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Sua majestade,
o folclore
Tião Rocha usa
a amarelinha para elevar a auto-estima dos alunos, o jogo de damas
para ensinar as operações matemáticas e outros
saberes populares em aulas de cidadania e sexualidade. O educador,
que fez da cultura popular seu ofício, afirma que a tecnologia
e as tradições comunitárias têm o mesmo
valor.
Todo mundo já ouviu falar de reis e rainhas
na escola. Eles eram pessoas importantes, tinham nomes pomposos,
levavam uma vida cheia de batalhas e glórias e, na maioria
das vezes, habitavam algum castelo do outro lado do Atlântico.
Também deve ter ouvido falar dos reis de mentirinha, cujo
reino está sob o feitiço da bruxa malvada. Nesse mundo
do faz de conta, vivem princesas à espera de um príncipe
que as liberte da torre enorme ou das garras afiadas do dragão.
Tião Rocha conhecia outra realeza, feita de reis de verdade
e que existem até hoje. Só que sua escola é
que vivia na "Terra do Nunca". Nunca ninguém lhe
deu ouvidos. Bem que ele tentou contar. Mas nunca ninguém
acreditou que sua tia fosse rainha e que, todos os anos, de agosto
a outubro, ela se vestia de manto, coroa e cetro para que o povo
admirasse e rendesse suas homenagens. Tia Gorda, como ele a chamava,
era rainha em uma manifestação folclórica de
nossa rica tradição cultural. Era a Rainha Perpétua
do Congado.
Tudo que sua tentativa de partilhar com a turma o apreço
que tinha por Tia Gorda lhe rendeu foi uma ida à sala da
diretoria, o título de garoto-problema e a gozação
de parte dos colegas. Apesar da frustração, Tião
Rocha hoje folclorista e educador ainda se dedica
a convencer professores que o folclore é uma ótima
matéria-prima para as aulas. Ele é autor premiado
de propostas pedagógicas baseadas no saber popular e de um
livro que orienta como se servir do folclore em projetos escolares.
Na entrevista a seguir, ele explica por que o folclore é
mais "uma alternativa" para uma "educação
de qualidade para todos". Para ele, se os professores quiserem
formar alunos críticos, devem mostrar que os diversos tipos
de conhecimento científico, erudito e tradicional
se complementam. "Se um menino só conhece um
tipo de história, só tem um tipo de informação.
Ele não é capaz de desenvolver seu lado crítico,
pois não escolhe, não decide", afirma.
Em sua família, as tradições
folclóricas são muito presentes. Como o folclore marcou
a sua vida?
Para mim, ele tem um sentido muito forte. Eu até escrevi
um texto [Uma
história e muitas vidas] em que conto a história
de uma tia que foi rainha do Congado. Foi a partir daí que
começou a minha tentativa de compreender o nosso contexto
cultural e de me situar nele. Foi por isso que decidi fazer história,
lidar com antropologia, virar folclorista. O fio da meada é
se localizar, se auto-entender.
No texto, o senhor fala que não encontrou apoio no ambiente
escolar para a busca de suas origens. Como explicar a falta de espaço
para a cultura popular na maioria das escolas?
Isso acontece porque a visão da escola não é
inclusiva; é seletiva e excludente. Quando não trata
a cultura popular e o folclore de forma pejorativa, ela os trata
como coisas menores, de menor valor. Essa atitude, que tem sido,
de maneira geral, a da intelectualidade, a da academia, reflete-se
muito na escola. Ela supervaloriza, por exemplo, o conhecimento
dito científico, em detrimento do conhecimento popular, como
se o científico fosse melhor ou o único que valesse.
Por isso que se fala: "O resto é folclore." Quer
dizer, o resto é bobagem. E tem também quem pense
que o conhecimento científico é superior. É
um modelo de exclusão da cultura popular em favor da erudita;
do conhecimento tradicional em favor do científico.
O senhor chegou a escrever um livro para orientar os professores
sobre o tema. Qual é a abordagem do livro?
Folclore: roteiro e pesquisa foi um livro que escrevi há
muitos anos. Ele já teve centenas de edições
e, agora, está disponível na Internet na íntegra
(http://www.cpcd.org.br/publ-hm.htm).
Ele é pequenininho e muito objetivo. O livro estimula o professor
a levar o aluno a procurar a cultura popular primeiro dentro de
casa, depois na rua e depois no bairro e a considerar todas essas
informações como base para um projeto de educação.
As histórias e o imaginário popular são
outra forma de resgatar nossa herança cultural. O senhor
acha que nossas lendas e "causos" deveriam ser tratados
com a mesma importância dada, por exemplo, aos contos de fadas?
Sem dúvida. É como diz Guimarães Rosa. Para
o jagunço Riobaldo, uma religião é pouco, ele
quer rezar em todas. "Eu quero beber de todas as águas",
diz Guimarães. Quanto mais uma criança tiver oportunidade
e acesso às coisas mais variadas, mais ela terá condições
de fazer escolhas. É o caso, por exemplo, da música.
