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O outro mundo das crianças
Das 60 mil pessoas que irão ao Fórum Social Mundial 2002,
duas mil têm entre 6 e 14 anos. Vindas de 18 países, as crianças serão recebidas
com uma grande festa: jogos, oficinas e muitos livros. Nada de discursos ou
comícios. Contrário à filiação política, o Forumzinho quer ser um espaço de
celebração da infância e da diversidade cultural. Um outro mundo possível além
da telinha e do joguinho eletrônico.
Pelo segundo ano consecutivo, milhares de pessoas reúnem-se no Fórum
Social Mundial, animadas pelo ideal de que "outro mundo é possível"
e dispostas a rimar globalização com desenvolvimento humano. Idéias
não faltam: desde frear as agressões ao meio ambiente até
promover a convivência pacífica entre os povos. As propostas vêm
da cuca de intelectuais, líderes políticos, associações
dos cinco continentes. A grande novidade é que chegou a hora de a criançada
mostrar seu valor.
"Estávamos decidindo o futuro sem incluir as crianças",
admite Valéria Viana, educadora do Forumzinho Social Mundial. Para ela,
porém, não basta garantir que crianças participem da construção
de um futuro melhor. É fundamental que elas se expressem à sua
maneira, isto é, nada de palestras ou porta-vozes de alguma corrente
de pensamento. "Como não temos a pretensão de solucionar
os problemas do mundo, não queremos comícios, crianças
fazendo discurso, isso não é da natureza infantil", pondera.
Avesso à filiação política, o Forumzinho prefere
sair em defesa dessa "natureza infantil" e resistir à hegemonia
da televisão e do videogame. Em vez de assistir a tudo pela tevê,
ele propõe o encontro com crianças de várias culturas;
na contramão da parada de sucessos, dá chance de ouvir músicas
de outros países; em alternativa ao jogo eletrônico, sugere criar
brinquedos a partir de sucata, fazer da latinha de Nescau uma máquina
fotográfica e construir instrumentos musicais de forma artesanal.
Na opinião de Valéria Viana, porém, nada é tão
importante quanto resgatar o hábito da leitura, do prazer de contar e
ouvir histórias, dos contos de fada antes de dormir. Tanto que o maior
destaque do evento será dado ao Mosaico dos Livros, biblioteca fruto
das doações que as crianças são convidadas a fazer.
O Forumzinho acontece de 1 a 4 de fevereiro de 2002 no Colégio Júlio
de Castilhos, em Porto Alegre.
Na entrevista a seguir, você vai ver como a equipe organizadora do evento
pretende celebrar a infância e a diversidade cultural. E provar que um
outro mundo, além das telinhas e joguinhos eletrônicos, é
possível.
É verdade que a idéia de criar um evento infantil paralelo
ao Fórum Social Mundial partiu de uma criança? Como isso aconteceu?
É verdade, a filha de uma amiga foi ao Fórum Social Mundial no
ano passado e saiu de lá encantada com a movimentação,
mas um pouco desapontada: não havia nada para ela fazer. Meus filhos
ficaram com os avós enquanto eu trabalhava como voluntária e percebi
que eles, que serão os protagonistas do nosso "outro mundo possível",
não estavam incluídos nessa discussão. Estávamos
decidindo o futuro sem incluir as crianças. Ora, elas são o futuro!
Então, resolvemos realizar o evento como um espaço onde as crianças
possam fazer intervenções, em sua linguagem, através de
oficinas divididas em dois eixos que nos pareceram relevantes: meio ambiente
e pluralidade cultural.
Elas ajudaram na organização? Puderam contribuir de alguma
forma para que o Forumzinho tivesse a sua cara?
Sim, todas somos mães e nossos filhos brincam enquanto fazemos reuniões,
palpitam enquanto formatamos o evento. Chegam os livros que compõem o
mosaico e eles saem lendo direto. Nossas tardes são passadas na minha
casa, entre telefonemas e reuniões, com nossos filhos e amiguinhos nos
rodeando o tempo todo, o que já é uma festa.
Que "mosaico" é esse?
Estamos articulando juntamente com Jeferson Assumção o mosaico
dos livros, que é um convite e um desafio: todos nós, participantes
do FSM 2002 e do Forumzinho, traremos um livro a ser incorporado ao acervo que
constituirá a Biblioteca Social Mundial. Essa biblioteca terá
livros relevantes a quem pensa alternativas para um outro mundo possível
e também livros literários, inclusive literatura infantil de qualidade.
