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A humanidade como ela é
Se pudesse, Cláudia Werneck acrescentaria um artigo
à Declaração dos Direitos da Criança: toda criança
tem o direito de conhecer a humanidade como ela é. Por isso, defende
a inclusão de todas as crianças com deficiência na escola
regular. Só assim, diz ela, os portadores de deficiência poderão
contribuir com seu talento para o bem comum.
Uma sociedade e uma escola para todos, todos mesmo, sem exceções.
Tamanha ênfase parece bobagem. Afinal, quem diz "todos" não
exclui ninguém, certo? Isso é o que pensam gramáticos e
legisladores. Mas não os militantes da sociedade inclusiva. Para eles,
ressaltar, destacar e pôr em evidência o caráter incondicional
da inclusão nunca é demais. Permite compreender a profundidade
da revolução que é proposta e ajuda a desatar o nó
em que se transformaram os debates sobre o assunto.
Cláudia Werneck, uma das maiores especialistas brasileiras na área,
que o diga: "É preocupante como a palavra inclusão é
mal utilizada". Entre os equívocos, ela enumera: confundir integração
com inclusão; pensar que a inclusão é privilégio
de portadores de deficiência ou é feita somente para beneficiá-los;
achar que inclusão é igual a respeito às diferenças;
ou que se trata da reinserção social dos desvalidos, das vítimas
do sistema, de quem não tem o que comer ou onde morar.
Para esclarecer os princípios da inclusão, ela não poderia
ter sido mais explícita. Segundo ela, a escola precisa mudar "não
porque não é boa para a criança com deficiência,
mas porque não está boa para ninguém". Ela diz que
as deficiências são tomadas apenas como meta porque "são
o fim da linha" ou "o que sempre fica de fora". Ou porque "no
dia em que ela [a escola] for boa para uma criança com deficiência,
ela vai ser boa para todo mundo", arremata.
Ela critica a escola brasileira que, com raras exceções, "tem
uma proposta segregadora muito bem disfarçada", "gera competição
a todo custo" e "nega a característica mais típica da
humanidade, a diversidade". Nem por isso acha que tais mazelas tornam inviável
a inclusão. Para ela, a principal barreira é a baixa auto-estima
do professor: "Ele acha que a inclusão é muito grande para
ele".
Segundo a OMS, 15 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência.
Um terço deles são crianças. Na entrevista a seguir, ela
comenta a prioridade com que deve ser vista a inclusão na escola: "O
professor não deve esperar a próxima classe para fazer inclusão".
Como o tempo urge, ela criou o projeto Quem cabe no seu todos?. É
uma série de oficinas que, até o final de 2002, vai capacitar
4 mil jovens e adolescentes a incorporar os princípios da inclusão
em projetos sociais.
O que mais confunde os educadores na hora de trabalhar com inclusão?
É você fazer integração e achar que faz inclusão.
Eu não me refiro ao sentido que as duas palavras têm no dicionário.
É o sentido que elas têm como movimentos internacionais. A integração
é um movimento mais antigo e que propunha que as pessoas com qualquer
tipo de comprometimento ou deficiência estivessem juntas, que elas tivessem
o direito ao mesmo que nós, pessoas comuns, digamos assim. Não
tinha, porém, a preocupação de mudar ambientes, estruturas
e relacionamentos que já existiam.
A senhora pode nos dar um exemplo desses relacionamentos que a integração
não muda?
Integração é como se você fizesse em sua casa um
jantar para uma família de chineses, recebesse-os com todo o carinho
e passasse horas agradabilíssimas com eles. No entanto, como ninguém
na sua casa sabe falar chinês e ninguém teve a preocupação
de contratar um intérprete, aquele jantar pode até ser maravilhoso,
mas, no final, cada um vai para o seu lado... Você não teve a preocupação
de mudar, de fazer modificações mais profundas para que aquelas
pessoas pudessem realmente estar junto com você, incondicionalmente. Então,
integração é quando você propõe que as pessoas
estejam juntas, mas a partir de algumas condições. É quando,
por exemplo, você acha que as classes especiais devem continuar, é
quando acha que, para fazer inclusão, basta pegar a escola regular do
jeito que ela é hoje e colocar nela pessoas com deficiência. Integração
é tudo que tem uma cara de reforma, só que uma reforma em que
você não muda a escola.
