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Jucileide Rodrigues da Silva

"O professor não é dono da verdade e o aluno não é considerado uma pessoa que está aqui só para aprender. Ele também está aqui para ensinar."

 
Jucileide Rodrigues da Silva dirige a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Oliveira Viana. Aluna de pós-graduação na Universidade de Santo Amaro (Unisa), ela prepara uma monografia cujo título provisório é Marketing da violência: o caminho inverso. No trabalho, ela reflete sobre a promoção da cultura da paz nas escolas.





 

No caminho inverso da violência

Caminhadas em defesa da vida, cursinho pré-vestibular gratuito, parcerias com ONGs em projetos educacionais, livre acesso ao esporte e ao lazer para alunos e ex-alunos e eleições para decidir os rumos da escola. É com esse arsenal que a Escola Oliveira Viana se tornou uma escola de paz.

Todos os dias, Jucileide Rodrigues da Silva faz um percurso inverso. Ao contrário de quem busca o Centro de São Paulo para estudar, trabalhar ou se divertir, ela segue rumo à periferia. Há 21 anos, deixa sua residência no coração da capital e enfrenta os 26 quilômetros que a separam da Escola Oliveira Viana, da qual é diretora. A viagem termina no Jardim Ângela, destino que a maioria prefere evitar desde que o distrito ganhou o título nada convidativo de área mais violenta da maior metrópole brasileira.

O Jardim Ângela é um arquipélago formado por cerca de 100 bairros, onde moram 235 mil pessoas. Em dados da Fundação Seade, o que mais impressiona não é o porte ou seu jeitão de cidade. A taxa de homicídios da região é de 116,23 vítimas para cada 100 mil habitantes em média. Quem põe uma lupa na pesquisa constata algo ainda mais terrível. Os jovens são quem mais sofre com essa violência. Entre 15 e 24 anos, a taxa de homicídios é quase duas vezes maior: 206,87 mortos a cada 100 mil.

"No cemitério São Luís, 80% das pessoas enterradas morreram de forma violenta e tinham menos de 25 anos. É algo deprimente, estarrecedor", lamenta Jucileide. Se crescer no Jardim Ângela é como velejar em meio à tormenta, a Escola Oliveira Viana bem que pode ser comparada a um farol que orienta crianças e adolescentes a achar um porto seguro nesse oceano de dor e os afasta da rota das gangues, do tráfico, da violência e, literalmente, das pedras, de crack.

Para difundir a cultura da paz e da não-violência, o colégio faz como sua diretora. Segue no caminho inverso, na contramão do que pregava o pensador que empresta seu nome à escola. Oliveira Viana foi um dos sociólogos brasileiros mais influentes do início do século XX. Acreditava na superioridade da raça ariana e achava "natural" que os mestiços se submetessem aos desígnios da elite branca, culta e latifundiária. Era frontalmente contrário ao sufrágio universal.

Ao contrário do que mandava a cartilha de seu patrono, morto há exatos 50 anos, a Oliveira Viana faz eleição "para tudo" e não "aceita discriminação". Na entrevista a seguir, Jucileide Rodrigues da Silva conta como a escola "abraçou" o combate à violência. E prova que apostar em valores como a paz e a tolerância dá resultados. Alunos que antes se evadiam da escola, como pichadores e garotos com passagem pela Febem, hoje estão de volta aos bancos escolares. E com livre acesso ao lazer e ao esporte.

O que é ser diretora de escola em uma das regiões mais violentas de São Paulo?
É como ser diretora em qualquer escola. Toda escola tem problemas e temos que aprender a lidar com eles, resolvendo-os da melhor maneira possível. São Paulo é totalmente violenta. Eu não vou falar que o Jardim Ângela não é violento porque é mentira. Mas, por conta disso, a mídia deu muita atenção, o bairro ficou famoso e, com a fama, a violência aumentou.
As gangues que existiam aqui eram formadas por esses meninos que não têm o que fazer porque o bairro não oferece ocupação nem lazer nenhum. Eles ficam na rua e acabam se envolvendo com drogas e, como andam em grupos, que recebem o nome de gangues. E a mídia deu nome a elas: tinha a gangue dos ninjas, a do Bronx. Com a propaganda, a mídia ajudou a fomentar a violência que já existia.

Aposta no esporte: quadras abertas à noite e nos fins de semana para reduzir a violência.

