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Aulas mutantes de genética
Se a escola não vai ao DNA, o DNA vai à escola. Inconformada com o jeitão conservador de ensinar conceitos fundamentais de genética, a pesquisadora Márcia Lachtermacher-Triunfol tratou de levar um minilaboratório à sala de aula. Ela se esforça para banir a idéia de que genética é coisa de cientista maluco. Para ela, logo, logo, vai ser questão de cidadania. Ao menos alguma noção todo mundo vai ter que ter para seguir o rumo que a sociedade está tomando.
Vai ver há alguma explicação genética. Geração
após geração, o aprendizado de tudo o que envolve a hereditariedade
e o DNA ocorre de maneira teórica e tradicional. Para usar um termo familiar
aos alunos, digamos que a característica "dominante" dos professores
de biologia é transformar aulas de genética em uma sopa de números
e letrinhas. Eles começam estudando todas as combinações
possíveis entre Azão (A) e azinho (a) e terminam calculando frações
e porcentagens das chances de um cruzamento produzir uma doença hereditária
ou "recessiva".
Por mais que se trate o assunto como a previsível e monótona
transferência da informação contida no DNA de pais para
filhos, vez por outra aparece uma mutação para quebrar essa rotina.
E provar que genética não é pura matemática ou estatística.
Revolução parecida bate à porta das escolas brasileiras.
À medida que o tema adquire relevância social sem precedentes,
cada vez mais professores assumem o desafio de inovar a abordagem em vez de
apenas transmitir as mesmíssimas informações a que se habituaram.
Afinal de alimentos transgênicos, testes de paternidade, manipulação
genética em animais até a possibilidade de clonagem humana ,
toda semana há uma novidade nos jornais que escapa ao conteúdo
do livro didático ou da apostila. A pesquisadora Márcia Lachtermacher-Triunfol
é um bom exemplo de quem procura ver no DNA mais que uma sucessão
de adeninas, timinas, citosinas e guaninas. Mentora do projeto "O DNA Vai
à Escola", ela não esperou o genoma ser seqüenciado
ou a clonagem se tornar tema de novela para levar esse conhecimento aos alunos.
"O aluno passa praticamente todo o Ensino Médio ouvindo falar em
DNA; mas ver, que é bom, nunca vê", diz. A quem antes só
via a dupla hélice nas duas dimensões da página impressa,
ela surpreende com uma série de experiências de laboratório.
Para quem andava inquieto com os rumos da ciência, dá-lhe discutir
questões éticas. Com alunos ávidos por ver e debater, a
mistura deu tão certo que já conquistou adeptos na Venezuela e
México e foi apresentada em congressos internacionais de genética
humana.
Se venceu fronteiras, o projeto se esforça para superar outro tipo de
obstáculo. Primeiro, a idéia de que genética é coisa
de cientista pinel, bem ao estilo de Albieri, personagem de O Clone.
Depois, vem a resistência de quem prefere desperdiçar essa valiosa
experiência pedagógica a se expor à discussão e à
curiosidade dos alunos. Direto de Washington/EUA, para onde o projeto se mudou
desde que passou a se expandir pela América Latina, Márcia Lachtermacher-Triunfol
concedeu-nos a entrevista a seguir. Professora high tech, enviou as respostas
em um CD-ROM.
Como a senhora avalia a forma tradicional de ensinar genética nas
escolas brasileiras? Nesse sentido, o título do projeto "O DNA
Vai à Escola" é sugestivo. Ele dá a entender que
o estudo do DNA e da genética estaria distante (ou não tão
próximo quanto deveria) da escola...
