que há de positivo por lá. Nessa página, é possível
descobrir coisas que a maioria das pessoas sequer imagina sobre esses lugares.
Infelizmente, essa realidade não é apresentada pela mídia,
já que esta prefere o sensacionalismo. Não quero dizer que não
acontecem coisas ruins lá, mas o que geralmente é mostrado não
reflete a realidade de uma favela.
Trabalhamos muito contra essa imagem que a sociedade tem dos habitantes das
favelas. Toda vez que um jovem sai daquela comunidade, é visto pela polícia
e pelas outras pessoas como um bandido. Já aconteceu de meninos do nosso
projeto saírem da favela para fazer alguma atividade ou até mesmo
ir trabalhar e serem presos pela polícia só por pertencerem à
favela. E isso é um fator que cria grande revolta nesses jovens, fazendo
com que sua lógica seja “se a sociedade me vê assim, eu vou
ser assim mesmo”.
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Por Diogo Dreyer

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