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"Resolvemos realizar o evento como um espaço onde as crianças possam fazer intervenções, em sua linguagem, através de oficinas divididas em dois eixos que nos pareceram relevantes: meio ambiente e pluralidade cultural."

 
Valéria Viana é educadora. Ela integra, ao lado dos educadores Mário Gonçalves, Patrícia Dorneles, Renata Lanfermann, Vladimir Carmo, das arquitetas Cátia Ceccarelli e Daniele Caron, da nutricionista Luciane Scavone, das médicas Arlete Fante e Talitha Camuru e do publicitário Vladimir Azeredo, o núcleo responsável pela organização do Forumzinho Social Mundial, que acontece entre 1 e 4 de fevereiro de 2002 no Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.
 

O outro mundo das crianças

Das 60 mil pessoas que irão ao Fórum Social Mundial 2002, duas mil têm entre 6 e 14 anos. Vindas de 18 países, as crianças serão recebidas com uma grande festa: jogos, oficinas e muitos livros. Nada de discursos ou comícios. Contrário à filiação política, o Forumzinho quer ser um espaço de celebração da infância e da diversidade cultural. Um outro mundo possível além da telinha e do joguinho eletrônico.

Pelo segundo ano consecutivo, milhares de pessoas reúnem-se no Fórum Social Mundial, animadas pelo ideal de que "outro mundo é possível" e dispostas a rimar globalização com desenvolvimento humano. Idéias não faltam: desde frear as agressões ao meio ambiente até promover a convivência pacífica entre os povos. As propostas vêm da cuca de intelectuais, líderes políticos, associações dos cinco continentes. A grande novidade é que chegou a hora de a criançada mostrar seu valor.

"Estávamos decidindo o futuro sem incluir as crianças", admite Valéria Viana, educadora do Forumzinho Social Mundial. Para ela, porém, não basta garantir que crianças participem da construção de um futuro melhor. É fundamental que elas se expressem à sua maneira, isto é, nada de palestras ou porta-vozes de alguma corrente de pensamento. "Como não temos a pretensão de solucionar os problemas do mundo, não queremos comícios, crianças fazendo discurso, isso não é da natureza infantil", pondera.

Avesso à filiação política, o Forumzinho prefere sair em defesa dessa "natureza infantil" e resistir à hegemonia da televisão e do videogame. Em vez de assistir a tudo pela tevê, ele propõe o encontro com crianças de várias culturas; na contramão da parada de sucessos, dá chance de ouvir músicas de outros países; em alternativa ao jogo eletrônico, sugere criar brinquedos a partir de sucata, fazer da latinha de Nescau uma máquina fotográfica e construir instrumentos musicais de forma artesanal.

Na opinião de Valéria Viana, porém, nada é tão importante quanto resgatar o hábito da leitura, do prazer de contar e ouvir histórias, dos contos de fada antes de dormir. Tanto que o maior destaque do evento será dado ao Mosaico dos Livros, biblioteca fruto das doações que as crianças são convidadas a fazer. O Forumzinho acontece de 1 a 4 de fevereiro de 2002 no Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.

Na entrevista a seguir, você vai ver como a equipe organizadora do evento pretende celebrar a infância e a diversidade cultural. E provar que um outro mundo, além das telinhas e joguinhos eletrônicos, é possível.

É verdade que a idéia de criar um evento infantil paralelo ao Fórum Social Mundial partiu de uma criança? Como isso aconteceu?
É verdade, a filha de uma amiga foi ao Fórum Social Mundial no ano passado e saiu de lá encantada com a movimentação, mas um pouco desapontada: não havia nada para ela fazer. Meus filhos ficaram com os avós enquanto eu trabalhava como voluntária e percebi que eles, que serão os protagonistas do nosso "outro mundo possível", não estavam incluídos nessa discussão. Estávamos decidindo o futuro sem incluir as crianças. Ora, elas são o futuro! Então, resolvemos realizar o evento como um espaço onde as crianças possam fazer intervenções, em sua linguagem, através de oficinas divididas em dois eixos que nos pareceram relevantes: meio ambiente e pluralidade cultural.

Elas ajudaram na organização? Puderam contribuir de alguma forma para que o Forumzinho tivesse a sua cara?
Sim, todas somos mães e nossos filhos brincam enquanto fazemos reuniões, palpitam enquanto formatamos o evento. Chegam os livros que compõem o mosaico e eles saem lendo direto. Nossas tardes são passadas na minha casa, entre telefonemas e reuniões, com nossos filhos e amiguinhos nos rodeando o tempo todo, o que já é uma festa.