O título do projeto "O DNA Vai à Escola" é sugestivo
porque o aluno passa praticamente todo o Ensino Médio ouvindo falar em
DNA, mas ver, que é bom, nunca vê (risos). Então, o objetivo
do projeto é levar o DNA à escola para que os alunos tenham a
chance de vê-lo realmente. O que é essa molécula de que
todo mundo fala e que a gente vê nas manchetes de jornal, no cinema e
na novela? O objetivo do projeto é fazer com que os alunos se aproximem
da genética e tenham mais facilidade de entender as conseqüências
da manipulação do DNA, pois esse campo não pode ser limitado
somente aos cientistas, pesquisadores e laboratórios. Todo mundo, num
futuro muito, muito próximo, vai ter que ter uma noção
básica de genética, assim como temos de Internet. Quando usamos
a Internet, não precisamos ser superferas em computador para saber, por
exemplo, o que é um JPEG. Existem alguns conceitos, hoje em dia,
que são necessários para que o cidadão possa ter participação
e desenvolvimento na sociedade. A genética, cada vez mais, vai fazer
parte das decisões do dia-a-dia: da comida que comemos às decisões
mais importantes envolvendo questões éticas. Então, é
importante que o DNA não seja aquela idéia confusa, distante e
longínqua que só o cientista maluco entende. Queremos realmente
levar o DNA à escola para que os alunos tenham a chance de ver, manipular
e se sintam mais confortáveis com tudo o que vem com essa nova tecnologia
na sociedade.
Qual o impacto na escola das recentes pesquisas de engenharia genética
e clonagem? Isso tem mudado a forma de encarar o estudo da genética?
O que percebemos nos cursos é o seguinte: os alunos estão ávidos
para falar sobre isso, pois têm um monte de perguntas! Normalmente, temos
que mandá-los embora (risos). No curso, cada aula prática dura
três horas e, no final, os alunos estão lá com um monte
de perguntas, superinteressados em debater. Temos de falar: "Chega! Chega!
Continuaremos no dia seguinte!" (risos), pois o interesse é muito
grande. Temos percebido que muitos professores não sabem como responder
às perguntas porque não foram preparados para uma tecnologia nova
que ainda está sendo introduzida na sociedade. Então, há
muitos professores que tentam não se envolver com essa área e
continuam ensinando aquela genética tradicional e, assim, fazem de conta
que ela não é importante ou que não vai ser assunto de
vestibular. Entretanto, varia muito o impacto do curso de escola para escola
e de professor para professor, pois há professores superinteressados
em aprender. O curso "O DNA Vai à Escola" não é
só para alunos. Em muitas ocasiões, repassamos o curso aos professores,
pois recebemos muitos e-mails de professores interessados em debater e fazer
perguntas sobre genética, DNA, etc. Temos uma chance valiosa de levar
esse assunto aos alunos e discuti-lo mais profundamente, pois eles estão
abertos e interessados e com muitas perguntas que devem ser respondidas. E se
não temos as respostas nas aulas, devemos discuti-las. É uma grande
oportunidade que deve ser aproveitada.
Uma das ações do projeto é levar um minilaboratório
às escolas. Ao contrário da física e da química,
nem todas as escolas dispõem de um laboratório de biologia. Em
que isso compromete a aprendizagem dos conceitos da genética?
A maioria das escolas não tem laboratório de biologia, muito menos
de genética. É lamentável achar que o aluno não
tem rendimento ou não aprende nesse tipo de aula. Muitos professores
pensam que aula de laboratório é aula de bagunça, mas há
outros que utilizam esse espaço e tempo de maneira valiosa para interagir
com os alunos de um modo diferente do que acontece em sala de aula. Seria ótimo
se todas as escolas tivessem um laboratório e pudessem dar essa oportunidade
aos alunos, mas essa não é nossa realidade. Então, é
preciso ser criativo e explorar as alternativas existentes, como, por exemplo,
as atividades lúdicas. No nosso website, por exemplo, explicamos como
extrair o DNA de um bife de fígado usando um liquidificador e o detergente.
Vamos mostrar, também, como extrair o DNA de outros alimentos, como tomate,
kiwi, etc., pois todos esses vegetais, assim como o bife de fígado, têm
DNA. Extrair o DNA não é tão difícil como se imagina.
Na verdade, é uma técnica relativamente fácil. Nós
não temos ainda muitos materiais, mas chegaremos lá. O objetivo
é colocar muito material no nosso website para que o professor tenha
essas opções disponíveis para desenvolver atividades simples
de laboratório ou atividades lúdicas em sala de aula e, também,
para que os alunos tenham condições de estudar a genética
de uma forma diferente da tradicional.
O custo desses equipamentos é acessível às escolas? É
viável que cada escola tenha o seu minilaboratório de genética?
A montagem de um laboratório de genética na escola não
é viável. É um material caro, comprado nos EUA, e a questão
não é apenas o valor dos equipamentos, mas, sim, dos reagentes.
