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Nada além de uma ilusão
Teclada vai, teclada vem, e um encontro é marcado. Parece fácil, mas não é. A jornalista Alice Sampaio passou dois anos estudando como são os namoros via Internet. A notícia que ela trouxe não é nada animadora: "relacionando-se apenas pela rede, dificilmente você vai encontrar quem procura".
Atenção corações solitários: o amor é
cego, mas quem se arrisca a buscar um namoro virtual deve ficar de olhos bem
abertos. Como cupido, a Internet não é dos melhores. A constatação
é da jornalista Alice Sampaio, autora de Amor na Internet Quando
o Virtual Cai na Real (editora Record). De tanto ouvir falar em quem achou
a cara-metade pela Internet e de ouvir maravilhas sobre o amor à primeira
teclada, ela resolveu tirar essa história a limpo. E com seus próprios
nicknames (apelidos).
Foram 16 meses navegando em salas de bate-papo e sites de encontro e mais um
ano e meio de entrevistas com internautas. Ao final da jornada, ela descobriu
que a maioria dos relacionamentos termina como a famosa canção
de Mário Lago começa: "Nada além de uma ilusão..."
Se a Internet não faz milagres, erro maior é acreditar que um
namoro pode ficar apenas no plano virtual. "É pior que amor platônico,
pois, nestes, as pessoas pelo menos se apaixonavam por alguém que já
tinham visto", compara.
Segundo ela, "amor virtual é virtual mesmo, é uma fantasia
absoluta". Para azar dos tímidos, o único jeito é
mesmo marcar um encontro, "cair na real, ver se o parceiro é o que
diz ser", recomenda. Mesmo cara a cara, os amores virtuais parecem mais
fadados ao fracasso que ao final feliz. E, dessa vez, quem sofre são
os românticos. "Como o físico é descoberto por último,
acontece que um ou outro, na maioria das vezes, não gosta da imagem do
parceiro e a coisa pára por aí", explica.
Se de santo casamenteiro a Internet não tem nada, os chats abrigam de
tudo. "Tem desde gente sincera e com boas intenções até
gente desonesta, mentirosa e safada", diz Alice. Por isso, um coração
partido ou ver o príncipe virar sapo não são os únicos
riscos que os apaixonados correm. "Meu livro alerta pessoas de todas as
idades de que a Internet não é inocente, pois sempre existe o
risco de encontrar alguém perigoso", adverte. O recado é
sobretudo para adolescentes entre 12 e 17 anos, que respondem hoje por 20% dos
acessos nas salas de bate-papo do maior provedor do país.
Como acontece na vida real, eles usam a Internet para "ficar". Com
pressa e sem as devidas precauções, encontros fortuitos podem
acabar em tragédia. Foi o caso da americana Christina Long, 13, assassinada
pelo brasileiro Saul dos Reis, 25, com quem manteve contato através de
uma sala de bate-papo. Aos mais afoitos, ela orienta: "Sala de bate-papo
é boa para zoar, fazer amigos, teclar com gente que gosta das mesmas
coisas, enfim, divertir-se. E ponto final".
Na entrevista a seguir, Alice Sampaio fala das decepções amorosas
e enumera os cuidados que se deve tomar antes de cair de amores por um(a) desconhecido(a).
O amor nem sempre está no ar.
Você passou 16 meses pesquisando salas de bate-papo e sites de encontros
para escrever seu livro. É só impressão ou, de fato, a
presença de adolescentes nas salas de bate-papo é maciça?
Sim, a presença de adolescentes nas salas de bate-papo é enorme.
Só nas salas do maior provedor do país, 20% dos freqüentadores
são jovens de 12 a 17 anos e 12%, de 18 a 20 anos. E eles não
se limitam a permanecer nas salas destinadas a sua faixa etária, gostam
muito de ir para as salas de pessoas mais velhas. Quem se cadastrar em sites
de encontros vai ver que lá também há uma galera imensa
de adolescentes.
Qual é a visão que os jovens têm das salas de bate-papo?
Eles querem conhecer pessoas, fazer amigos, ou a Internet é vista mais
como um espaço de busca por relacionamentos?
Os jovens querem as duas coisas: fazer amigos e namorar. Ou melhor, "ficar".
Muitos fazem isso em uma velocidade impressionante: em um ou dois dias já
se cansam de conversar e vão logo para o telefone marcar um encontro.
Outros, ao contrário, só querem saber de papo virtual e ficam
nisso por meses ou mais.
Há uma idéia de que essa geração de adolescentes
estaria buscando menos compromissos e mais relacionamentos superficiais. E os
jovens que estão na Internet? Usam a rede mais para "ficar"
ou para namorar?
Tenho uma filha de 22 anos e convivo bastante com a galera da faculdade
dela. Também acredito que a atual geração jovem está
passando totalmente ao largo dos namoros para ter apenas relacionamentos bastante
superficiais. Sou obrigada a confessar que a turma na faixa dos 40 anos para
cima está igualzinha, mas por um motivo diferente: os mais velhos têm
medo de se casar novamente. A garotada, sei lá por quê, tem simplesmente
medo de se relacionar. Acha mais fácil "ficar" com quatro ou
cinco pessoas na mesma festa e continuar sozinha. Como isso é o que acontece
na vida real, é claro que esse comportamento foi transportado também
para a Internet. Em meu livro, conto a história de uma garota de 20 anos
que só sabia se relacionar pela rede: ela travava contato com os carinhas
nas salas de chat e, depois, passava a conversar com eles no ICQ. Saía
a cada hora com um, querendo apenas "ficar", e, numa dessas, acabou
namorando um moço que trabalhava na polícia e que, como ela descobriu
depois, era um matador de aluguel. Foi um sufoco para essa menina se libertar
dele sem correr riscos.
