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Infância "adultizada"
Nota vermelha no colégio, problemas na família,
excesso de atividades, ausência dos pais em casa. Esses "probleminhas"
sempre fizeram parte do dia-a-dia das crianças. Mas, atualmente, eles
têm tomado proporções exageradas, transformando em pequenos
estressados crianças que deveriam brincar mais, dormir mais e se preocupar
menos. Esse fenômeno infantil é material de estudo da doutora Marilda
E. Novaes Lipp, que escreveu um livro
sobre o tema: Crianças Estressadas .
As crianças se tornaram pequenos adultos. Cada vez mais cedo, elas
assumem responsabilidades, disputam a melhor posição em qualquer
atividade e correm atrás de múltiplas competências. Estão
desprotegidas e recebem de forma direta a influência de uma sociedade
que exige seres perfeitos. Como se isso não fosse suficiente, muitos
pequenos sentem o peso de exigências e angústias maduras, como
a falta de dinheiro ou o problema do desemprego na família.
Uma pesquisa realizada numa escola pública com 400 estudantes de 7 a
12 anos pela Universidade São Marcos de São Paulo concluiu que
40% dos alunos apresentavam sintomas de estresse. Nessa pesquisa, que utilizou
a escala de estresse infantil da Dra. Marilda Lipp, descobriu-se que, entre
outros sintomas, cerca de 51% das crianças sofriam de insônia e
76% apresentavam alterações de comportamento. Outro dado que chama
atenção: os estudantes estressados tiveram um desempenho escolar
inferior ao dos colegas: 82% dos que não sofriam do mal tiraram nota
A, enquanto apenas 18% dos que apresentaram estresse conseguiram esse rendimento.
O Brasil ainda está começando a dar atenção ao
assunto, mas alguns pesquisadores têm se voltado para o tema. O Centro
Psicológico de Controle do Stress faz uma pesquisa em 400 escolas da
Grande São Paulo. Enquanto os psicólogos e outros pesquisadores
batalham para conhecer melhor o problema, o essencial é que pais, professores
e profissionais da saúde fiquem atentos às reações
das crianças. Na entrevista abaixo, você poderá acompanhar
as dicas, explicações e alertas de umas das maiores autoridades
no assunto.
O estresse é uma doença? Ele deve ser considerado e tratado
como tal?
O estresse não é uma doença. É uma condição
que enfraquece o organismo e, assim, oferece oportunidade para as doenças
surgirem. Embora não seja uma patologia, deve-se tratar o estresse e
até mesmo preveni-lo, pois suas conseqüências podem ser muito
graves.
Quais são os principais fatores que levam ao estresse infantil?
Existem fatores externos e internos. Dentre os externos, podemos citar brigas
entre os pais, mudança de escola ou de residência, separação
dos pais, nascimento de irmãos, hospitalizações, doenças,
morte de irmão ou de genitor. Entre os fatores externos, estão
também as escolas inadequadas e professores e pais estressados. Como
fontes internas, podemos citar timidez excessiva, depressão, transtorno
do déficit de atenção e também predisposições
genéticas como hipersensibilidade do sistema nervoso, que faz com que
a criança seja mais sensível a tudo.
Como prevenir o estresse infantil?
Com disciplina lúcida e constante e com coerência nas ações.
Criança precisa de limites e disciplina, mas não de maus-tratos
e gritos. É preciso ter paciência nas funções de
pai ou mãe e de professor.
Como identificar uma criança estressada?
O diagnóstico sempre deve ser feito em função de vários
sintomas e não de um sintoma isolado. Deve haver um quadro sintomatológico
que inclua alguns dos seguintes itens: pesadelos, hiperatividade, desatenção,
apatia, dores musculares nas pernas, dor de barriga, inquietude, sensibilidade
excessiva (que leva a criança a chorar por qualquer coisa), desobediência,
medo, fobia, dificuldades na escola e com os amigos, entre outros. O mais importante
é observar se a criança mudou seu comportamento, se não
é mais a mesma, se parece infeliz.
Quais as conseqüências que o estresse infantil pode trazer ao futuro
da criança?
Além do problema que se pode ter ainda criança, a perda da alegria
da infância, há também o perigo de a criança vir
a ser um adulto estressado, vulnerável a tensões, fraco e sensível
demais.
Rendimento escolar baixo pode ser sintoma de estresse?
Pode sim, porque a criança estressada não consegue se concentrar
e prestar atenção ao que a professora diz. Além disso,
se ela está se sentindo mal, inquieta e nervosa, como vai ter energia
para estudar e aprender?
Atualmente, a obesidade infantil é um grande problema para a saúde
de algumas crianças. Ela pode ser conseqüência do estresse?
Há uma pesquisa da psicóloga Márcia Bignotto, feita na
PUC/Campinas, que mostra que a maioria das crianças obesas tem um alto
nível de estresse. O estresse afeta o funcionamento tanto físico
quanto psicológico da criança.
O estresse dos pais pode ser contagioso? Como neutralizá-lo?
Temos vários estudos que mostram como o estresse dos pais é passado
para os filhos. Toda a família sofre os efeitos quando um dos genitores
está estressado. O genitor deve procurar ajuda para si mesmo e fazer
o possível para não perder a paciência e não se irritar
com os filhos em momentos de estresse.
Como tratar uma criança estressada?
Primeiro, os pais e professores devem se munir de muita paciência, pois
fica bem difícil lidar com a criança estressada. Depois, devem
reduzir suas exigências, brincar com a criança, levá-la
ao cinema e para caminhadas. Mas, acima de tudo, devem conversar com ela sobre
o que poderia estar preocupando-a, sem recriminá-la ou criticá-la.
Ela precisa falar. Se os pais não sabem fazer isso, devem pedir a outro
adulto interessado que converse com a criança. O apoio é fundamental.
O estresse pode ser benéfico?
Um pouquinho de estresse pode dar motivação e energia, mas o excesso
pode ser muito maléfico para um organismo ainda em formação.
Clique
aqui para acessar o site Centro Psicológico de Controle do Stress e ter
mais informações.
Liliana Negrello
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