Você estava mencionando as reuniões... Quem faz parte dessa
equipe que está por trás do Forumzinho?
O realizador do evento é o Núcleo Forumzinho Social Mundial, formado
por um grupo de educadores e oficineiros eu, Mário Gonçalves,
Patrícia Dorneles, Renata Lanfermann, Vladimir Carmo , duas arquitetas
Cátia Ceccarelli e Daniele Caron , uma nutricionista Luciane Scavone
, duas pessoas da área de saúde Arlete Fante e Talitha Camuru
e um publicitário que deu a "cara" do Forumzinho Vladimir
Azeredo. A Talitha saiu da coordenação em novembro pra morar em
São Paulo.
A propósito, sobre a "cara" do evento, como você
definiria a proposta do Forumzinho?
O Forumzinho vai ser um espaço de encontros: crianças de vários
países, oficineiros de todo o mundo, voluntários capacitados,
livros, brinquedos, brincadeiras, jogos, música, dança, barulho.
Nossa proposta é essa: vamos mudar e educar a nós mesmos porque,
assim, o mundo certamente será diferente. O Forumzinho será, então,
esse espaço onde a criança vai poder descobrir como fazer brinquedos
lindos com lixo seco, com PET, aprender a fazer papel reciclado, construir uma
máquina fotográfica com uma latinha de Nescau... Vai pegar revistas
velhas e criar um fanzine, aprender sobre a água, a terra e o ar, ouvir
e aprender a contar histórias, contos de fadas, ter aula de teatro, dança,
música, fazer seu instrumento musical e fazer um show.
É correto dizer, então, que o espírito das oficinas
é aliar a informação com o aspecto lúdico? Por exemplo:
falar da reciclagem ao mesmo tempo em que as crianças criam brinquedos
de sucata...
Perfeito. Esse é o espírito: educar, brincar, emocionar. Tem oficinas
que são muito especiais, mas tem que vir pra conferir.
E quantas crianças e de quantos países são aguardadas
para conferir o evento?
Teremos 2 mil crianças inscritas, de 18 países.
Bem, como você dizia, a idéia não é fazer um
FSM em miniatura ou uma caricatura dele, certo?
Certo. O FSM é um lugar de palestras, deliberações, e o
Forumzinho não se propõe a nada disso. Nosso público é
de crianças e adolescentes. Não pensamos em palestras, conferências...
As crianças sairiam correndo. E com razão! Mais tarde, como leitores
críticos, cidadãos qualificados, elas participarão politicamente
das coisas do mundo. Agora, vão descobrir que existem alternativas à
TV e ao videogame. Vamos qualificar e respeitar a infância. Vamos brincar
com brinquedos de madeira ou reciclados, jogar, cantar, ouvir músicas
de vários paises, conhecer gente diferente, ver show de palhaço
e de circo... Vamos nos divertir.
Para fazer do Forumzinho um espaço de vivência, foi programado
até mesmo um piquenique... O que se espera desse encontro de culturas?
Essa é uma oportunidade rara, senão inédita, para a maioria
das crianças brasileiras...
Esperamos uma grande festa, uma celebração da vida e da paz. Esperamos
que o maior número de pessoas participem do piquenique, já que
estaremos em um parque que tem estrutura para 40 mil pessoas e não haverá
restrição para o número de participantes.
Dos outros projetos que o Forumzinho vai desenvolver Criança Fazendo
Arte, Feira do Livro, Quem Quer Outro Mundo Põe a Mão aqui ,
você destacaria algum?
Nosso maior desafio será, sem dúvida, o espaço de leitura
e para contar histórias e a brinquedoteca. A criança, de modo
geral, infelizmente não tem o hábito de ler, de entrar numa história
e voar com as personagens. Perdemos também o hábito de contar
histórias na hora de dormir. Nossa proposta é resgatar a leitura
e o ato de contar histórias. No nosso maior espaço dentro do Forumzinho,
vai ter um monte de gente bacana, contadores de histórias, escritores,
os livros do mosaico e muitas brincadeiras.
O Quem Quer um Mundo Melhor é meu projeto preferido porque acho que vai
ser uma bagunça: imagine duas mil crianças melecadas, fazendo
uma obra de arte coletiva, um caminho de mãozinhas... Vai ficar lindíssimo!
Como essas produções das crianças representando sua
visão de mundo e suas esperanças vão se unir ao evento
principal, que tem a intenção de propor soluções
inovadoras a problemas ambientais e sociais?
