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A pernambucana Kelly Cristine Ribeiro é administradora de empresas e a mineira Ébia Maria Lopes é socióloga. Elas coordenam o projeto, que conta ainda com mais quatro membros, entre sociólogos e educadores.





 

Espalhando o pólen da educação através da cultura popular

O Projeto Xeromoá - que em tupi-guarani significa borboleta - utiliza o folclore e a cultura popular para resgatar a auto-estima de crianças carentes no norte de Minas Gerais. Por meio da "contação" de histórias, capacita professores que já experimentam mudanças significativas na vida dessas comunidades.

Os problemas das populações carentes do norte de Minas Gerais provavelmente são os mesmos que afligem a maior parte do país: miséria, desemprego, violência. Mas um projeto pioneiro está utilizando o folclore e a cultura local como armas para combater essas mazelas.

Foi um grupo de voluntários e educadores que resolveu tentar essa abordagem pouco convencional. Depois de três anos de trabalho com associações rurais e urbanas em programas de desenvolvimento social em cidades da região, eles perceberam que, apesar de todo o esforço, não estavam conseguindo transformar de maneira significativa a realidade dessas comunidades.

Constataram, então, que o problema era a baixa auto-estima da população, aliada ainda à perda das próprias raízes e à desconexão com a natureza. Tratava-se de comunidades profundamente desamparadas que precisavam reencontrar o caminho para a própria cultura.

"Contação" de histórias na Escola Municipal Machado Sobrinho, MG.

Nasceu assim o Projeto-piloto Xeromoá - variação da palavra xeramoi, do tupi-guarani, que significa borboleta -, que tenta resgatar a identidade e fortalecer a auto-estima de crianças de escolas públicas, reconectando-as com suas raízes por meio da valorização da cultura local e inserção da história oral, "contação" (termo utilizado pelos participantes do projeto) de histórias e outros instrumentos similares no processo de aprendizagem, para que elas mesmas possam promover e incentivar mudanças sociais positivas e efetivas no futuro.

Coordenado pela socióloga Ébia Maria Lopes e pela administradora de empresas Kelly Cristine Ribeiro, o projeto funciona desde 2001 na cidade mineira de Janaúba, treinando professores para esse processo de valorização das culturas locais. "O público-alvo são as crianças, por serem estas as sementes de futuro, capazes não só de construírem caminhos mais positivos para si mesmas como de influenciar os adultos", conta Kelly. "Mas, como queríamos fazer um trabalho que tivesse efeito multiplicador, nos voltamos ao professor. A decisão era simples, poderíamos trabalhar 20 crianças ou 20 professores. Optamos pela segunda alternativa".

A coordenadora acrescenta ainda que outro fator que contribuiu decisivamente para a escolha foi a influência que professores têm sobre seus alunos, sendo referenciais não só de vida como também de sucesso, já que a maioria dos adultos da comunidade não passou da 4.ª série, ocupando posições de lavradores em fazendas, domésticas ou ainda donas-de-casa.

Leia a seguir trechos da entrevista com as coordenadoras do projeto.

Quais são os principais frutos já colhidos pelo Projeto Xeromoá?
Existem muitos relatos interessantes contados pelas próprias professoras, meninos e meninas, que passaram a procurar mais a leitura, tornaram-se mais calmos e mais atentos às aulas. Os professores passaram a conhecer mais o seu aluno, compreendendo suas dificuldades, sua vida em família, sua bagagem de vida, que vem de além dos muros da escola.

Um outro efeito muito interessante foi a mudança de atitude das professoras. Em meio a um mar de descrenças e insatisfações, emergiram com um profundo senso de fé e esperança. Sabemos, contudo, que são apenas os frutos da primeira safra, ainda carentes de muito mais amadurecimento e análise. No momento, o projeto oferece um longo programa de treinamento que beneficia diretamente 15 professoras e 5 estudantes universitários e, indiretamente, aproximadamente 300 crianças de 1.ª a 4.ª série. Algumas dessas professoras já estão até contando histórias para outras pessoas da comunidade. E esse é um fruto que consideramos sobremaneira especial.

Quais são os meios que o projeto encontrou para valorizar a cultura e a arte nas escolas?
O projeto aposta, sobretudo, na inserção da "contação" de histórias como uma ferramenta de aprendizagem e resgate de cantigas de rodas e brincadeiras de rua e também oferece aos professores ferramentas que estimulam a criatividade e a imaginação do aluno com jogos e dinâmicas.

Qual é a reação das crianças quando deparam com o projeto?
A "contação" de histórias, especialmente, tem um efeito poderoso. Com ela e através dela, o aluno cria uma ligação de afetividade muito forte com o professor, torna-se mais atento, ativa sua curiosidade. Eles ficam felizes porque o professor inova em sala de aula e ansiosos para ter acesso a mais histórias e jogos.

