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"A repetência e a defasagem idade/série são conseqüências de um ensino descuidado, feito na base da improvisação e que vive à espera de milagres."

 
João Batista Araújo e Oliveira é doutor em Educação pela Florida State University. Consultor de ONGs e governos e presidente da JM Associados, idealizou o programa de aceleração e correção de fluxo escolar Acelera Brasil, do Instituto Ayrton Senna. É autor de 25 livros sobre educação, entre eles A pedagogia do sucesso (Saraiva/Instituto Ayrton Senna, 1999) e Ensinar e aprender (Global, 2001).
 

Reprovação federal

O Brasil ficou em último lugar no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), cuja ênfase era a compreensão de textos. Para o consultor, além dos alunos, tem mais gente que não entende o que lê. Ele contesta quem tenta relativizar as notas baixas: "Os dados são irrefutáveis. A reprovação do nosso sistema educacional é merecida."

Leu e não entendeu, deu no que deu. Em dezembro de 2001, a educação nacional viu-se no centro do debate em manchetes nada lisonjeiras. Acabara de sair o resultado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), em que o Brasil ficou na última colocação, entre 32 países avaliados. O país acabara de ganhar um tremendo certificado internacional de mau aluno. Para piorar, a tônica da avaliação era, sobretudo, a interpretação de textos.

Os gestores de sistemas educacionais se viram na incômoda posição de justificar notas vermelhas. (Coisa que, nessa época do ano, era exclusividade de alunos que levaram bomba.) Entre as alegações, foram enumeradas desde a ausência e ineficácia de programas de incentivo à leitura, a comparação desleal com os países ricos e até o fato de o Pisa só avaliar alunos de quinze anos, sem levar em conta a série em que estavam ou os anos de escolaridade que acumularam.

Assim, se a universalização das matrículas na rede pública trouxe de volta aos bancos escolares os alunos mais pobres, antes excluídos, teria trazido também um efeito perverso: a queda na qualidade, decorrente de anos e mais anos de evasão escolar, repetência e defasagem idade/série. Se aos gestores coube explicar as notas e dizer que elas podiam ser recuperadas, o consultor João Batista Oliveira assumiu o papel de pai severo, que não aceita desculpas. Para ele, a reprovação foi retumbante.

Criador do Programa Acelera Brasil, do Instituto Ayrton Senna, que obteve resultados animadores com crianças em turmas de aceleração e correção de fluxo escolar, ele não titubeia: "Meu trabalho com multirrepetentes demonstra que, quase sempre, o aluno não aprende porque não recebe ensino nenhum ou não recebe ensino adequado. O problema é do ensino, não do aluno ou da repetência."

Na entrevista a seguir, ele diz que pôr panos quentes sobre o fraco desempenho brasileiro ao apontar como causa a repetência "é expressão de má-fé, dependendo de quem está falando". Por falar em fé, ele diz que o problema é que o Brasil não compreende certos conceitos de Pedagogia. Por isso, a seu ver, o construtivismo virou "uma seita de talibãs" e que, na falta de "programas de ensino" e devido a professores "totalmente desorientados", o conceito de ciclo "virou ideologia, virou religião".

O senhor escreveu um artigo intitulado "Educação brasileira reprovada". A reprovação do país no Pisa foi, de fato, tão categórica assim?
Sim. Os resultados são inequívocos. Mais da metade dos brasileiros com 15 anos de idade não consegue entender o que lê. Apenas 1% dos brasileiros dessa idade conseguem atingir o nível máximo de desempenho, compatível com o de seus colegas no resto do mundo. Os dados são irrefutáveis. A reprovação do nosso sistema educacional, infelizmente, é merecida.

Isso significa, por exemplo, que as escolas particulares não têm como se eximir da responsabilidade pelo mau resultado do país no Pisa?
Não. O governo brasileiro ainda não disponibilizou as informações sobre a amostra utilizada. Portanto, seria precipitada qualquer conclusão a respeito. No entanto, dados do Saeb, do Enem e do Provão mostram que o desempenho de alunos de muitas escolas privadas ainda deixa muito a desejar — embora seja, em média, melhor que o dos alunos de escolas públicas. Em grande parte, este é um fenômeno de comodismo: quando a competição é suave, as pessoas não se esforçam muito.

