|
Objetos ao ar — em busca do truque perfeito
Quem nunca se pegou de olhos fixos nos objetos que são lançados
pelos malabaristas? Essa arte milenar, aos poucos, está ganhando mais
espaço e adeptos e encanta desde crianças até os mais velhos,
mas exige muita concentração e dedicação do artista
para que resulte em um belo espetáculo.
A manipulação de “brinquedos”, que é como
os malabaristas gostam de chamar as bolas, claves, arcos e outros objetos que
utilizam, tem um único propósito: animar o público. A agilidade
com que eles fazem os truques prende nossa atenção e ao mesmo
tempo nos intriga. Como eles conseguem fazer todos aqueles movimentos? “É
preciso ter muita perseverança e estar sempre trocando informações”,
conta Fernando, malabarista profissional.
O que poucos sabem é que o malabarismo traz benefícios também
para quem o pratica: segundo Fernando, ele desenvolve vários sentidos,
ajuda nas atividades diárias e ainda serve como uma espécie de
terapia. “Quando pratico malabares, esqueço de tudo, entro em outro
mundo, o mundo do malabarismo e, lá, eu me sinto bem”, conta o
artista.
Então, vamos entrar também no mundo do malabarismo e descobrir
um pouco mais sobre ele. Leia, a seguir, a entrevista com o malabarista profissional
Fernando Amorim Moutinho.
Conte-nos um pouco sobre a prática do malabarismo e como ela está
sendo divulgada pelo país e pelo mundo.
O malabarismo é uma arte milenar que, se não me engano, começou
na Índia. Mas há desenhos dessa prática sendo realizada
no Egito. Atualmente, o que percebemos é que ela está ganhando
um espaço maior, assim como o circo, que está tendo um renascimento
tanto em nosso país como em outros lugares, principalmente na América
do Sul, Europa e EUA. No Brasil, apesar de ser mais recente, é um movimento
que está crescendo. Tanto que será realizada a V Convenção
Brasileira de Malabarismo, de que vão participar aproximadamente 300
pessoas. A idéia principal é desenvolver cada vez mais o malabarismo.
Só para fazer uma comparação: recentemente, aconteceu a
Convenção Européia de Malabarismo, e ela contou com 3 mil
participantes.
Quando e como você teve contato com essa arte?
Foi por intermédio de um amigo: ele se interessou, fez uma oficina e,
primeiro, aprendeu bolinhas (três bolas). Então, eu o vi fazendo
e já desenvolvendo alguns truques e me deu vontade de fazer também.
Pedi a ele umas dicas, algumas noções básicas, comecei
a treinar e não parei até hoje — isso aconteceu há
quatro anos. Nesse período, eu me dediquei de maneiras diferentes. Por
exemplo: eu comecei a treinar de verdade faz dois anos. Antes, eu praticava
casualmente, mas, quando fui a uma Convenção Brasileira e vi o
pessoal jogando bem, empolguei-me e comecei a treinar bastante. Foi nesse momento
que percebi que tive uma sensível melhora.
Imaginamos que, para ser um bom malabarista, é necessário
treinar muito. Qual é a melhor maneira de fazer isso e quanto tempo o
treino deve durar para que seja proveitoso?
O ideal é estar sempre praticando. Por exemplo: praticar durante três
ou quatro horas não é necessariamente fazer um bom treino. Pode-se
treinar por uma hora ou 40 minutos, mas estar bem concentrado, o que faz com
que o rendimento seja superior ao de um treino de quatro horas sem tanta concentração.
Eu procuro jogar malabares todos os dias e com brinquedos diferentes, mas nem
sempre consigo. Quando eu ainda não trabalhava e estava terminando meu
curso superior, treinava mais ou menos durante quatro horas por dia, mas isso
nem sempre era proveitoso, pois, em certos momentos, eu sentia fadiga e não
conseguia mais me concentrar. Outra coisa importante é estar sempre em
busca de informações, trocá-las com outros praticantes
e ter muita perseverança.
