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Maria Aparecida Borelli de Almeida é jornalista e professora. Durante 21 anos desempenhou atividades didático-pedagógicas nas faculdades do Centro de Ensino Unificado de Brasília (UniCEUB). É professora da Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal, onde participa de atividades técnico-pedagógicas relacionadas à Educação de Jovens e Adultos. Na Associação Nacional de Jornais (ANJ), entidade que reúne 125 jornais brasileiros e um sócio colaborador, ocupa o cargo de coordenadora do Subcomitê Jornal na Educação, programa vinculado ao Comitê de Leitura e Circulação.
Se quiser saber quais jornais participam do programa da ANJ,
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Informar e educar

Para a coordenadora do Subcomitê Jornal na Educação, Maria Aparecida Borelli de Almeida, o papel do jornal vai muito além de informar: ele provoca uma revolução que melhora o nível de competência dos professores e contribui para a formação do aluno.

Manchetes sensacionalistas, escândalos e até mesmo parcialidade. Para Maria Aparecida Borelli de Almeida, nada disso desmerece um jornal na hora de ele entrar em sala de aula e dar sua contribuição para o ensino. Palavra de quem entende: além de jornalista, ela é professora. Há mais de 30 anos se dedica à educação e, há 11, também a atividades na área de jornalismo. Durante 21 anos, desempenhou atividades didático-pedagógicas nas faculdades do Centro de Ensino Unificado de Brasília (UniCEUB). É professora da Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal, onde participa de atividades técnico-pedagógicas ligadas à Educação de Jovens e Adultos. Além disso, é coordenadora do Subcomitê Jornal na Educação, um projeto dirigido pela Associação Nacional dos Jornais — ANJ.

A associação, da qual participam 120 jornais, encabeça há 22 anos o programa Jornal na Educação. O Zero Hora, de Porto Alegre, foi o primeiro jornal a ser usado em instituições de ensino no Brasil. “Atualmente, 35 jornais participam de projetos educacionais espalhados por 16 estados brasileiros. Esses programas atendem 8,5 mil escolas e cerca de 2,5 milhões de estudantes”, conta Maria Aparecida.

Segundo ela, existem projetos de utilização de jornais na educação em 52 países, reunindo cerca de 18 mil empresas de comunicação. “Uma particularidade do Brasil é que, aqui, a maioria dos jornais cede gratuitamente os exemplares para as escolas, enquanto, em países mais desenvolvidos, eles são vendidos em pacotes promocionais”, compara.

Mas, para a educadora, o papel dos jornais vai muito além de uma mera contribuição na sala de aula. “A precariedade da educação e as desigualdades social e econômica do Brasil fazem com que o jornal tenha um papel revolucionário na educação, pois o uso dele melhora o nível de competência dos professores e contribui para a formação do aluno”, afirma.

Leia a seguir a entrevista com a jornalista e educadora.

1- Nas experiências da ANJ, como tem sido o trabalho com jornais nas escolas brasileiras? Ele está voltado a formar leitores de jornais ou as escolas têm investido para que os alunos aprendam a produzir esse tipo de periódico?
O programa chega a todas as regiões do país. Atualmente, ele é desenvolvido por 35 jornais associados à ANJ em 16 estados, abrangendo mais de 2,5 milhões de estudantes dos Ensinos Fundamental e Médio, atingindo também a Educação Infantil e o Ensino Superior. Como o objetivo principal da ANJ é incentivar o hábito de leitura e, conseqüentemente, formar leitores, ela assessora os jornais para que eles estruturem seus programas, realizem o processo seletivo das escolas e/ou professores das redes pública e privada da cidade e da região em que atuam e, depois, façam a aplicação do projeto. A distribuição de jornais é feita de acordo com a estrutura do programa e o número de escolas e/ou professores selecionados. Antes de ensinar a produzir jornais, é necessário ampliar o número de leitores.

