Login: Senha:
Pesquisa escolar:
Pesquisa avançada  
Entrevistas   Entrevista da Semana
 

Vera Iaconelli é mestre em Psicologia pela USP, psicoterapeuta corporal biodinâmica de adultos e crianças e professora do curso de formação em Psicologia Biodinâmica do IBPB - Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica. Há seis anos, coordena a Clínica Gerar - Escola de Pais, com sede em São Paulo, capital. A Clínica trata de crianças de uma forma profilática, prevenindo as dificuldades futuras e auxiliando os pais na formação dos filhos.

Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3023-2895 ou pelo e-mail geraronline@uol.com.br.

 

Época de festa, época de consumo

Sempre que datas comemorativas como Natal e Dia da Criança estão próximas, as exigências infantis se voltam aos presentes, que muitas vezes custam “os olhos da cara”. Começa então a dor de cabeça dos pais para tentar conciliar essas cobranças com a realidade econômica pela qual o país está passando. Mas será que ceder às pressões de crianças e adolescentes é a melhor saída?

O Dia da Criança se aproxima e, com a data, os pais já estão preocupados com o que dar de presente aos filhos. Mas, em tempos de crise financeira e conseqüente aperto do orçamento familiar, mais do que “o que” dar aos filhos, a preocupação se volta a “como” presentear.

E como se não bastasse ter de aprender a lidar com as limitações financeiras, outro problema é enfrentado pelos pais: saber trabalhar com o impulso consumista de crianças e adolescentes. “Nossa sociedade é consumista, e isso equivale a dizer que acreditamos que os objetos poderão nos trazer tudo o que nos falta. Temos de racionalizar o consumo, ou seja, desmistificar os objetos como realizadores de nossa felicidade e satisfação plena”, afirma Vera Iaconelli, psicóloga e psicoterapeuta especializada em relacionamento entre pais e filhos que, há seis anos, coordena a Clínica Gerar — Escola de Pais.

Vera acredita que é possível transformar esse dia num momento especial, no qual o presente não será o mais importante e, sim, uma demonstração do amor que os pais podem dar aos filhos. “Os pais temem que os filhos fiquem ‘traumatizados’ por verem os outros terem coisas que eles não têm. É claro que existem privações que estão no limite da sobrevivência (alimento, moradia) e deixam marcas indeléveis, mas, aqui, estamos tratando de pais que podem dar o indispensável a seus filhos”, diz. “Na verdade, ninguém se traumatiza por falta de grandes presentes e, sim, quando se sente abandonado afetivamente pelos pais”.

O consumismo irracional, segundo a psicóloga, gera problemas muito mais profundos. “Vivemos em uma sociedade em que tanto a aquisição de bens materiais como o consumo de drogas, que podem ser bebidas alcoólicas ou remédios, são muito incentivados. Aplicamos a idéia de que coisas podem preencher e aplacar nossas insatisfações afetivas, seja comprando objetos, seja usando substâncias danosas à saúde”, alerta. A psicóloga diz que ensinar as crianças a lidar com o consumismo é uma forma de prevenir o aspecto sedutor que essas substâncias exercem sobre seus consumidores.


Leia a entrevista com a psicóloga.

De que maneira os pais definem o “querer, precisar e poder adquirir” na educação de seus filhos?
Muitos pais não têm claro para si mesmos uma forma coerente de consumir. Três critérios podem ser usados para ajudá-los na hora de decidir: o que se deseja (querer), o que se precisa (necessidade) e o que se pode comprar (poder). Se levarmos em consideração esses três itens, teremos mais chances de consumir conscientemente.

Como tratar o consumo, tema tão exaltado pelos meios de comunicação, de forma racional com as crianças?
Temos obrigação de filtrar para nossos filhos, ajudando-os a desenvolver uma atitude crítica, tudo com o que os meios de comunicação tendem a bombardeá-los. Minha filha de 6 anos falava: “Mamãe, NÓS TEMOS de comprar nas lojas ‘tal’! O moço (da propaganda) disse que nós temos de ir lá”. Ela acreditava piamente no que o “moço lhe falava”. Precisamos explicar a nossos filhos que a propaganda utiliza uma linguagem diferente daquela que os pais usam, ou seja, que não tem compromisso com as necessidades específicas de nossa família.