Que "mosaico" é esse?
Estamos articulando juntamente com Jeferson Assumção o mosaico dos livros, que é um convite e um desafio: todos nós, participantes do FSM 2002 e do Forumzinho, traremos um livro a ser incorporado ao acervo que constituirá a Biblioteca Social Mundial. Essa biblioteca terá livros relevantes a quem pensa alternativas para um outro mundo possível e também livros literários, inclusive literatura infantil de qualidade.

Você estava mencionando as reuniões... Quem faz parte dessa equipe que está por trás do Forumzinho?
O realizador do evento é o Núcleo Forumzinho Social Mundial, formado por um grupo de educadores e oficineiros — eu, Mário Gonçalves, Patrícia Dorneles, Renata Lanfermann, Vladimir Carmo —, duas arquitetas — Cátia Ceccarelli e Daniele Caron —, uma nutricionista — Luciane Scavone —, duas pessoas da área de saúde — Arlete Fante e Talitha Camuru — e um publicitário que deu a "cara" do Forumzinho — Vladimir Azeredo. A Talitha saiu da coordenação em novembro pra morar em São Paulo.

A propósito, sobre a "cara" do evento, como você definiria a proposta do Forumzinho?
O Forumzinho vai ser um espaço de encontros: crianças de vários países, oficineiros de todo o mundo, voluntários capacitados, livros, brinquedos, brincadeiras, jogos, música, dança, barulho. Nossa proposta é essa: vamos mudar e educar a nós mesmos porque, assim, o mundo certamente será diferente. O Forumzinho será, então, esse espaço onde a criança vai poder descobrir como fazer brinquedos lindos com lixo seco, com PET, aprender a fazer papel reciclado, construir uma máquina fotográfica com uma latinha de Nescau... Vai pegar revistas velhas e criar um fanzine, aprender sobre a água, a terra e o ar, ouvir e aprender a contar histórias, contos de fadas, ter aula de teatro, dança, música, fazer seu instrumento musical e fazer um show.

É correto dizer, então, que o espírito das oficinas é aliar a informação com o aspecto lúdico? Por exemplo: falar da reciclagem ao mesmo tempo em que as crianças criam brinquedos de sucata...
Perfeito. Esse é o espírito: educar, brincar, emocionar. Tem oficinas que são muito especiais, mas tem que vir pra conferir.

E quantas crianças — e de quantos países — são aguardadas para conferir o evento?
Teremos 2 mil crianças inscritas, de 18 países.

Bem, como você dizia, a idéia não é fazer um FSM em miniatura ou uma caricatura dele, certo?
Certo. O FSM é um lugar de palestras, deliberações, e o Forumzinho não se propõe a nada disso. Nosso público é de crianças e adolescentes. Não pensamos em palestras, conferências... As crianças sairiam correndo. E com razão! Mais tarde, como leitores críticos, cidadãos qualificados, elas participarão politicamente das coisas do mundo. Agora, vão descobrir que existem alternativas à TV e ao videogame. Vamos qualificar e respeitar a infância. Vamos brincar com brinquedos de madeira ou reciclados, jogar, cantar, ouvir músicas de vários paises, conhecer gente diferente, ver show de palhaço e de circo... Vamos nos divertir.

Para fazer do Forumzinho um espaço de vivência, foi programado até mesmo um piquenique... O que se espera desse encontro de culturas? Essa é uma oportunidade rara, senão inédita, para a maioria das crianças brasileiras...
Esperamos uma grande festa, uma celebração da vida e da paz. Esperamos que o maior número de pessoas participem do piquenique, já que estaremos em um parque que tem estrutura para 40 mil pessoas e não haverá restrição para o número de participantes.

Dos outros projetos que o Forumzinho vai desenvolver — Criança Fazendo Arte, Feira do Livro, Quem Quer Outro Mundo Põe a Mão aqui —, você destacaria algum?
Nosso maior desafio será, sem dúvida, o espaço de leitura e para contar histórias e a brinquedoteca. A criança, de modo geral, infelizmente não tem o hábito de ler, de entrar numa história e voar com as personagens. Perdemos também o hábito de contar histórias na hora de dormir. Nossa proposta é resgatar a leitura e o ato de contar histórias. No nosso maior espaço dentro do Forumzinho, vai ter um monte de gente bacana, contadores de histórias, escritores, os livros do mosaico e muitas brincadeiras.
O Quem Quer um Mundo Melhor é meu projeto preferido porque acho que vai ser uma bagunça: imagine duas mil crianças melecadas, fazendo uma obra de arte coletiva, um caminho de mãozinhas... Vai ficar lindíssimo!