A prioridade dessa edição do Pisa era avaliar a compreensão de textos. Uma reação comum ao fracasso brasileiro foi centrar as críticas nos métodos de ensino da Língua portuguesa e na ausência de incentivo à leitura...
Não é correto. O Pisa avaliou o desempenho em língua, ciências e matemática. Mas, obviamente, quem não sabe ler não consegue entender o livro de ciências. Os problemas, no Brasil, começam na alfabetização. O Brasil perdeu a noção de como se alfabetizam crianças. O construtivismo — uma das várias correntes pedagógicas que existem — virou uma seita de talibãs em muitas escolas do Brasil. E não oferece respostas adequadas na maioria dos casos. Em todo o mundo, são poucos os professores que conseguem utilizar adequadamente métodos de inspiração construtivista.

Outra conclusão freqüente, que serviu até mesmo de justificativa oficial para o mau resultado, foi a repetência e a defasagem idade/série. O senhor concorda que estes sejam os grandes vilões da educação brasileira?
É como você culpar o termômetro pela febre do paciente. Qualquer médico que dissesse um absurdo desses teria seu diploma cassado pela Associação Médica. Em educação, somos obrigados a ouvir os maiores disparates — sobretudo quando proferidos por autoridades. As pessoas que dizem isso não passariam no teste do Pisa, que mede raciocínio lógico elementar. A repetência e a defasagem idade/série são conseqüências de um ensino descuidado, feito na base da improvisação e que vive à espera de milagres. Agora o milagre deverá vir dos computadores...

Em dados de 1997, a OCDE, entidade promotora do Pisa, já apontava o Brasil como campeão de repetência... Como o senhor avalia os esforços que têm sido feitos, nos últimos anos, para enfrentar o problema?
São absurdamente insuficientes. Desde 1994, venho trabalhando nesse assunto. Quando estive no MEC, em 1995, o ministro Paulo Renato acolheu a preocupação com o tema e começamos a desenvolver diálogos e iniciativas em diversos estados. Depois que saí de lá, participei de projetos e iniciativas envolvendo vários estados e municípios brasileiros, com o apoio de várias instituições e até com alguns recursos do MEC. Onde há vontade política e muito esforço, conseguem-se resultados modestos, mas significativos. Um exemplo é o programa Acelera Brasil, patrocinado pelo Instituto Ayrton Senna. Descobrimos, entre outras coisas, que de 20% a 40% dos alunos das quatro primeiras séries que estão atrasados na escola são analfabetos. Extrapolando para o país como um todo, isso representa cerca de 5 milhões de alunos. Para lidar com essa situação imprevista, tivemos que adaptar o método Dom Bosco para que os alunos pudessem se alfabetizar e entrar no programa de aceleração. Na Bahia, desenvolvemos o programa de correção de fluxo escolar para alunos de quinta a oitava série, que vem sendo implementado com muita seriedade e êxito comprovado. Esses programas são avaliados por agências externas e independentes. A transparência é total. Há outros programas com objetivos semelhantes no Brasil, mas, na falta de avaliação externa, é difícil dizer se eles são eficazes. Em geral, quem não avalia ou quem avalia, mas não publica os resultados, não tem muita coisa boa para contar. O patrocínio do governo federal para programas desse tipo é absolutamente marginal. É por aí que deveria começar a redenção da escola pública, mas é preciso determinação, paciência, foco e muita seriedade. Infelizmente, a pressão política é para cantar vitória antes da largada.

O que é o método Dom Bosco?
O método Dom Bosco é utilizado para alfabetização de adultos desde a década de 60. Foi adaptado, com sucesso comprovado, em nosso projeto para uso por crianças analfabetas defasadas e já vem sendo usado também para alfabetização regular — só este ano na Bahia deverá ser usado em mais de 150 municípios.

