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Levando cidadania à população por intermédio da informática
O projeto Telecentros Paranavegar do governo do estado do Paraná leva
inclusão digital a populações que apresentam baixo IDH. Sua
coordenadora, Márcia Schüller, fala sobre o funcionamento dos telecentros
e da participação das comunidades locais.
Levar desenvolvimento a comunidades carentes por meio da inclusão digital.
Esse é o objetivo do projeto Telecentros Paranavegar, que foi desenvolvido
pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (Seae) e pela Companhia de Informática
do Paraná (Celepar). Os telecentros — compostos por computadores
com acesso à Internet e softwares para edição de texto
e de planilhas, por exemplo, e que promovem a capacitação para
quem desejar — são prioritariamente instalados em comunidades que
apresentam baixo índice de desenvolvimento humano (IDH), entre as quais
estão a reserva indígena de Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras,
e o assentamento do Movimento dos Sem-Terra, em São Miguel do Iguaçu,
todas no Paraná.
“O
fato de uma população com baixo IDH ter acesso à Internet,
uma tecnologia considerada de última geração, resgata sua
cidadania e dá a ela oportunidade de adquirir um conhecimento que de
outra forma não conseguiria”, afirma Márcia Schüller,
coordenadora do projeto. O Telecentros Paranavegar é resultado da aposta
que o governo federal fez na dobradinha softwares livres e telecentros como
principal ferramenta para inclusão digital no país. Márcia
lembra também que os telecentros são exemplos do sucesso da utilização
de softwares livres.
O projeto só se tornou viável porque são usados apenas
esses programas, que dispensam gastos com licenciamento. Os microcomputadores
têm sistema operacional Linux, um pacote de aplicativos Open Office e
navegador Mozilla. De acordo com informações da Celepar, graças
ao uso de softwares livres, o custo de implementação de um telecentro
cai de R$ 47,9 mil para R$ 27,5 mil. Com esses softwares, também é
possível aproveitar computadores que estão defasados para usar
programas proprietários (aqueles que não são livres) e
mais pesados.
Segundo Márcia Schüller, o objetivo do projeto é encerrar
o ano com 20 telecentros em pleno funcionamento e chegar a cem ao final de 2004.
Esses centros já estão em funcionamento também em Ventania,
Ortigueira, no Instituto Paranaense de Cegos (Curitiba – PR) e na Ilha
do Mel, que conta com duas unidades. O próximo telecentro a abrir será
o de Guaraqueçaba, onde os monitores já estão recebendo
treinamento.
Como surgiu a idéia dos telecentros?
A idéia dos telecentros existe há algum tempo no Brasil e já
foi implantada em vários estados, mas na maioria de forma precária.
Várias ONGs que trabalham com a questão da inclusão digital
também estão fazendo esse tipo de trabalho. Nossa atividade nos
telecentros está sendo realizada de acordo com as determinações
estipuladas nas duas últimas oficinas de inclusão digital promovidas
pelo governo federal. Uma delas é a de que esses telecentros sejam implantados
preferencialmente nos municípios de menor IDH do estado. Existem outras
determinações que também são de extrema importância.
Por exemplo: que haja absoluto respeito à comunidade onde o projeto está
sendo inserido. O que a comunidade acha que é o telecentro deve ter muito
mais valor do que o que nós pensamos em relação à
utilidade dele.
O telecentro é aberto a todos?
O telecentro é público e gratuito. Atende a todas as pessoas da
comunidade onde está implantado. Elas podem utilizar a Internet, criar
contas de e-mail e usar o computador como desejarem. Mas há um limite
de uso: a proposta inicial, que depois pode ser alterada pela comunidade, é
que cada pessoa o utilize por meia hora.
Então, os telecentros são uma forma eficiente de melhorar
o desenvolvimento dessas comunidades?