2- Qual é a melhor maneira de introduzir a leitura do jornal em sala de aula? O uso dele se restringe a algumas matérias ou é interdisciplinar?
O jornal chega às escolas para ajudar os professores a desenvolver suas atividades pedagógicas em sala de aula e para cumprir o objetivo do programa Jornal na Educação, que é criar o hábito de leitura. Os professores usam o jornal como instrumento pedagógico auxiliar no desenvolvimento das habilidades e competências referentes a cada componente curricular e também de forma interdisciplinar, visando a ampliar a (in)formação do aluno em todas as áreas do conhecimento.

3- A partir de que idade o estudante tem condições de ler e compreender os textos dos jornais?
O uso do jornal em sala de aula pode começar já nas primeiras séries do Ensino Fundamental, antes mesmo da alfabetização, para que a criança conheça as letras e forme sílabas e palavras. Com o tempo, ela poderá ler pequenos textos. Do mesmo modo, as imagens e as fotografias constituem um atrativo para ela. Assim, o hábito de leitura vai sedimentando-se e sendo aperfeiçoado com as atividades desenvolvidas pelos professores de todas as áreas.

4- Durante muito tempo, as escolas trabalharam apenas com textos dos livros didáticos e apostilas, e as notícias do dia-a-dia quase não estavam presentes no cotidiano escolar. Por que ultimamente fala-se tanto da importância de o professor oportunizar a seus alunos o contato com jornais?
O uso do jornal paralelamente ao do livro didático em sala de aula resultou da percepção da necessidade de se colocar o aluno em contato com a realidade cotidiana, que os livros registram somente depois de um decurso de tempo. Isso preenche a lacuna de informação entre a situação que o estudante vivencia — a realidade factual — e o fato histórico que o livro relata. Dessa maneira, por ser um registro diário da história, o jornal é um instrumento complementar na educação, com a vantagem de ser instantâneo, atual e ter um custo mais acessível. Além disso, não traz prejuízo para o livro didático, que, por suas peculiaridades, não acompanha com a mesma velocidade os fatos históricos nem as evoluções científico-tecnológica e humana.

5- Como os professores estão encarando essa novidade? É comum eles terem dificuldades? Quando isso acontece, como as superam?
Os professores reconhecem que o jornal é um instrumento que possibilita acesso imediato à informação e é pontual e permanente em relação aos acontecimentos históricos. Para sanar eventuais dificuldades na implementação do programa Jornal na Educação, a ANJ, por meio do Subcomitê Jornal na Educação, orienta os jornais associados para que eles dêem suporte àqueles que estão envolvidos no uso do jornal em sala de aula. Sobretudo, as dificuldades que surgem são superadas pelo empenho dos que acreditam nessa idéia como um agente transformador da sociedade por facilitar a todos o acesso à cultura. O objetivo do uso do jornal em sala de aula em relação ao professor é ajudá-lo a desenvolver suas atividades pedagógicas, e, em relação ao aluno, é estimular a formação do hábito de leitura.

6- Em linhas gerais, como se deve trabalhar com o jornal em sala de aula?
A ANJ incentiva uma ação independente e criativa das empresas que mantêm o programa para decidir como aproveitar melhor o jornal em sala de aula, de acordo com a proposta que desenvolvem. Assim, cada empresa de comunicação promove periodicamente cursos e oficinas para aprimorar o uso do jornal como instrumento pedagógico em sala de aula. O Subcomitê Jornal na Educação ajuda os jornais nessa atividade, organizando eventos para intercâmbio de idéias e de experiências. É um trabalho integrado, portanto, que envolve a ANJ, os jornais associados e as equipes pedagógicas.

7- Como o professor orienta a leitura? Deve-se selecionar ou direcionar o que os alunos lêem ou pode-se deixar que eles leiam o que interessar?
Os jornais brasileiros associados à ANJ estão conscientes da responsabilidade de aperfeiçoar cada vez mais o conteúdo editorial e têm mantido esforço permanente para promover o treinamento e o aperfeiçoamento de seus profissionais em todas as áreas, mas, especialmente, em redação e, assim, qualificar ainda mais o conteúdo da informação. Esse conteúdo permite ao aluno conhecer a realidade de seu ambiente social, e a escolha do material a ser lido pode ser orientada pelo professor ou espontaneamente sugerida pelo aluno. No momento de selecionar a notícia é que se evidencia a qualidade da informação, o que tanto preocupa os jornais associados à ANJ.

