|
Viva a literatura infantil brasileira!
O dia 29 de agosto de 2003 vai entrar para a história da Academia
Brasileira de Letras. Mais de 100 anos após sua criação,
Ana Maria Machado será o primeiro autor de literatura para crianças
alçado ao rol dos imortais e guardiões de nossa língua.
Novidade no tradicional chá das quintas. A sisuda Academia Brasileira
de Letras (ABL) se rendeu à literatura infantil. Amplamente reconhecido
e premiado no exterior e responsável pelas maiores cifras do mercado
editorial brasileiro — ao lado dos livros didáticos —, o
gênero enfim terá seu representante entre os imortais. No dia 29
de agosto de 2003, Ana Maria Machado tomou posse da cadeira número 1,
que pertenceu até recentemente ao jurista Evandro Lins e Silva.
Se os acadêmicos foram seduzidos pelos biscoitos finos feitos por Ana
Maria Machado, a autora acredita que muitos professores ainda desconhecem as
pequenas obras-primas produzidas pela literatura infantil nacional. “É
assustador que nós, que temos um autor como Lobato, estejamos formando
anualmente milhares de professores que nunca leram um livro dele”, afirma.
Segundo ela, nos países desenvolvidos, o gosto pela leitura nasce em
casa. Mas isso não acontece no Brasil. “Em nosso país, como
a situação é diferente, a escola tem de desempenhar esse
papel duplamente, por ela mesma e pelos pais, e por isso a importância
dela é tão grande”, disse.
Leia a seguir trechos do bate-papo que a repórter Fernanda Ávila
teve com Ana Maria Machado.
Você já disse que não acredita no rótulo de literatura
infanto-juvenil. Por quê?
Acho que literatura infantil existe, tenho dúvidas em relação
à juvenil. Acredito que o livro para o jovem é aquele do qual
ele se apropria e que, na maioria das vezes, não foi feito pensando-se
nesse tipo de leitor. Os livros que li na adolescência — como Robin
Hood, O Rei Arthur ou outros de autores como Hemingway, Jorge Amado
e Érico Veríssimo — eram obras que eu considerava minhas,
que eram acessíveis à minha idade. O livro que meus filhos mais
gostaram na juventude, tanto o Rodrigo quanto o Pedro e a Luísa, foi
O Apanhador no Campo de Centeio, que é um livro do Salinger, que
não foi escrito como literatura juvenil e, no entanto, fala pela alma
de um adolescente. Por isso, tenho medo de que o rótulo juvenil afaste
o adolescente de livros que ele é capaz de ler e, principalmente, que
ele se acostume com livrinhos nos quais o que importa é a historinha
de detetive, descobrir o mistério, etc. Dessa forma, ele perde a chance
de passar para uma coisa maior. É nesse sentido que eu faço restrições,
mas sei que existe uma literatura juvenil que é diferente.
Como é vista a literatura infantil brasileira?
Ela é muito respeitada, tem ótima qualidade, é bastante
premiada no exterior e elogiada. É um gênero perfeitamente maduro,
capaz de estar lá dentro em pé de igualdade com outros.
Você viaja muito pelo Brasil e deve conhecer bem a realidade da educação
de todo o país. Que diferenças podem ser percebidas nesses últimos
oito anos em que FHC esteve à frente do governo? Houve uma melhora na
qualidade ou apenas na quantidade?
A melhoria na quantidade é absolutamente inegável. O aumento
do número de crianças na escola foi muito grande. Nos primeiros
cinco anos, era assustador. O que faço muito quando viajo é encontrar
professor, não faço tanta questão de encontrar criança.
Fui professora durante muito tempo e tenho uma empatia, um carinho, uma admiração
muito grande pelo professor brasileiro. Muitas vezes, são pessoas que
têm escolaridade de menos de um ano, e é com essas pessoas que
eu quero falar e são elas que quero ouvir. Então, no primeiro
momento, era assustador ver a enorme quantidade de professores leigos e sem
nenhum apoio que ouviam falar em construtivismo, Piaget, Emília Ferreiro,
método silábico, método fonético... Um universo
de alguém egresso da USP que estava formulando política. E o universo
deles é outro, de quem está lá no dia-a-dia, de pé
no chão, disputando a criança com os vermes. Acho que o próprio
governo entendeu isso e, já no segundo mandato, pudemos perceber uma
intenção de recapacitação de professores, de reciclagem.
Esses professores passaram a ter não necessariamente mais informação,
mas uma nova atitude, muito comovente. Passaram a acreditar em si mesmos, a
confiar na própria intuição e a não se sentir mais
humilhados por aquela linguagem da USP — não tenho nada contra
essa instituição, estou falando apenas do jargão técnico.
Esse momento foi muito bonito. Ainda há um caminho a ser percorrido,
sobretudo na formação universitária do professor de 5.ª
a 8.ª série — não na capacitação imediata,
mas na daquele professor que fez faculdade, estudou Pedagogia e que, no Brasil,
sai de uma universidade sem nunca ter lido Monteiro Lobato. É assustador
que nós, que temos um autor como Lobato, que foi absolutamente crucial
para mudar a literatura infantil em toda a América Latina, estejamos
formando anualmente milhares de professores que nunca leram um livro dele.
Quem tem papel mais importante na formação de uma criança
leitora, os pais ou os professores?