Existe alguma dificuldade em trabalhar com esse conceito com os professores na hora em que eles recebem o treinamento?
Durante o treinamento, estamos numa espécie de redoma, onde o ambiente é muito propício. A volta para a sala de aula é que marca um retorno às dificuldades, a palavras até muitas vezes desencorajadoras. Temos um caso muito interessante de uma professora que nos relatou sua experiência: "No marco zero (trabalho realizado em sala para se conhecer melhor a realidade da escola, dos alunos e de suas comunidades), eu descobri coisas que muitos que trabalham com a educação não são capazes de perceber. Coisas que não descobriria se não fosse o marco zero. Mas, por outro lado, no retorno, percebi muita relutância por parte dos colegas. Muitas vezes, eu estava trabalhando com os alunos e passava alguém pela sala e dizia: 'Isso de novo'. Isso mexia muito comigo. Estava dando certo na sala, mas ninguém lá fora reconhecia. Tive que aprender a lidar com isso. Mas, com certeza, esse foi um momento de amadurecimento".

A grande dificuldade está em aplicar o conceito na sala, em superar os preconceitos e mesmo desafiar os que só olham de fora criticando e apontando falhas. É um conceito que exige autonomia, liberdade e autoconfiança, conquistas que só vêm depois de um longo processo de amadurecimento. Mas creio que estamos caminhando no rumo certo.

Oficina introdutória aos professores participantes do Projeto em janeiro desse ano.

O projeto-piloto é feito em escolas do interior. Qual seria a diferença de transportar esses conceitos para uma escola de uma grande cidade, como Rio ou São Paulo?
Não acreditamos que haja diferenças substanciais entre a implantação do projeto numa cidade do interior ou em uma grande cidade. Ele lida com conceitos muito simples, já que as raízes culturais são, na verdade, universais. Temos a "contação" de histórias, a necessidade do lúdico, do brincar, de nos conectarmos com mais freqüência ao lado direito do nosso cérebro como poderosos instrumentos de aprendizagem. O que vai mudar, sem dúvida, é o recheio. Se os meninos de Janaúba tratam de batuques, festas juninas, forró e caça ao Judas, os meninos de outras comunidades vão estar atentos ao que é peculiar à sua cultura. O que importa é ajudar a criança a (re)estruturar sua personalidade com base na própria realidade, na história da própria família e comunidade, para se tornar mais consistente, ao invés de ter sua formação com base em realidades exteriores trazidas especialmente pela TV.

Qual é a opinião de vocês sobre a forma como as escolas tradicionais tratam o folclore nas salas de aula? Geralmente o tema aparece somente em agosto, em função do Dia do Folclore. Isso é um problema?
Com certeza. A cultura local quase sempre é abordada na escola como um elemento curioso, em momentos específicos e, em certos casos, até caricaturado, como algo pertencente a um passado marcado pela superstição e não mais "digno" de fazer parte do presente. Na verdade, o tesouro expresso em contos, mitos, danças e outras expressões folclóricas é muito mais do que somente "coisas do passado", faz parte da nossa história, de nossa ancestralidade, fala mais profundamente ao lado de nosso cérebro e alma não-racionais, não-matemáticos e que também precisam de alimentos. É imprescindível não desconsiderarmos o amadurecimento e crescimento através da arte, da cultura, do retorno ao passado e da afetividade.

Após o projeto-piloto, qual deve ser o futuro do Projeto Xeromoá?
O futuro do Projeto Xeromoá já está sendo feito. Primeiro, até março de 2003, esperamos que ele deixe de ser projeto - até então desenvolvido sob a "guarda" da Associação Cultural de Janaúba - e passe a ser o Instituto Xeromoá de Educação e Cultura.

Segundo, já estamos preparando o início de uma nova turma para 2003 e, ao mesmo tempo, planejando como inserir a turma até agora trabalhada em outros projetos. Um dos quais, já em desenvolvimento, trata da formação de um grupo de contadores de histórias e pesquisa.

NOTA: Apesar de ter o apoio da Secretaria Municipal da Educação e Cultura de Janaúba e de alguns outros órgãos não-governamentais, as coordenadoras do projeto afirmam que têm desenvolvido o trabalho até o momento quase sem qualquer recurso financeiro, muitas vezes tirando recursos do próprio bolso quando não conseguem pequenas concessões na comunidade local. Mas estão muito confiantes quanto à validade e importância do projeto e salientam que qualquer ajuda é bem-vinda.

 

Para entrar em contato:

Projeto Xeromoá
Associação Cultural de Janaúba
Av. Brasil, 365, Centro
Janaúba - MG
CEP 39.400-000
Fone: (38) 3821-2885
Celular: (38) 9109-8184
E-mail: xeromoa@yahoogroups.com
Mais informações: Projeto Xeromoá

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Por Diogo Dreyer


   


         
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