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A primeira epidemia mundial do século XXI
Alerta! Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS),
a síndrome respiratória aguda grave (Sars, sigla em inglês)
já atingiu a marca de 8 mil casos em 28 países. Mas, de acordo com
o coordenador da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Fernando
Barros, há poucas chances de o Brasil ser afetado pela epidemia.
Muito se tem falado nos últimos meses sobre a Sars (severe acute
respiratory syndrome), a síndrome respiratória aguda grave,
que tem causado muita preocupação em países da Ásia
e já é motivo para a aplicação de pena de morte
na China. Mas quais são as chances de essa epidemia chegar ao Brasil?
O portal ouviu o coordenador da Área de Prevenção e Controle
de Doenças de Transmissão Respiratória da Fundação
Nacional de Saúde (Funasa), Fernando Barros. Ele afirmou que é
quase impossível impedir que alguma pessoa infectada entre no país
e que, mesmo que isso aconteça, as chances de que a doença se
espalhe são poucas. “A experiência internacional demonstra
que, com medidas relativamente simples, como detectar precocemente a doença
e isolar o indivíduo infectado, é possível conter a disseminação
da doença”, diz Barros.
A Sars apareceu pela primeira vez em 2002, na província de Guangdong,
na China; contudo, só começou a ser registrada a partir de 16
de fevereiro deste ano pela Organização Mundial de Saúde
(OMS). A doença acabou se espalhando rapidamente pela Ásia, Oceania,
Europa e América do Norte e já foi registrada na Alemanha, Suécia,
EUA, Kuwait e até no Brasil.
A síndrome ataca os pulmões e, em alguns casos, o aparelho digestivo.
O primeiro sintoma é febre acima de 38 graus acompanhada de calafrios
e dores de cabeça e musculares. Após três a sete dias, a
doença progride, comprometendo as vias respiratórias e causando
tosse seca e dificuldade de respirar. Raramente, ocorre também diarréia.
A causa da doença é um novo vírus, da família Coronaviridae,
que causa graves enfermidades em animais e, até então, provocava
nos seres humanos apenas resfriados. A identificação da Sars foi
feita por um trabalho conjunto dos 13 laboratórios da rede mundial da
OMS — que agora faz estudos para o desenvolvimento de métodos de
diagnóstico e de tratamento e de uma vacina contra a doença.
O contágio se dá como o da gripe comum: por meio do contato com
a saliva e outras secreções de pessoas infectadas. Para se proteger,
deve-se evitar lugares fechados e com muita gente e, quando for necessário
ter contato com uma pessoa contaminada, usar máscara e luvas cirúrgicas.
Leia a seguir trechos da entrevista com o coordenador Fernando Barros.
Qual é o risco de haver uma epidemia de Sars no Brasil?
Hoje, não se consegue evitar, em nenhum lugar do mundo, a introdução
de um agente infeccioso. Se pensarmos na rapidez dos meios de transporte —
que permitem às pessoas saírem de um lado do mundo e, 24 horas
depois, chegarem ao lado oposto —, veremos que a possibilidade de introdução
de qualquer agente infeccioso é muito grande. Com relação
à Sars, especificamente, o risco de que ela se torne uma epidemia no
país ainda é muito pequeno. A experiência internacional
tem demonstrado até agora que, com medidas relativamente simples (detectar
precocemente a doença, isolar o indivíduo contaminado e trabalhar
adequadamente as formas de contato), é possível conter a disseminação
da doença. Atualmente, 28 países já foram atingidos pela
síndrome, totalizando quase oito mil casos, e 93% deles estão
na China. Essa epidemia em nível mundial está acontecendo desde
fevereiro deste ano, e todos os outros países afetados têm conseguido
contê-la tomando esse tipo de medida.
Como está sendo feita a prevenção da Sars no Brasil?
Para que possamos “vigiar” a síndrome aguda no Brasil, em
primeiro lugar, procuramos detectar precocemente qualquer caso que chegue ao
país; em segundo lugar, na suspeita de ocorrência de Sars, fazemos
o isolamento da pessoa possivelmente infectada para evitar a disseminação
da doença.
Como estão os casos não-confirmados da doença
no país?
Até hoje, nós já investigamos 39 possíveis casos
da doença e, destes, somente dois estão praticamente comprovados
— são aqueles a que a imprensa deu grande divulgação:
o da jornalista inglesa e o do menino de Sorocaba. Os outros 37 casos já
foram descartados. Houve uma pronta ação da Vigilância das
Secretarias Estaduais de Saúde nos locais onde essas ocorrências
apareceram e, por meio dessa investigação, descartaram-se algumas
delas, pois os exames laboratoriais indicaram que se tratava de outros agentes
infecciosos.
