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Esther Hamburger é antropóloga, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP), crítica de TV e editora da revista Trópico.



 

Televisão com conteúdo

Reality shows, horário eleitoral, novelas. Quando se pensa em TV, vem à mente o que é próprio e o que é impróprio para os telespectadores mirins. Mas, para a professora Esther Hamburger, da Escola de Comunicação e Artes da USP, a televisão não é um monstro e, se bem utilizada, pode se transformar em uma ótima ferramenta para a educação.

A televisão foi trazida para o Brasil na década de 50. De lá para cá, sua tecnologia e abrangência fizeram dela um dos principais meios de comunicação do Brasil (sem falar no resto do mundo), que é o quarto país do planeta onde mais se vende o aparelho. Os sinais das emissoras atingem 99% de nosso território. Mas, sempre que se fala em TV, as pessoas se vêem às voltas com uma discussão tão velha quanto esse meio de comunicação: a qualidade do conteúdo transmitido.

Para Esther Hamburger, crítica de TV e professora de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, a TV não é esse monstro que muita gente pinta, pois reserva espaço tanto para o conteúdo comercial quanto para o educacional na grade de programação das emissoras. “As pessoas estão interessadas em crescer intelectualmente e vão prestigiar uma programação que as desafie nesse sentido”, justifica a professora.

A professora, que também é antropóloga, colunista do jornal Folha de S.Paulo e editora da revista Trópico, diz que cabe à família e à escola julgar programas que certamente podem ser desconstruídos em sala de aula, “separando o joio do trigo”. “Acredito que deveria haver uma disciplina obrigatória no currículo escolar que visasse a algo como uma ‘alfabetização audiovisual’ e que incluísse teoria e prática”, afirma.

Reality Shows

Olhos grudados na telinha para ver a intimidade de pessoas desconhecidas. Algumas emissoras prometiam até 24 horas de cobertura direta para que os telespectadores acompanhassem os “competidores”. Mesmo não sendo novidade no país, a onda dos reality shows ressuscitou a preocupação com as imagens a que estamos expostos — principalmente as crianças —, incitando apaixonadas discussões que envolveram governo, sociedade civil e até grupos religiosos. “Acredito que os reality shows são um fenômeno que já estimulou mudanças na programação televisiva e pode continuar a fazê-lo”, afirma Esther Hamburger. “Mas não sei se o problema com esses programas é de invasão de privacidade, uma vez que todos sabem que há câmeras espalhadas que atuam 24 horas por dia. Nesse contexto, é possível falar de intimidade?”, questiona a professora.

Ela diz que o que atrai as pessoas para os reality shows é que, em programas assim, os espectadores rompem o limite que costuma separá-los dos bastidores do mundo das representações. Eles se projetam nos cidadãos-atores-personagens e é como se entrassem na tela para interpretar seus dramas pessoais em cadeia nacional.

Leia trechos da entrevista com a professora Esther Hamburger.

Na sua opinião, qual é, atualmente, o papel da televisão na educação da criança brasileira? Como a TV pode ser usada na sala de aula?
A TV, queira ou não, ensina muita coisa, porque as pessoas não aprendem exclusivamente nas instituições que formalmente se definem como educativas. O processo de aprendizagem é mais amplo e escapa ao controle dos profissionais da educação. A forma de interferir nesse processo é justamente trazer o material televisivo que fascina em casa para a sala de aula.

É possível almejar uma grade de programação que contemple o conteúdo comercial e educacional da TV?
Claro. Acho que os conteúdos comercial e educacional não são necessariamente contraditórios porque as pessoas estão interessadas em crescer intelectualmente e vão prestigiar uma programação que as desafie nesse sentido.

E a democracia tecnológica? Ela é possível num país como o Brasil?
Por que não? Há que se pensar em como seria essa democracia tecnológica concretamente. Talvez o Brasil, que começa a ter uma democracia institucional, ainda bem limitada do ponto de vista social, possa, justamente por isso, experimentar uma democracia tecnológica.

A qualidade da programação avança da mesma maneira que as tecnologias ou são os avanços tecnológicos que vão permitir ao telespectador ter mais controle sobre o conteúdo a que ele assiste?
A tecnologia cria possibilidades que nem sempre são exploradas. Por exemplo: a Internet é interativa, mas os provedores impedem o acesso de pessoas que não são assinantes. Então, embora a tecnologia permita um maior controle democrático, a organização econômica e institucional limita esse acesso.

Aparentemente, tivemos uma melhora de qualidade nos programas eleitorais gratuitos desse ano, com um menor número de “baixarias”. Isso quer dizer que o público do Brasil está mais crítico? O brasileiro já é maduro em questão de programação?
Acho que os programas eleitorais foram muito pouco elucidativos. Os candidatos não “caíram na baixaria” da fofoca pessoal, mas também não explicaram muito “a que vieram”. As campanhas se dedicaram a descobrir e veicular o que os eleitores queriam ouvir, sem a pretensão de debater ou convencê-los de suas propostas.
O público brasileiro é muito crítico. Tem larga experiência com a mídia e, nesse sentido, é muito maduro. Quem ainda não amadureceu a necessidade de interação, ou interlocução, em vez de simplesmente emissão, são os políticos e/ou publicitários encarregados das campanhas.

Por outro lado, o Paraná teve como deputado estadual mais votado o filho do apresentador Ratinho, de apenas 21 anos. Qual o verdadeiro poder que a televisão e seus mitos midiáticos exercem sobre a camada da população que assiste a programas como o desse apresentador?
Antes de qualquer coisa, figuras midiáticas são conhecidas do público, o que, na situação de coincidência eleitoral e atenção concentrada nas eleições para cargos majoritários, é uma enorme vantagem. Não acho surpreendente que o filho do Ratinho tenha sido bem votado — ele é uma pessoa sobre a qual o eleitorado tem informação e, nesse sentido, destaca-se da maioria dos candidatos. É esse também o caso do Prona em São Paulo. A atuação teatral de Enéas e Havanir garantiu diferenciação do partido na figura de seus principais candidatos. Nesse caso, valeu impostação de voz e radicalismo verbal basicamente.

Como pais e professores devem tratar com filhos e alunos a questão do sexo na TV (presente nas propagandas, novelas e programas de auditório)? A saída seria não permitir que as crianças e adolescentes assistam a determinados programas ou existe alguma forma de a escola e a família aproveitarem essas situações para educar?
Eu acho que sempre há como aproveitá-las, embora acredite também que alguns programas — entre eles, novelas e, talvez, telejornais, por causa da violência — não são adequados para crianças pequenas. Na minha opinião, em hipótese alguma eles devem ser censurados. Cabe à família e à escola julgar programas que certamente podem ser desconstruídos em sala de aula. Acho que deveria haver uma disciplina obrigatória no currículo escolar que visasse a algo como uma “alfabetização audiovisual” e que incluísse teoria e prática.

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Por Diogo Dreyer


   


         
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