O sistema de ciclos é uma saída apropriada para combater a repetência e, ao mesmo tempo, garantir a qualidade desejada à educação nacional?
O Brasil não compreendeu nem compreende muitas coisas relacionadas à educação e à pedagogia. Os comentários, sobretudo das autoridades, a respeito do Pisa confirmam nossa dificuldade em enfrentar os fatos e aprender com os erros. O conceito de ciclos é um desses conceitos que temos dificuldade em compreender. Antigamente, o termo ciclo era usado para designar o ensino secundário. É preciso ter cuidado com as palavras. Ciclo é apenas um entorno para limitar um conjunto de séries. O antigo curso primário era um ciclo natural, o antigo ginásio, outro. A palavra ciclo tem outro sentido pedagógico, relacionado ao ritmo do aluno. Na França, por exemplo, o ano letivo é dividido em pequenos ciclos. Isso permite às escolas delimitar melhor o progresso do aluno e atacar os problemas logo que eles surgem. O ciclo é de duração menor do que o ano letivo. No Brasil contemporâneo, a palavra ciclo está associada ao conceito de promoção automática e, mais recentemente, ao conceito de progressão continuada. Promoção automática pode haver com ou sem ciclo. A idéia é que o aluno só é avaliado, para fins de aprovação, ao final de um ciclo. Nos anos intermediários, ele tem assegurada sua promoção automática.
No Brasil, a idéia de promoção automática baseia-se no entendimento equivocado do conceito de respeito ao ritmo de aprendizagem do aluno. No meu livro Ensinar e aprender (Global, 2001) discuto isso com mais vagar. Respeitar o ritmo do aluno significa dar-lhe condições de cumprir um programa de ensino em um tempo determinado. Se isso não ocorrer, é porque o programa é inadequado. Esperar simplesmente a passagem do tempo é esperar por um milagre. Respeitar o ritmo significa que o aluno mais lento tem que trabalhar mais, precisa de mais atenção, de mais tempo para fazer deveres de casa, enfim, de mais intensidade pedagógica.
Recentemente, examinei dezenas de currículos de Ensino Fundamental. É curioso observar que, sempre que há ciclo, aparecem palavras bonitas e vazias, mas não há programa de ensino. Escolas, professores e alunos ficam totalmente desorientados. O conceito de ciclo virou ideologia, virou religião.
O conceito de progressão automática vem sendo desenvolvido pelo sistema público de São Paulo. Tentei localizar o pesquisador, mas não tive resposta. Ainda não consegui obter as pesquisas realizadas sobre o assunto, com financiamento do CNPq. Gostei do que li num artigo publicado na revista da Fundação Carlos Chagas. Acho que aí temos uma proposta que pode ser conceitualmente sólida, porque está apoiada num programa de ensino detalhado e estratégias de atendimento ao aluno. No papel, me pareceu um bom caminho; na prática, não sei o que está ocorrendo.

Em maio de 2001, uma pesquisa da Apeoesp indicou que, de uma amostra de 10 mil professores da rede pública paulista, 92% se opõem ao sistema. A seu ver, o que está por trás dessa rejeição?
Não conheço a pesquisa da Apeoesp. Em geral, professores têm razão de se opor a qualquer mudança, porque já sofreram muito com mudanças. Há muitas mudanças que são boas, mas nem sempre são bem apresentadas ou negociadas. Opor-se a mudanças não pode se tornar uma regra nem deve ser visto como necessariamente bom. Há mudanças e mudanças. Há circunstâncias em que se justifica até mesmo uma forte intervenção externa nas escolas. Mas, em condições normais, mudanças devem vir das escolas, em função da necessidade de adequar suas práticas para obter os resultados desejados. Para isso, as escolas precisam saber o que se espera delas, receber condições para trabalhar e ser responsabilizadas por seus resultados.

As notas baixas no Saeb e no Enem também foram atribuídas à repetência. Não há um certo determinismo em ver a queda no desempenho como natural quando se incorporam alunos pobres, antes excluídos do sistema educacional?
Atribuir as notas baixas no Saeb e no Enem à repetência só pode ser má-fé, já que as pessoas que falam essas coisas têm formação adequada. Uma coisa é constatar que alunos repetentes tiram notas mais baixas do que os alunos não-repetentes. Outra é dizer que a causa das notas baixas é a repetência. Isso, ou é um erro elementar de lógica, ou é uma expressão de má-fé — dependendo de quem está falando. A repetência é sintoma de não-aprendizagem. A avaliação do Pisa deixa o rei nu porque não pergunta em que série o aluno está ou se é repetente. Pergunta se, aos 15 anos de idade, depois de estar na escola por mais de 8 anos, ele aprendeu alguma coisa. Meu trabalho com multirrepetentes demonstra que, quase sempre, o aluno não aprende porque não recebe ensino nenhum ou não recebe ensino adequado. O problema é do ensino, não do aluno ou da repetência.


