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Espalhando o pólen da educação através da cultura
popular
O Projeto Xeromoá - que em tupi-guarani significa
borboleta - utiliza o folclore e a cultura popular para resgatar a auto-estima
de crianças carentes no norte de Minas Gerais. Por meio da "contação"
de histórias, capacita professores que já experimentam mudanças
significativas na vida dessas comunidades.
Os problemas das populações carentes do norte de Minas Gerais
provavelmente são os mesmos que afligem a maior parte do país:
miséria, desemprego, violência. Mas um projeto pioneiro está
utilizando o folclore e a cultura local como armas para combater essas mazelas.
Foi um grupo de voluntários e educadores que resolveu tentar essa abordagem
pouco convencional. Depois de três anos de trabalho com associações
rurais e urbanas em programas de desenvolvimento social em cidades da região,
eles perceberam que, apesar de todo o esforço, não estavam conseguindo
transformar de maneira significativa a realidade dessas comunidades.
Constataram, então, que o problema era a baixa auto-estima da população,
aliada ainda à perda das próprias raízes e à desconexão
com a natureza. Tratava-se de comunidades profundamente desamparadas que precisavam
reencontrar o caminho para a própria cultura.
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| "Contação" de
histórias na Escola Municipal Machado Sobrinho, MG. |
Nasceu assim o Projeto-piloto Xeromoá - variação da palavra
xeramoi, do tupi-guarani, que significa borboleta -, que tenta resgatar a identidade
e fortalecer a auto-estima de crianças de escolas públicas, reconectando-as
com suas raízes por meio da valorização da cultura local
e inserção da história oral, "contação"
(termo utilizado pelos participantes do projeto) de histórias e outros
instrumentos similares no processo de aprendizagem, para que elas mesmas possam
promover e incentivar mudanças sociais positivas e efetivas no futuro.
Coordenado pela socióloga Ébia Maria Lopes e pela administradora
de empresas Kelly Cristine Ribeiro, o projeto funciona desde 2001 na cidade
mineira de Janaúba, treinando professores para esse
processo de valorização das culturas locais. "O público-alvo
são as crianças, por serem estas as sementes de futuro, capazes
não só de construírem caminhos mais positivos para si mesmas
como de influenciar os adultos", conta Kelly. "Mas, como queríamos
fazer um trabalho que tivesse efeito multiplicador, nos voltamos ao professor.
A decisão era simples, poderíamos trabalhar 20 crianças
ou 20 professores. Optamos pela segunda alternativa".
A coordenadora acrescenta ainda que outro fator que contribuiu decisivamente
para a escolha foi a influência que professores têm sobre seus alunos,
sendo referenciais não só de vida como também de sucesso,
já que a maioria dos adultos da comunidade não passou da 4.ª
série, ocupando posições de lavradores em fazendas, domésticas
ou ainda donas-de-casa.
Leia a seguir trechos da entrevista com as coordenadoras do projeto.
Quais são os principais frutos já colhidos pelo Projeto Xeromoá?
Existem muitos relatos interessantes contados pelas próprias professoras,
meninos e meninas, que passaram a procurar mais a leitura, tornaram-se mais
calmos e mais atentos às aulas. Os professores passaram a conhecer mais
o seu aluno, compreendendo suas dificuldades, sua vida em família, sua
bagagem de vida, que vem de além dos muros da escola.
Um outro efeito muito interessante foi a mudança de atitude das professoras.
Em meio a um mar de descrenças e insatisfações, emergiram
com um profundo senso de fé e esperança. Sabemos, contudo, que
são apenas os frutos da primeira safra, ainda carentes de muito mais
amadurecimento e análise. No momento, o projeto oferece um longo programa
de treinamento que beneficia diretamente 15 professoras e 5 estudantes universitários
e, indiretamente, aproximadamente 300 crianças de 1.ª a 4.ª
série. Algumas dessas professoras já estão até contando
histórias para outras pessoas da comunidade. E esse é um fruto
que consideramos sobremaneira especial.
Quais são os meios que o projeto encontrou para valorizar a cultura
e a arte nas escolas?
O projeto aposta, sobretudo, na inserção da "contação"
de histórias como uma ferramenta de aprendizagem e resgate de cantigas
de rodas e brincadeiras de rua e também oferece aos professores ferramentas
que estimulam a criatividade e a imaginação do aluno com jogos
e dinâmicas.
Qual é a reação das crianças quando deparam com
o projeto?
A "contação" de histórias, especialmente, tem
um efeito poderoso. Com ela e através dela, o aluno cria uma ligação
de afetividade muito forte com o professor, torna-se mais atento, ativa sua
curiosidade. Eles ficam felizes porque o professor inova em sala de aula e ansiosos
para ter acesso a mais histórias e jogos.
Existe alguma dificuldade em trabalhar com esse conceito com os professores
na hora em que eles recebem o treinamento?
