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A aluna e o mar
A casa é flutuante, a mãe é também professora e
a escola é onde Mayara Garcia estiver: parques, praias ou em alto-mar.
Para dar uma idéia desse aprendizado ao ar livre, Mayara, 8, escreveu suas
primeiras palavras nas areias de Ubatuba e Parati. O mesmo mar e o mesmo vento
que levaram suas primeiras letras para longe conduzem-na mundo afora no veleiro
da família. Essa fabulosa aventura pedagógica é a base de
Acompanhe os Viajantes, futura atividade da Central
de Projetos.
Navegar
é preciso, freqüentar a escola todos os dias não é
preciso. Há cinco anos velejando pelos sete mares, Cristiane Magalhães descobriu
que levar uma vida sem porto definido não significa sacrificar a formação
dos filhos. Quando o marido a convenceu a trocar a cidade grande pelo mar sem
fim, a aventura tinha hora para acabar. Ao final de quatro anos, a âncora
seria lançada pela última vez, a tempo de matricular sua única
filha na primeira ou segunda série. Fizesse chuva ou fizesse sol, ao
sete anos, Mayara estaria enfim em uma sala de aula como qualquer criança.
Até lá, a preocupação de mãe se resumia a
que "ela tivesse uma boa alfabetização e um bom desenvolvimento
de todas as habilidades que a precedem", lembra.
Mas, como em toda jornada oceânica, não se pode prever tudo. Para
felicidade dos navegantes, o imprevisto não veio em forma de tempestade,
tampouco de calmaria. Bons ventos permitiram prolongar a viagem. Com o avanço
da tecnologia, tanto os pais adaptaram suas profissões à vida
nômade quanto a filha continuará sua volta ao mundo sem "largar
a escola". Cristiane e Wagner Garcia serão os tutores de Mayara
pelos próximos dez anos. A ex-marinheira de primeira viagem, que jamais
dera aula a crianças antes de içar velas, está convencida
de que essa empreitada não vai afundar. "Do mesmo modo que as escolas
estão abrindo janelas para o mundo, através dos computadores e
da Internet, por que não levar também a sala de aula até
onde o aluno está?", indaga.
Para garantir que a filha pudesse concluir o Ensino Médio, Cristiane
elaborou um projeto em parceria com o Colégio Padre Moye, de São
Paulo. Ela aposta que, dessa fabulosa experiência pedagógica, Mayara
sairá como cidadã do mundo. Algo que, para Cristiane, é
fundamental "numa época em que há tantos conflitos por causa
de fronteiras, credos e nacionalidades". Segundo ela, porém, a principal
vantagem desse método é outra: Mayara não será obrigada
a se adaptar aos padrões rígidos de uma escola tradicional. Ao
contrário, os pais/professores que se adaptem à aluna. "Achamos
que o grande diferencial do Projeto Aluna Virtual é o tempo que podemos
dedicar aos interesses dela e ao seu ritmo", avalia.
Para ver se o aprendizado não encalhou ou se não é preciso
ajustar o leme, os pais já consultaram a bússola e o farol de
escolas tradicionais por duas vezes. Nos testes, ficou provado que o rendimento
da filha vai de vento em popa. Mayara apresentou conhecimentos superiores aos
dos colegas. "O aluno vive a situação e ela penetra por todos
os seus canais de comunicação, por isso ele a grava muito mais
facilmente", argumenta Cristiane. Na entrevista a seguir, você conhece
essa incrível aventura de viver aprendendo que serve de base ao projeto
Acompanhe os
Viajantes, do Educacional.
Muitos pais hesitam em trocar os grandes centros por cidades menores, preocupados
com a formação dos filhos. Quando você e sua família
decidiram viver em alto-mar, há quatro anos, isso não a deixou
apreensiva?
