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Tião Rocha

"antes de dizer que a culpa é da televisão, da sociedade, da fome, desses problemas que são reais, é claro, deve-se experimentar as outras 40 alternativas conhecidas para educar as crianças."

 
Sebastião Rocha é antropólogo, folclorista e educador popular. É fundador e ex-presidente (94-97) do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento — CPCD. Presidiu também, entre 95 e 98, a Comissão Mineira de Folclore. Foi eleito, em 2001, um dos vinte líderes sociais do Brasil. É autor de propostas pedagógicas premiadas internacionalmente, como o projeto Sementinha e o Bornal de Jogos. Entre outros livros, escreveu Sabores & cores das Minas Gerais (Senac, 1998), Folclore: roteiro de pesquisa (SEC/MG, 1979; Senac/MG, 1980; Sesi/MG, 1987; Sesc/MG, 1996; CPCD, 1996), O saber cristalizado (CPCD, 1995), Projetos de gente (CPCD, 1994).





 

Uma história e muitas vidas*

Tião Rocha
Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento
http://www.cpcd.org.br

"Eu sou sobrinho de uma rainha". Verdade pura, podem acreditar! Aliás, este era um dos meus maiores orgulhos quando criança: ter uma tia rainha, de carne e osso. Tia Gorda, eu a chamava.

Aos 7 anos de idade, entrei pela primeira vez em uma escola (G.E. Sandoval de Azevedo), em Belo Horizonte. No primeiro dia de aula, uma professora muito gentil levou-nos para a biblioteca para nos apresentar o mundo das letras. Abriu o livro As mais belas histórias e começou a ler, pausadamente:

Era uma vez um lugar muito distante, onde moravam um rei e uma rainha...
Eu, já me encantando com o que ouvia, imediatamente a interrompi e falei:
Professora, eu tenho uma tia que é rainha!
Ao que ela me respondeu, calmamente:
Fique quietinho e escute. Isto é uma história de mentirinha, um conto de fadas. Não existem esses reis e rainhas.
E continuou sua leitura. Eu, mais uma vez, insisti:
...mas eu tenho uma tia que é rainha, de verdade!

Após a minha terceira tentativa de intervenção, a professora me mandou um "cala a boca". Ao final do meu primeiro dia de aula, fui encaminhado à sala da diretora como "menino-problema" e, a partir de então, fui rotulado de "aquele que pensa que tem tia rainha". Nunca mais, durante todo o curso primário, falei sobre esse fato.

Quatro anos mais tarde, já no ginásio, rompi o meu silêncio e tentei falar a mesma coisa. Mas um velho professor de história, que explicava as conquistas ibéricas, retrucou de cara:

Cala essa boca, deixa de bobagem e presta atenção na aula. Estou falando de reis e rainhas, pessoas importantes; aqui no Brasil nunca teve isso. Você não pode ser de família real, olha seu nome, olha a sua cor...

Fui, mais uma vez, motivo de gozação por parte dos colegas. Comecei a pensar que eu talvez tivesse sido enganado por minha família. Não poderia ser descendente de rainha nenhuma. Nunca mais tive coragem de falar sobre isso.

Ao final do segundo grau, fui morar em Ouro Preto e, um dia, lendo Ao deus desconhecido, de John Steinbeck, sentado nos fundos do cemitério da igreja de São José, comecei a observar e pensar sobre as muitas paredes e muros de pedras que estavam à minha volta.

Foram feitos por quem? por quê? como? quando?
Descobri naquele instante que não podia responder a estas e tantas outras questões, simplesmente porque não conhecia a história dessa gente.
E essa gente não seria a mesma da qual eu me originara?

Foi naqueles dias que resolvi cursar História. Durante 4 anos estudei a vida e a trajetória de reis, rainhas e personagens importantes de tudo quanto foi lado. Mas, mais uma vez, só me apresentaram a história oficializada. A minha e a dos meus antepassados reais continuou oculta, no limbo.
Onde poderia eu estudar as minhas origens?