Então, não é o caso de montar laboratórios de genética
como o do "O DNA Vai à Escola" por uma questão de custo
ou de especialização. Talvez o professor de Ensino Médio
não esteja preparado para realizar, realmente, atividades com os alunos
usando esse tipo de equipamento, como, por exemplo, fazer uma eletroforese de
DNA. Algumas experiências são muito simples, como a extração
de DNA; outras poderão ser mais complicadas. Quem sabe, com o tempo,
seja possível treinar professores e transferir todo esse conhecimento,
fazendo um trabalho conjunto.
É impressionante saber que, graças ao projeto, alunos têm
extraído DNA, simulado testes genéticos e realizado experimentos
de clonagem. Até que ponto essas técnicas são populares
e acessíveis ao cidadão comum, aos alunos?
"O DNA Vai à Escola" é um projeto educacional e não
um projeto de ciências. O aluno não vai ao laboratório de
genética para fazer parte da rotina de experimentos dos cientistas. Até
há projetos desse tipo. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, por
exemplo, existe um projeto em que os alunos vão ao laboratório
e passam um período acompanhando um projeto de pesquisa. "O DNA
Vai à Escola" visa a explorar os conceitos de genética e
de biotecnologia por meio de atividades práticas de laboratório
e, também, de atividades lúdicas. As atividades que são
realizadas durante o curso, como a extração de DNA, simulação
de testes genéticos e diagnósticos de doenças genéticas,
são adaptadas com esse intuito educacional. Nesse caso, o experimento
e a manipulação que o aluno realiza com o DNA é uma ferramenta
complementar de ensino. As técnicas que são usadas, pelo menos
no curso básico porque nós também temos um curso avançado
-, são técnicas relativamente simples e, também vale a
pena dizer, são totalmente inofensivas, pois não usamos nada que
possa causar algum dano ao aluno ou ao espaço da escola. Nesse sentido,
ele é um curso de simples acesso aos alunos. Normalmente, com o embasamento
e o conhecimento que o aluno de Ensino Médio tem sobre genética,
já é o suficiente para que a gente explore os conceitos e as técnicas
de laboratório.
A propósito, a senhora vê com apreensão a popularização
das técnicas de manipulação genética?
A resposta é sim, não e talvez. Ao mesmo tempo que existe uma
apreensão, existe também o fascínio. Assim como uma técnica
pode ser usada para desenvolver tratamentos para doenças para as quais,
até então, não existia nenhum tipo de tratamento, ela pode
ser usada com intuitos não tão desejáveis e interessantes
para nossa sociedade. O problema não é a técnica utilizada,
mas, sim, o cuidado com toda parte legal, ética e moral. Um dos objetivos
do "O DNA Vai à Escola" é ficar por dentro de todas
as discussões que estão por trás desse desenvolvimento
científico. A ciência caminha como sempre caminhou e continuará
caminhando. Vamos descobrir novas drogas e novos tratamentos, o que, apesar
de ser muito fascinante, deve ser acompanhado pela sociedade para que uma nova
legislação, uma nova moral e uma nova ética possam ser
criadas ou adaptadas e, assim, novas técnicas sejam incorporadas, principalmente
com o objetivo de beneficiar a sociedade. Então, existe muita apreensão
e essa é a grande razão da existência do projeto.
Mesmo na ausência de um laboratório, algo que certamente os
professores podem fazer é promover discussões sobre implicações
éticas e conseqüências da biotecnologia. Os professores têm
tido dificuldade de comandar debates do gênero?
É um pouco complicado falar sobre isso, pois existem vários tipos
de professor. Então, podemos afirmar que há professores que conseguem
acompanhar esse desenvolvimento e tirar o melhor proveito dessa discussão
e professores que não têm motivação ou recursos necessários
para tal. Existem professores motivados e superinteressados, que acessam a Internet
em busca de informações e textos. Esses são os professores
que todos nós gostaríamos de ter tido. São aqueles que
estão sempre crescendo, aprendendo, desenvolvendo-se e transferindo seu
crescimento e conhecimento aos alunos. Eles podem não ter todas as respostas
afinal de contas, quem é que as tem? -, mas oferecem oportunidade para
que os alunos perguntem.
Imagino que a mídia ainda seja a principal fonte de informação
sobre os recentes avanços da genética. Ela tem se mostrado um
bom parceiro para orientar os professores? Acompanhar as notícias é
suficiente para quem deseja levar esses temas para a sala de aula?
