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Uma história
e muitas vidas*
Tião Rocha
Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento
http://www.cpcd.org.br
"Eu sou sobrinho de uma rainha".
Verdade pura, podem acreditar! Aliás, este era um dos meus
maiores orgulhos quando criança: ter uma tia rainha, de carne
e osso. Tia Gorda, eu a chamava.
Aos 7 anos de idade, entrei pela primeira vez em uma escola (G.E.
Sandoval de Azevedo), em Belo Horizonte. No primeiro dia de aula,
uma professora muito gentil levou-nos para a biblioteca para nos
apresentar o mundo das letras. Abriu o livro As mais belas histórias
e começou a ler, pausadamente:
Era uma vez um lugar muito distante, onde moravam um rei
e uma rainha...
Eu, já me encantando com o que ouvia, imediatamente a interrompi
e falei:
Professora, eu tenho uma tia que é rainha!
Ao que ela me respondeu, calmamente:
Fique quietinho e escute. Isto é uma história
de mentirinha, um conto de fadas. Não existem esses reis
e rainhas.
E continuou sua leitura. Eu, mais uma vez, insisti:
...mas eu tenho uma tia que é rainha, de verdade!
Após a minha terceira tentativa de intervenção,
a professora me mandou um "cala a boca". Ao final do meu
primeiro dia de aula, fui encaminhado à sala da diretora
como "menino-problema" e, a partir de então, fui
rotulado de "aquele que pensa que tem tia rainha". Nunca
mais, durante todo o curso primário, falei sobre esse fato.
Quatro anos mais tarde, já no ginásio, rompi o meu
silêncio e tentei falar a mesma coisa. Mas um velho professor
de história, que explicava as conquistas ibéricas,
retrucou de cara:
Cala essa boca, deixa de bobagem e presta atenção
na aula. Estou falando de reis e rainhas, pessoas importantes; aqui
no Brasil nunca teve isso. Você não pode ser de família
real, olha seu nome, olha a sua cor...
Fui, mais uma vez, motivo de gozação por parte dos
colegas. Comecei a pensar que eu talvez tivesse sido enganado por
minha família. Não poderia ser descendente de rainha
nenhuma. Nunca mais tive coragem de falar sobre isso.
Ao final do segundo grau, fui morar em Ouro Preto e, um dia, lendo
Ao deus desconhecido, de John Steinbeck, sentado nos fundos do cemitério
da igreja de São José, comecei a observar e pensar
sobre as muitas paredes e muros de pedras que estavam à minha
volta.
Foram feitos por quem? por quê? como? quando?
Descobri naquele instante que não podia responder a estas
e tantas outras questões, simplesmente porque não
conhecia a história dessa gente.
E essa gente não seria a mesma da qual eu me originara?
Foi naqueles dias que resolvi cursar História. Durante 4
anos estudei a vida e a trajetória de reis, rainhas e personagens
importantes de tudo quanto foi lado. Mas, mais uma vez, só
me apresentaram a história oficializada. A minha e a dos
meus antepassados reais continuou oculta, no limbo.
Onde poderia eu estudar as minhas origens?
Resolvi partir para o estudo da Antropologia. Quem sabe ali encontraria
minhas raízes. Devorei livros e bibliotecas, garimpei cidades
e campos. Conheci todo tipo de gente, nos livros, nas ruas e nas
roças. Virei um andarilho atrás dos filões
de minha cultura. A academia me titulou Antropólogo, especialista
em Cultura Popular e Folclore. E, quanto mais aprofundava meus estudos,
mais acreditava que, em algum momento, poderia responder às
minhas muitas e múltiplas questões e encontrar o caminho
das pedras e das minhas heranças familiares e comunitárias.
Hoje, já aproximando do meio século de existência,
creio que consegui desvendar grande parte dessas incógnitas.
A minha caminhada, como era de se esperar, levou-me para os lados
da educação. A universidade e a sociedade queriam
que eu fosse professor. Fui e, sem modéstia, competente.
Mas isso não me bastava. Eu queria ir mais fundo. Queria
mais. Virei educador. E a matéria-prima do meu trabalho,
a cultura.
Para me facilitar essa empreitada, juntei um grupo de amigos e
fundamos o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento. O
CPCD está a caminho de seus 13 anos e hoje dá abrigo
institucional para uma série de sonhos e anseios, amigos
de estrada e andarilhos que nem eu, parceiros de teimosia e utopias,
camaradas de dedicação.
São vários os projetos desenvolvidos pelo CPCD. Todos
eles têm nos saberes e fazeres folclóricos (tradicionais,
coletivos e funcionais) sua matéria-prima e ponto de partida
para uma educação integral e desenvolvimento sustentado.
Hoje, além do CPCD, tenho o privilégio, mas também
a grande responsabilidade, de presidir a Comissão Mineira
de Folclore. Ela é mais velha do que eu, já fez
48 anos. Foi a primeira organização estadual destinada
aos estudos, pesquisas e valorização do Folclore e
da Cultura Popular criada no Brasil.
Esta é, em síntese, a estrada que andei percorrendo
e o caminho que construí até esta data. Pronto! Contei-lhes
minha história e a de muitas vidas a ela agregadas.
Já ia me esquecendo! Minha tia Gorda foi Rainha Perpétua
do Congado. E todos os anos de agosto a outubro
ela, devidamente vestida com manto, coroa e cetro reais, era homenageada
com danças e embaixadas por ternos de Moçambiques,
Congos, Marujos, Vilões, Catopês e Caboclinhos. E saía
em alegres cortejos pelas ruas protegida por um pálio, acompanhando
as guardas cantando e louvando Nossa Senhora do Rosário,
santa branca, padroeira e patrona das irmandades negras e católicas
que construíram estas Minas Gerais.
Eu tinha orgulho de tê-la como tia e como rainha mas,
infelizmente, nunca pude mencioná-la ou estudá-la
na escola. Pena, pois mereceria um capítulo especial na construção
da história do povo brasileiro.
Quem sabe, algum dia, tenhamos em cada biblioteca de cada escola
destas Minas Gerais uma estante especial, abarrotada de livros,
textos e publicações dedicados à vida, aos
saberes e aos fazeres das pessoas da comunidade onde esta escola
existe e funciona.
Hoje, tento colocar o que aprendi e descobri a serviço de
crianças e adolescentes, para que estes não percam,
prematuramente, sua realeza e dinastia, sua auto-estima e sua história.
E também estou a serviço dos adultos que já
as perderam ou as deixaram em algum canto da vida.
Eis algumas razões que me levaram escrever este livro. Nossa
missão, tanto no CPCD quanto na CMFL, é fazer com
que estas crianças e estes adultos possam não só
se reapropriar de seus saberes e fazeres, mas fazer de sua cultura
e identidade instrumentos de seu desenvolvimento e a matéria-prima
de sua cidadania.
Bem, destino ou não, acredito que essa trajetória
pessoal foi determinante para me conduzir para o que faço
hoje. Tornei-me educador (por opção política,
por prazer pessoal, por necessidade existencial) porque acredito
que esta é a única maneira de devolver sob a
forma de práticas educativas inovadoras e desafiadoras ,
por todos os privilégios, oportunidades e possibilidades
que tive e vivi, ao povo do qual, privilegiadamente, faço
parte.
Esta é apenas mais uma história repleta de muitas
vidas.
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* Esse texto foi publicado originalmente
em dezembro de 98 no site www.aprendiz.org.br.
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