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O caçador de dinossauros
O paleontólogo Alexander Kellner pode não
ser nenhum personagem do filme Jurassic Park, mas participou da descoberta
e estudo dos principais fósseis de dinossauros já encontrados
no Brasil. Seu mais recente trabalho, o Thalassodromeus sethi, fez com
que, pela primeira vez, um trabalho científico 100% brasileiro fosse
capa da prestigiada revista Science.
Em 1983, um morador da Bacia do Araripe, região do Cariri, no Ceará,
encontrou por acaso um crânio e uma mandíbula, fato que seria
até corriqueiro caso o local não fosse considerado um dos maiores
sítios de fósseis do mundo, escondendo os restos de dinossauros,
pterossauros e outras criaturas que habitavam o período cretáceo
entre 110 e 65 milhões de anos atrás.
O morador doou seu achado ao Museu de Ciências da Terra do Departamento
Nacional de Produção Mineral (DNPM), mas somente 19 anos depois
- com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) -, o material foi trabalhado pela equipe
do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e finalmente concluído.
A nova espécie, chamada de Thalassodromeus sethi, é um
novo pterossauro, um gigante voador, parente dos dinossauros, que habitou a
Terra há cerca de 110 milhões de anos e que facilitará
o estudo da origem e da anatomia não só dos pterossauros, mas
também dos pássaros, morcegos e outros animais voadores. A descoberta
foi descrita com destaque na prestigiada revista científica Science,
da Associação Americana pelo Progresso da Ciência. É
a primeira vez que a revista publica um trabalho de paleontologia realizado
exclusivamente no Brasil.
| Ilustração: Maurílio
S. Oliveira / Museu Nacional |
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| Thalassodromeus sethi |
O responsável pelas pesquisas é o paleontólogo Alexander
Kellner, professor do Setor de Paleovertebrados do Departamento de Geologia
e Paleontologia do Museu Nacional. Além do T. sethi, Kellner também
coordenou o estudo do Santanaraptor placidus, outra espécie de
dinossauro que habitou a Bacia do Araripe. Para se ter idéia da importância
dessa espécie, o Santanaraptor é representante de um grupo
de dinossauros denominado Tyrannoraptora, ao qual pertence o famoso Tyrannosaurus
rex, encontrado nos Estados Unidos. Antes dele, nunca fora encontrado algo
semelhante na América do Sul.
Filho de pai alemão e mãe austríaca, o paleontólogo
nasceu em Liechtenstein e, aos quatro anos, mudou-se para o Brasil com a família.
Depois de se formar em Geologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro
e fazer o mestrado, foi cursar o doutorado na Columbia University, em 1991.
Cinco anos mais tarde, ao regressar ao Brasil, Kellner se naturalizou.
Leia a seguir trechos da entrevista com o paleontólogo.
Qual é a importância do Thalassodromeus sethi para o
estudo dos dinossauros, mais precisamente sobre os pterossauros?
Trata-se de uma nova forma de réptil voador com uma anatomia totalmente
distinta do que se tinha encontrado até a presente data. Entre as feições
anatômicas únicas dessa nova espécie, está a enorme
crista óssea que praticamente quadruplica a área lateral da
cabeça e a terminação do "bico" em forma de
tesoura. A crista do crânio contém em sua superfície um
complexo sistema de canais, interpretados como a impressão de vasos
sangüíneos. Isso indica que a crista era extensamente irrigada
por sangue e sugere que esses animais poderiam utilizá-la para regular
a temperatura de seu corpo. Essa hipótese está sendo apresentada
pela primeira vez. A forma de tesoura do "bico" foi observada apenas
em uma espécie de ave, o talha-mar. Isso sugere que o Thalassodromeus
também pescava com o bico dentro da água, algo de que não
se tinha notícia em um animal fóssil. Vale lembrar que os pterossauros
não são aves nem dinossauros. Eles podem ser considerados uma
espécie de "primos" ou "irmãos" dos dinossauros
que seguiram uma linha evolutiva distinta.
Por que a escolha desse nome, Thalassodromeus sethi?
Thalassodromeus pode ser traduzido como "o corredor dos mares",
em alusão à sua atividade de pesca, com a mandíbula dentro
da água, a exemplo do que faz um pássaro conhecido como talha-mar.
Sethi começou como uma brincadeira: todos nós da equipe imaginávamos
a visão desse animal pescando há 110 milhões de anos, uma
verdadeira visão do inferno! Então, resolvemos utilizar o nome
do deus egípcio Seth, que representa o caos. Lembre-se ainda de que o
Thalassodromeus deveria ter entre 4,2 e 4,5 metros de abertura alar.
O aspecto mais curioso da nova espécie parece ser o crânio.
Qual era a função da grande "crista" no animal que o
senhor ajudou a descobrir?
Entre as funções do crânio, destaco três:
1.ª - Dimorfismo sexual. Machos e fêmeas deviam ter cristas de tamanhos
diferentes, o que permitiria que, na época de acasalamento, eles pudessem
ser reconhecidos. No entanto, apesar de essa ser uma boa possibilidade, não
temos provas concretas, uma vez que apenas um único exemplar de Thalassodromeus
é conhecido.