O Telecentro Paranavegar é uma parcela do projeto de inclusão
social do governo do estado. A evolução da tecnologia da informação
criou a Internet, que concentrou uma grande quantidade de conhecimento. Isso
está fazendo com que haja um diferencial entre as pessoas que têm
acesso a essas informações e as que não têm. Esse
diferencial na quantidade e qualidade de conhecimentos que cada um absorve,
na realidade, representa qual é a capacidade do indivíduo para
desenvolver suas atividades. Quando alguém não tem acesso a algo
que gostaria de ter enquanto cidadão, sente-se depreciado. O fato de
uma população com baixo IDH ter acesso à Internet, uma
tecnologia considerada de última geração, resgata sua cidadania
e dá a ela oportunidade de adquirir um conhecimento que de outra forma
não conseguiria. Tudo isso resulta na melhoria da inserção
social dessas pessoas e no aumento de sua auto-estima.
Que resultados vocês já observaram?
Percebemos mudanças importantes nas comunidades que receberam telecentros.
Na Ilha do Mel, por exemplo, a implantação do projeto motivou
os adultos analfabetos a aprender a ler para poder utilizar o telecentro. Já
está havendo até mesmo uma mobilização de voluntários
para dar aulas de Português no espaço do telecentro. Em outros
lugares, há pessoas descobrindo coisas importantes para sua vida. Temos
um menino em Ortigueira que, todo dia, vai ao telecentro e pesquisa uma nova
receita de comida brasileira. Ele a imprime, leva-a para casa e a prepara junto
com sua mãe. Ele deverá se tornar um grande cozinheiro, mesmo
morando em um lugar que apresenta o pior IDH do sul do Brasil.
Como funciona o programa de capacitação para a utilização
dos telecentros?
Nosso programa consiste em mais do que levar o acesso à Internet. Nosso
lema é “quem sabe usa; quem não sabe aprende”, pois
os telecentros contam com monitores o tempo inteiro. Se alguém não
sabe nada de informática, pode utilizar o computador com a ajuda de um
monitor, que eventualmente acaba dando capacitação a essa pessoa.
Temos uma capacitação básica planejada que é dada
aos monitores e está sendo estendida à população.
Como nossa proposta é de sermos aderentes à comunidade, as demais
capacitações são feitas à medida que os usuários
pedem. Procuraremos dar oportunidade de treinamento até mesmo sobre coisas
que não estejam previstas. Em Guaraqueçaba, por exemplo, que é
uma comunidade de pescadores, apesar de nosso treinamento estar voltado à
utilização de equipamentos de informática e softwares livres,
como o Open Office, acredito que os usuários vão pedir alguma
coisa relacionada à pesca. E, com certeza, planejaremos um curso com
esse enfoque.
Quem decide o que é feito ou não nos telecentros? Como a comunidade
se manifesta?
Os telecentros funcionam com um conselho gestor. Temos uma representação
dos parceiros que montaram o telecentro, como o governo do estado e as empresas
que viabilizam os projetos. Essa é a maneira de envolver parceiros privados
em nossa proposta. Todos eles têm assento nesse conselho. E, em igual
número, são eleitos membros da comunidade. Se para construir determinado
telecentro tivemos três parceiros, vamos eleger mais três pessoas
do local e, assim, formar o conselho. Então, eles têm toda a responsabilidade
sobre o telecentro. Enquanto o conselho não está formado, as regras
são as mínimas estabelecidas por nós, da Celepar. Mas,
após a eleição, o conselho gestor vai deliberar em função
do local onde está inserido. Nas regras mínimas, por exemplo,
estabelecemos que cada pessoa use o telecentro por meia hora, pois geralmente
existe muita gente interessada em fazer isso. Mas, se o conselho achar interessante,
pode estabelecer o uso de uma hora por pessoa. Em Guaraqueçaba, o conselho
pode determinar que, à noite, só os pescadores possam utilizar
os computadores, já que trabalham durante o dia.
Quais são os recursos que os usuários encontram nos telecentros?
O nosso kit básico é formado por computadores com navegadores
para Internet e um pacote de Open Office. Eventualmente, se surgir necessidade
de, por exemplo, os moradores montarem páginas para a Web, poderemos
providenciar isso, desde que usemos softwares livres.
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Por Diogo Dreyer

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