Como essas produções das crianças representando sua visão de mundo e suas esperanças vão se unir ao evento principal, que tem a intenção de propor soluções inovadoras a problemas ambientais e sociais?
Estamos aqui, fazemos parte do FSM como evento paralelo, e nossa voz já está sendo ouvida. Hoje já não se pensa em FSM sem Forumzinho, porque não se pensa em discussão do futuro do planeta sem os protagonistas desse futuro. Vamos educá-los agora para, no futuro, podermos fazer as mudanças que todos queremos e que vão assegurar justiça e respeito a todos e não apenas a alguns poucos escolhidos.
Com o Forumzinho, já asseguramos um espaço qualificado para a infância. Esperamos que esse espaço se amplie e contribua na discussão da qualificação da vida e da cidadania. Entendemos que, se a criança — e nós mesmos — conseguirmos viver respeitando o meio ambiente, produzindo menos resíduos, aproveitando e reciclando o lixo, tendo, enfim, um olhar diferente para as coisas do mundo, já é um bom começo. Não nos propomos a mudar o mundo, queremos mudar as pessoas. A mudança de comportamento e de percepção nas pessoas mudará o mundo.
Pensa: se eu utilizo os recursos naturais com respeito e sabedoria, não desperdiço, não sujo minha casa nem minha rua, e minha cidade ficará mais limpa. Se meu vizinho fizer o mesmo, perfeito! Se eu respeito a mim mesma e meus limites, se consigo conviver com os outros numa relação honesta e ética, não teremos mais com o que nos preocupar...

O Forumzinho rejeita qualquer filiação político-partidária. Que cuidados se deve tomar para assegurar a liberdade de expressão e pensamento às crianças, para que elas não reproduzam discursos e idéias dos adultos?
Primeiro, nós resguardamos nossas crianças e não pegamos nenhuma como porta-voz ou algo assim. Como não temos a pretensão de solucionar os problemas do mundo, não queremos comícios. É claro que sabemos que todos nós, de uma forma ou de outra, reproduzimos dizeres que não são nossos. Isso faz parte da vida em comunidade. Você abre a boca e já não se sabe onde está você e onde está o outro. Contamos com isso. O que não queremos é a criança fazendo discurso, isso não é da natureza infantil. Não queremos show. Vamos respeitar a criança, deixá-la ser criança, não vamos expô-la de modo algum e vamos ser muito rígidos nisso.

Mas vocês receberam ou não inscrições de crianças que já estão organizadas em grupos e associações a fim de buscar soluções para os problemas globais? É possível avaliar se esse movimento chamado protagonismo juvenil está crescendo?
Olha, teremos a participação de algumas crianças que já participam de entidades e movimentos, mas ainda é cedo para dizer se o Forumzinho vai ser um espaço onde novas articulações serão possíveis. As crianças é que decidem o rumo das discussões em nosso espaço.
Mas, de modo geral, falando do Brasil, podemos ver que se, de um lado, temos a educação em estado de calamidade — escolas precárias, professores mal remunerados e alguns com conhecimentos "bancários" e desatualizados —, e o resultado previsível disso são crianças que sabem o código, mas não sabem interpretar, que têm conhecimentos fragmentados e crianças que vivem sentadas, sozinhas, na frente da TV ou do videogame, comendo produtos industrializados, por outro, há movimentos que estão muitas vezes abrindo uma possibilidade para essa mesma criança conhecer e discutir aquilo que acontece em sua comunidade, se mobilizar para propor mudanças. Eu acho que a tendência, de modo geral, desses movimentos é crescer porque com a situação atual não é mais possível fazer nada. E os jovens vão participar disso tudo, com certeza. E se depender da gente, vamos, sim, mudar o mundo.

O que vai ser feito para preservar o que foi produzido e discutido pelas crianças. As crianças vão redigir um documento? Como está avançando a idéia do memorial do Forumzinho?
Já temos um grupo de fotógrafos e gente escrevendo para registrar o Forumzinho. Estamos nos mantendo em contato, nos organizando, porque não podemos perder tantos talentos reunidos. Esse é um momento ímpar no mundo: estamos com adultos no FSM, jovens no acampamento da juventude e crianças no Forumzinho para tomarmos, juntos, decisões que visam qualificar, tornar melhor e mais bonita a vida de todos. Todos juntos, num mesmo lugar... Onde mais você já viu isso? Vamos ter que fazer com que as pessoas que não puderem estar aqui saibam, hoje e no futuro, que estivemos aqui e que estamos nos organizando, com muito respeito, com muita ética, com amizade, com afeto e solidariedade, para juntos construirmos nosso futuro. O memorial vai ser nosso arquivo.


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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional

janeiro, 2002

         
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