Durante o treinamento, estamos numa espécie de redoma, onde o ambiente é muito propício. A volta para a sala de
aula é que marca um retorno às dificuldades, a palavras até
muitas vezes desencorajadoras. Temos um caso muito interessante de uma professora
que nos relatou sua experiência: "No marco zero (trabalho realizado em sala para se conhecer melhor a realidade da escola, dos alunos e de suas comunidades), eu descobri coisas que
muitos que trabalham com a educação não são capazes
de perceber. Coisas que não descobriria se não fosse o marco zero.
Mas, por outro lado, no retorno, percebi muita relutância por parte dos
colegas. Muitas vezes, eu estava trabalhando com os alunos e passava alguém
pela sala e dizia: 'Isso de novo'. Isso mexia muito comigo. Estava dando certo
na sala, mas ninguém lá fora reconhecia. Tive que aprender a lidar
com isso. Mas, com certeza, esse foi um momento de amadurecimento".
A grande dificuldade está em aplicar o conceito na sala, em superar
os preconceitos e mesmo desafiar os que só olham de fora criticando e
apontando falhas. É um conceito que exige autonomia, liberdade e autoconfiança,
conquistas que só vêm depois de um longo processo de amadurecimento.
Mas creio que estamos caminhando no rumo certo.
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| Oficina introdutória aos professores
participantes do Projeto em janeiro desse ano. |
O projeto-piloto é feito em escolas do interior. Qual seria a diferença
de transportar esses conceitos para uma escola de uma grande cidade, como Rio
ou São Paulo?
Não acreditamos que haja diferenças substanciais entre a implantação
do projeto numa cidade do interior ou em uma grande cidade. Ele lida com conceitos
muito simples, já que as raízes culturais são, na verdade,
universais. Temos a "contação" de histórias,
a necessidade do lúdico, do brincar, de nos conectarmos com mais freqüência
ao lado direito do nosso cérebro como poderosos instrumentos de aprendizagem.
O que vai mudar, sem dúvida, é o recheio. Se os meninos de Janaúba
tratam de batuques, festas juninas, forró e caça ao Judas, os
meninos de outras comunidades vão estar atentos ao que é peculiar
à sua cultura. O que importa é ajudar a criança a (re)estruturar
sua personalidade com base na própria realidade, na história da
própria família e comunidade, para se tornar mais consistente,
ao invés de ter sua formação com base em realidades exteriores
trazidas especialmente pela TV.
Qual é a opinião de vocês sobre a forma como as escolas
tradicionais tratam o folclore nas salas de aula? Geralmente o tema aparece
somente em agosto, em função do Dia do Folclore. Isso é
um problema?
Com certeza. A cultura local quase sempre é abordada na escola como um
elemento curioso, em momentos específicos e, em certos casos, até
caricaturado, como algo pertencente a um passado marcado pela superstição
e não mais "digno" de fazer parte do presente. Na verdade,
o tesouro expresso em contos, mitos, danças e outras expressões
folclóricas é muito mais do que somente "coisas do passado",
faz parte da nossa história, de nossa ancestralidade, fala mais profundamente
ao lado de nosso cérebro e alma não-racionais, não-matemáticos
e que também precisam de alimentos. É imprescindível não
desconsiderarmos o amadurecimento e crescimento através da arte, da cultura,
do retorno ao passado e da afetividade.
Após o projeto-piloto, qual deve ser o futuro do Projeto Xeromoá?
O futuro do Projeto Xeromoá já está sendo feito. Primeiro,
até março de 2003, esperamos que ele deixe de ser projeto - até
então desenvolvido sob a "guarda" da Associação
Cultural de Janaúba - e passe a ser o Instituto Xeromoá de Educação
e Cultura.
Segundo, já estamos preparando o início de uma nova turma para
2003 e, ao mesmo tempo, planejando como inserir a turma até agora trabalhada
em outros projetos. Um dos quais, já em desenvolvimento, trata da formação
de um grupo de contadores de histórias e pesquisa.
NOTA: Apesar de ter o apoio da Secretaria Municipal da Educação
e Cultura de Janaúba e de alguns outros órgãos não-governamentais,
as coordenadoras do projeto afirmam que têm desenvolvido o trabalho até
o momento quase sem qualquer recurso financeiro, muitas vezes tirando recursos
do próprio bolso quando não conseguem pequenas concessões
na comunidade local. Mas estão muito confiantes quanto à validade
e importância do projeto e salientam que qualquer ajuda é bem-vinda.
Para entrar em contato:
Projeto Xeromoá
Associação Cultural de Janaúba
Av. Brasil, 365, Centro
Janaúba - MG
CEP 39.400-000
Fone: (38) 3821-2885
Celular: (38) 9109-8184
E-mail: xeromoa@yahoogroups.com
Mais informações: Projeto Xeromoá
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Por Diogo Dreyer

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