A senhora fala de mudança de ambientes. Quando o assunto é
inclusão, tende-se a destacar a importância de a escola ter rampas
de acesso, banheiros adaptados, etc. A mudança de mentalidade não
é mais crucial e necessária que a reforma física?
As duas coisas são importantes. Se uma casa está caindo aos pedaços
e você pinta a parede, sem pôr a construção abaixo
para construir uma nova, ela vai cair daqui a pouco. Mas concordo com você
que, se você tiver que optar, a principal mudança deve ocorrer
no projeto político-pedagógico, deve-se mudar a mentalidade das
pessoas. A questão da reforma física é importante também
e o ideal é que elas caminhem juntas. Mas, se você botar a escola
nos "trinques" em termos de acessibilidade e não mudar a cabeça
do diretor, do professor, do faxineiro, da comunidade, dos pais, você
não faz inclusão.
Que mudança na cabeça do professor a educação
inclusiva exige?
Assim como nós, jornalistas, não podemos esperar a próxima
notícia, o professor não deve esperar a próxima classe
para fazer inclusão. Ele tem de fazer inclusão agora. Temos que
acabar com o tempo da conscientização e partir para o tempo da
ação. Mas o professor, que, lógico, há tantos anos
é maltratado no Brasil e ganha pouco eu poderia citar uma relação
de problemas que ele enfrenta , se vê pequeno, lamentavelmente, e acha
que a inclusão é muito grande para ele. Na verdade, o problema
é que ele tem baixa auto-estima. É um grande engano. Ninguém
é mais importante que o professor. Existe alguém mais importante
na vida de uma pessoa do que o professor? Ele é maior que tudo, ele é
do tamanho da inclusão. As escolas inclusivas é que vão
detonar o processo de inclusão no Brasil e nós precisamos fazer
com que o professor se perceba grande, da forma que ele realmente é.
Mas essa lista de carências do professor que a senhora estava enumerando,
até que ponto ela torna inviável um projeto de educação
inclusiva no Brasil?
Eu acho que não é hora de colocarmos nas mazelas educacionais
brasileiras o impedimento para que façamos inclusão. As pessoas
falam muito o seguinte: "Mas como o professor mal pago vai fazer inclusão?"
Na verdade, a pergunta é: "Ganhar bem garante que ele faça
inclusão?" Não, não tem relação nenhuma.
O importante é a forma como o professor se vê, a concepção
de escola que ele tem.
Nem as salas superlotadas seriam uma barreira à inclusão?
Se as salas superlotadas atrapalham a inclusão? Elas atrapalham tudo,
mas a escola brasileira nunca deixou de funcionar por causa disso. Eu nunca
vi uma greve do tipo: "Escola pára porque a sala está superlotada".
A gente reclama, reclama que tem de mudar, mas segue em frente. Ninguém
vai parar um processo educacional de um país por causa disso. Então
que isso não seja usado contra a inclusão! Se eu acho que o professor
tem que se preparar para fazer inclusão? Tem, sim, mas fazendo inclusão
ao mesmo tempo. É simultâneo. Cada escola vai construir seu modelo
porque as comunidades, as realidades e as crianças são diferentes.
E, além disso, é preciso mudar as relações da família
com a comunidade, o sistema como a escola é gerida, o dia-a-dia na sala
de aula, é preciso mudar tudo, mas a mudança não é
para a criança com deficiência, é para a escola ficar melhor.
E uma escola melhor é o objetivo de todos nós.
A senhora falava da concepção que o professor tem da escola...
A seu ver, o que está por trás da decisão de separar os
alunos que têm algum tipo de deficiência?
Eu acho que existe uma visão muito deturpada do que é escola.
Ela é o local de encontro universal de gerações. Existe
para as pessoas se reconhecerem, olharem para o lado e verem quem serão
as pessoas da sua idade com que vão estar juntas de agora em diante.
Com quem desse grupo eu vou, um dia, me casar, ser feliz? Quem é a pessoa
que vai trabalhar comigo? Ou que vai à festa comigo?
Nesse momento, se eu tenho todas as condições humanas, se eu reproduzo,
dentro da escola, a humanidade como ela é, começo olha que interessante!
a me articular eticamente num contexto real, começo a testar, a saber
verdadeiramente o que eu posso dar, o que posso receber, quem vou ajudar, como
posso ser ajudado...
Mas nem todo mundo está convencido de que a inclusão é
a melhor saída. Não é por isso que se prefere às
vezes ficar a meio caminho da inclusão, adotando práticas pedagógicas
de integração?
