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O Brasil do século XX canta sua história
É possível relacionar música a política ou
a movimentos sociais? Os escritores Luciana Worms e Wellington Costa contam
como uniram música e história do Brasil na obra Brasil Século
XX: ao Pé da Letra da Canção Popular, que deu a eles o
Prêmio Jabuti de Literatura.
Professores de cursinho pré-vestibular, Luciana e Wellington conheceram-se
graças à paixão pela música, principalmente as mais
antigas, dos anos 20 e 30. “Dizem que nos casamos por interesse, para
juntar nossas coleções de discos”, conta Luciana.
Assim que Cultura Popular Brasileira dos anos 50, 60 e 70 passou a constar
no programa das provas de História dos principais vestibulares do país,
os autores começaram a dar palestras sobre esse tema em cursinhos. Em
um primeiro momento, eles acharam que falavam apenas sobre a história
da música brasileira. Mas, depois de um tempo, perceberam que contavam
a história do Brasil e que a música era apenas o pano de fundo.
Foi então que surgiu a idéia de escrever o livro. Depois de sete
anos de pesquisas, a obra concretizou-se e foi vencedora do Prêmio Jabuti
de Literatura na categoria melhor livro didático para Ensino Fundamental
e Médio.
Leia a seguir a entrevista com Luciana Worms.
O livro foi inspirado em algum trabalho feito em sala de aula?
A gente sempre usa a música em sala. Quando eu dou uma aula sobre a Revolução
dos Cravos Vermelhos, por exemplo, comento sobre as músicas que Chico
Buarque fez em homenagem a esse acontecimento e sobre o contexto histórico
no Brasil e em Portugal. Nas aulas em que falo de Angola, cito Morena de
Angola. E o Wellington, nas aulas sobre interpretação de
texto ou intertextualidade, mostra, por exemplo, Dom de iludir, de
Caetano Veloso, que é uma resposta a Pra que mentir. A gente
está sempre trabalhando isso em sala.
No livro, vocês traçaram um panorama do século
XX, que foi dividido em cinco períodos. Por que optaram por essa organização?
Isso foi um problema... Poderíamos ter divido 100 anos em quatro
capítulos de 25 anos ou em cinco capítulos de 20. A estética
apareceu na divisão dos capítulos. Mas como a estética
é, o tempo todo, subordinada à história, falta bastante
gente no livro (por isso, pedimos perdão a essas pessoas praticamente
no livro inteiro). Não falamos, por exemplo, de Nelson Gonçalves,
apesar de o amarmos de paixão, porque as músicas que fazem parte
do livro tiveram de apresentar pertinência histórica.
Que marcos históricos vocês consideraram para fazer essa
divisão?
No capítulo “Maldito Violão”, o centro histórico
é a Revolução de 30. O capítulo vai do início
do século XX à renúncia de Getúlio Vargas em 45.
Nesse período, quem estivesse portando violão poderia ser preso,
e a temática preferencial era o “malandro”. A capital do
Brasil era o Rio, e a figura da urbanidade era o malandro, independentemente
de ele ser carioca ou não. No segundo capítulo, que trata do período
pós-Segunda Guerra Mundial, em um primeiro momento, tem-se o chamado
pré-bossa nova — que traz todo o sofrimento e a amargura da guerra
—, em que as músicas são do tipo “ninguém me
ama, ninguém me quer”... Mas o contexto histórico é
o governo Juscelino Kubitschek, ou seja, os chamados “anos dourados”,
um momento em que era bom viver no Brasil, pois vivíamos a democracia.
E a música também foi bastante tranqüila: era a bossa nova
cantando Pato, Barquinho, Minha namorada, e o violão havia se
tornado um instrumento obrigatório. O terceiro capítulo, “Maldita
Guitarra”, é longo: vai da renúncia de Jânio Quadros
até a Anistia, quando os exilados puderam voltar — aí, surgiu
o pluripartidarismo. Na primeira parte desse capítulo, a música
brasileira aparece divida em três cenários que, de certa forma,
originaram-se da bossa nova. O primeiro é o que chamamos de “não”
e diz respeito à música de protesto. O segundo é o “sim”
e se refere à jovem guarda. No meio do caminho, está o que chamamos
no livro de “muito pelo contrário”, que é o pessoal
do tropicalismo: Caetano Veloso, Tom Zé, Os Mutantes, Rogério
Duprat, entre outros. Nesse momento, retoma-se a linha evolutiva da bossa nova,
uma vez que eles usam tudo que existe na música brasileira. No quarto
capítulo, “Bendita Guitarra”, tratamos do período
em que o Brasil vive a transição da ditadura para a possível
democracia — que vai até a eleição de Collor. A música
tema desse período é Brasil, de Cazuza. O último
capítulo narra as duas eleições de Fernando Henrique, e
a linguagem utilizada é rápida como a de um videoclipe. Esse capítulo
fala do “supermercado musical”, da Internet, da globalização,
da questão fundiária e da aids. Musicalmente, fala dos movimentos
sertanejo e axé, das bandas de pagode e de bons nomes, como Zeca Baleiro,
Cássia Eller e Lenine.
