|
Época de festa, época de consumo
Sempre que datas comemorativas como Natal e Dia da Criança estão
próximas, as exigências infantis se voltam aos presentes, que muitas
vezes custam “os olhos da cara”. Começa então a dor
de cabeça dos pais para tentar conciliar essas cobranças com a
realidade econômica pela qual o país está passando. Mas
será que ceder às pressões de crianças e adolescentes
é a melhor saída?
O Dia da Criança se aproxima e, com a data, os pais já estão
preocupados com o que dar de presente aos filhos. Mas, em tempos de crise financeira
e conseqüente aperto do orçamento familiar, mais do que “o
que” dar aos filhos, a preocupação se volta a “como”
presentear.
E como se não bastasse ter de aprender a lidar com as limitações
financeiras, outro problema é enfrentado pelos pais: saber trabalhar
com o impulso consumista de crianças e adolescentes. “Nossa sociedade
é consumista, e isso equivale a dizer que acreditamos que os objetos
poderão nos trazer tudo o que nos falta. Temos de racionalizar o consumo,
ou seja, desmistificar os objetos como realizadores de nossa felicidade e satisfação
plena”, afirma Vera Iaconelli, psicóloga e psicoterapeuta especializada
em relacionamento entre pais e filhos que, há seis anos, coordena a Clínica
Gerar — Escola de Pais.
Vera acredita que é possível transformar esse dia num momento
especial, no qual o presente não será o mais importante e, sim,
uma demonstração do amor que os pais podem dar aos filhos. “Os
pais temem que os filhos fiquem ‘traumatizados’ por verem os outros
terem coisas que eles não têm. É claro que existem privações
que estão no limite da sobrevivência (alimento, moradia) e deixam
marcas indeléveis, mas, aqui, estamos tratando de pais que podem dar
o indispensável a seus filhos”, diz. “Na verdade, ninguém
se traumatiza por falta de grandes presentes e, sim, quando se sente abandonado
afetivamente pelos pais”.
O consumismo irracional, segundo a psicóloga, gera problemas muito mais
profundos. “Vivemos em uma sociedade em que tanto a aquisição
de bens materiais como o consumo de drogas, que podem ser bebidas alcoólicas
ou remédios, são muito incentivados. Aplicamos a idéia
de que coisas podem preencher e aplacar nossas insatisfações afetivas,
seja comprando objetos, seja usando substâncias danosas à saúde”,
alerta. A psicóloga diz que ensinar as crianças a lidar com o
consumismo é uma forma de prevenir o aspecto sedutor que essas substâncias
exercem sobre seus consumidores.
Leia a entrevista com a psicóloga.
De que maneira os pais definem o “querer, precisar e poder adquirir”
na educação de seus filhos?
Muitos pais não têm claro para si mesmos uma forma coerente de
consumir. Três critérios podem ser usados para ajudá-los
na hora de decidir: o que se deseja (querer), o que se precisa (necessidade)
e o que se pode comprar (poder). Se levarmos em consideração esses
três itens, teremos mais chances de consumir conscientemente.
Como tratar o consumo, tema tão exaltado pelos meios de comunicação,
de forma racional com as crianças?
Temos obrigação de filtrar para nossos filhos, ajudando-os a desenvolver
uma atitude crítica, tudo com o que os meios de comunicação
tendem a bombardeá-los. Minha filha de 6 anos falava: “Mamãe,
NÓS TEMOS de comprar nas lojas ‘tal’! O moço (da propaganda)
disse que nós temos de ir lá”. Ela acreditava piamente no
que o “moço lhe falava”. Precisamos explicar a nossos filhos
que a propaganda utiliza uma linguagem diferente daquela que os pais usam, ou
seja, que não tem compromisso com as necessidades específicas
de nossa família.
Você diria que o consumo faz parte do tipo de sociedade em que vivemos?
Como desvincular o consumo racional do irracional?