As pessoas têm o direito de pensar o que desejarem. Existem e sempre existirão
divergências. Embora acredite na inclusão, posso dizer que trabalhei
pela integração quando comecei a me interessar por deficiências,
em 1992. Por dois anos, não conheci o conceito de inclusão. Só
depois comecei a discordar de certas coisas que eu via.
O que a incomodou e a fez abraçar a inclusão?
Eu acho que não dá para você escolher as condições
humanas que vão estar com você nos ambientes. É como se
você negasse a característica mais típica da humanidade,
a diversidade. Comecei a querer ir além nos meus trabalhos e, um dia,
descobri que isso tinha um nome, inclusão. Em 1997, escrevi o primeiro
livro publicado no Brasil sobre sociedade inclusiva, esse que é um conceito
da ONU, o de sociedade inclusiva ou sociedade para todos.
A propósito, o que preconiza a ONU no que se refere à sociedade
inclusiva?
A principal característica da inclusão é propor uma sociedade
para todos, uma escola para todos, de forma incondicional. É para todos
mesmo! Se alguém ficar de fora, não é mais inclusão.
A inclusão propõe uma ruptura dos paradigmas que já existem,
a construção de um novo trabalho, um novo lazer, uma nova escola.
São propostas que vão melhorar a vida de cada um de nós
porque são de alta qualidade, de alto refinamento para os relacionamentos
humanos, onde quer que eles aconteçam. Eu repito: não são
propostas exclusivamente para pessoas com deficiência.
Se a inclusão não se aplica apenas a pessoas com necessidades
especiais, por que em certos discursos dão a impressão que as
duas coisas são uma só?
Quando pessoas que pensam como eu ainda são poucas no Brasil falam
de inclusão, usam a deficiência como estratégia. É
por isso que ela é tão importante: a deficiência é
o fim da linha, é o que sempre fica de fora. Até quando você
ouve os discursos mais atualizados sobre inclusão social, da parte de
militantes de esquerda se é que ainda dá para usar essa expressão
, percebe que eles também não englobam a deficiência. Por
isso, você tem que colocar a deficiência como meta quando se fala
de sociedade ou escola para todos.
Quer dizer que nem a esquerda pratica a inclusão corretamente?
Eu estive no Fórum Mundial Social, em Porto Alegre, no início
desse ano. A questão da deficiência nem entrou no fórum.
Além disso, nada era preparado para deficientes. Então, você
não tinha intérprete em língua de sinais, os banheiros
eram só semi-adaptados, entre os computadores com acesso à Internet
que foram disponibilizados, não tinha nenhum com sintetizador de voz,
não havia a preocupação de colocar os textos em formato
TXT, quer dizer, falava-se de inclusão ali, mas de inclusão social.
As pessoas no Brasil, quando falam de inclusão, estão falando
do pobre, não estão falando do pobre e do deficiente. Elas não
estão, e o meu dia-a-dia prova isso. É o nó da comunicação.
Confundir integração com inclusão, achar que ela é
uma proposta restrita aos deficientes... Como desfazer esse nó na escola
e ajudá-la a trabalhar por uma sociedade inclusiva?
Esse é o problema central: vivemos numa grande crise de comunicação.
Eu noto que o avanço tecnológico nos empurra tanto que deixamos
de dedicar o tempo e a reflexão que novas questões sociais merecem.
Como o social não avança com a velocidade do tecnológico,
as reflexões não podem ser assim tão apressadas, senão
acabamos nos atropelando entre conceitos e começamos a não nos
comunicar mais.
Com integração e inclusão, é isso que acontece.
Na maioria das vezes, as pessoas falam de uma coisa pensando que é outra.
Aparentemente, podem estar contra, mas, no fundo, podem estar a favor. Muitas
das discussões acontecem simplesmente porque as pessoas não percebem
de que conceitos estão falando. É como se você chamasse
marxismo de capitalismo e ficássemos horas discutindo (risos). É
preciso muito tempo e esforço para desfazer esse nó. Às
vezes, vou a uma empresa, converso horas com as pessoas sobre inclusão
e aí espero, lógico, a hora certa para mostrar que estou me referindo
a outra inclusão... É comum as pessoas falarem assim: "Nossa,
Cláudia, só agora eu entendi. A minha inclusão era outra,
era a de quem passa fome, de quem não tem onde morar". Ou seja,
a vítima do sistema, que também vive uma situação
horrível, lógico. Agora, se você não acrescenta a
deficiência, você não vai ao final da sua reflexão.