Acho que apreensiva não seria a palavra. Esse foi e é um motivo
de atenção para nós. Em função disso, buscamos
uma escola que pudesse me orientar para eu poder ser uma boa professora para
a Mayara e que nos fornecesse material para isso. Além disso, logo que
saímos, em 1997, pensávamos em fazer nossa viagem em quatro anos,
pois, quando voltássemos, a Mayara estaria na primeira ou na segunda
série. Então, isso não me inquietava muito. Preocupava-me
principalmente que ela tivesse uma boa alfabetização e um bom
desenvolvimento de todas as habilidades que a precedem. Com o passar dos anos,
fomos conseguindo, graças aos avanços da tecnologia, adaptar nossas
profissões à vida itinerante e, por isso, pudemos repensar os
prazos da viagem e o tempo em cada ancoragem. Hoje, pensamos em dez anos, cientes
de que, mesmo distantes do país, não perderemos o contato com
ele, seja no campo profissional, seja em relação à educação
de nossa filha.
Naquela época, a Mayara tinha três anos. É nessa idade
que os pais se preparam e escolhem a escola para matricular os filhos. Como
foi sua preparação para assegurar a escolarização
de sua filha fora da sala de aula?
O primeiro passo foi encontrar uma escola cujo ensino fosse de qualidade e
que se dispusesse a fazer uma parceria conosco. A primeira escola que participou
do projeto foi o Externato Rio Branco, de São Bernardo do Campo, a quem
eu prestava consultoria - uma escola que eu conhecia por dentro. Estabelecida
a parceria, a coordenadora e algumas professoras da pré-escola fizeram
diversas reuniões comigo, numa espécie de treinamento intensivo,
para me explicar o planejamento escolar e as atividades propostas e, o mais
importante, como eu poderia adaptá-las ao ambiente em que estivéssemos
e ao nosso dia-a-dia. Isso para mim foi muito importante, pois não sou
pedagoga nem professora e não tinha qualquer experiência com ensino
infantil, o que gerava em mim um certo receio de não saber estruturar
as aulas da Mayara. Na prática, o treinamento recebido me ajudou a realizar
aulas mais prazerosas, na praia, nos museus, em parques, aproveitando o que
estivéssemos fazendo para introduzir conceitos, desenvolver e treinar
sua coordenação, etc. Por exemplo: os conceitos de dentro e fora,
a contagem, os movimentos preparatórios para a escrita e as primeiras
letras foram aulas que tiveram como pano de fundo as areias das praias de Ubatuba
(SP) e Parati (RJ).
Você disse que sua primeira preocupação era que sua
filha tivesse uma boa alfabetização. Como você superou essa
dificuldade?
Logo após mudar para o barco, então com 3 anos e meio, a Mayara
começou a pedir insistentemente que eu a ensinasse a ler, "para
eu ler minhas historinhas", ela dizia. Troquei e-mails com a escola e fui
aconselhada a esperar mais para começar a alfabetização.
Inclusive, mandaram-nos livrinhos de histórias apenas com ilustrações
para que ela pudesse "ler sozinha". O interesse por esses livros durou
cerca de duas semanas e ela voltou à carga, querendo aprender a ler.
Aí, como eu penso que quando a pessoa está muito interessada por
algo é porque está preparada para aprender, comecei a apresentar-lhe
as letras e o som que elas produziam. Iniciei, então, o processo de alfabetização
da Mayara em paralelo com o programa da escola e sem uma metodologia definida
que me orientasse. Usei o que achava mais lógico e, depois, lendo a respeito,
descobri que meu método está há muito ultrapassado. O fato
é que ela lia fluentemente e com compreensão total aos cinco anos
recém-completos e tinha e continua tendo muito interesse pela leitura.
