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Tragédia de São João
Época de festas juninas: muitas guloseimas, quadrilha, fogueira
e fogos. O estudante Gabriel Metzler de Oliveira conta como uma brincadeira
com fogos se transformou em uma grande tragédia e de que forma ele tem
se dedicado a impedir que acidentes como aquele aconteçam com outras
pessoas.
Em junho de 1998, Gabriel Metzler de Oliveira, Tiago Ravanello e mais quatro
amigos resolveram confeccionar uma bomba caseira. Na época, eles tinham
13 anos de idade. Para fazer a bomba, os garotos tiraram os explosivos de 24
foguetes de três tiros e os colocaram em um cano de PVC. Quando eles tentavam
furar o cano para colocar o estopim, a bomba explodiu. O resultado dessa brincadeira
foi a morte de Tiago e a perda parcial da visão de Gabriel.
Depois do acidente, Gabriel ficou sem enxergar durante dois meses e teve de
enfrentar cinco cirurgias. Hoje, ele tem 60% da visão em um dos olhos
e é cego do outro.
Essa tragédia despertou em Gabriel a vontade de mostrar aos jovens o
perigo de manipular explosivos. Para fazer isso, em fevereiro de 1999, juntamente
com amigos e familiares, ele fundou, na cidade de Porto União (SC), o
Grupo Alerta Vida (GAV). Esse grupo orienta os jovens sobre os riscos das brincadeiras
com fogos e bombinhas.
O GAV conta atualmente com 25 voluntários; e mais de 12 mil pessoas
— a maioria dos estados do Paraná e Santa Catarina — já
participaram de suas palestras. O grupo desenvolve campanhas principalmente
no período do ano em que acontecem as festas juninas, quando o número
de acidentes é maior. O trabalho é feito por meio de panfletagem,
cartazes e mensagens divulgadas por rádio, jornal, TV e Internet. Além
disso, o grupo consegue ter um contato mais direto com a comunidade através
de palestras, em que busca conscientizar as pessoas, desde cedo, sobre os perigos
das brincadeiras com fogos.
“Não temos a intenção de proibir as pessoas de soltar
foguetes. Queremos apenas que todos tenham noção do risco que
correm ao mexer com explosivos”, alerta Gabriel. Atualmente, a coordenadora
do GAV é a irmã dele, Marília Metzler de Oliveira, e Gabriel
está cursando Engenharia Civil em Curitiba.
Leia a seguir trechos da entrevista com o estudante:
Como foi o início do GAV?
O grupo iniciou as atividades em fevereiro de 1999, oito meses após a
tragédia. Inicialmente, tivemos a idéia de fazer uma campanha
para prevenir os acidentes com fogos de artifício; entretanto, esse trabalho
acabou transformando-se em algo permanente. Vale lembrar que não nos
unimos com o intuito de proibir o uso de explosivos, mas para conscientizar
as pessoas sobre o perigo que existe em mexer com eles.
Demorou muito para você se recuperar do acidente?
Fiquei dois meses sem enxergar nada e passei por cinco cirurgias — uma
delas foi feita logo após o acidente — para reconstituir o tímpano
e a visão.
Qual era o objetivo de vocês ao fabricar uma bomba?
Tratava-se de uma brincadeira de festa junina. Não tínhamos a
intenção de machucar ninguém ou destruir algo. Mas, infelizmente,
acabou tornando-se uma tragédia.
Como o acidente marcou sua vida?
Procuro tirar dessa tragédia uma lição e transmitir para
outras pessoas, por meio de palavras, essa terrível experiência
— as cirurgias e tudo o que eu e minha família sofremos —
para que ninguém mais tenha de passar por nada parecido para aprender
o risco de brincar com explosivos.
Como é o trabalho do grupo?
Nós damos palestras com auxílio de recursos audiovisuais e contamos
com o apoio do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar e do Exército.
Geralmente, somos convidados para falar em escolas, empresas e prefeituras.
Hoje, participam desse trabalho 25 voluntários.
Você acredita que, se tivesse recebido esse tipo de informação,
teria feito a bomba?
Com certeza, eu não teria feito. Na primeira palestra que fizemos, o
pai do Tiago, o garoto que morreu, disse: “Se meu filho tivesse assistido
a uma palestra como essa, ele estaria conosco hoje”.
O trabalho do grupo está tendo o resultado esperado?
Logo após o acidente, principalmente porque ele aconteceu em uma comunidade
pequena, todos ficaram assustados. Ninguém sabia que os fogos poderiam
ser tão perigosos assim. Nos anos seguintes, percebemos que a quantidade
de acidentes em Porto União (SC) diminuiu bastante, embora não
existam dados oficiais sobre os números — logo no primeiro ano
de campanha, nós fomos aos hospitais e ao Corpo de Bombeiros para saber
sobre isso, mas os acidentes com fogos são classificados como queimaduras
ou amputações.
A legislação brasileira é eficiente com relação
a esse assunto?
Não. Ela é bem falha e data de 1948. Quando tentamos descobrir
quem fiscaliza isso no país, procuramos o Exército, mas, lá,
disseram-nos que é a Polícia. Quando conversamos com a Polícia,
fomos informados de que o Exército é o responsável.
A lei sobre os fogos de artifício, na verdade, apenas limita a idade
do comprador, mas não há fiscalização alguma —
qualquer criança pode comprar fogos. E a lei também não
restringe a quantidade.
As pessoas subestimam o poder dos fogos?
Eu acredito que se trata de falta de informação. Recebemos fitas
com gravações das fábricas de fogos, e as imagens me assustaram
muito. O trabalho todo é manual e é realizado muito rápido,
já que os funcionários recebem de acordo com a quantidade que
produzem. Além disso, tudo é feito sem que haja controle de qualidade
e segurança. Para se ter uma idéia, um perito nos forneceu dados
de um teste minucioso realizado com 100 foguetes produzidos aqui no Brasil,
e 83 deles estavam irregulares.
Vocês já receberam um prêmio da Unesco. Fale um
pouquinho sobre ele.
O grupo já ganhou vários prêmios pelo trabalho de prevenção.
O da Unesco se chama “Sonhadores do Milênio” e reuniu, nos
EUA, representantes de diversos países que se destacam na realização
de trabalhos voluntários. Inicialmente, tivemos que fazer uma redação
sobre nosso projeto, e depois, participamos de um fórum naquele país.
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Por Diogo Dreyer

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