Você já desenvolveu algum truque inédito? Existe competição
entre os malabaristas?
É difícil afirmar que se fez algo que ninguém tenha conseguido
antes. Nós, malabaristas, após conversarmos muito, chegamos à
conclusão de que o correto é dizer que se descobriu um truque
e não que se inventou. Volta e meia, eu descubro alguns e aprendo outros
com colegas. E há muita informação na Internet, livros
e vídeos. A maior parte do que sei aprendi com amigos ou sozinho, brincando.
Às vezes, sem querer, sai um truque; eles vão surgindo com a prática
e a busca de informações. Quanto à competição,
infelizmente, ela existe. Como o malabarismo é uma arte, há muita
“guerra de ego”. Particularmente, relaciono-me com vários
grupos diferentes, mas existem malabaristas que escondem sua técnica
e seus truques, e isso acaba dificultando o crescimento e a divulgação
dessa arte. Eu tenho vários amigos malabaristas, e nós nos encontramos
regularmente, trocamos informações, jogamos juntos e, quando alguém
aparece com um truque novo, o que acontece é uma competição
sadia.
Quais são os brinquedos mais usados e os mais difíceis? É
possível jogar em grupo?
Os mais básicos e talvez mais conhecidos são as bolinhas. Usamos
as argolas ou aros, as claves ou massa (que parecem pinos de boliche, mas são
bem mais leves), o ioiô chinês (que também é chamado
de diabolô), o devil stick ou golo, a bola de contato (que normalmente
é uma bola só, dura e de acrílico, que o malabarista fica
manuseando, equilibrando e manipulando no corpo sem deixar cair), o monociclo
e a perna de pau (algumas pessoas chamam a atividade feita com eles de acrobacia,
mas eu prefiro incluí-los no malabarismo). Na minha opinião, as
bolas são os brinquedos mais fáceis. Tenho um amigo malabarista
de São Paulo que diz: “Se a pessoa consegue abotoar a camisa e
amarrar o cadarço do tênis, consegue jogar três bolinhas”.
É óbvio que algumas têm uma aptidão maior, mas, com
um pouco de paciência, qualquer um joga. E o mais difícil, para
mim, é a bola de contato.
Existem brinquedos que podem ser jogados por duas, três, quatro, cinco
ou seis pessoas. Outros podem ser jogados individualmente, mas, ao chegar outra
pessoa, esta interage... Há várias possibilidades. Eu prefiro
treinar com outras pessoas, acho mais estimulante.
Existe um brinquedo mais adequado para quem quer começar? Depois
de quanto tempo um iniciante consegue fazer as primeiras manobras?
Sim, as três bolas, porque seu princípio é muito simples:
bolas alternadas uma de cada vez. Assim, pode-se, por exemplo, começar
com duas bolas na mão direita e uma na esquerda, jogar uma das que está
na mão direita no sentido de uma parábola, quando ela chegar na
metade do movimento jogar a da esquerda, e assim sucessivamente... Esse é
o princípio básico. Não existe um tempo certo para o aprendizado,
isso depende da aptidão. Mas, em meia hora, posso ensinar uma pessoa
a jogar três bolinhas. É óbvio que não será
um jogo “redondo”. Para aquelas que já usam o corpo, é
mais fácil, mas o maior obstáculo é a tentação
de desistir logo após as primeiras tentativas. Para quem quer praticar,
é muito importante ter sempre paciência e perseverança.
A prática dos malabares é somente um hobby ou existem pessoas
que conseguem viver dela?
No começo, o malabarismo era um hobby para mim. Com o passar do tempo,
fui desenvolvendo minha técnica, e surgiram oportunidades de trabalho,
mas muito instáveis. Acredito que as pessoas que vivem dessa atividade
são poucas.