2. ª - Reconhecimento dos membros da própria espécie. É
possível que o Thalassodromeus sethi tenha desenvolvido essa crista
para que membros da mesma espécie se distinguissem de espécies
distintas. A particular terminação em "V" - única
para esse pterossauro - é mais um dado que dá sustentação
a essa hipótese.
3.ª - Regulação térmica. Essa é a verdadeira
novidade. Como a crista era extensamente irrigada, é possível
que essa espécie de pterossauro pudesse resfriar o seu corpo por meio
do bombeamento de sangue quente para a crista; com o contado com o ar, o sangue
se resfriaria e retornaria para o corpo. Todo animal de sangue quente tem
esse problema - precisa se livrar do calor gerado pela sua extensa atividade.
Nós, como mamíferos, suamos, mas os répteis não
tinham essa possibilidade.
Apesar de não estendermos essa discussão, a crista também
deveria interferir na aerodinâmica dessa espécie. Não
sabemos ainda como isso poderia se dar - para isso, novos estudos terão
de ser realizados.
Segundo a revista Science, uma das características do fóssil
do T. sethi é que ele é tridimensional? Qual é a
diferença de se estudar um fóssil como esse e um "tradicional"?
Quando citaram que ele é tridimensional, referiram-se ao excelente
estado de preservação desse fóssil. Em geral, por terem
os ossos muito frágeis, os pterossauros são encontrados compactados,
o que dificulta sua observação e descrição. O
Thalassodromeus está muito bem preservado, favorecendo muito seu estudo.
O fóssil do T. sethi foi descoberto em 1983, mas só
agora foi apresentado. O que ocasionou a demora para terminar o estudo sobre
o animal? Foram os tradicionais problemas da ciência brasileira, como
falta de verbas e apoio, ou esse é um tipo de trabalho que costuma levar
muito tempo para ser concluído?
Sim, foram problemas de verba. Lembre-se, no entanto, de que desde o início
se sabia que esse material era especial.
A Chapada do Araripe é considerada o maior sítio mundial de
fósseis de dinossauros. O senhor acredita que a quantidade de estudos
relevantes na área da paleontologia produzidos no Brasil condiz com esse
fato ou ainda temos muito a melhorar, como o combate ao tráfego de fósseis,
notório na região?
A Chapada do Araripe é o maior e mais importante depósito de fósseis
no Brasil, sobretudo para peixes. Internacionalmente, é um dos mais importantes
para pterossauros. Já para dinossauros, ela é comparativamente
pobre, apesar de o material ser muito bem preservado. Temos, talvez, um exemplar
de dinossauro contra cada 40 de pterossauros e 10 de peixes. Certamente, o fato
de que importantes estudos venham a ser feitos - sobretudo no Brasil - vai ajudar
a preservar essa área. Mas não é só isso - há
que se fazer um grande trabalho com a comunidade local para mostrar a importância
dos fósseis. É um problema bem complexo.
| Ilustração: Museu Nacional |
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| Santanaraptor placidus |
É a primeira vez que a revista Science publica um trabalho
de paleontologia realizado exclusivamente no Brasil. Qual é o sentimento
de se ter o trabalho em destaque nessa prestigiada revista?
Estamos bastante contentes, sobretudo porque esse trabalho prova que se pode
fazer algo assim no país. Basta apenas um pouco de infra-estrutura e
auxílio para isso acontecer. Ele dará destaque à paleontologia
de vertebrados no Brasil. Você pode ter certeza de que, em breve, outros
trabalhos de relevância serão publicados em revistas importantes
- não apenas da nossa equipe de trabalho. Mas considero ser fundamental
que o "santo da casa" comece a fazer milagres. Nada contra cooperação
internacional - visto que a ciência não tem pátria nem deve
ter fronteiras "geopolíticas" - mas, se quisermos desenvolver
a pesquisa de paleontologia em nosso país, é absolutamente necessário
demonstrarmos que podemos fazer algo de qualidade aqui. Para isso, gostaríamos
de ter mais apoio, além das agências de fomento (somos muito agradecidos
a Faperj pelos auxílios que permitiram esta e outras pesquisas), também
da iniciativa privada, que poderá lucrar, além da contribuição
científica para o país, com exposição na mídia.
É interessante que a iniciativa privada se associe a projetos desse tipo.
Gostaria que o senhor comentasse um pouco a diferença entre a descoberta
do Thalassodromeus sethi e outra descoberta recente de que o senhor
participou, a do Santanaraptor placidus.
Para falar a verdade, não há tanta diferença. Santanaraptor
é um fóssil espetacular - dificilmente algo tão interessante
será descoberto. Sou franco: aquela foi a minha descoberta mais importante,
publicada em 1996 pela revista científica Nature. O Thalassodromeus
sethi é um fóssil diferente e tem a sua importância
- é minha terceira descoberta mais interessante -, pois permitirá
descobrirmos um pouco mais sobre como esses animais viviam.
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Por Diogo Dreyer

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