Como você pode pensar em desenvolver um gosto musical apurado
na moçada que só escuta um tipo de música:
a que a televisão e o rádio tocam?
Quando a escola reproduz essa música, ela está prestando
um desserviço. Deixe o rádio tocar as duplas sertanejas,
os Chitõezinhos e Xororós da vida. Essa é a
função do rádio. Mas se os alunos tiverem acesso
também a Vivaldi e à música da Folia de Reis,
vão ser muito mais bem informados. A escola pode fazer isso.
Só não faz porque, para ela, é melhor terceirizar
os problemas e achar que a televisão e o rádio são
o grande problema. É o discurso do fracasso. Para mim, o
da incompetência. No caso das histórias infantis, é
a mesma coisa. É preciso dar acesso a tudo.
O que o senhor quer dizer com "terceirizar os problemas"?
Há um exercício que eu sempre faço com educadores.
Eu pergunto para eles: "De quantas maneiras diferentes você
pode jogar a bola em um cesto?" Eles respondem um número.
Então, pergunto na seqüência: "De quantas
maneiras você pode educar uma criança?" Eles dizem
cinqüenta, por exemplo. "Das cinqüenta, quantas vocês
já experimentaram?", questiono. A resposta, infelizmente,
é que eles não experimentam nem dez dessas alternativas
pedagógicas.
Então, antes de dizer que a culpa é da televisão,
da sociedade, da fome, desses problemas que são reais, é
claro, deve-se experimentar as outras 40 alternativas conhecidas
para educar as crianças. Se a escola tentar, ela vai ver
que as alternativas não se esgotam, que existe a alternativa
51, 52, 53... Só no dia em que se esgotarem as oportunidades
de educar seus alunos, é que a escola pode terceirizar a
sua função social e dizer que o problema é
do desemprego ou da crise.
Uma alternativa pedagógica que o senhor ajudou a desenvolver
é o Sementinha, um projeto que cria espaços de aprendizagem
embaixo de árvores. Como é esse projeto?
O Sementinha, na realidade, foi resultado de uma pergunta que nós
nos fizemos anos atrás: "É possível fazer
educação sem escola, no sentido físico?"
Já que a lógica era que você só podia
fazer educação se houvesse escola e como não
dependia de nós construí-la , a outra pergunta
era: "É possível fazer uma escola embaixo de
um pé de manga?"
A experiência teve êxito absoluto. Já foi avaliada,
testada e recomendada internacionalmente como modelo de educação
porque se descobriu o óbvio: para fazer educação
de qualidade, você só precisa de gente de qualidade.
São as pessoas que fazem a educação. O resto
é alegoria, é adereço. Prédio, carteira,
tudo é complemento, e não a essência. O espaço
físico é importante, sim, mas não significa
que não se possa fazer boa educação sem ele.
Ele é um projeto mais apropriado às regiões
onde as tradições são mais vivas, ao contrário
das grandes cidades?
Não é necessariamente um projeto para cidades pequenas,
de zona rural. Ele pode ser realizado em qualquer lugar. Hoje, ele
existe em várias partes do Brasil e do mundo. Começou
em Curvelo/MG, foi para o Vale do São Francisco e
lá virou lei , está também no Vale do
Jequitinhonha, em Vitória/ES no lixão da cidade
, em Porto Seguro/BA, no interior do Maranhão e em
Moçambique, na África. Nós vamos implantá-lo
agora em Santo André/SP, na região do ABC. É
a Pedagogia da Roda. Tudo é discutido e avaliado em roda.
Na roda, giram todos os processos de aprendizagem.
O senhor acaba de mencionar o papel crucial do professor na
educação, que é mais importante do que os recursos
físicos e tecnológicos da escola. Como os educadores
devem agir para não tratar os saberes populares de forma
diferente do que tratam a ciência?
A primeira coisa é acreditar que a diferença entre
saber popular e ciência é uma mentira. O educador tem
que agir com ética e relativizar os conhecimentos. Ou seja,
mostrar que tanto o conhecimento científico como o tradicional
são importantes. A ciência é tão importante
quanto a tradição elas se completam e, às
vezes, se negam, se justapõem e tentam ocupar o mesmo espaço.
Em segundo lugar, é preciso trabalhar com todas as possibilidades,
quer dizer, dar o mesmo tempo e a mesma oportunidade de contato
dos alunos com os vários tipos de conhecimento. O mesmo valor
que a escola atribui hoje à tecnologia e ao computador deveria
também atribuir às tradições da comunidade.
O que enraíza as pessoas são os valores culturais
da sociedade, e não a Internet. Ela é importante,
mas não é a única coisa que vale.
O folclore tem um caráter lúdico muito forte.
Quem pratica danças tradicionais é até mesmo
chamado de brincante. Muitas escolas têm descoberto o valor
da brincadeira em seu projeto pedagógico. O senhor acha que
essa é uma boa porta de entrada do folclore na sala de aula?