Nos grandes centros, temos assistido a pessoas fazendo apresentações
de malabares em semáforos para ganhar algum dinheiro. O que você
pensa sobre isso?
Pelo que sei, alguns “hermanos” nossos, uruguaios e argentinos,
que estão aqui em Curitiba há uns seis meses, estão fazendo
malabarismo em semáforos. Não tenho certeza de que eles têm
outra atividade, mas estão sustentando-se; o dinheiro é pouco,
mas estão fazendo o que gostam. No Rio de Janeiro e em São Paulo,
essa prática é ainda mais comum. É que uma forma de arte
é uma maneira de ganhar dinheiro. Mas o que se questiona bastante é
a qualidade dessas rápidas apresentações, pois muitas pessoas
sem técnica fazem qualquer coisa para ganhar dinheiro, banalizando e
sujando a imagem dos malabaristas.
Atualmente, o malabarismo está conquistando um espaço maior
nas ruas, em festas, etc. O que poderia ser ou está sendo feito para
divulgar essa prática?
Aqui em Curitiba, o incentivo ainda é pequeno. Há um projeto da
Prefeitura, na Vila Guaíra, de uma escola de circo na qual uma das atividades
ensinadas é o malabarismo, mas ela atende a um público muito limitado.
Essa divulgação e esse crescimento que nós malabaristas
e as pessoas de fora estamos percebendo é uma coisa natural, é
o redescobrimento do malabarismo que está acontecendo no Brasil inteiro.
Sua prática em festas, parques e até mesmo nos sinaleiros está
ajudando em sua divulgação e despertando a curiosidade das pessoas.
O que falta é incentivo por parte do governo e até das escolas
para que possamos divulgar mais essa arte.
Em novembro, vai acontecer, em Curitiba, a V Convenção Brasileira
de Malabarismo, em que estarão presentes malabaristas e artistas circenses
de todo o Brasil e também do exterior mostrando técnicas diversas.
É uma boa oportunidade, para quem pratica, de buscar novas técnicas
e, para os simpatizantes e quem gostaria de conhecer, de conferir essa arte.
Atenção, coordenação motora e concentração
são algumas habilidades exigidas dos malabaristas. Existe alguma atividade
que ajude a desenvolvê-las e torne essa prática mais fácil,
como ioga e meditação, por exemplo?
Qualquer atividade benéfica para o corpo e para a mente pode ser aplicada
em outras atividades, e no malabarismo isso não é diferente. A
própria prática do malabarismo também pode ajudar em outras
atividades. Eu vejo os benefícios que ela me traz no dia-a-dia, até
mesmo em relação à vontade e à perseverança,
além de desenvolver a concentração, os reflexos, a coordenação
motora e a visão espacial. Praticar malabares acabou tornando-se uma
espécie de terapia para mim. Às vezes, chego do trabalho cansado
e preocupado, mas, é só eu jogar malabares que esqueço
de tudo.
Que dicas você daria para quem tem interesse em começar a praticar?
Existem escolas? É preciso ter alguma habilidade especial?
É importante não ser afobado, não esperar aprender tudo
e todos os brinquedos de uma só vez, correr atrás de informações
e começar pelo básico — três bolinhas — com
paciência. Eu aconselho as bolas, mas há pessoas que têm
mais facilidade com outro brinquedo, como as claves ou o diabolô. Não
existem muitas escolas. Algumas escolas de circo ensinam o malabarismo; algumas
academias também estão começando a dar aulas dessa prática.
Outro recurso é a Internet, em que há muita coisa que pode ajudar
quem quer começar a fazer essa atividade.
Em sua opinião, deveria haver espaço para a prática
do malabarismo nas escolas regulares?
Com certeza, deveria haver em todas as escolas, até porque, na maioria
delas, as aulas de Educação Física são pouco exploradas.
E praticar malabares só traz benefícios para as pessoas, desenvolve
o intelecto e a consciência corporal.
*****
Por Gizáh Szewczak

|