A criança aprende pelo exemplo, e o ideal é que ele venha
de casa. Nos países desenvolvidos em que a questão do analfabetismo
está resolvida há muitos anos, normalmente o primeiro contato
das crianças com o livro ocorre quando elas vêem os pais lendo.
No Brasil, como a situação é diferente, a escola tem de
desempenhar esse papel duplamente, por ela mesma e pelos pais, por isso a importância
dela é tão grande. E todos os projetos governamentais que levam
o livro para a escola — sejam do governo federal, estadual ou municipal,
sejam projetos de empresas, como o “Ciranda de Livros”, o da White
Martins e outros — são sempre importantes. A gente pode ter uma
ou outra crítica pontual a alguma coisa, mas eles são fundamentais.
Mas também existe outro aspecto. Quando você fez a pergunta, achei
a formulação dela interessante: você perguntou quem é
mais importante, e ninguém formula assim. Eu li uma vez em um artigo,
não me lembro de quem ele era, que todo leitor tem uma pessoa que lhe
serviu de modelo. Esse fenômeno é chamado de contágio. Quer
dizer, há alguém que contagiou, ou seja, há alguém
sim que é o mais importante para determinado leitor e que pode estar
dentro de casa ou não.
O contrário também deve acontecer bastante: os pais descobrem
a leitura com os filhos. Você observa isso?
É verdade, e isso é um fenômeno absolutamente novo
no Brasil. E a gente pode até mesmo saber quando começou. No governo
Fernando Henrique, na gestão do Paulo Renato, foi feito um projeto chamado
“Literatura em Minha Casa”, que iniciou há três anos
e está sendo mantido pelo governo Lula. A diferença é que,
no governo Fernando Henrique, ele contemplava alunos de 4.ª série
e, agora, vai ser estendido para os de 5.ª a 8.ª série e para
os da EJA, que é a Educação para Jovens e Adultos. São
três estágios para números mais reduzidos, para menos escolas.
Durante três anos seguidos, todos os alunos de 4.ª série de
escolas públicas do Brasil ganharam, no final do ano, uma coleção
que tinha cinco livros diferentes: um de poesia, uma novela, um de contos, um
clássico traduzido e um de teatro ou folclore. Eles levaram esses livros
para casa e tornaram-se donos deles. A partir disso, mudou-se a idéia
de que a leitura devia acontecer na biblioteca escolar ou dentro da escola.
Sem descuidar da biblioteca escolar, o projeto começou a irradiar para
dentro das casas. E posso falar por mim, como autora, que o teor das cartas
que comecei a receber mudou. Com muita freqüência, começou
a haver uma coisa que não existia antes, que é as crianças
passarem a dizer: “Minha mãe mandou dizer que...”, “Minha
avó falou que...” ou “Eu li sua história para o meu
avô e ele acha que...”. Então, de repente, percebi essa irradiação
dentro da família.
Há uma frase sua muito interessante: “As pessoas não
têm o dever de ler, elas têm o direito”. Não é
exatamente essa a linha seguida nas escolas...
Muitas vezes, a escola enfatiza a obrigação, o dever, e esquece
que não é bem assim. Quer dizer, temos de ter livros porque eles
são uma herança nossa. A humanidade está construindo isso
há milênios, e nós, que estamos aqui vivos neste momento,
temos direito a uma parcela disso.
A gente vê que os pais, e mesmo as escolas, estão muito mais
preocupados em preparar a criança para o futuro do que para ter um presente
legal. O que você acha disso?
Não sei exatamente o que falar sobre isso, mas posso dizer que uma
das coisas em que mais tenho pensado ultimamente é a relação
da gente com o tempo. Acho que sempre pensei. Se você observar, o Bisa
Bia, Bisa Bel fala sobre isso, e O Canteiro de Saturno também
é uma reflexão sobre o tempo. E é engraçado porque
os pais nunca estão pensando no futuro deles, né? Na sociedade
em que a gente vive, a recusa a envelhecer é assustadora. As pessoas
estão sempre fazendo de conta que só os outros envelhecem, e elas
não. Você falou e eu fiquei pensando: talvez as pessoas estejam
querendo envelhecer os filhos à força, mas estejam querendo infantilizar-se
à força também. Eu não tenho resposta para isso.
É uma perplexidade mesmo. Por que estão fazendo isso com as crianças?
Nos últimos tempos, houve uma onda de livros para adolescentes que
tratam de sexo, primeiro beijo, mudanças no corpo, relação
com os pais, enfim, assuntos ligados ao universo desse tipo de leitor, quase
uma literatura de auto-ajuda. O que você acha disso?
A área comportamental é a que mais está crescendo,
até para adultos. Se você olhar a lista de best-sellers, vai ver
que há vários do tipo: como educar seu filho, filhos e filhas
são diferentes, como lidar com adolescentes, limites, etc., o que não
é exatamente auto-ajuda, é uma ampliação disso.
Para o adolescente, isso muitas vezes substitui informações que
os pais não sabem como dar. Não é literatura exatamente,
mas não acho que faça mal ler esses livros. O que atrapalha é
ler só um tipo de livro. Quem faz isso está empobrecendo, perdendo
a chance de ler outras coisas.
A entrevista completa estará disponível na revista Top Magazine
do mês de setembro.
*****

|