Acompanhar os jornais e as manchetes é uma excelente estratégia
e pode proporcionar uma quantidade enorme de informações. A Internet
também tem muita informação. Mas o professor não
pode perder o senso e a visão crítica para separar o que é
importante do que é sensacionalismo. É importante também
que ele vá atrás de diferentes opiniões, diferentes fontes,
e não apenas de uma matéria de jornal ou da visão de um
programa de televisão. Quando o professor obtém informação
sobre biotecnologia ou genética, principalmente relacionada a questões
éticas, morais e de comportamento, ele deve apresentar essa diversidade
de informações na forma de debate, de discussão.
O projeto "O DNA Vai à Escola" elaborou suas próprias
apostilas e textos de apoio para realização dos cursos. Os interessados
podem ter acesso a esse material? Há uma carência de livros didáticos
ou paradidáticos sobre o tema?
O projeto tem um website
em português e espanhol e uma pequena versão em inglês. Há
uma área chamada Gene-papo, que apresenta diversos tópicos de
genética com explicações, imagens, animação,
etc., e outra de introdução à bioinformática, chamada
Genebank, em que o aluno ou qualquer pessoa pode explorar o banco de dados na
sua própria casa. É explicado, passo a passo, como entrar no Genebank
e como fazer uma seqüência de DNA. Existem cinco ou seis textos abordando
as questões relacionadas à introdução dessa tecnologia
na sociedade. Todos os textos estão lá, principalmente os usados
nas aulas de laboratório e nas apostilas, para que qualquer pessoa possa
utilizá-los. Claro que todos os direitos autorais e de copyright
pertencem ao "O DNA Vai à Escola", ou seja, esse material não
pode ser vendido, trocado ou comercializado. Tudo isso está disponível
de graça e, para ter acesso, a pessoa não precisa sequer se registrar.
Mas estamos pensando em começar a pedir que as pessoas se registrem,
pois é necessário que exista um levantamento para sabermos quem
está visitando o site. Temos mais ou menos o número de visitantes,
mas queremos ter mais informações. Estamos superabertos a sugestões,
textos e idéias, pois, se o professor tem uma idéia, alguma atividade
ou levou um de nossos textos para sala de aula e, de repente, quer discutir
conosco, estamos superinteressados nesse tipo de discussão.
O projeto tem se expandido por vários países, entre eles a
Venezuela. Há planos de organizar projetos colaborativos a distância
para troca de informações, experiências e opiniões
sobre o tema entre os alunos desses países?
Vou falar um pouquinho da história do "O DNA Vai à Escola".
Ele começou em 1999, no Rio de Janeiro, como um projeto educacional cujo
objetivo era levar um minilaboratório de genética às escolas
de Ensino Médio para que os alunos pudessem desenvolver experimentos.
Esse projeto cresceu, passaram-se quatro anos e criamos o nosso website. Com
o desenvolvimento do site em espanhol, começamos a receber e-mails de
pessoas de outros países da América Latina. "O DNA Vai à
Escola" está chegando ao México e à Venezuela neste
ano. Então, ele não é mais aquele projeto educacional pequenininho
do Rio de Janeiro, está passando por uma transformação
e vai se transformar em uma organização sem fins lucrativos, oficializada
nos EUA, com o objetivo principal de se expandir na América Latina. Além
dessa parceria com o México e a Venezuela, estamos superinteressados
em desenvolver parcerias com outros países da América Latina e
com outras cidades e estados do Brasil para trocar informações
e idéias e, assim, ter uma lista de e-mails em que as pessoas possam
conversar. Publicamos um pôster num congresso internacional de genética,
em Viena, e outro num congresso sobre genética humana, nos EUA, para
divulgar essas informações. Temos, também, o interesse
de realizar uma pesquisa baseada nessas perguntas: Quais são os benefícios
desse projeto? De que modo esse projeto está ajudando a transformar a
sociedade ou a visão do cidadão comum em relação
a todas essas questões? Visitem nosso site,
deixem sua mensagem e vamos compartilhar e discutir informações
relacionadas à introdução da biotecnologia em nossa sociedade
e como lidar com as conseqüências que ela poderá trazer.
*****
Por Vitor Casimiro
março, 2002
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