Estamos aqui, fazemos parte do FSM como evento paralelo, e nossa voz já
está sendo ouvida. Hoje já não se pensa em FSM sem Forumzinho,
porque não se pensa em discussão do futuro do planeta sem os protagonistas
desse futuro. Vamos educá-los agora para, no futuro, podermos fazer as
mudanças que todos queremos e que vão assegurar justiça
e respeito a todos e não apenas a alguns poucos escolhidos.
Com o Forumzinho, já asseguramos um espaço qualificado para a
infância. Esperamos que esse espaço se amplie e contribua na discussão
da qualificação da vida e da cidadania. Entendemos que, se a criança
e nós mesmos conseguirmos viver respeitando o meio ambiente, produzindo
menos resíduos, aproveitando e reciclando o lixo, tendo, enfim, um olhar
diferente para as coisas do mundo, já é um bom começo.
Não nos propomos a mudar o mundo, queremos mudar as pessoas. A mudança
de comportamento e de percepção nas pessoas mudará o mundo.
Pensa: se eu utilizo os recursos naturais com respeito e sabedoria, não
desperdiço, não sujo minha casa nem minha rua, e minha cidade
ficará mais limpa. Se meu vizinho fizer o mesmo, perfeito! Se eu respeito
a mim mesma e meus limites, se consigo conviver com os outros numa relação
honesta e ética, não teremos mais com o que nos preocupar...
O Forumzinho rejeita qualquer filiação político-partidária.
Que cuidados se deve tomar para assegurar a liberdade de expressão e
pensamento às crianças, para que elas não reproduzam discursos
e idéias dos adultos?
Primeiro, nós resguardamos nossas crianças e não pegamos
nenhuma como porta-voz ou algo assim. Como não temos a pretensão
de solucionar os problemas do mundo, não queremos comícios. É
claro que sabemos que todos nós, de uma forma ou de outra, reproduzimos
dizeres que não são nossos. Isso faz parte da vida em comunidade.
Você abre a boca e já não se sabe onde está você
e onde está o outro. Contamos com isso. O que não queremos é
a criança fazendo discurso, isso não é da natureza infantil.
Não queremos show. Vamos respeitar a criança, deixá-la
ser criança, não vamos expô-la de modo algum e vamos ser
muito rígidos nisso.
Mas vocês receberam ou não inscrições de crianças
que já estão organizadas em grupos e associações
a fim de buscar soluções para os problemas globais? É possível
avaliar se esse movimento chamado protagonismo juvenil está crescendo?
Olha, teremos a participação de algumas crianças que já
participam de entidades e movimentos, mas ainda é cedo para dizer se
o Forumzinho vai ser um espaço onde novas articulações
serão possíveis. As crianças é que decidem o rumo
das discussões em nosso espaço.
Mas, de modo geral, falando do Brasil, podemos ver que se, de um lado, temos
a educação em estado de calamidade escolas precárias,
professores mal remunerados e alguns com conhecimentos "bancários"
e desatualizados , e o resultado previsível disso são crianças
que sabem o código, mas não sabem interpretar, que têm conhecimentos
fragmentados e crianças que vivem sentadas, sozinhas, na frente da TV
ou do videogame, comendo produtos industrializados, por outro, há movimentos
que estão muitas vezes abrindo uma possibilidade para essa mesma criança
conhecer e discutir aquilo que acontece em sua comunidade, se mobilizar para
propor mudanças. Eu acho que a tendência, de modo geral, desses
movimentos é crescer porque com a situação atual não
é mais possível fazer nada. E os jovens vão participar
disso tudo, com certeza. E se depender da gente, vamos, sim, mudar o mundo.
O que vai ser feito para preservar o que foi produzido e discutido pelas
crianças. As crianças vão redigir um documento? Como está
avançando a idéia do memorial do Forumzinho?
Já temos um grupo de fotógrafos e gente escrevendo para registrar
o Forumzinho. Estamos nos mantendo em contato, nos organizando, porque não
podemos perder tantos talentos reunidos. Esse é um momento ímpar
no mundo: estamos com adultos no FSM, jovens no acampamento da juventude e crianças
no Forumzinho para tomarmos, juntos, decisões que visam qualificar, tornar
melhor e mais bonita a vida de todos. Todos juntos, num mesmo lugar... Onde
mais você já viu isso? Vamos ter que fazer com que as pessoas que
não puderem estar aqui saibam, hoje e no futuro, que estivemos aqui e
que estamos nos organizando, com muito respeito, com muita ética, com
amizade, com afeto e solidariedade, para juntos construirmos nosso futuro. O
memorial vai ser nosso arquivo.
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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
janeiro, 2002
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