Você também pode discutir três horas sobre crianças
com deficiências, mas, se não enxergar como é a vida dessas
crianças, então, não falou do problema ainda.
Por falar em vítima, como a senhora avalia a negligência no
tratamento dado a pessoas com necessidades especiais no país? Esse abandono
não gera um esquecimento e para usar um termo seu não impede
a população de levar "a reflexão ao seu final"?
É, a deficiência é uma coisa curiosa porque atinge todas
as pessoas, todas as classes sociais, todas as origens. Mas ainda há
uma tendência a deixar a deficiência em último lugar. Isso
acontece nas famílias também porque elas foram criadas para pensar
assim. Não é porque você, de repente, tem um filho com deficiência
que vai superar toda a forma preconceituosa com que você foi criado por
seus pais e pela escola que freqüentou.
Eu digo o seguinte: todos nós, ainda hoje, somos cidadãos pela
metade porque a nós foi negado o direito de conhecer a humanidade como
ela é. Então, se me perguntassem em que eu mexeria na declaração
dos direitos da criança, iria dizer que acrescentaria o mais importante
de todos os direitos: toda criança tem o direito de conhecer a humanidade
como ela é, e não como nós gostaríamos que ela fosse.
A senhora diria que certas escolas adotam, em relação aos
portadores de deficiência, um comportamento que beira a discriminação?
Reclamamos o tempo todo que somos um país corrupto, que as pessoas não
são sérias, que somos um país pouco ético, onde
as leis não são cumpridas, onde os profissionais não estão
atentos às minorias, mas a escola que temos é uma escola não
ética! É uma escola que gera segregação, competição
a qualquer preço e, além dessa proposta segregadora ser muito
bem disfarçada, a escola, com raras exceções, tem um ambiente
que não é real. É um ambiente anômalo, que não
comporta todas as condições humanas. Se você tira algumas
dessas condições, está criando uma farsa, e as crianças
e jovens vivem nessa espécie de farsa do ponto de vista humano não
estou querendo dizer que o professor, que o diretor é mau, mas que a
instituição "escola brasileira" é baseada, na
maioria das vezes, em uma humanidade que não existe, porque não
representa o humano como ele é. Os jovens crescem nesse ambiente e, quando
entram no ambiente de trabalho, o que se exige deles? Que sejam profissionais
éticos, sensíveis, articulados, com capacidade de trabalhar em
equipe, que sejam atentos às minorias... Mas como que eles vão
conseguir? Existe essa mágica, de um dia para o outro você dormir
e acordar diferente?
Essa segregação de que a senhora fala não acontece
porque a escola ainda segue o modelo de apontar o que o aluno tem de errado,
o que ele tem de deficiente, em vez de incentivar o que ele tem de bom?
Exatamente. A inclusão diz o seguinte: cada pessoa tem o direito de contribuir
com o seu talento para o bem comum. Talentos que todos nós temos e que
a escola não está preparada para perceber ainda. Eu sou filha
de professores e tenho uma preocupação muito grande quando falo
da escola. É uma instituição que todos nós, inclusive
eu, ajudamos a construir e que tem de mudar, não porque não é
boa para a criança com deficiência, mas porque não está
boa para ninguém. Mas, no dia em que ela for boa para uma criança
com deficiência, ela vai ser boa para todo mundo, certo? Esse é
o fim da linha, o meu objetivo, a minha meta principal. E se eu ponho uma criança
com deficiência na escola, eu acelero o processo de mudança. Essa
coisa tem de estar muito clara: nós estamos propondo uma escola melhor
para todos. Todos mesmo. A escola inclusiva nada mais é do que uma escola
de qualidade para todos. Mas um "todos" que seja tudo. Um "tudo"
sem exceções.
Atualmente, a senhora desenvolve no Brasil inteiro um projeto de oficinas
sobre sociedade inclusiva destinado a adolescentes, chamado Quem cabe no seu
todos?. Por que a senhora resolveu trabalhar com esse público?