O senhor idealizou um programa de aceleração escolar, o Acelera Brasil, que rompe com esse determinismo e consegue excelentes resultados com quaisquer alunos, mesmo os mais carentes. Qual a receita?

Eu não diria excelentes resultados, mas resultados consistentes e confiáveis, porque aferidos por avaliação externa. Estamos obtendo resultados semelhantes em outros estados, como Goiás e Bahia, até com alunos de quinta a oitava série. O que ocorre, em todos os casos, é muito parecido: onde o programa é implementado como deve ser, os resultados são melhores. Não há receita nem segredo, mas um conjunto de cuidados que estão descritos no meu livro A pedagogia do sucesso e em artigos publicados na Revista Ensaio, da Fundação Cesgranrio, entre outras fontes. Primeiro, há os fatores políticos, o compromisso de corrigir o fluxo escolar num tempo reduzido — idealmente não mais do que quatro anos. O compromisso é traduzido em recursos para que o programa funcione e em apoio político das autoridades durante todo o tempo. Segundo, a pedagogia desses programas é adequada a professores e alunos. Os materiais são voltados para o aluno e as atividades são estruturadas e permitem que ele consiga sucesso desde o primeiro dia no programa. Já o professor sabe exatamente o que tem que fazer, por que tem que fazer e como fazer. A pedagogia não fica nas palavras bonitas de cursos de capacitação. Ela chega à carteira do aluno. Terceiro, os programas são supervisionados bem de perto. O professor não recebe capacitação teórica, mas uma visita semanal para discutir em detalhes suas conquistas e problemas. O programa é monitorado — freqüência de alunos, professores, ritmo de trabalho, livros lidos — e os resultados são utilizados para corrigir rumos. Enfim, há vontade política, recursos, persistência, liderança, tecnologia apropriada e, em todos os lugares do Brasil, professores que desejam que o programa dê certo.

Um dos pilares do programa é a ênfase na melhora da auto-estima dos alunos. Em que medida a baixa auto-estima explicaria o mau desempenho dos alunos brasileiros no Pisa?
A auto-estima, no programa, não é uma variável isolada. Ela decorre do sucesso que o aluno começa a ter na escola desde o primeiro dia. Não é a auto-estima que gera a competência, ela vem da competência, do sucesso que o aluno vai tendo.

O Acelera Brasil dá uma chacoalhada no currículo. É correto afirmar que o salto de qualidade se deve à opção de tratar com profundidade os principais assuntos, em detrimento do excesso de conteúdos, da educação enciclopédica?
O currículo do Acelera Brasil, assim como o do Método Dom Bosco e o do Programa de Regularização de Fluxo Escolar, é elaborado com base nos conhecimentos científicos mais evoluídos a respeito de como ensinar e de como aprender. Os materiais são testados em campo, de maneira a assegurar sua aderência e eficácia. Não há ideologia, "xiitismo". O que funciona fica, o que não funciona é modificado.
Não creio ser adequado culpar o excesso de conteúdos pelos males do ensino regular. De modo geral, a escola vem ensinando muito pouco. O problema é que a pedagogia é ruim, os currículos e livros didáticos são estruturados como "atividades" e impera o experimentalismo (e não a experimentação).

Que professor um programa de aceleração escolar como o Acelera Brasil exige? Como o programa faz para superar as eventuais carências na formação de professores ou as más condições de trabalho?
Esses programas de que participo partem da realidade: o aluno multirrepetente e o professor que está aí. O único requisito formal é que o professor tenha, pelo menos, o Ensino Médio. Uma das dificuldades, no Brasil, é que muitos pedagogos propõem idéias que até são interessantes, mas não são adequadas aos professores que estão aí. Ou então querem dar "capacitação" como solução mágica para todos os problemas — inclusive problemas que não existem.
Os programas de aceleração que mencionei levam em conta o professor como ele é e a realidade em que trabalha e apresentam uma proposta que ajuda o professor a se auto-superar e a ser muito melhor do que seria sem o apoio de materiais estruturados. Agora, esses programas exigem que o professor trabalhe como um louco. A maioria deles faz 200 horas ou mais de trabalho adicional por ano para acompanhar os trabalhos. A maior parte dos poucos professores que não retornam ao programa em anos posteriores diz que a razão é falta de tempo, e não falta de convicção.


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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional

janeira, 2002

         
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