Com isso, o programa da escola e a aprendizagem da Mayara se desencontraram
completamente, e passei a buscar livros de orientação e atividades
por conta própria. Felizmente, graças à nossa opção
de vida, tempo é o que não me falta e, assim, posso muitas vezes
me dedicar a pesquisas e buscas capazes de enriquecer o aprendizado dela. Continuei
fazendo isso enquanto a Mayara estava na pré-escola. Quando ela estava
por iniciar o primeiro ano, achei importante ter novamente a orientação
de uma escola. Aconselhada por Maria Helena Magalhães, minha sócia
na consultoria, que permanecia trabalhando em São Paulo, entramos em
contato com o Colégio Padre Moye e estabelecemos uma nova parceria. Fomos
recebidos nessa escola com grande entusiasmo por diretores, coordenadores, professores
e alunos.
A legislação é bastante restrita quanto à educação
domiciliar no Brasil. Recentemente, o caso de um promotor goiano que reivindica
o direito de educar os filhos em casa levantou muita polêmica. Qual a
sua opinião a respeito?
Apesar de restrita, há uma brecha, que é a Lei Circense. Já
em relação ao que eu acho, o problema é que as leis são
anteriores à informática e aos últimos avanços de
comunicação e precisam ser repensadas com urgência. Precisamos
de uma educação mais libertária, que prepare as crianças
para um mundo que tende a derrubar suas fronteiras. Hoje, podemos estar em uma
sala de bate-papo com alunos de diferentes escolas e países, trocar informações,
confrontar culturas e crenças... Então, por que o aluno tem de
ficar restrito à sala de aula? Por que não podemos pensar em uma
via de mão dupla? Do mesmo modo que as escolas estão abrindo janelas
para o mundo, através de computadores e da Internet, por que não
levar também a sala de aula até onde o aluno está? Não
acredito que muitas pessoas optem por esse tipo de vida que levamos ou que se
mudem para o interior. As escolas continuarão existindo, até porque
assumir a educação dos filhos exige dedicação e
trabalho. O que digo é que os poucos que fogem ao padrão também
deveriam ter condições de acessar o mesmo conhecimento. Acho que
toda a tecnologia que existe atualmente pode ser usada para democratizar o aprendizado
e a informação. É muito bom pensar que o morador de uma
cidade do sertão nordestino poderá ter acesso à informação
global tanto quanto alunos de escolas de São Paulo, Curitiba ou Rio de
Janeiro.
Vocês têm contato com famílias de várias nacionalidades.
Como está o Brasil, em relação a outros países,
no uso da tecnologia para fins de educação a distância?
O que vemos em relação aos estudantes de outras nacionalidades
que também vivem em barcos e viajam pelo mundo é que a educação
a distância pode ser muito boa para o estudante, desde que seus pais tenham
tempo para acompanhar sua evolução. Segundo alguns amigos, na
França, por exemplo, educar em casa, no sítio ou em um veleiro
já é uma realidade há muito tempo. Em casa ou na escola,
o processo da educação tem prós e contras. A Mayara, por
exemplo, adora estudar. Acho que isso tem muita relação com o
fato de nunca ter sofrido nenhuma imposição por parte de professores
e de o ritmo de sua aprendizagem ser seu próprio ritmo. Aos poucos, ela
está descobrindo que, se houver um pouco mais de concentração
e dedicação, a aula quase nunca é maçante e dura
o tempo que tem de durar. Em seu ritmo, ela faz todas as lições
e ainda tem tempo suficiente para brincar, ir à praia, passear. Não
há aquela história de ficar na escola de tal a tal hora e depois
fazer a lição de casa. Acho que isso dá maior responsabilidade.
As aulas são ministradas por tarefas e capítulos. Se levar três
horas para cumpri-los, ela terá menos tempo para outras atividades. Tanto
eu como o Walter achamos isso bom. Se você ler O Ócio Criativo
(de Domenico De Masi), em que se discute a sociedade pós-internet, entenderá
por quê. A matéria "Com o Chip na Alma", escrita pelo
Walter [revista Maga.zine - www.estadao.com.br - de 9/9/2000], também
dá uma boa noção do porquê de acharmos que se orientar
por tarefas a serem cumpridas e não pela questão temporal é
interessante.
Como é o dia-a-dia do projeto Aluna Virtual, que atualmente serve
de ponte entre a Mayara e o Colégio Padre Moye?