Trabalho muito com adolescentes. Eles estão quase entrando na vida adulta
e eu me preocupo muito com esse momento, com esse choque de que eu falei, de
você ser educado para uma coisa e, ao entrar no mundo do trabalho, exigirem
outra, completamente diferente. Então, quando a ONG Save The Children
me procurou, eles perguntaram o que eu achava urgente em termos de inclusão
no Brasil. Eu falei que, além de atuar na escola, que é o básico,
há o grupo que está entrando na vida adulta e... Não vou
dizer que não existe, porque seria exagerado, mas é difícil
encontrar projetos no Brasil que trabalhem inclusão com adolescentes.
Pelo contrário, o discurso usado com jovens é contrário
à inclusão. Parece que ele é igual, mas não é.
É o discurso da igualdade, da busca dos direitos iguais. É lógico
que ele é importantíssimo. Mas o processo para chegar aos direitos
iguais é equivocado se você não passa por uma ampla e profunda
reflexão sobre a diversidade. Se você pula isso, não chega
à eqüidade, mas a uma falsa igualdade.
É por partir do princípio de que somos todos iguais que a
sociedade e, por extensão, a escola são tão competitivas?
Sim, e isso é uma violência.
A idéia é: já que partimos de condições
iguais, nada mais natural que esperar que todos atinjam o mesmo patamar esperado
nas avaliações...
Exatamente. É perfeito o que você falou. Partimos do princípio
de que somos todos iguais e isso dá à escola o direito de dizer,
ao final do ano, que todo mundo deve saber o mesmo conteúdo, por exemplo,
quando, na verdade, são crianças com origens diferentes, com amadurecimentos
motores, intelectuais e psíquicos diferentes. Aí vem um modelo
de fora, do MEC, sei lá de onde... Eu sei que tudo é muito maleável
também, que as escolas têm autonomia para criar seus modelos, mas
existe a busca de um parâmetro. E de onde vem esse parâmetro? É
lógico que se deve ter critérios, eu não sou nenhuma anárquica,
é preciso ter algumas molduras. Mas partir do pressuposto de que as pessoas
são iguais é um equívoco que vai totalmente contra a inclusão.
E ele está presente na formação dos médicos, dos
arquitetos e dos professores também. Você tem de valorizar a diversidade,
com dignidade. A inclusão é muito mais do que respeito à
diferença. O respeito à diferença é cidadania. Inclusão
é quando você se dá conta de que estamos buscando um mundo
social inspirado na diversidade porque o mundo humano é assim.
E como esse discurso contrário à inclusão repercute,
por exemplo, nos adolescentes com que a senhora tem trabalhado?
É mais ou menos como eu esperava. Quando você pergunta o que é
inclusão, os jovens falam: "Ah, é perceber que todos nós
somos iguais". E não é isso: é perceber que todos
nós somos diferentes. Não existe nada mais típico na humanidade
do que a diversidade. Só quando você percebe o quanto nós
somos diferentes é que consegue trabalhar na busca dos direitos iguais.
Como têm se desenrolado as atividades desse projeto? A senhora sente
que os jovens são mais abertos às propostas da inclusão,
às vezes até mais que os adultos e os professores?
Na primeira fase, eu estou selecionando ONGs que já trabalham no seu
dia-a-dia com jovens. Eu fui a Salvador, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.
Eu estou entrando em projetos de outras pessoas e levando a discussão
sobre inclusão, com a expectativa de contribuir para uma reavaliação
desses projetos. Eu tenho encontrado jovens muito ávidos por novas idéias,
mas a maioria deles nunca tinha visto de perto um jovem com deficiência.
Isso é a grande loucura, é o grande massacre que se faz com o
jovem, deixar que ele chegue aos 16, 17 anos sem ver de perto alguém
da sua idade que não ouve, não enxerga ou que tem uma deficiência
mental. Esse encontro deveria ter acontecido na Educação Infantil,
certo? E acontece aos 17 anos, que lástima, como é tarde! Você
já poderia estar um expert nessa ética do humano, vamos
dizer assim, e não está. Mas é lógico que, ainda
assim, o trabalho dá bons frutos.
Que tipo de frutos os jovens percebem com esse tipo de trabalho?
Quanto mais pessoas diferentes existirem numa sala de aula, mais desafiador
é o ambiente, mais instrutivo do ponto de vista antigo da palavra
e mais desequilibrador, mobilizador e favorável, inclusive à formação
de líderes. O Brasil hoje não tem mais líderes juvenis.