Eu acho o seguinte: o prazer é a melhor forma de levar as
pessoas a aprender. É claro que, com brincadeiras, com alegria,
aprende-se de forma mais gostosa do que com as maneiras tradicionais.
E a escola deveria deixar de ser um lugar carrancudo um serviço
militar obrigatório a partir dos sete anos e adotar
a postura de espaço onde se aprende brincando permanentemente.
Isso tanto a tecnologia quanto a cultura popular podem permitir.
O que acontece é que a tradição popular tem
uma quantidade muito maior de coisas naturalmente lúdicas,
como brincadeiras, jogos e danças. Ela é muito mais
lúdica, por exemplo, do que o estudo de física quântica,
química orgânica ou trigonometria. Isso não
significa que não se pode ensinar a matemática de
Pitágoras de uma maneira prazerosa. No entanto, cabe ao professor
saber que, se ele usa o folclore na escola só por causa do
aspecto lúdico, o folclore vira a brincadeira pela brincadeira.
Se for para brincar por brincar, é melhor brincar em casa,
e não na escola. Na escola, é preciso brincar muito,
mas para aprender. Senão, não vale a pena.
O senhor se dedica ao projeto Bornal de Jogos, que mostra como
o conhecimento tradicional pode ajudar a ensinar matemática
e ciências, e não só história e português,
matérias em que, à primeira vista, é mais fácil
inserir elementos da cultura popular. Que atividade do Bornal de
Jogos o senhor citaria para mostrar que a cultura popular é
eficiente no ensino de todos os conteúdos curriculares?
No Bornal, há uma série de 90 jogos que foram testados,
avaliados e sistematizados. Esses jogos são chamados de "tecnologia
educacional". Nós demos início à experiência
e, em determinado momento, encontramos um garoto de 11 anos que
estava na primeira série e era repetente, persistente e renitente.
Ele estava insistindo para aprender matemática e não
conseguia, não aprendia as quatro operações
básicas. Só que ele jogava damas e ganhava de todo
mundo!
A nossa dúvida era: "Se joga dama e outros jogos, ele
tem noção espacial, mas porque não desenvolve
a noção de aritmética?" Pegamos, então,
um tabuleiro e, em vez das casinhas, colocamos números de
forma aleatória e, na dama e no peão, os sinais de
soma, primeiramente, e depois o de subtração e o de
multiplicação. Num instante, ele resolveu a vida dele.
Ele aprendeu porque só podia comer a peça do outro
se fizesse os cálculos.
Depois, nós começamos a utilizar outros jogos, como
cinco-marias, amarelinha e pular corda, para trabalhar uma série
de novos conceitos de matemática, geografia e, em alguns
casos, de cidadania, ética e sexualidade que os alunos precisavam
aprender.
Então, a proposta não é simplesmente ensinar
as tradições e manifestações folclóricas,
mas ligá-las a um conhecimento mais amplo. De que outras
formas a escola pode fazer essa ponte entre o local e o universal?
Eu nunca tive a preocupação de ensinar folclore por
folclore ou ficar demarcando o que é folclore e o que não
é. Acho que essa deve ser uma preocupação de
especialistas, de acadêmicos. Quem quiser que faça
tese sobre isso. Para nós, interessa saber, por exemplo,
como a amarelinha pode ser um fator gerador de auto-estima, como
algumas atividades tradicionais podem gerar socialização
e aprendizagem, como se pode discutir a inserção dos
jovens como cidadãos do mundo partindo do artesanato.
E como se percebe que se é cidadão do mundo partindo
do artesanato?
Mostrando que a cerâmica do Vale do Jequitinhonha é
tão importante quanto as cerâmicas feitas na Grécia
Antiga. Quer dizer, já havia grandes artesãos naquela
época porque o que o homem vem fazendo, ao longo da história,
é criar formas, e essas formas demarcam uma época.
Esse é um jeito de inserir esse cidadão do Vale do
Jequitinhonha no mundo contemporâneo. Eu falo de cultura popular
o tempo todo para professores sem precisar dizer que estou falando
de folclore. A cultura popular é importante para o aprendizado
humano, e não apenas de um grupo específico, porque
ela foi trazida pelo homem, herdada por ele e tornando-o melhor.
Além de auxiliar no aprendizado de certas matérias
e conceitos, que tipo de ensinamento mais amplo o folclore é
capaz de transmitir aos alunos?
A nossa responsabilidade é criar oportunidades para que os
jovens possam desenvolver o sentido da liberdade. Só é
livre quem faz escolhas. Uma pessoa que só escuta um tipo
de música não é livre. É um joguete
manipulado por interesses. Se um menino só conhece um tipo
de história, só tem um tipo de informação.
Ele não é capaz de desenvolver seu lado crítico,
pois não escolhe, não decide. Ele é levado
pela corrente. Eu acho que a cultura popular e o folclore são
uma alternativa, ao lado da ciência, da tecnologia e das criações
eruditas, de capital e material disponível para a educação
de qualidade de todo o mundo. Mas os educadores precisam assumir
isso e, se assumirem, as escolas vão ser bem diferentes.
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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
setembro, 2001
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