Daiane dos Santos, medalha
de ouro nos exercícios de solo no Mundial
de Anaheim (EUA).
Vencendo os próprios limites
Você já venceu alguma competição em sua escola?
A sensação de vitória traz muita felicidade e satisfação,
agora imagine o que sente quem é considerado o melhor do mundo no esporte
a que se dedica há anos! A alegria deve ser muito maior; mas o que será
que é preciso para alcançar o lugar mais alto do pódio?
A resposta pode ser dada pela ginasta gaúcha Daiane dos Santos, 20,
que conseguiu trazer a primeira medalha de ouro para a ginástica olímpica
brasileira com os exercícios de solo no Mundial de Anaheim (EUA).
Sua série uniu uma música vibrante, a salsa "Rumba para
los Rumberos", à execução quase perfeita de seus movimentos
e, com isso, ela obteve a maior nota, superando as favoritas do mundo. Daiane
conseguiu realizar uma tarefa que não é nada fácil: levantou
o público de um ginásio inteiro com sua apresentação,
o que, segundo a ginasta, ajudou muito em seu desempenho. “Foi a melhor
série que fiz na minha vida, mas tenho certeza de que, se o público
não ajudasse, não teria ganhado”, comentou a atleta.
foto: Sandro Lopes/CBG
Em sua apresentação, ela ainda fez um movimento inédito,
o “duplo twist carpado”, de alto grau de dificuldade, desenvolvido
por ela e seu técnico, Oleg Ostapenko. A acrobacia foi apresentada pela
ginasta nas semifinais do Mundial e recebeu a nota máxima dos jurados.
Daiane já sofreu várias lesões no joelho e tornozelo graças
a um ritmo forte de treinamento, mas afirma que todo esforço e disciplina
são compensados na hora da vitória. Mas qual será a receita
para ser uma campeã? O que fazer para vencer os obstáculos dessa
carreira que exige tanta dedicação?
Leia a seguir trechos da entrevista com Daiane dos Santos e confira as dicas
da atleta e seus projetos para o futuro.
Com quantos anos você começou a treinar ginástica
olímpica? É verdade que as ginastas com 22 anos de idade já
são consideradas velhas para praticar esse esporte?
Comecei a treinar bem tarde, com 11 anos. Hoje, existem escolinhas para crianças
a partir de 3 anos. Antes, a carreira das ginastas era bem menor, ia até
mais ou menos os 21 anos de idade; mas, atualmente, há ginastas competindo
até com 27 anos. Como a ginástica depende muito da parte física,
de dinâmica e de estática, e o corpo da mulher, depois de uma certa
idade, muda muito, isso contribuía bastante para que as meninas largassem
cedo a carreira. Nos dias atuais, está bem mais fácil lidar com
isso.
Como é sua rotina diária de treinamento? É verdade
que você faz aulas de dança também?
Quando não tenho competição, treino de segunda a sábado,
com folga à tarde na quarta-feira e no sábado, sete horas por
dia, das 8h às 12h30 e das 16h às 18h/18h30. E, quando há
competição, de segunda a segunda. Eu também faço
aula de ballet porque, como a ginástica tem coreografia, principalmente
no solo, é preciso um pouco de trabalho de dança.
Você tem uma alimentação especial? Existe um controle
rígido de seu peso?
A gente tem um cardápio feito pela nutricionista aqui da seleção
e, lá no meu clube, no Rio Grande do Sul, também tenho a ajuda
de uma nutricionista. Nós precisamos ter sempre um trabalho nutricional
porque todo dia nosso peso é medido, temos de comer alimentos saudáveis,
com vitaminas, é tudo bem estipulado. É preciso estar com o peso
certo, nem acima, nem abaixo, porque, se ele estiver muito acima, isso vai dificultar
a execução do exercício e, se estiver abaixo, não
se tem força suficiente para render ou, então, pode acontecer
uma coisa pior, que é retirar a força do músculo, o que
acaba prejudicando ainda mais a ginasta.
Como foi a preparação para o Mundial? Você imaginava
trazer o primeiro título mundial da ginástica brasileira?
Foram sete meses de treinamento diário. A gente sempre dá o máximo
de si e espera um bom resultado, mas eu achava que isso era uma coisa muito
difícil de acontecer porque há várias ginastas muito boas.
O Brasil ainda é muito novo nessa área, mas treinamos bastante,
crescemos muito de quatro anos para cá. Estive em outro pré-olímpico,
e a gente melhorou muito nesse período. Esse foi o fator que fez a diferença
para que a gente disputasse tanto.
Qual é a sensação de estar no topo do pódio?
São vários sentimentos juntos. Antes de saber minha nota, eu estava
com uma sensação de alívio, que acho que foi a mais forte.
Ganhando ou não, eu tinha feito minha parte, dado o máximo de
mim e acertado minha série. Fiquei tão feliz por ter me superado.
Por causa da lesão em meu joelho, tive de ficar um tempo afastada e várias
vezes chorei de dor durante o treino. Eu lembrei de tudo que tinha passado e
vi que valeu a pena. A medalha é o resultado do que fiz.
