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Ricardo Azevedo, 52, é escritor, ilustrador e pesquisador. É autor, entre outros, do premiado livro Um Homem no Sótão. Atualmente, faz parte do projeto Fura-Bolo, que tem como objetivo a formação de crianças leitoras na comunidade carente.



Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões, p. 11 - Projeto - 2000 - nanquim

Aviãozinho de papel, p. 6 - Companhia das Letrinhas - 1994 - aquarela

O livro dos sentidos, p. 78 - Ática 2000 - aquarela


 

O patrimônio insubstituível da leitura

Para o escritor de livros infantis Ricardo Azevedo, a leitura nada deve para outras mídias como a televisão e o computador. Segundo ele, que utiliza o folclore como ponto de partida para sua literatura, todas elas têm sua importância, cabendo à escola ensinar onde cada uma delas se encaixa na vida das crianças.

Televisão, computador, Internet, videogames... Como fazer com que as crianças encontrem tempo e interesse para a leitura com todas as inovações que a vida moderna oferece? Para o escritor e ilustrador paulista Ricardo Azevedo, o problema não está em fazer ler e, sim, em mostrar para as crianças o verdadeiro papel e a importância da literatura. “A leitura é um patrimônio completamente insubstituível. O que acontece é que muitas escolas ainda confundem livros didáticos com literatura, então, a criança fica achando que todo livro tem necessariamente uma lição que ela precisa aprender”, aponta o autor.

Para Azevedo, a concorrência entre literatura e qualquer outra mídia não existe. “Nada impede que uma pessoa goste de cinema e também goste de literatura. Aliás, as pessoas que eu conheço que realmente gostam de cinema são, em geral, ótimas leitoras”, completa. Ele diz ainda que as escolas erram feio ao tentar “instrumentalizar” a literatura, o que acaba tornando a leitura uma coisa chata. “A criança não aprende que existem livros diferentes, livros com os quais ela pode se emocionar, se identificar, sonhar, se escangalhar de dar risada, chorar e até especular sobre sua própria existência. Na minha visão, enquanto essa confusão persistir, a gente não vai conseguir formar leitores, nunca”, ressalta.

Azevedo, 52, cresceu em uma casa onde ler e escrever livros era uma prática, já que o pai, geógrafo, foi autor de diversas obras. Aprendeu desde cedo, portanto, a importância da literatura. Escreveu seu primeiro texto para crianças — que mais tarde acabou se transformando num de seus livros mais premiados, Um Homem no Sótão — com aproximadamente 17 anos.

Ricardo Azevedo é autor de mais de 90 livros para crianças e jovens em que o folclore é a palavra-chave. O escritor aponta a maneira como o tema é tratado nas escolas como outro problema para a aprendizagem. “A cultura popular não é uma coisa morta que precisa ser relembrada. Ela é viva, imensa e ocorre o tempo todo, em todos os lugares, todos os dias do ano”.

Entre as obras do escritor destacam-se: Um Homem no Sótão (Ática), Armazém do Folclore (Ática), No meio da noite escura tem um pé de maravilha! (Ática), História de bobos, bocós, burraldos e paspalhões (Projeto), Trezentos parafusos a menos (Companhia das Letrinhas) e O sábio ao contrário (Senac). Azevedo recebeu quatro prêmios Jabuti e tem livros publicados na Alemanha, Portugal, México e Holanda. É mestre em Letras pela Universidade de São Paulo e doutorando em Teoria Literária (USP). É também pesquisador na área da cultura popular.

O escritor encabeça ainda o projeto Fura-Bolo, no qual escreve e ilustra — juntamente com outros autores — livros para serem distribuídos em escolas de comunidades carentes. Os integrantes do projeto ainda capacitam professores para trabalhar com os livros e formar leitores. O projeto Fura-Bolo já beneficiou mais de 70 mil crianças em todo o país.

Leia a seguir trechos da entrevista do escritor ao Educacional.

Na época em que vivemos, podemos afirmar que a mídia eletrônica, sobretudo a baseada na imagem, é a fundamental na formação das crianças. Você acredita que ela pode vir a substituir a literatura?
Não existe essa concorrência. Nada impede que uma pessoa goste de cinema e também de literatura. Aliás, as pessoas que eu conheço que realmente gostam de cinema são, em geral, ótimas leitoras. O que acontece é que muita coisa oferecida hoje — refiro-me a livros, filmes, música, teatro, programas de televisão, etc. — é de muito baixo nível, meros produtos descartáveis, medíocres, babacas e alienantes.

Não será um filme ou outro que vai fazer uma diferença positiva na formação da criança. O que interessa é que ela seja capaz de compreender que a arte, pelo menos a que interessa, é sempre uma tentativa de compreender, interpretar e ressignificar a existência e o mundo. Isso não muda se essa arte for infantil, adulta, popular, erudita ou outra qualquer. O folclore funciona exatamente da mesma forma, daí sua enorme importância e atualidade para a formação de nossas crianças.