Hoje, como é o panorama da música popular?
Nós achamos que o panorama é muito bom, pois há muitos
artistas competentes que começaram sua carreira em meados dos anos 90,
como Lenine, Chico César, Zeca Baleiro e outros que já citamos.
Eles são muito criativos e fazem um trabalho de resgate. Aliás,
hoje, “o novo” é resgatar o que já existe. Quem faz
isso muito bem é Tereza Cristina. Nós também gostamos bastante
da garotada do rock, como Pato Fu e Skank.
O que vocês entendem por canção popular?
A discussão sobre o que é música popular é longa!
Em todos os cantos, há autores que negam o termo “popular”.
Mas o “popularzão” também surgiu como música
contestadora. A música de Odair José Pare de tomar a pílula,
que era o cúmulo do brega, foi feita na época em que o governo
começou a incentivar a esterilização das mulheres, ou seja,
ela tinha um porquê. A música popular transcende a música
brasileira. Muita gente diz que o rock dos anos 80 não é música
popular brasileira. Mas ele é música feita por brasileiros, só
que com diferentes influências.
No fechamento do projeto “Um gostinho de MPB”, tivemos
a oportunidade de assistir a uma palestra “cantada”, feita por vocês
e de ver alunos do Ensino Médio cantando antigas canções
de Chico Buarque, Caetano Veloso e outros nomes pouco conhecidos pelos jovens.
O que devemos fazer para conseguir fazer os jovens se interessarem pela MPB?
Se você mostrar aos jovens o lado “legal” desse tipo de música,
eles vão querer ouvi-la. Também temos respeito pelo que eles ouvem.
Muitos pais vêm nos agradecer porque seus filhos estão ouvindo
as mesmas músicas que eles. Seja por causa do livro, seja porque não
é o pai que está falando, mas, sim, o professor cabeludo que entra
na sala e começa a falar de Ataulfo Alves e Orlando Silva, o aluno começa
achar que aquilo é importante mesmo. É claro que ele não
deve deixar de ouvir as músicas atuais, mas também pode apresentar
a seu pai o Gabriel, O Pensador, por exemplo. Quando os jovens percebem que
aquilo de que gostam tem alguma ligação com o passado e que Renato
Russo e Cazuza têm tudo a ver com a música dos anos 50, como a
de Dolores Duran, passam a se interessar pelas músicas mais antigas.
As aulas de História baseadas na pedagogia tradicional eram
marcadas pela “decoreba”. O currículo e a metodologia não
despertavam o interesse dos alunos. Vocês acreditam que isso está
mudando?
Os novos vestibulares apontam para a falta de necessidade de decorar as coisas,
o que é muito importante. A universidade espera que o aluno tenha repertório
para ser um universitário, e nosso livro mostra isso. O aluno precisa
entender que determinada música fala de determinada época. Aí,
ele passa a perceber as coisas, sem precisar decorar. Uma música que
aparece bastante nos exames se chama Bonde de São Januário,
dos anos 40, de Wilson Batista e Ataulfo Alves. Geralmente, pergunta-se o seguinte:
por que mudaram a letra? Antes, era O bonde de São Januário
leva mais um sócio otário e sou eu que vou trabalhar; depois,
mudaram para O bonde de São Januário leva mais um operário
e sou eu que vou trabalhar. Podem surgir mil perguntas sobre isso ou questões
de interpretação de texto, como: “O sócio otário
mudou para operário. O que mudou?” (Bom, mudou tudo! O que antes
era uma ironia tornou-se uma louvação); “Qual é o
contexto histórico?” (O Estado Novo, o Brasil de Getúlio
Vargas, e foram a Polícia Especial e o Departamento de Imprensa e Propaganda
que “sugeriram”, não com muita doçura, a mudança
da letra. E se os autores não fizessem isso, seriam torturados). Trabalhando
dessa forma, temos visto bons resultados. Muitos pais relatam: “Meu filho
está ouvindo o que eu gosto, e a gente pode sentar e conversar”.
O que representou para vocês a conquista do Prêmio Jabuti?
Parece que ainda “não caiu a ficha”! Quando ficamos entre
os dez, já estávamos insuportáveis... entre os três,
pensávamos “já ganhamos”! No momento em que anunciaram
que havíamos vencido, foi inacreditável, é uma conquista
muito legal. E o melhor é que outro finalista é um grande amigo
nosso, a quem a gente agradece no livro e, no livro dele, ele agradece a nós
também. Outro momento especial foi comemorar com os amigos... foi uma
superfesta! Temos certeza de que eles ficaram felizes por nós da mesma
forma como ficaríamos por eles.
Os leitores podem esperar novas obras?
Nós já temos vários projetos que surgiram por causa desse
nosso gosto por música e História. Pensamos em escrever um romance
que una a minha história e a do Wellington, contando sobre alguns momentos
reais e outros não. Outro projeto é trabalhar com a influência
da música africana no Brasil e nos EUA: o que o negro escreveu acabou
originando, lá, o jazz e, aqui, o samba.
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Por Gizáh Szewczak

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