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Jornalista, pintora e escritora, em 33 anos de carreira, Ana Maria Machado publicou mais de 100 livros e teve sua obra para crianças e jovens traduzida em 17 países, totalizando cerca de 14 milhões de exemplares vendidos. É autora de Como e Por Que Ler os Clássicos Desde Cedo (Editora Objetiva), De Carta em Carta (Companhia das Letrinhas) e Bisa Bia, Bisa Bel (Salamandra), entre outros títulos.

No Brasil, ganhou todos os principais prêmios literários. Desde 1993, é autora hors-concours dos prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Em 2000, obteve a consagração internacional: recebeu o Prêmio Hans Christian Andersen, que é considerado o Nobel da literatura infantil mundial.

Em 2001, a Academia Brasileira de Letras (ABL) deu a ela o maior prêmio literário nacional, o Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra.

 

Viva a literatura infantil brasileira!

O dia 29 de agosto de 2003 vai entrar para a história da Academia Brasileira de Letras. Mais de 100 anos após sua criação, Ana Maria Machado será o primeiro autor de literatura para crianças alçado ao rol dos imortais e guardiões de nossa língua.

Novidade no tradicional chá das quintas. A sisuda Academia Brasileira de Letras (ABL) se rendeu à literatura infantil. Amplamente reconhecido e premiado no exterior e responsável pelas maiores cifras do mercado editorial brasileiro — ao lado dos livros didáticos —, o gênero enfim terá seu representante entre os imortais. No dia 29 de agosto de 2003, Ana Maria Machado tomou posse da cadeira número 1, que pertenceu até recentemente ao jurista Evandro Lins e Silva.

Se os acadêmicos foram seduzidos pelos biscoitos finos feitos por Ana Maria Machado, a autora acredita que muitos professores ainda desconhecem as pequenas obras-primas produzidas pela literatura infantil nacional. “É assustador que nós, que temos um autor como Lobato, estejamos formando anualmente milhares de professores que nunca leram um livro dele”, afirma.

Segundo ela, nos países desenvolvidos, o gosto pela leitura nasce em casa. Mas isso não acontece no Brasil. “Em nosso país, como a situação é diferente, a escola tem de desempenhar esse papel duplamente, por ela mesma e pelos pais, e por isso a importância dela é tão grande”, disse.

Leia a seguir trechos do bate-papo que a repórter Fernanda Ávila teve com Ana Maria Machado.

Você já disse que não acredita no rótulo de literatura infanto-juvenil. Por quê?
Acho que literatura infantil existe, tenho dúvidas em relação à juvenil. Acredito que o livro para o jovem é aquele do qual ele se apropria e que, na maioria das vezes, não foi feito pensando-se nesse tipo de leitor. Os livros que li na adolescência — como Robin Hood, O Rei Arthur ou outros de autores como Hemingway, Jorge Amado e Érico Veríssimo — eram obras que eu considerava minhas, que eram acessíveis à minha idade. O livro que meus filhos mais gostaram na juventude, tanto o Rodrigo quanto o Pedro e a Luísa, foi O Apanhador no Campo de Centeio, que é um livro do Salinger, que não foi escrito como literatura juvenil e, no entanto, fala pela alma de um adolescente. Por isso, tenho medo de que o rótulo juvenil afaste o adolescente de livros que ele é capaz de ler e, principalmente, que ele se acostume com livrinhos nos quais o que importa é a historinha de detetive, descobrir o mistério, etc. Dessa forma, ele perde a chance de passar para uma coisa maior. É nesse sentido que eu faço restrições, mas sei que existe uma literatura juvenil que é diferente.

Como é vista a literatura infantil brasileira?
Ela é muito respeitada, tem ótima qualidade, é bastante premiada no exterior e elogiada. É um gênero perfeitamente maduro, capaz de estar lá dentro em pé de igualdade com outros.

Você viaja muito pelo Brasil e deve conhecer bem a realidade da educação de todo o país. Que diferenças podem ser percebidas nesses últimos oito anos em que FHC esteve à frente do governo? Houve uma melhora na qualidade ou apenas na quantidade?
A melhoria na quantidade é absolutamente inegável. O aumento do número de crianças na escola foi muito grande. Nos primeiros cinco anos, era assustador. O que faço muito quando viajo é encontrar professor, não faço tanta questão de encontrar criança. Fui professora durante muito tempo e tenho uma empatia, um carinho, uma admiração muito grande pelo professor brasileiro. Muitas vezes, são pessoas que têm escolaridade de menos de um ano, e é com essas pessoas que eu quero falar e são elas que quero ouvir. Então, no primeiro momento, era assustador ver a enorme quantidade de professores leigos e sem nenhum apoio que ouviam falar em construtivismo, Piaget, Emília Ferreiro, método silábico, método fonético... Um universo de alguém egresso da USP que estava formulando política. E o universo deles é outro, de quem está lá no dia-a-dia, de pé no chão, disputando a criança com os vermes. Acho que o próprio governo entendeu isso e, já no segundo mandato, pudemos perceber uma intenção de recapacitação de professores, de reciclagem. Esses professores passaram a ter não necessariamente mais informação, mas uma nova atitude, muito comovente. Passaram a acreditar em si mesmos, a confiar na própria intuição e a não se sentir mais humilhados por aquela linguagem da USP — não tenho nada contra essa instituição, estou falando apenas do jargão técnico. Esse momento foi muito bonito. Ainda há um caminho a ser percorrido, sobretudo na formação universitária do professor de 5.ª a 8.ª série — não na capacitação imediata, mas na daquele professor que fez faculdade, estudou Pedagogia e que, no Brasil, sai de uma universidade sem nunca ter lido Monteiro Lobato. É assustador que nós, que temos um autor como Lobato, que foi absolutamente crucial para mudar a literatura infantil em toda a América Latina, estejamos formando anualmente milhares de professores que nunca leram um livro dele.