A Mayara tem aulas diárias com cerca de duas horas de duração
em que buscamos manter a proporção entre as diversas disciplinas.
Sempre que surge alguma dificuldade, ou que precisamos de orientação
extra, entramos em contato com a Cecília, que é a coordenadora
do Padre Moye. Duas vezes por semana, ela "joga" no computador com
softwares educativos, como reforço aos conteúdos estudados. Isso
muda um pouco quando chegamos a um lugar novo, pois a prioridade é conhecê-lo.
As aulas, então, são dadas nas visitas a museus, nos passeios,
na observação dos hábitos diferentes, nas conversas com
as pessoas da terra.
A Internet e os softwares educativos são fundamentais no projeto
Aluna Virtual. Como a tecnologia é empregada e que papel ela ocupa dentro
do projeto?
A Internet é usada basicamente em dois momentos: para eu manter contato
com a escola e esclarecer dúvidas, trocar idéias sobre como desenvolver
determinada atividade ou avaliação, e para manter a Mayara em
contato com amiguinhos que ficaram para trás ou que seguiram rotas diferentes.
Também é usada para pesquisas referentes às atividades
da escola, já que não podemos contar com uma biblioteca a bordo
e nem com a da escola. Os softwares educativos entram numa parte muito importante
do projeto, que é "aprender com prazer". Têm servido
para ensinar novos conteúdos e fixar conhecimentos na forma de brincadeira.
Para a maioria dos alunos, o acesso à tecnologia ainda é muito
limitado. Como você avalia esse contato direto que a Mayara tem tido com
o computador?
Acho que a Mayara é uma criança privilegiada em diversos sentidos
e esse é um deles. O fato de ela ter acesso direto à tecnologia
torna natural o uso de instrumentos que, cada vez mais, são necessários
à vida educacional e profissional. Mas acho preocupante o que vejo nas
capitais por onde passamos, em residências de classe média, onde
as crianças passam horas por dia em frente ao computador em detrimento
de outras atividades extremamente necessárias ao seu desenvolvimento.
Esse risco não corremos. O uso do computador, bem como o da TV e do videocassete,
está submetido à verificação de quanto podemos gastar
de bateria sem prejudicar outras atividades que dependem de eletricidade. O
computador pode ficar ligado no máximo uma hora por dia. Fora isso, o
ambiente em constante mudança a estimula para sair do barco, correr na
areia, nadar, andar pelas cidades e conhecer.
Como é estruturado o material didático que lhe é enviado
semanalmente? É diferente do material que os alunos do Colégio
Padre Moye utilizam?
Não recebemos material semanalmente, mas uma remessa semestral, e mantemos
contato via Internet com maior freqüência. O material é o
mesmo que os alunos do Colégio Padre Moye utilizam, mas é o livro
do professor, que, além das atividades, traz orientações
a quem vai ministrar a aula.
Além de seguir as atividades propostas pelo material, a cada nova
escala, é como se a Mayara começasse um novo projeto educacional,
pesquisando e conhecendo o local que vai visitar, certo?
Certo. Ao chegarmos em uma cidade, buscamos conhecer a história dela,
como foi fundada, seus fatos marcantes e como ela se encaixa no que já
conhecemos. Até agora, estivemos no Brasil e vamos tentando unir, de
forma simplificada, as novas cidades à história do descobrimento,
que foi bem marcante para a Mayara, e do desenvolvimento do país.
As escolas reconhecem a importância de empreender visitas, excursões
e atividades ao ar livre. Como você descreveria essa experiência
em que, nas palavras da Mayara, "a praia é a escola"?