Nossa sociedade é consumista, e isso equivale a dizer que acreditamos
que os objetos poderão nos trazer tudo o que nos falta. Se tivermos o
carro, a calça ou o corpo tal, seremos felizes. É como a cenoura
na frente do burro: vamos seguindo essa miragem de consumo e alienando-nos das
dificuldades humanas inerentes ao viver. Racionalizar o consumo significa desmistificar
os objetos como realizadores de nossa felicidade e satisfação
plena.
Como fazer os filhos entenderem que a família está passando
por problemas financeiros e que os presentes de datas especiais devem se transformar
em “lembrancinhas”?
As crianças têm toda capacidade de se engajar num esforço
familiar de contenção de despesas, mas, para isso, os pais devem
estar conscientes de como eles mesmos lidam com privações. Se
a necessidade de fazer economia é vista como fracasso ou algo intolerável
pelos pais, a criança sente e pode reagir no lugar do adulto. Crianças
podem ter gestos adoravelmente solidários nesses momentos ao se sentirem
importantes ajudando os pais. Tudo depende da clareza e coerência com
que estes lidam com a situação.
Negando um presente “grande” em datas como o Dia da Criança,
os pais não teriam de lidar com a frustração dos filhos?
Os pais sempre têm de lidar com as frustrações dos filhos.
Isso faz parte do papel deles. O caminho para a vida adulta passa pelo lidar,
com clareza e amor, desde com as birras dos dois anos até com toda manipulação
da adolescência. Frustrar os filhos diante dos limites reais da vida é
obrigação dos pais para criarem adultos seguros e cidadãos.
Como saber qual é o limite dos presentes? Quando eles passam a ser
exagerados?
Presentes são exagerados quando substituem pessoas, quando envolvem privação
familiar para obtê-los, quando são insubstituíveis e não
podem ser barganhados e quando a criança não é mais capaz
de valorizá-los.
Você acredita que alguns pais presenteiam em vez de estarem presentes?
Alguns pais não se sentem importantes o suficiente para serem amados
pelo que são e acreditam que os presentes podem preencher essa falta
afetiva. Principalmente os homens, em nossa sociedade, por uma questão
cultural, acabam demonstrando seu afeto por meio de objetos e perdem, com isso,
a convicção de amor a sua pessoa.
Que outros meios mais criativos os pais podem utilizar para fazer seus filhos
felizes nessas datas?
Os pais podem substituir grandes presentes por momentos mais íntimos
com os filhos, que requerem mais dedicação e menos coisas. Podem
pôr todo mundo na cozinha para “brincar de cozinhar” (os pequeninos
adoram) ou fazer uma sessão de pipoca, refrigerante e desenhos na TV
ou vídeo (quanto tempo conseguimos dedicar a fazer com nossos filhos
atividades que eles costumam realizar sozinhos?). Há muitos lugares agradáveis
em cada cidade para fazer passeios que não custam nada e são adoráveis,
como parques, zoológicos e praças. Crianças adoram fazer
construções com seus pais: cabanas, naves espaciais... Tirar o
dia para um piquenique, andar de bicicleta. Ouvir músicas juntos, improvisando
dublagens e danças. Se os pais se sentem felizes pelo privilégio
de ter tempo ocioso ao lado dos filhos, descobrirão espontaneamente como
isso é divertido. Enfim, ter clareza de que é dos momentos de
convívio entre pais e filhos que temos as melhores lembranças.
Que tipos de problema a falta de educação financeira pode
acarretar à criança?
A educação para o consumo implica lidar com as limitações
da realidade, aprender a postergar a satisfação trabalhando com
a frustração e a funcionar dentro de uma família e não
como ser isolado, abrindo mão do egocentrismo. Implica aprender a valorizar-se
como pessoa e não como proprietário disso e daquilo e, desse modo,
a dar valor aos outros pelo que são e não pelo que têm.
Implica aprender a lidar com impedimentos que ultrapassam a esfera familiar
e saber que até mesmo os pais estão submetidos a uma lei que está
acima de todos, ninguém é dono do mundo e, portanto, implica aprender
a ser cidadão. Que ótima oportunidade de se dar algo de real valor
aos filhos: uma boa formação como pessoas. Há presente
mais valioso?
*****
Por Diogo Dreyer

|