Um pouco antes do Mundial, você operou o joelho e, antes, já
havia feito outras cirurgias. Isso nunca a desestimulou a prosseguir a carreira
de ginasta?
Todas as lesões que tive foram devido a treinamento intensivo, foi uma
sobrecarga de treino, eu sentia dor, mas ainda agüentava, e fui suportando
até não dar mais. A gente acaba querendo tanto ultrapassar os
próprios limites que só pára quando realmente não
dá mais. Fui operada somente um mês antes do Mundial porque meu
joelho travava, eu ia fazer um movimento e ele não acompanhava. Se fosse
apenas pela dor, eu continuaria treinando e só me submeteria à
cirurgia no fim do ano.
Você ganhou a medalha de ouro nos exercícios de solo;
esse é o aparelho em que você mais gosta de praticar? Quais são
os outros?
São quatro aparelhos: trave, solo, paralela e salto. Eu gosto de todos,
e menos da trave; no entanto, treino mais solo e salto porque tenho muita impulsão.
Como surgiu o movimento "duplo twist carpado"? Você
é a única a executá-lo?
Foi uma troca de elementos, porque eu tinha outra passada de valor alto, mas
estava com o problema no joelho e ela estava prejudicando-o ainda mais. Por
isso, passei a fazer o “duplo twist carpado” só para resistência
no solo. Mas acabamos optando por ele porque não machucava meu joelho
e era uma coisa que ninguém fazia. Então, colocamos essa passada
na série de solo.
A vida de atleta de alto nível sempre demanda sacrifícios.
Você consegue fazer as coisas que as pessoas de sua idade fazem? Não
é difícil fazer esse tipo de sacrifício durante a adolescência?
Você sente falta de ter uma vida mais normal?
Eu acho que não. Desde que comecei a fazer ginástica, eu já
tinha esse ritmo, até mesmo antes de entrar para a seleção
permanente. Sempre soube lidar bem com o fato de treinar durante dois turnos,
estudar de tarde quando ia para o colégio e, agora, à noite, fazendo
faculdade (Educação Física). E sempre dá tempo de
sair com os amigos, dançar de vez em quando, ficar com o namorado...
É óbvio que não tenho todo o tempo que a maioria das pessoas
tem.
Há quanto tempo você está morando em Curitiba com
a seleção? Foi difícil deixar sua família no Rio
Grande do Sul?
Faz um ano e meio que moro aqui. Para mim, foi difícil, pois sou bastante
apegada a minha família, e Curitiba é uma cidade bem diferente
de Porto Alegre; aqui, as pessoas são muito fechadas.
A ginástica olímpica ainda não é um esporte
popular no Brasil. O que pode ser feito para mudar isso?
Falta divulgação. Uma coisa muito boa seria fazer apresentações
em escolas. Quando vou para minha cidade, Porto Alegre, visito as escolas, onde
fazemos o que chamamos de “peneirão”: distribuímos
folhetos para as crianças virem fazer ginástica e, então,
damos uma aula a elas. E descobrimos que há muitas crianças que
nunca entraram em um ginásio e têm talento para esse esporte.
Existe apoio financeiro suficiente para a prática da ginástica
no país?
Não. Eu tenho sorte de ter patrocínio individual da Brasil Telecom
há dois anos, e, desde o começo deste ano, a Coca-Cola é
patrocinadora da seleção permanente feminina. Mesmo assim, estamos
buscando mais patrocínio porque precisamos disso para competir lá
fora, fazer estágios e para outros gastos, como colocar calefação
no ginásio. Apesar de o governo ter criado recentemente uma lei para
ajudar o esporte, isso ainda não é suficiente.
O que você pretende fazer quando parar de competir?
Eu quero continuar trabalhando com ginástica, mas com crianças
pequenas, não quero trabalhar com a “elite”. Eu gosto mais
da parte de formação da criança. Ou, então, gostaria
de trabalhar com crianças com síndrome de Down. Muita gente acha
que, porque essas pessoas têm uma deficiência, não conseguem
fazer muita coisa, mas eu conheço algumas que são muito inteligentes.
Em Porto Alegre, na faculdade que eu fazia, há um trabalho assim e acho
muito interessante.
Que dicas você daria para quem quer começar a praticar
ginástica olímpica?
Primeiro, você tem de querer. Já vi muitas histórias assim:
o sonho da mãe era ser ginasta e, como ela não foi, queria que
a filha fosse. Mas, se a criança não quer, não há
como, a mãe vai empurrando a criança para o ginásio...
Outra coisa que faz muita diferença é o incentivo dos pais. Os
meus sempre me apoiaram, mas meu pai sempre deixou bem claro que, em primeiro
lugar, estavam meus estudos. Ele sempre falava que não adiantaria eu
ser uma ginasta “burra”, porque a ginástica não duraria
para sempre. E, por isso, aqui dentro, todo mundo que treina também estuda.
As meninas mais novas que não têm tempo de ir para a escola, porque
os intervalos dos treinos são muito curtos, têm aulas no próprio
ginásio.