Acredito que atividades como essas ampliam a formação da criança
e seus horizontes. Além disso, acho que são uma ótima forma
de aprender, porque estimulam o aluno a descobrir e usar todos os seus sentidos
na descoberta. Numa aula tradicional, são estimulados principalmente
o canal auditivo e o visual. Em aulas como as que você citou, o aluno
vive a situação e ela penetra por todos os seus canais de comunicação
- visual, auditivo e cinestésico -, por isso, ele a grava muito mais
facilmente e as informações que adquiriu ali passam a fazer parte
de sua experiência. A Mayara vem tendo muitas aulas assim, porque está
sempre conosco e, como eu disse, gostamos muito de saber sobre os lugares e
as pessoas que conhecemos. Segundo a professora da escola que ela freqüentou
em Fortaleza, em diversas situações, a Mayara pôde enriquecer
os assuntos contando suas experiências, o que viu ou viveu em outros lugares.
* Relatório de Fabíola
Maria Duboc dos Santos, Diretora Pedagógica da Escola Espaço Infantil,
Fortaleza - CE.
Qual é a próxima escala de vocês? O que você poderia
adiantar sobre o planejamento das próximas aulas e projetos da Mayara?
Nossa próxima escala será nas Illas Salut, na Guiana Francesa.
Será uma parada de uns três dias apenas para descansar. Nesse arquipélago,
fica a Ilha do Diabo e o famoso presídio - já inativo - que serviu
de pano de fundo para o romance e do filme Pappillon. Não temos certeza
de que poderemos desembarcar na ilha. Se pudermos, visitaremos o local e conheceremos
sua história a partir dele mesmo.
Durante as travessias, interrompemos um pouco o programa regular de aulas,
não é muito confortável fazer aulas navegando. Mas faremos
aulas diárias de inglês para que a Mayara esteja mais habituada
ao idioma quando chegar. Essas aulas serão um pouco diferentes das da
escola, não terão escrita, leitura ou pintura, serão exclusivamente
de conversação e terão uma finalidade muito prática:
possibilitar sua comunicação no próximo porto, que é
Trinidad.
Você já tinha alguma experiência como professora? E que
diferença faz o fato de a aluna ser sua filha?
Eu trabalhava com treinamento empresarial, o que não deixa de fazer
de mim uma espécie de professora. Mas nunca trabalhei com crianças
ou como professora de escola. Quanto ao fato de a aluna ser minha filha, acho
que faz uma diferença grande para ela, uma diferença que ela dribla
com uma brincadeira: em cerca de 80% das aulas dadas no barco, a Mayara encena
que está chegando na escola e que eu sou sua professora, não sua
mãe. Nós brincamos de aula com conteúdos de verdade. Sinto
que é muito mais fácil manter seu interesse ou garantir seu ritmo
quando meu papel é de professora e não de mãe. Não
sei dizer a diferença porque não tenho o outro lado da história
para contar, mas acho que uma professora poderia se colocar a respeito.
Nas longas paradas, você matricula normalmente a Mayara em uma escola.
Qual a reação dos coleguinhas e professores ao saber da autonomia
de horários e do convívio com outras culturas que o projeto tem
proporcionado a ela?
A reação é de muita curiosidade e, por parte de algumas
pessoas, até de incredulidade no início. Muitas crianças
e seus pais adoram ir conhecer a "casa-barco" e fazer perguntas e
mais perguntas. A Mayara adora receber amigos no barco, esses momentos são
muito bons para ela. Os educadores ficam geralmente desconfiados quanto aos
resultados que o projeto está trazendo a Mayara, principalmente no que
diz respeito à sociabilidade. Mas essa desconfiança cede lugar
à admiração e à constatação de que
uma criança pode ter uma boa formação - como estudante
e como pessoa - mesmo longe do sistema educacional tradicional.
Leia as opiniões de quem acompanhou o desempenho escolar de Mayara:
* Lília Rezende, coordenadora
da Escola Espaço Educacional Infantil, Salvador - BA.
* Daniele Tavares, psicóloga
que trabalha com estimulação infantil através de brincadeiras
em Fortaleza - CE.
Esse período em sala de aula é aproveitado para avaliar o
conhecimento dela em relação aos demais alunos?