E havia alunos de sua escola que eram membros dessas gangues?
Sim, havia. Os meninos do bairro não têm má índole. Mas pense bem: eles não têm o que fazer, não têm lazer nenhum, passam necessidade porque o desemprego é muito grande, vêem o pai desempregado, a mãe indo fazer faxina, se achar trabalho, comida faltando dentro de casa enquanto a mídia vendendo todo tipo de produto — o melhor tênis, roupas de grifes —, sem que tenham condições de comprar nada.
Daí vem o traficante e lhes oferece dinheiro para vender drogas. Os meninos começam vendendo e depois de um tempo acabam se tornando consumidores. Normalmente, quando eles entram no crack, é uma ida sem volta. Eles têm a auto-estima muito baixa. Por morar no Jardim Ângela, automaticamente, você é bandido, é marginal, é vagabundo. Eles saem para procurar emprego e ninguém dá porque moram no Jardim Ângela. Tudo isso é que torna o bairro perigoso e esses meninos, marginalizados.

A senhora comentou que toda escola tem seus problemas. Além disso, os alunos trazem problemas de casa. Como a sua escola procura lidar internamente com os problemas dos alunos e suas famílias?
Nós abraçamos a questão do combate à violência na região porque a escola tem que saber quais são os problemas da comunidade que ela atende e tentar resolvê-los. A nossa escola participa de todas as atividades que existem para combater a violência na região. Nós fazemos parte do Fórum em Defesa da Vida, da Casa Sofia, uma unidade de apoio à mulher que sofre de violência doméstica, apoiamos o CAD, uma iniciativa da Escola Paulista de Medicina para tratamento e prevenção às drogas. Ou seja, apoiamos os alunos e também os pais e as mães.

A escola acaba cumprindo também o papel de um centro comunitário...
Exatamente. Nós temos uma parceria com o Instituto Cardeal Rossi, que atende meninos da Febem em liberdade assistida (LA). Recebemos esses meninos e os matriculamos aqui. Os assistentes sociais fazem o acompanhamento e nós temos parceria com o Conselho Tutelar para encaminhar casos de violência e fazer denúncias.

Quando a escola matriculou "alunos-problema", com passagem pela Febem, isso não foi motivo de crítica dos pais e moradores do bairro, que já são estigmatizados por morar no Jardim Ângela?
Até já se tentou ser contra isso. Mas aqui nós partimos do princípio de que a escola é pública, que todo mundo tem o mesmo direito, e as pessoas têm direito de errar e de corrigir seu erro. Não é a escola que vai discriminar. Nós não aceitamos discriminação. A escola teve e tem alunos em LA, e isso nunca nos causou problemas.
O maior problema é o preconceito que, normalmente, parte de dentro das escolas, e não dos pais. São os próprios diretores e professores que discriminam. Quando um aluno entra aqui, ele sabe que vai ser tratado da mesma forma que os outros e que o fato de ele ter estado na Febem não é pedigree, não o faz melhor nem pior que ninguém. E quando os alunos em LA sofrem alguma discriminação, eles vêm chorar no nosso ombro e tentamos ajudá-los. Além disso, já inscrevemos a escola em vários lugares para procurar emprego para eles, nós os encaminhamos para o médico, arrumamos dinheiro para condução, cesta básica, roupa e remédio para a família.

Nós publicamos uma entrevista com Esmeralda Ortiz, ex-interna da Febem. Ela conta que deixou a escola por ser discriminada: seus colegas a chamavam de "favelada" pelo fato de não ter dinheiro para comprar caderno...
A escola adota uniforme e fazemos uma campanha do uniforme para todo mundo ter o seu. A camiseta foram os alunos que fizeram e houve eleição para escolher o logotipo.

Alunos durante a votação feita para eleger o logotipo da escola.

Eu vi o emblema da escola, é um globo terrestre...
Esse logotipo foi um aluno da escola que fez. Houve uma eleição na comunidade e foi escolhido esse logotipo para ser impresso nas camisetas. Muitos trouxeram suas camisetas e, para quem não trouxe, nós compramos e doamos. Doamos 650 camisetas no ano passado e, neste ano, cerca de 400. Eles têm todo o material didático. Usamos a verba do MEC para comprar material e, no começo do ano, nós doamos o material para quem não pode comprar.

A senhora falou no início que a escola abraçou o combate à violência. A senhora acredita que o acesso à cultura e ao lazer é a melhor maneira de promover a cultura da paz e da não-violência nas escolas?
Eu acho e nós temos exemplos de alunos que vieram da Febem, em liberdade assistida, começaram a estudar e agora ficam direto na escola. Ou estão na quadra, ou em sala, fazendo alguma atividade diferenciada. O adolescente está na fase do desafio, das coisas diferentes. Se encontrar na escola um eco para as coisas que está querendo fazer, ele não vai buscá-lo lá fora. A escola é o centro de lazer, é o ponto social dos jovens e das crianças.

