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Mulher e humanista
Zilda Arns é um exemplo de liderança e determinação. Ela é fundadora e coordenadora
nacional da Pastoral da Criança, e suas ações ajudam a salvar milhares de crianças
todos os anos, até mesmo fora do Brasil.
Sai ano, entra ano e, na época do Dia Internacional da Mulher, comemorado
no dia 8 de março, sempre vem à tona a discussão dos direitos
e conquistas do sexo feminino. Por vezes, somos levados a crer que essas conquistas
e discussões são recentes, mas exemplos de grandes mulheres provam
o contrário. Médica pediatra e sanitarista, a doutora Zilda Arns
Neumann é um deles. Sua história se confunde com a da Pastoral
da Criança, uma das mais importantes e reconhecidas ONGs brasileiras,
que por meio do acompanhamento de crianças e gestantes ajudou a diminuir
a mortalidade infantil em todo o país. Nascida em 1934, em Santa Catarina,
até hoje Zilda Arns guarda o sotaque alemão típico daquela
região.
Indicada no ano passado ao Prêmio Nobel da Paz (será novamente
este ano), a doutora Zilda, ou dona Zilda — como é chamada em algumas
comunidades —, é uma líder nata, que inspira tranqüilidade,
firmeza e doçura. Viúva, ela tem cinco filhos, oito netos e é
irmã de algumas das maiores personalidades da vida religiosa brasileira:
dom Paulo Evaristo Arns e dom Crisóstomo.
E foi junto com o irmão dom Paulo que, em 1982, ela teve a idéia
de que a Igreja poderia ajudar a reverter a situação da mortalidade
infantil no Brasil. Em pouco tempo e com o apoio da Unicef, nascia a Pastoral
da Criança, no município de Florestópolis, no Paraná,
onde o índice de mortalidade chegava a 127 mortes a cada mil crianças
nascidas vivas. Rapidamente, a Pastoral conseguiu ótimos resultados,
reduzindo a mortalidade infantil para 28 por mil após um ano de atividades.
E com o apoio da Igreja Católica, foi levada a todos os 27 estados do
país.
Hoje, Zilda coordena aproximadamente 155 mil voluntários, presentes
em 32.743 comunidades dentro de bolsões de pobreza e miséria de
3.555 municípios brasileiros. Em 2001, a Pastoral registrou uma taxa
de mortalidade infantil inferior a 13 mortes para cada mil crianças nascidas
vivas. Só para se ter uma idéia da importância desse índice,
a média nacional de mortalidade infantil no país é de 34,6
óbitos por mil crianças nascidas vivas, segundo o Unicef.
Leia a seguir a entrevista com Zilda Arns, que fala sobre sua luta diária
para salvar crianças e sobre as dificuldades que a mulher enfrenta no
Brasil.
O fato de você ser mulher alguma vez representou dificuldade no mercado
de trabalho ou até mesmo no seu trabalho na Pastoral?
Eu sempre procurei me sentir muito livre, nunca pensando que a questão
da diferença de sexo pudesse ser um obstáculo e nunca fui discriminada
por ser mulher. Quando eu estava no colégio, sempre ganhava dos rapazes
nas brincadeiras. Mas creio que, no âmbito profissional, o fato de eu
ser mulher fez com que as pessoas demorassem a descobrir o bom trabalho que
eu fazia antes de iniciar a Pastoral. Quando eu trabalhava na Secretaria de
Saúde de Curitiba, talvez pudessem ter me convidado para assumir um cargo
mais elevado ou uma função mais importante. Talvez os homens tenham
um pouco de limitação para descobrir a capacidade das mulheres
(risos).
Cerca de 90% dos voluntários da Pastoral são mulheres. A que
se deve essa maioria feminina?
Acho que o principal motivo é o fato de a mulher ser mais afoita. Quando
ela acredita numa causa, não fica pensando: “será que isso
vai mesmo dar certo?”. Ela se joga de cabeça, assume os riscos
e acredita que dará certo. Já o homem fica em cima do muro e,
se as coisas dão certo, ele acaba entrando também. Cientificamente,
a mulher tem uma inteligência difusa mais desenvolvida. Ela enxerga um
horizonte mais amplo. Na Pastoral, sempre encontramos exemplos de homens da
comunidade que questionam a validade de sua esposa estar trabalhando como voluntária
quando deveria estar trabalhando, segundo eles, para conseguir mais dinheiro
para a família. Mas a resposta dessas mulheres é: “Você
não vê que hoje eu sou uma doutora, que aprendo muitas coisas maravilhosas
e sou respeitada na comunidade?”. O marido muitas vezes só vê
o dinheiro, mas a mulher enxerga mais coisas a serem ganhas.
Existe algum preconceito dos homens em fazer parte desse tipo de iniciativa?
Como a Pastoral trabalha muito com gestantes e aleitamento materno, culturalmente
é mais aceito que mulheres façam esse trabalho. Mas hoje já
existem muitos homens envolvendo-se diretamente nesse esforço.
Essa maioria feminina é mais visível nas classes mais carentes
ou em meio a todos os tipos de voluntários que trabalham com a Pastoral
(dentistas, professores, etc.)?
Em toda parte temos mais voluntárias. Mas, principalmente nas equipes
de coordenação, tenho percebido a adesão de muitos casais,
o que é muito salutar para o relacionamento familiar, pois não
relega ao homem apenas um papel secundário na Pastoral. Além disso,
o voluntário traz consigo aquele sentimento de dever cumprido, de botar
a mão na massa e não ficar apenas esperando o governo fazer.