Sim, é usado dessa forma. A Mayara esteve em escolas por um tempo mais
longo em Salvador e Fortaleza. Nesses dois momentos, seus conhecimentos em relação
aos dos colegas mostraram-se bem superiores. Na primeira experiência,
a Mayara já sabia ler e freqüentou o Jardim III. Acabou virando
uma espécie de monitora da classe e auxiliando os colegas que estavam
iniciando a alfabetização. Uma coleguinha sua, nessa época,
falou para a professora: "Tia, que bom que veio alguém que já
sabe ler para nos ajudar, né?". Já aqui em Fortaleza, foi
a primeira vez que a Mayara fez provas formais. Tirou excelentes notas, a ponto
de sermos cumprimentados pelos diretores e por diversos funcionários
da escola. Isso me deu uma tranqüilidade muito grande, pois não
tenho a oportunidade de comparar a Mayara com outras crianças. Aqui,
tive uma prova bem palpável de que estamos fazendo um bom trabalho. Um
aspecto que me preocupava era que a Mayara dispersasse demais sua atenção
e, com isso, demorasse muito mais tempo que o necessário em cada atividade.
Pedi que a professora observasse isso e seu parecer foi de que ela não
é das mais velozes, mas não há nada de preocupante nisso,
e que ela faz as atividades com muito cuidado e capricho.
A partir da observação, do acompanhamento do aprendizado da
Mayara, a que você atribui esse rendimento? Você tem chegado a alguma
conclusão que pudesse ser empregada em escolas tradicionais ou nos cursos
de formação de professores?
Como já disse, não tenho formação como professora
- sou psicóloga -, mas percebo uma grande diferença entre a educação
que estamos dando a Mayara e a que a maioria das crianças recebe: o tempo
disponível para ela. Quando ela estava aprendendo a ler, queria ler cada
placa ou nome de restaurante por que passava... E nós parávamos
e esperávamos que ela lesse. Achamos que esse é o grande diferencial
do projeto Aluna Virtual, o tempo que podemos dedicar aos interesses dela. Nas
escolas que escolhemos para a Mayara estudar, percebemos esse mesmo respeito
ao ritmo das crianças - dentro das possibilidades de uma classe. Mas
na procura pela escola certa, conheci escolas com padrões rígidos
em que o mais importante era que minha filha "se adaptasse às normas
da escola", conforme me falou repetidas vezes a diretora de uma instituição
aqui de Fortaleza. Não sei se isso é pertinente aos currículos
dos educadores ou à linha educacional que seguem, mas é um aspecto
muito importante para a formação da criança e qualquer
pai ou mãe mais atento pode perceber nas escolas que visitar.
A idéia de vocês é passar os próximos dez anos
navegando. Qual é sua expectativa? A Mayara vai estar com 17 anos e terá
concluído sua educação básica quase sem ter posto
os pés na escola...
Em termos educacionais, não tenho mais dúvidas de que a Mayara
está tendo e terá uma ótima formação. Uma
formação que vai colocá-la como cidadã do mundo.
Acho muito importante isso numa época em que há tantos conflitos
por causa de fronteiras, credos e nacionalidades. Nós três estamos
aprendendo a desenvolver um profundo respeito pelas diferentes culturas nesse
tempo em que estamos viajando ao longo dos diversos "Brasis". Uma
formação que vai lhe dar subsídios para escolher com propriedade
a profissão e o estilo de vida que desejar e em que local isso vai se
dar... Minha expectativa é formar uma pessoa feliz. Meu desafio é
ajudar a Mayara a cultivar as amizades que faz, mesmo a distância, e perceber
que nossos amigos estão espalhados pelo mundo e não concentrados
em um único lugar. Agora, indo para o Caribe, estamos recebendo uma ajuda
para isso. Iremos ao encontro de três outros barcos (um brasileiro, um
americano e um espanhol) em que vivem amiguinhas da Mayara que pertencem à
sua faixa etária. Será um reencontro maravilhoso.
*****
Por Vitor Casimiro
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