Pode ver o pessoal da UNE: os poucos que temos todos eles são líderes
inspirados nessa concepção da igualdade e, quando viram adultos,
profissionais, têm carreiras curtas... Porque o líder só
se forma num ambiente que seja realmente diversificado. É nesse ambiente
que ele vai desenvolver a crítica, ouvir opiniões diferentes,
e não é só do ponto de vista cultural, regional, lingüístico
ou religioso, é também do ponto de vista humano. Quando se fala
de diversidade no Brasil hoje, fala-se de todos os aspectos, mas não
sob a ótica da humanidade, da diversidade que se manifesta, nas suas
últimas conseqüências, nas doenças crônicas e
nas deficiências.
A estrutura da oficina vai ser sempre essa, composta de vivências,
dinâmicas...
Sim, eu cheguei à conclusão de que temos de ter contato com jovens
com deficiência para que esse projeto tenha sucesso. Não adianta
só falar de inclusão. Então, nós vivenciamos situações
de grande aprendizagem. Há uma dinâmica em que você pede
aos jovens que procurem as pessoas que consideram mais parecidas com eles e,
depois, as pessoas mais diferentes, sob qualquer critério. Como o cego
ia participar? Ele não conhecia ninguém, estava chegando ao grupo,
vindo de sua instituição pela primeira vez. Isso gerou uns 15
minutos de reflexão. Alguém sugeriu que ele deveria apalpar a
fisionomia de todos da roda. Mas eles disseram que não, que seria constrangedor.
Então, alguém sugeriu que todos se descrevessem fisicamente, e
eles concordaram, embora a imagem que cada um faz de si seja diferente da imagem
real e da que o outro percebe. Outra coisa que aconteceu é que alguém
do grupo dos jovens sem deficiência falou: "Mas, Cláudia,
você não perguntou se a gente concorda". De fato, esse é
um erro muito comum: na ânsia de ser politicamente correto com o deficiente,
você é incorreto com o resto do grupo. A mídia faz muito
isso. Ela sabe que não pode mais expor o deficiente como uma vítima
e o expõe como um super-herói. Olha, que interessante, como foram
surgindo desdobramentos.
A senhora disse que não é anárquica, mas como as pessoas
passam a vê-la quando ouvem sua proposta de sociedade e educação
inclusivas?
Eu tenho uma história muito ilustrativa. Eu conversei com um empresário...
Nós estávamos numa mesa de um congresso e depois nós conversamos
muito porque ele disse que eu era utópica. Eu falei que achava que não.
É o contrário! Utopia é o que a gente vive hoje. É
a gente trabalhar em cima do igual quando o igual não existe.
Esse empresário também me falou que entrou uma vez em um ambiente
só com pessoas com deficiência mental muito séria e ele
ficou tão chocado e, de fato, choca que até sentiu um enjôo.
Eu disse: "Mas o senhor está certo de sentir esse mal-estar, sabe
por quê? Porque isso que o senhor viu é uma situação
igualmente anômala, porque a humanidade não se manifesta assim".
E perguntei: "O senhor não sente um enjôo também quando
entra em um ambiente que não tem ninguém com deficiência?"
Não sentimos porque nos habituamos, mas, toda vez que você agrega
as pessoas por uma coisa que você considera comum nelas, a visão
que se tem contraria as leis da humanidade. No dia em que trabalharmos a diversidade,
vamos estar trabalhando sobre o real. Inclusão é apenas isso:
é você construir tudo com base em uma humanidade real e não
em uma humanidade virtual, humanidade essa que deixa de fora o quê? Pessoas
que nascem com sentidos, com órgãos, com aparelhos motores e respiratórios
que não funcionam bem para um padrão. E a gente acha que esse
padrão é a maioria...
...E não é?
Nós que nascemos sem nenhum tipo de deficiência somos a minoria.
A maioria dos bebês morre antes de nascer. Mas, se fôssemos pegar
todos os bebês concebidos pela humanidade, veríamos que mais da
metade tem algum tipo de má formação. Então, a humanidade
se nega a todo o momento.
A senhora disse que os portadores de deficiência são sempre
os últimos da lista. Nas técnicas modernas de fecundação
e reprodução, eles, ao contrário, são os primeiros
a ser lembrados porque se quer evitá-los. A senhora diria que essa também
é uma forma de a humanidade se negar?