Quanto aos outros profissionais que nos auxiliam, para se ter uma idéia,
as professoras foram as que mais me ajudaram a implantar a Pastoral no país.
Logo que elas tomam conhecimento dos projetos, conseguem ver grandes benefícios
e abrem as portas da comunidade para essas mudanças.
Isso acontece também nos outros países em que a Pastoral está
presente?
É quase a mesma coisa. Estive recentemente em Angola, e uma coisa que
chama a atenção é que lá temos mais participação
masculina do que no Brasil, apesar de mais da metade dos voluntários
ser mulher.
E por falar nisso, como anda a expansão da Pastoral fora do Brasil?
Tenho tido ótimas notícias de Angola, onde começamos com
17 mulheres em 1987 e hoje, só no porto de Lubito, de onde eram mandados
os escravos para o Brasil, mais de 800 líderes comunitários trabalham
com mais de 4 mil crianças e gestantes. Depois de 25 anos de guerra civil,
a Pastoral está sendo muito boa para esse povo, pois ele pode sentir
algo que pode ser feito por ele mesmo. Em Angola, não existe sequer coleta
de lixo, e estamos dando o exemplo de coleta e separação do lixo
e de como enterrar o que não é reaproveitável.
A Pastoral tem crescido muito no Timor Leste, Filipinas, Moçambique,
Paraguai — que está bem avançado, com mais de 8 mil crianças
—, Colômbia, Bolívia, Venezuela...
Vocês já tiveram problemas para implantar os projetos da Pastoral
em países onde a religião predominante não é a católica?
Em 20 anos, nunca tivemos resistência de religião alguma e nenhuma
comunidade religiosa se queixou da Pastoral da Criança. Quanto mais elas
se envolvem, mas gostam de trabalhar com a Pastoral. Já no começo,
ainda em Florestópolis, fiz questão de envolver representantes
das três outras religiões que havia na cidade. E é isso
que acontece nos outros países. Estive em Guiné-Bissau, que tem
maioria islâmica, e lá vi que eles cantavam a receita do soro caseiro
que, naturalmente, era cantada na religião e da maneira deles. E fiquei
comovida em ver líderes muçulmanos tão envolvidos com os
nossos projetos. A Pastoral inverte a idéia de que é sempre o
médico que cuida das pessoas e dá autonomia para que a família
previna doenças. Isso integra todos de maneira muito fácil.
Você esperava que a Pastoral fosse tão longe assim?
Naturalmente, eu tinha certeza desde o início, como pediatra e sanitarista,
de que um projeto como esse seria essencial para ensinar as mães a cuidar
dos filhos. Sempre percebia que elas tinham filhos doentes porque erravam. Quando
se inicia algo que vai ao encontro de uma necessidade, a perspectiva de sucesso
é maior. E isso não tem fronteiras.
Além do combate à desnutrição e à mortalidade
infantil, a Pastoral se preocupa também com outro assunto que anda muito
em pauta ultimamente: a paz. Como funciona a campanha “A Paz Começa
no Lar”?
Além disso que você citou, trabalhamos com alfabetização,
que é um fator importante na campanha para a paz. Ela começa com
a educação das crianças, trabalhando a auto-estima das
líderes, com reuniões de reflexão na comunidade. Ensinamos
as líderes a ouvir as famílias e identificar sinais de violência
dentro de casa. O fato de elas visitarem mais de 1 milhão de famílias
todos os meses no Brasil inteiro cria um vínculo para que as famílias
tenham com quem falar, discutir suas idéias e apresentar seus problemas.
Recentemente, a Pastoral foi indicada para o Prêmio das Crianças
do Mundo e, no ano passado, até ao Prêmio Nobel da Paz. O reconhecimento
interno é tão grande quanto o externo?
Neste ano, seremos indicados novamente ao Prêmio Nobel da Paz, mas o lançamento
oficial ocorrerá no final do mês de março. Para se ter idéia
do que já conseguimos, a Pastoral influi muito inclusive em políticas
públicas, como no Conselho Nacional de Saúde, em que houve uma
mudança de modelo, de centralizado para descentralizado. Outras contribuições
boas foram para o Sistema Único de Saúde, trazendo uma melhoria
em prevenção nos últimos dez anos. E também o projeto
“Médico da Família” foi espelhado na Pastoral da Criança.
E em nível de público?
Acho que está bem, mas acredito que ainda precisamos melhorar. Por exemplo:
poderia haver mais estudantes trabalhando com a Pastoral de alguma forma, alfabetizando
ou ajudando no Dia do Peso. Estudantes de Direito poderiam auxiliar em pequenas
causas, e os de Arquitetura e Urbanismo, ajudar a reordenar as favelas, visitando
as comunidades e vendo o que precisa ser feito. A responsabilidade social tem
de ser bem planejada para que os alunos gostem e para que se tornem verdadeiras
lições de vida. No ano passado, a ONU, na Cúpula para a
Infância e Adolescência, sugeriu que as escolas dessem ênfase
tanto à Matemática quanto às lições de cidadania
e voluntariado para que, desde pequeno, o estudante receba uma formação
mais humana e responsável.
Você tem anos de prática no combate à desnutrição.
Com base nessa experiência, você acredita que o Programa Fome Zero
do governo federal é eficaz?
Considero primeiramente que o maior problema do Brasil não é a
fome, mas, sim, a miséria e a pobreza. Dar cesta básica não
erradica a fome nem a miséria. Esse tipo de ação sacia
momentaneamente a fome. Acredito que isso, aliado a medidas estruturais, como
dar a essas comunidades saneamento básico, boas escolas, oportunidades
de lazer e trabalho, é o que realmente fará a diferença.
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Por Diogo Dreyer

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