8- Qual é a melhor forma de tratar com os estudantes questões éticas ligadas ao jornalismo, como tendências políticas e linhas editoriais? É interessante deixar que eles mesmos escolham que jornais gostariam de ler?
A ANJ incentiva a leitura por meio do jornal em todos os níveis socioeconômicos porque tem como meta promover o exercício da cidadania, a que todos têm direito. O aluno bem informado forma uma consciência crítica da realidade que o cerca e, por isso, está mais apto a interagir com ela. Cada programa leva o seu jornal à escola, e esta, por sua vez, deve facilitar a entrada de exemplares de outros jornais, da cidade, da região ou de circulação nacional, para que os estudantes conheçam os vários enfoques dados aos fatos publicados e a linha editorial de cada um deles. Os professores são responsáveis pela seleção dos textos, mas isso não representa censura e, sim, uma leitura adequada à capacidade de compreensão do aluno, considerando-se o nível de escolaridade em que este se encontra. Do mesmo modo, o estudante é estimulado a levar para a sala de aula a notícia que lhe despertar interesse.

9- Em outros países, é comum escolas e universidades terem seus próprios jornais, nos quais os alunos são responsáveis por desde as pautas até a diagramação. Por que no Brasil essa prática não é incentivada?
No Brasil, há programas do Jornal na Educação que apresentam nas páginas de seu periódico o resultado dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos participantes. Outros utilizam tablóides para a divulgação, e há também os que têm atividades que simulam a redação de um jornal, nos moldes de um jornal-laboratório, como nos cursos de Jornalismo. Mais uma vez, a questão é respeitar as iniciativas de cada jornal e a estrutura de seu programa.

10- Algumas escolas comentam que existem pais que não vêem com bons olhos o fato de a instituição de ensino trabalhar as notícias do cotidiano que aparecem no jornal com alunos do Ensino Fundamental. Eles parecem querer poupar as crianças do contato com notícias "ruins", como, por exemplo, as de violência. O que você pensa sobre isso?
O professor que usa o conteúdo dos jornais para desenvolver atividades pedagógicas em sala de aula ajuda o estudante a ter uma visão consciente da realidade, despertando e aperfeiçoando nele o senso crítico e a cidadania. A realidade estampada nas páginas dos jornais não é inventada, é aquela vivida pelo aluno e, senão por ele, pela comunidade em que este está situado, seja em sua cidade ou no país. Esconder a realidade, por mais violenta que seja, não impede que ela aconteça, mas resulta na formação de pessoas alienadas que pouco acrescem ao bem-estar de sua comunidade e à evolução do processo social e democrático. O ideal seria modificar a realidade e, não, omiti-la.

11- A Internet pode colaborar para aproximar o estudante do texto jornalístico? Ler jornais e revistas no computador é tão interessante, do ponto de vista pedagógico, quanto o contato com o papel?
A Internet tem na palavra escrita a base da informação, por isso se apresenta como um meio pelo qual o aluno pode interessar-se pela leitura, o que é positivo. Pesquisas bem orientadas, relativas aos componentes curriculares, provocam curiosidade nos estudantes para acessar os sites indicados pelo professor e procurar outros para aprofundar o tema pesquisado. A Internet surgiu como um meio diferenciado de comunicação, mas não chegou a concretizar a temida extinção da palavra escrita e de seu suporte, como o jornal e o livro, porque, assim como na televisão, as imagens dizem muito, mas não são auto-suficientes para eliminar a palavra escrita, que continua firme em sua missão de levar conteúdo àqueles que buscam conhecimento e diversão.

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Por Diogo Dreyer


   


         
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