Você diria que o consumo faz parte do tipo de sociedade em que vivemos? Como desvincular o consumo racional do irracional?
Nossa sociedade é consumista, e isso equivale a dizer que acreditamos que os objetos poderão nos trazer tudo o que nos falta. Se tivermos o carro, a calça ou o corpo tal, seremos felizes. É como a cenoura na frente do burro: vamos seguindo essa miragem de consumo e alienando-nos das dificuldades humanas inerentes ao viver. Racionalizar o consumo significa desmistificar os objetos como realizadores de nossa felicidade e satisfação plena.

Como fazer os filhos entenderem que a família está passando por problemas financeiros e que os presentes de datas especiais devem se transformar em “lembrancinhas”?
As crianças têm toda capacidade de se engajar num esforço familiar de contenção de despesas, mas, para isso, os pais devem estar conscientes de como eles mesmos lidam com privações. Se a necessidade de fazer economia é vista como fracasso ou algo intolerável pelos pais, a criança sente e pode reagir no lugar do adulto. Crianças podem ter gestos adoravelmente solidários nesses momentos ao se sentirem importantes ajudando os pais. Tudo depende da clareza e coerência com que estes lidam com a situação.

Negando um presente “grande” em datas como o Dia da Criança, os pais não teriam de lidar com a frustração dos filhos?
Os pais sempre têm de lidar com as frustrações dos filhos. Isso faz parte do papel deles. O caminho para a vida adulta passa pelo lidar, com clareza e amor, desde com as birras dos dois anos até com toda manipulação da adolescência. Frustrar os filhos diante dos limites reais da vida é obrigação dos pais para criarem adultos seguros e cidadãos.

Como saber qual é o limite dos presentes? Quando eles passam a ser exagerados?
Presentes são exagerados quando substituem pessoas, quando envolvem privação familiar para obtê-los, quando são insubstituíveis e não podem ser barganhados e quando a criança não é mais capaz de valorizá-los.

Você acredita que alguns pais presenteiam em vez de estarem presentes?
Alguns pais não se sentem importantes o suficiente para serem amados pelo que são e acreditam que os presentes podem preencher essa falta afetiva. Principalmente os homens, em nossa sociedade, por uma questão cultural, acabam demonstrando seu afeto por meio de objetos e perdem, com isso, a convicção de amor a sua pessoa.

Que outros meios mais criativos os pais podem utilizar para fazer seus filhos felizes nessas datas?
Os pais podem substituir grandes presentes por momentos mais íntimos com os filhos, que requerem mais dedicação e menos coisas. Podem pôr todo mundo na cozinha para “brincar de cozinhar” (os pequeninos adoram) ou fazer uma sessão de pipoca, refrigerante e desenhos na TV ou vídeo (quanto tempo conseguimos dedicar a fazer com nossos filhos atividades que eles costumam realizar sozinhos?). Há muitos lugares agradáveis em cada cidade para fazer passeios que não custam nada e são adoráveis, como parques, zoológicos e praças. Crianças adoram fazer construções com seus pais: cabanas, naves espaciais... Tirar o dia para um piquenique, andar de bicicleta. Ouvir músicas juntos, improvisando dublagens e danças. Se os pais se sentem felizes pelo privilégio de ter tempo ocioso ao lado dos filhos, descobrirão espontaneamente como isso é divertido. Enfim, ter clareza de que é dos momentos de convívio entre pais e filhos que temos as melhores lembranças.

Que tipos de problema a falta de educação financeira pode acarretar à criança?
A educação para o consumo implica lidar com as limitações da realidade, aprender a postergar a satisfação trabalhando com a frustração e a funcionar dentro de uma família e não como ser isolado, abrindo mão do egocentrismo. Implica aprender a valorizar-se como pessoa e não como proprietário disso e daquilo e, desse modo, a dar valor aos outros pelo que são e não pelo que têm. Implica aprender a lidar com impedimentos que ultrapassam a esfera familiar e saber que até mesmo os pais estão submetidos a uma lei que está acima de todos, ninguém é dono do mundo e, portanto, implica aprender a ser cidadão. Que ótima oportunidade de se dar algo de real valor aos filhos: uma boa formação como pessoas. Há presente mais valioso?

*****

Por Diogo Dreyer


   


         
<< voltar  
         


Copyright © 2001, 2009. Portal Aprende Brasil. Todos os Direitos Reservados. Termos de uso | Quem somos