Há uma mudança no comportamento introduzida pela rede, que
é a inversão da paquera. Primeiro, os adolescentes conversam,
tentam se conhecer, e só se encontram depois. Como isso tem mexido com
a cabeça deles?
Pois é, em vez de gostar do visual da pessoa, na Internet, a gente
primeiro fica sabendo como ela pensa isso quando ela diz a verdade. Como o
físico é descoberto por último, acontece que um ou outro,
na maioria das vezes, não gosta da imagem do parceiro e a coisa pára
por aí. E quem gostou da outra pessoa? Fica tremendamente frustrado,
sentindo-se até mesmo rejeitado. Ou, então, parte de novo para
uma busca desenfreada, sem compreender que, relacionando-se apenas pela rede,
dificilmente vai encontrar quem procura.
Fala-se muito dos casais que se formam via Internet. Mas os relacionamentos
virtuais não estariam mais próximos de uma versão moderna
do "amor platônico", de pouca realidade e muitas fantasias e
desilusões?
Uma coisa é um casal só se relacionar via Internet, outra
coisa é esse casal se conhecer e passar a namorar de fato, ou seja, ele
apenas iniciou o relacionamento no computador. Quem fica meses somente no virtual
(sei de casos que já duram dois anos) está literalmente namorando
uma ilusão. É pior do que nos amores platônicos, pois, nestes,
as pessoas pelo menos se apaixonavam por alguém que elas já tinham
visto e com quem, às vezes, haviam até trocado algumas palavras.
O amor virtual é virtual mesmo, e é uma fantasia absoluta. O ideal
é cair na real, ver se o parceiro é o que diz ser e sacar se rola
um clima ou uma amizade.
Qual foi a sua reação ao caso Saul dos Reis, o brasileiro
que assassinou a garota americana de 13 anos que conheceu em uma sala de bate-papo?
Fiquei muito triste, é claro. A Christina Long foi em busca do prazer
e encontrou a morte, e o Saul dos Reis provavelmente vai passar o resto de sua
vida na prisão. Meu livro alerta as pessoas de todas as idades de que
a Internet não é um veículo de comunicação
inocente, pois sempre existe o risco de encontrar alguém perigoso. Ou
de descobrir que a pessoa não é nada do que dizia ser no chat
ou em e-mails. No livro, há uma história de um rapaz de 19 anos
que teclou por três meses com uma loirinha de 20, até encontrá-la
e descobrir que sua loirinha... era um gay de 67 anos!
É claro que a tragédia de Christina Long é um episódio
isolado, mas revelou que os bate-papos via Internet não são inofensivos
como se imagina. Como os adolescentes podem se preservar dos riscos?
Acho que eles precisam, primeiro, entender que sala de bate-papo é
boa para zoar, fazer amigos, teclar com gente que gosta das mesmas coisas, enfim,
divertir-se. E ponto final. Sala de chat não é para procurar namorado:
isso se faz nos sites de encontros, que têm fichas completíssimas
para a pessoa se cadastrar dizendo como ela é e como seria seu parceiro
ideal. Mas, seja em sites de encontros ou em salas de bate-papo, é preciso
entender primeiro que quem está do outro lado da tela é etéreo,
pode desaparecer a qualquer hora basta parar de responder ou até
mesmo bloquear seu ICQ ou sua caixa postal. Entendido isso, vamos ao que considero
itens básicos de segurança:
- Jamais acreditar em tudo que é escrito. Confiar desconfiando. Sempre.
- Desconfiar de quem pergunta muito e revela pouco sobre si.
- Se usar sites de encontros, dar preferência aos que mantêm caixas
postais internas, em que o papo pode rolar por um bom tempo sem a necessidade
de dar sequer e-mail ao outro.
- Ao resolver dar telefone, se tiver, passar apenas o do celular.
- Para as meninas: cuidado com caras que insistem em telefonar muito depressa
e, principalmente, em sair depois de pouquíssimas linhas tecladas
geralmente, eles estão em busca de sexo fácil.
- Salvar as mensagens ou as conversas de chat é valioso para ver se
a pessoa não cai em contradições.
- Nada de detalhar a vida pessoal nem dar endereço antes de conhecer
melhor a pessoa.
- Se decidir conhecer alguém, marcar o encontro sempre em um lugar
público, tipo shopping, choperia, sorveteria ou cafeteria. Se tiver
celular, pedir a um amigo para ligar depois de um certo tempo para checar
se está tudo bem assim o outro saca que tem gente sabendo que
eles estão juntos.
- Fundamental: usar a Net para se divertir, mas sem ficar viciado, teclando
horas e horas por dia e esquecendo dos amigos da vida real!
É correto imaginar o freqüentador de chats como alguém
tímido, introspectivo, que usa a Internet para superar a dificuldade
de manter relacionamentos reais?
Que tem gente tímida, introvertida ou travada em seus relacionamentos
na rede não há a menor dúvida. O problema é que
nela tem de tudo, desde gente sincera e com boas intenções até
gente desonesta, mentirosa e safada. Todo cuidado é pouco.
Quem tem dificuldade de se relacionar ou não quer se envolver pode
se manter no anonimato ou criar um personagem, passando por quem não
é. No final, isso não complica ainda mais as coisas?
Com certeza, porque a gente nunca sabe com quem está lidando realmente.
Nos EUA, a ONG Wired Patrol alerta que 12 entre cada 100 adolescentes americanos
que iniciam um bate-papo virtual acabam se conhecendo. Aqui, não há
estatísticas, mas o site Crime
Virtual - Violência Real , que luta contra abusos na rede, já recebeu
3.800 denúncias. O problema é que os pais podem apelar para mecanismos
de censura de sites pornográficos, mas é impossível monitorar
as salas de chat.
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