Qual a sua opinião sobre como as escolas brasileiras tratam a literatura infantil na sala de aula, sobretudo o folclore?
Toda vez que a escola tenta instrumentalizar o livro de literatura, tratando-o utilitariamente como se fosse um livro didático, com lições, regras e mensagens que devem ser aprendidas por todos, erra feio. A literatura, infantil ou não, é sempre um discurso ficcional, poético e subjetivo que deve necessariamente ser lido subjetivamente. Quanto ao folclore, melhor dizendo, as culturas populares, pois em nosso país elas são várias, acho que deveriam ser apresentadas aos alunos como uma coisa viva, constantemente reelaborada através de um processo de criação que tende a ser coletivo e que, além disso, sempre trata de assuntos que interessam a todos nós. Vamos pegar um conto popular conhecido de todos: Branca de Neve. Entre outros assuntos, trata de uma disputa entre duas mulheres. A mais velha não aceita ser suplantada pela mais moça e tenta destruí-la. Não é um tema interessante, importante e bastante atual?

Geralmente, as escolas trabalham com o tema folclore em agosto em função do Dia do Folclore. Você acha isso um problema?
Acho. A cultura popular não é uma coisa morta que precisa ser relembrada. Ela é viva, imensa e ocorre o tempo todo, em todos os lugares, todos os dias do ano.

Os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) recomendam que as escolas tratem alguns temas transversalmente, como a pluralidade cultural. O folclore pode ser entendido como um tema transversal ou como um recurso para se trabalhar com os temas propostos pelos PCNs?
Não conheço direito os PCNs, mas imagino que sim. As culturas populares muitas vezes pressupõem outras visões, outros padrões de leitura do mundo.

Há algum segredo em se escrever para crianças e adolescentes? Como você alia o texto e a ilustração? Que tipo de trabalho a elaboração desse tipo de literatura demanda?
No meu caso, parto do princípio de que a literatura infantil é muito mais uma literatura popular do que propriamente “infantil”. Tento mexer com temas gerais e recorrentes — a busca do autoconhecimento, por exemplo —, que interessam a muitas pessoas, utilizando uma linguagem propositalmente clara, direta e acessível. Quanto à ilustração, acredito que ela, no geral, não deve tentar reproduzir mecanicamente o que o texto diz, mas, sim, enriquecer o universo significativo do texto. Um exemplo banal: se o texto descreve a moça bonita, a ilustração deve fugir disso. Pode, por que não, mostrar a orelha da moça bonita, ou seu quarto, detalhadamente, antes de ela entrar. A moça, mesmo, tem que ser recriada pela imaginação do leitor. Mas são assuntos muito amplos diante dos quais existem diferentes posições e discussões. Finalmente, sobre a última parte da pergunta, posso garantir que fazer um bom livro, seja ele de que tipo for, é sempre muito difícil e trabalhoso.

Gostaria que você comentasse um pouco sobre os resultados do projeto Fura-Bolo. Quais foram as maiores dificuldades encontradas?
Bem, o projeto Fura-Bolo começou em 1999 e é composto de oito livros de literatura infantil, escritos por mim e ilustrados por Mariana Massarani, Eva Furnari e Alva Linares. Esses livros, produzidos pela Cargill, são distribuídos gratuitamente e utilizados em escolas de comunidades pobres, com crianças sem acesso a livros de ficção e de poesia. Para que a coisa funcione, a Cargill ainda dá uma capacitação, feita pelas educadoras Candu Marques e Lú Mendes, aos professores que vão trabalhar com os livros. É preciso dizer ainda que as prefeituras dos municípios envolvidos participam ativamente do projeto. Hoje, já são mais de 70 mil crianças beneficiadas, em municípios espalhados por todo o Brasil. É um projeto maravilhoso, social e cultural, que realmente ajuda a formar leitores e do qual eu e todos que dele participam nos orgulhamos muito. O resultado: estamos contribuindo para formar novos leitores, capacitando professores a utilizar a literatura em sala de aula e distribuindo livros a crianças que antes só tinham acesso a livros didáticos. Não é pouco! Obviamente, nada disso é fácil, mas as dificuldades fazem parte, principalmente levando-se em conta um projeto dessa envergadura.

Leia as resenhas dos livros de Ricardo Azevedo publicadas nos Livros Recomendados.

Título: Armazém do folclore
Autor: Ricardo Azevedo
Editora: Ática
Nº de páginas: 125
ISBN: 8508074832

Título: No meio da noite escura tem um pé de maravilha
Autor: Ricardo Azevedo
Ilustrador: Ricardo Azevedo
Editora: Ática
Nº de páginas: 119
ISBN: 8508081901

 

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Por Diogo Dreyer


   


         
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