Como ampliar, então, o acesso ao lazer e à cultura nas escolas?
A nossa primeira iniciativa foi abrir os portões da quadra para todo mundo usá-la. Colocamos fotocélulas para que pudesse ser utilizada à noite, conseguimos construir outra e depois reformamos as duas. Enfim, os alunos podem usar a quadra na hora em que quiserem.
Eu viajo muito para o exterior e percebi que, tanto no Canadá como nos EUA, as crianças ficam na escola das oito da manhã às cinco da tarde. Só que elas não ficam esse tempo todo na sala de aula. Elas têm atividades paralelas de lazer. Eu tentei trazer isso para a escola fazendo uma parceria com os jovens da região, porque sempre tem alguém que sabe algo diferente que pode ensinar aos outros.
O Clube da Turma, um clube da região, está com um projeto chamado Agente Jovem, que treina jovens em algumas atividades para que eles as ensinem a outros. Nós temos alunos, e até mesmo ex-alunos, ensinando dança: funk, axé, samba-rock, pagode. Além de ensinarem as danças, eles dão aula sobre a história dessas danças, fora do horário de aula. Então, quem estuda de manhã tem essas atividades à tarde. Um outro grupo, além de contar toda a história da capoeira, dá aulas práticas. E um terceiro grupo, formado por ex-alunos que estão cursando o Ensino Médio em outra escola, está dando aula de teatro.

A senhora não teve receio de liberar as quadras. Alguns diretores acreditam que abrir as quadras pode afastar os alunos da sala de aula...
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se o aluno for para a sala de aula fazer atividades que lhe interessam, mesmo que sejam da grade curricular, dadas na sua linguagem, ele não vai faltar à aula para ir à quadra. Trabalhamos muito aqui com a questão da cumplicidade, da parceria. O professor, além de ensinar, aprende. É uma troca. O professor não é dono da verdade e o aluno não é considerado uma pessoa que está aqui só para aprender. Ele também está aqui para ensinar. Toda vez que você se relaciona você aprende. Aprendizado é isso, troca de experiência.

Além do esporte e do lazer, que atividades são feitas para disseminar a cultura da paz na comunidade?
A gente participa de uma caminhada, que é uma das bandeiras do Fórum contra a Violência e em Defesa da Vida, um dos vários fóruns de que a escola faz parte. Estamos sempre em movimento, e muitas dessas atividades acontecem até mesmo dentro da escola.

Uma das atividades para a volta às aulas dos alunos já foi planejada pensando nessa caminhada, não é?
Exatamente. Nós vamos fazer um concurso para escolher o cartaz da Caminhada em Defesa da Vida deste ano, que vai ser a sexta caminhada pela paz. Essa caminhada parte das três estradas do Jardim Ângela. As três escolas municipais da região se encontram no cemitério de São Luís, onde 80% das pessoas ali enterradas morreram de forma violenta e tinham menos de 25 anos. É algo deprimente, estarrecedor. Nós nos encontramos lá e fazemos um culto ecumênico. No ano passado, havia 15 mil pessoas na caminhada e, este ano, nós estamos esperando pelo menos 20 mil.
Além dos cartazes para a caminhada, vamos fazer um concurso de grafite aqui na escola, da primeira série ao ensino supletivo, em parceria com o RAC, onde os jovens em situação de risco têm cursos de grafite, de DJ, de panificação e de informática.

Após a caminhada, faixas com votos de paz são entregues às autoridades

E qual é o tema da caminhada desse ano?
O tema sempre é escolhido por concurso. Nós fazemos faixas e, depois da caminhada, entregamos tudo o que foi produzido a uma figura importante. Este ano ainda estamos nos organizando para decidir o que vai ser feito para chamar a atenção para a caminhada. Nós estamos na primeira etapa da escolha dos cartazes, que nós chamamos de turno, porque, afinal de contas, é uma eleição. No ano passado, entregamos os votos pela paz ao governador Mário Covas. E como era ano de eleição, além das cobranças normais que a comunidade faz, fomos entregar também votos de boas-vindas e do que se esperava dos vereadores e da prefeita. Os votos deixavam claro que, se eles não cumprissem as expectativas dos eleitores, não votaríamos mais neles.