Mesmo sem haver comprovação laboratorial, podemos dizer
que o Brasil está livre da Sars?
Até este momento, sim, uma vez que há somente dois casos prováveis;
os outros já foram investigados e descartados.
Por que a OMS colocou o Brasil na lista dos países que já
tiveram casos da Sars? Quais seriam esses casos?
Isso aconteceu por causa das duas ocorrências prováveis —
a da jornalista inglesa e a do menino de Sorocaba —, que apresentam evidências
clínicas e epidemiológicas. O exame laboratorial que foi usado
não tem poder suficiente para descartar esses casos. Se o exame dá
positivo, é porque certamente trata-se da síndrome, mas, se ele
apresenta resultado negativo, isso não quer dizer que o indivíduo
não tenha tido a doença. O diagnóstico da síndrome
respiratória aguda grave ainda tem sido predominantemente clínico,
ou seja, tem se baseado na evolução do caso, no histórico
epidemiológico e na exclusão de outras hipóteses e diagnósticos.
Quando se detecta a ocorrência de determinada doença respiratória,
e o indivíduo contaminado tem uma história, disposição
ou teve uma possível exposição ao vírus da síndrome,
faz-se uma investigação etiológica, especialmente para
verificar se esse sujeito não apresenta outros agentes infecciosos conhecidos.
À medida que se afastam esses agentes infecciosos e que a evolução
clínica sugere que realmente é uma pneumonia atípica, mesmo
que o resultado do exame tenha sido negativo, não se tem condição
de dizer que realmente não se trata da doença.
Os hospitais brasileiros estão preparados para tratar de casos
de Sars?
Nós solicitamos de cada Secretaria de Saúde Estadual a indicação
de pelo menos um hospital de referência para o atendimento desse tipo
de caso. Na medida em que isso começou a se estruturar, essas secretarias,
com o apoio do Ministério da Saúde, têm cuidado para que
essas instituições tenham condições adequadas de
lidar com a doença. Todos os hospitais que estão na lista que
aparece no site da Funasa têm condições de fazer o isolamento
adequado desses pacientes.
A síndrome respiratória aguda grave é favorecida
pelo frio?
Na verdade, hoje não temos elementos para afirmar isso porque, no caso
das doenças respiratórias, o frio pode favorecer a transmissão
de agentes infecciosos por via respiratória, já que as pessoas
ficam mais confinadas. Entretanto, em relação à síndrome
especificamente, como se trata de um vírus novo e cujo comportamento
epidemiológico está sendo estudado, ainda não se pode afirmar
que o frio favorece a síndrome respiratória aguda grave.
Quando se suspeita de que alguém está contaminado com
a Sars, essa pessoa pode continuar tendo uma vida normal sem que haja o risco
de transmitir a doença?
Sim, mas somente depois que os critérios clínicos tenham sido
avaliados. A pessoa deve ficar, no mínimo, dez dias isolada e, se a evolução
clínica for favorável, com redução do quadro de
dificuldades respiratórias, ela pode ter alta. Foi o que aconteceu com
esses dois casos que ocorreram no Brasil: os pacientes se recuperaram totalmente.
Em caso de suspeita, quais são os passos que são dados
pela Funasa para descartar ou não a hipótese de se tratar de pneumonia
atípica?
Primeiramente, isola-se imediatamente a pessoa possivelmente contaminada, em
ambiente hospitalar. Depois, desenvolve-se um manejo clínico, com protocolos,
para que se façam os exames para as etiologias conhecidas de infecções
respiratórias baixas. Se o resultado deles for negativo, é a evolução
clínica que vai dizer realmente se é ou não um caso de
pneumonia atípica. Como demora em se ter o resultado desses exames, normalmente
o indivíduo fica bastante tempo no hospital, aguardando. A liberação
é feita em função da melhora clínica e do resultado
dos exames.
Nos países que sofrem com a epidemia, várias pessoas
estão utilizando máscaras para evitar que sejam infectadas. Esse
recurso é realmente eficaz?
Existe um tipo de máscara, que tecnicamente chamamos de N95, que nós
estamos recomendando para os profissionais de saúde no Brasil (especialmente
aqueles que precisam lidar com pacientes suspeitos), pois elas são bastante
seguras. Em países que têm uma comunidade importante de transmissão,
como Hong Kong, uma quantidade imensa de pessoas está usado máscaras
comuns, que limitam, mas não impedem o contágio.
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Por Gizáh Szewczak

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