Resolvi partir para o estudo da Antropologia. Quem sabe ali encontraria minhas raízes. Devorei livros e bibliotecas, garimpei cidades e campos. Conheci todo tipo de gente, nos livros, nas ruas e nas roças. Virei um andarilho atrás dos filões de minha cultura. A academia me titulou Antropólogo, especialista em Cultura Popular e Folclore. E, quanto mais aprofundava meus estudos, mais acreditava que, em algum momento, poderia responder às minhas muitas e múltiplas questões e encontrar o caminho das pedras e das minhas heranças familiares e comunitárias.

Hoje, já aproximando do meio século de existência, creio que consegui desvendar grande parte dessas incógnitas. A minha caminhada, como era de se esperar, levou-me para os lados da educação. A universidade e a sociedade queriam que eu fosse professor. Fui e, sem modéstia, competente. Mas isso não me bastava. Eu queria ir mais fundo. Queria mais. Virei educador. E a matéria-prima do meu trabalho, a cultura.

Para me facilitar essa empreitada, juntei um grupo de amigos e fundamos o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento. O CPCD está a caminho de seus 13 anos e hoje dá abrigo institucional para uma série de sonhos e anseios, amigos de estrada e andarilhos que nem eu, parceiros de teimosia e utopias, camaradas de dedicação.
São vários os projetos desenvolvidos pelo CPCD. Todos eles têm nos saberes e fazeres folclóricos (tradicionais, coletivos e funcionais) sua matéria-prima e ponto de partida para uma educação integral e desenvolvimento sustentado.

Hoje, além do CPCD, tenho o privilégio, mas também a grande responsabilidade, de presidir a Comissão Mineira de Folclore. Ela é mais velha do que eu, já fez 48 anos. Foi a primeira organização estadual destinada aos estudos, pesquisas e valorização do Folclore e da Cultura Popular criada no Brasil.

Esta é, em síntese, a estrada que andei percorrendo e o caminho que construí até esta data. Pronto! Contei-lhes minha história e a de muitas vidas a ela agregadas.
Já ia me esquecendo! Minha tia Gorda foi Rainha Perpétua do Congado. E todos os anos — de agosto a outubro — ela, devidamente vestida com manto, coroa e cetro reais, era homenageada com danças e embaixadas por ternos de Moçambiques, Congos, Marujos, Vilões, Catopês e Caboclinhos. E saía em alegres cortejos pelas ruas protegida por um pálio, acompanhando as guardas cantando e louvando Nossa Senhora do Rosário, santa branca, padroeira e patrona das irmandades negras e católicas que construíram estas Minas Gerais.

Eu tinha orgulho de tê-la como tia — e como rainha — mas, infelizmente, nunca pude mencioná-la ou estudá-la na escola. Pena, pois mereceria um capítulo especial na construção da história do povo brasileiro.

Quem sabe, algum dia, tenhamos em cada biblioteca de cada escola destas Minas Gerais uma estante especial, abarrotada de livros, textos e publicações dedicados à vida, aos saberes e aos fazeres das pessoas da comunidade onde esta escola existe e funciona.

Hoje, tento colocar o que aprendi e descobri a serviço de crianças e adolescentes, para que estes não percam, prematuramente, sua realeza e dinastia, sua auto-estima e sua história. E também estou a serviço dos adultos que já as perderam ou as deixaram em algum canto da vida.

Eis algumas razões que me levaram escrever este livro. Nossa missão, tanto no CPCD quanto na CMFL, é fazer com que estas crianças e estes adultos possam não só se reapropriar de seus saberes e fazeres, mas fazer de sua cultura e identidade instrumentos de seu desenvolvimento e a matéria-prima de sua cidadania.

Bem, destino ou não, acredito que essa trajetória pessoal foi determinante para me conduzir para o que faço hoje. Tornei-me educador (por opção política, por prazer pessoal, por necessidade existencial) porque acredito que esta é a única maneira de devolver — sob a forma de práticas educativas inovadoras e desafiadoras —, por todos os privilégios, oportunidades e possibilidades que tive e vivi, ao povo do qual, privilegiadamente, faço parte.

Esta é apenas mais uma história repleta de muitas vidas.

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* Esse texto foi publicado originalmente em dezembro de 98 no site www.aprendiz.org.br.

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