Tenho que pensar muito sobre isso para me posicionar bem sobre essas novas técnicas,
em que você vai escolhendo embriões cada vez mais perfeitos. Eu
acho isso uma loucura e não acredito que vá funcionar na prática,
porque bebês com má formação congênita podem
ser gerados por pessoas de todas as idades e até há um índice
maior entre mães adolescentes. Então, você vai ter que passar
a fazer uma avaliação de bebês concebidos para decidir quem
vai nascer? Isso é inviável economicamente e tão cedo não
vai ser viável. E em nome do que vai se fazer isso? Em nome de uma humanidade
totalmente anômala? Nessa humanidade que se espera criar, a pessoa está
trabalhando contra si mesma porque, mesmo que ela consiga, vamos supor, fazer
com que não nasça nenhum bebê com um problema mais sério,
vão continuar existindo as deficiências causadas por acidentes,
certo?
Ou seja, isso não eliminará as deficiências...
Não. E quem ficar deficiente vai ter mais dificuldades do que tem hoje,
vai ser ainda mais exótico, em uma humanidade que se considera pura.
Eu acho isso tão perigoso, acho que os avanços têm de ser
muito bem medidos, muito bem pensados, e o principal: a serviço de quê?
Porque aí entra a questão da ética. Inclusão
nada mais é do que a ética do indivíduo com a sua espécie.
É como eu, ser humano, me relaciono com os outros humanos, antes de chegar
ao social. Quando eu falo de inclusão, na minha cabeça, eu estou
falando antes de cidadania, estou falando de algo global e, nesse sentido, a
inclusão é também outra face da globalização
que ninguém vê.
Por falar em globalização, isso me faz lembrar da Conferência
Mundial de Jomtiem, em 1990. O Brasil é signatário dessa conferência,
não é? Como está o cumprimento das metas previstas para
2010?
Eu não tenho conhecimento para responder a essa pergunta especificamente.
O que eu posso dizer é que, primeiro, Jomtiem não tem a ver com
inclusão, embora lá tenha sido assinada a Declaração
Internacional de Educação para Todos. As pessoas dizem que Jomtiem
foi uma precursora da Declaração de Salamanca, assinada em 1994,
essa sim relacionada à educação inclusiva. Eu tenho um
livro inacabado comparando as duas declarações que se chama O
todos de Jomtiem não é o todos de Salamanca. Não
é porque em Jomtiem a questão das crianças e jovens com
deficiência está em um artigo à parte. No artigo que fala
que todas as crianças têm de estar na escola, na sala de aula,
etc., fala-se em ciganos, nômades, filhos de presidiários, uma
enormidade de categorias, mas não é citada a questão das
pessoas com deficiência. Também não se põe "etc."
porque em lei não se pode fazer isso. Em outro artigo que vem depois,
fala-se que crianças e jovens com necessidades especiais têm de
estar inseridos se não me engano, a expressão que eles usam
é "sistema de ensino" , mas não dizem onde. Se
você fala em "sistema de ensino", pode estar falando de classes
especiais. E classes especiais não são inclusão. Pelo conhecimento
que tenho de legislação e tenho estudado muito neste ano
, quando você separa alguma coisa em um artigo à parte, aquilo
fica mais enfraquecido, desvalorizado, porque você o tira do conjunto
maior. Por tudo isso, eu acho que Jomtiem não teve muito sentido, na
prática, para a questão da inclusão de crianças
e jovens com deficiência na escola.
Então, por que fez sentido para a senhora estudar essa declaração?
Quando eu ia aos lugares para falar de educação para todos, outros
educadores falavam sobre o tema e resolvi pensar o quanto nós estávamos
falando da mesma coisa. Depois de ler o que essas pessoas tinham publicado,
pude perceber que o "todos" delas não era o meu "todos".
Então, fui estudar as declarações para descobrir de onde
vinha essa confusão. Então, descobri: o meu "todos"
é o de Salamanca e o da maioria de educadores do Brasil é o de
Jomtiem. Infelizmente, o "todos" de Jomtiem não dá força
para a presença de crianças e jovens com deficiência na
sala de aula comum. Por que olhamos para trás e vemos que avançamos
tão pouco nessa área, principalmente na escola, apesar de eu achar
que temos pessoas muito interessadas? O próprio MEC tem feito coisas
importantes...
Como o que, por exemplo?
Nunca houve um material didático em braile. Essa gestão foi a
primeira a fazer isso. Coisas importantes foram feitas e acho que as pessoas
estão bem-intencionadas.
*****
Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
novembro, 2001
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