Quem tem papel mais importante na formação de uma criança leitora, os pais ou os professores?
A criança aprende pelo exemplo, e o ideal é que ele venha de casa. Nos países desenvolvidos em que a questão do analfabetismo está resolvida há muitos anos, normalmente o primeiro contato das crianças com o livro ocorre quando elas vêem os pais lendo. No Brasil, como a situação é diferente, a escola tem de desempenhar esse papel duplamente, por ela mesma e pelos pais, por isso a importância dela é tão grande. E todos os projetos governamentais que levam o livro para a escola — sejam do governo federal, estadual ou municipal, sejam projetos de empresas, como o “Ciranda de Livros”, o da White Martins e outros — são sempre importantes. A gente pode ter uma ou outra crítica pontual a alguma coisa, mas eles são fundamentais. Mas também existe outro aspecto. Quando você fez a pergunta, achei a formulação dela interessante: você perguntou quem é mais importante, e ninguém formula assim. Eu li uma vez em um artigo, não me lembro de quem ele era, que todo leitor tem uma pessoa que lhe serviu de modelo. Esse fenômeno é chamado de contágio. Quer dizer, há alguém que contagiou, ou seja, há alguém sim que é o mais importante para determinado leitor e que pode estar dentro de casa ou não.

O contrário também deve acontecer bastante: os pais descobrem a leitura com os filhos. Você observa isso?
É verdade, e isso é um fenômeno absolutamente novo no Brasil. E a gente pode até mesmo saber quando começou. No governo Fernando Henrique, na gestão do Paulo Renato, foi feito um projeto chamado “Literatura em Minha Casa”, que iniciou há três anos e está sendo mantido pelo governo Lula. A diferença é que, no governo Fernando Henrique, ele contemplava alunos de 4.ª série e, agora, vai ser estendido para os de 5.ª a 8.ª série e para os da EJA, que é a Educação para Jovens e Adultos. São três estágios para números mais reduzidos, para menos escolas. Durante três anos seguidos, todos os alunos de 4.ª série de escolas públicas do Brasil ganharam, no final do ano, uma coleção que tinha cinco livros diferentes: um de poesia, uma novela, um de contos, um clássico traduzido e um de teatro ou folclore. Eles levaram esses livros para casa e tornaram-se donos deles. A partir disso, mudou-se a idéia de que a leitura devia acontecer na biblioteca escolar ou dentro da escola. Sem descuidar da biblioteca escolar, o projeto começou a irradiar para dentro das casas. E posso falar por mim, como autora, que o teor das cartas que comecei a receber mudou. Com muita freqüência, começou a haver uma coisa que não existia antes, que é as crianças passarem a dizer: “Minha mãe mandou dizer que...”, “Minha avó falou que...” ou “Eu li sua história para o meu avô e ele acha que...”. Então, de repente, percebi essa irradiação dentro da família.

Há uma frase sua muito interessante: “As pessoas não têm o dever de ler, elas têm o direito”. Não é exatamente essa a linha seguida nas escolas...
Muitas vezes, a escola enfatiza a obrigação, o dever, e esquece que não é bem assim. Quer dizer, temos de ter livros porque eles são uma herança nossa. A humanidade está construindo isso há milênios, e nós, que estamos aqui vivos neste momento, temos direito a uma parcela disso.

A gente vê que os pais, e mesmo as escolas, estão muito mais preocupados em preparar a criança para o futuro do que para ter um presente legal. O que você acha disso?
Não sei exatamente o que falar sobre isso, mas posso dizer que uma das coisas em que mais tenho pensado ultimamente é a relação da gente com o tempo. Acho que sempre pensei. Se você observar, o Bisa Bia, Bisa Bel fala sobre isso, e O Canteiro de Saturno também é uma reflexão sobre o tempo. E é engraçado porque os pais nunca estão pensando no futuro deles, né? Na sociedade em que a gente vive, a recusa a envelhecer é assustadora. As pessoas estão sempre fazendo de conta que só os outros envelhecem, e elas não. Você falou e eu fiquei pensando: talvez as pessoas estejam querendo envelhecer os filhos à força, mas estejam querendo infantilizar-se à força também. Eu não tenho resposta para isso. É uma perplexidade mesmo. Por que estão fazendo isso com as crianças?

Nos últimos tempos, houve uma onda de livros para adolescentes que tratam de sexo, primeiro beijo, mudanças no corpo, relação com os pais, enfim, assuntos ligados ao universo desse tipo de leitor, quase uma literatura de auto-ajuda. O que você acha disso?
A área comportamental é a que mais está crescendo, até para adultos. Se você olhar a lista de best-sellers, vai ver que há vários do tipo: como educar seu filho, filhos e filhas são diferentes, como lidar com adolescentes, limites, etc., o que não é exatamente auto-ajuda, é uma ampliação disso. Para o adolescente, isso muitas vezes substitui informações que os pais não sabem como dar. Não é literatura exatamente, mas não acho que faça mal ler esses livros. O que atrapalha é ler só um tipo de livro. Quem faz isso está empobrecendo, perdendo a chance de ler outras coisas.


A entrevista completa estará disponível na revista Top Magazine do mês de setembro.

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