Outra iniciativa que sua escola desenvolve na comunidade é propor aos alunos uma pesquisa socioeconômica sobre a sua região...
Isso foi no ano retrasado. A pesquisa foi tão grande — os moradores podiam colocar suas opiniões — que estamos tabulando os dados até hoje. Este ano os alunos estão levantando a história do bairro. Cada ano, procuramos atender a uma necessidade porque, se a escola presta um serviço à comunidade, ela tem que saber do que ela precisa. Temos que ir atrás para ver o que está acontecendo, até para saber qual a imagem da escola perante a sociedade, o que ela espera de nós, pois as pessoas não querem apenas mandar os filhos para a escola para aprender a ler e escrever.

Como essa atividade se insere no cotidiano da escola? Faz parte de uma disciplina?
Na verdade, trabalhamos com a interdisciplinaridade, da seguinte forma: fizemos o censo escolar porque a região tinha muitos adolescentes, muitas pessoas que estavam fora da escola. Então, os professores combinaram com os alunos de sair para ver quem não estava estudando e por quê. Os professores de matemática, de história, de geografia e de português se juntaram e montaram um projeto e saíram a campo. Nós mapeamos a região em que a escola está inserida, os pais assinaram a autorização para os filhos saírem da escola e cada professor pegou um grupo e saiu de porta em porta. No final, iríamos oferecer vaga para quem estivesse fora da escola. Teve muito ex-aluno que parou de estudar e eu tive que ir atrás e dizer: "Não, você tem que voltar, pelo menos para terminar o Ensino Fundamental." Muitos deles voltaram e continuam estudando. Como isso foi há três anos, tem aluno que até já terminou os estudos.

Mas voltando à interdisciplinaridade, que exemplo a senhora daria para ilustrar como ela se dá na prática?
Toda vez que queremos estudar, por exemplo, História, começamos pela história do bairro: Por que é Jardim Ângela? Por que aqui tem a estrada do M'Boi Mirim? Como começou o bairro? Quem é o morador mais velho? Então, o morador mais velho vem à escola. Ouvimos a própria comunidade contanto sua história.
Depois, o professor de matemática ensina a fazer gráficos e os alunos nem sabem que estão aprendendo estatística porque estão tendo na prática as aulas teóricas.

Na volta às aulas, alunos participam de concurso de cartazes para a sexta Caminhada em Defesa da Vida.

E, nesse censo escolar, os alunos chegaram a alguma conclusão que a senhora destacaria?
Nós tabulamos tudo depois para descobrir quantos estavam fora da escola e as causas disso e os pais ajudaram a gente, porque organizamos uma eleição para tudo que fazemos na escola. Então, se está acontecendo qualquer coisa importante em São Paulo, ou no país, trazemos isso para a escola. No ano passado, fizemos o plebiscito da dívida externa. Convidamos o padre Paulo para explicar o que era dívida externa e depois foi feito o plebiscito. Na época das eleições, conseguimos uma urna eletrônica emprestada para a população aprender a manipular o equipamento.

Buscar os alunos que estão fora da escola, ensinar os pais a usar a urna eletrônica... A senhora concorda que as escolas, em geral, já têm muitas dificuldades para superar e, por isso, se esquivam desse tipo de atividades que sua escola tem procurado promover?
O que eu sinto nas escolas não é bem isso. É uma coisa muito mais importante. É a questão do trabalho em equipe e da permanência na escola. Você só faz um trabalho bom se ficar muito tempo num lugar para conhecer a sua realidade. Na equipe técnica, na equipe docente e na equipe administrativa da escola, há pessoas tão antigas quanto eu. A equipe é muito unida e integrada e sempre fizemos esse trabalho. Não é agora que estou na direção que o trabalho começou. É um trabalho a longo prazo. Nós partimos do princípio de que não adianta fechar os olhos ou fechar as portas da escola para os problemas da comunidade. O objetivo da escola é atender à comunidade e, como vai fazer isso sem conhecê-la, sem falar a língua dos alunos e da comunidade?

A Escola Oliveira Viana tem quantos alunos e quantos professores?
A escola tem 2.400 alunos. São 75 professores e 40 funcionários. Muitos moram na comunidade e, portanto, conhecem os problemas locais.

Então é conhecendo e, de preferência, vivendo a mesma realidade dos alunos que o professor aprende a falar a língua deles?
Ajuda, mas isso não quer dizer que o professor que vem de fora não vá fazer o trabalho. Eu percebo que o professor que vem para cá estranha no começo, porque aqui trabalhamos democraticamente. O nosso lema é: "Melhor errar tentando do que errar por não tentar." Educação é muito isso, é ousar. A escola apóia todas as iniciativas do professor voltadas ao aluno. Se não der certo, pelo menos tentamos. Se der certo, colhemos os louros juntos.

Algo que deu certo foi a relação da escola com os pichadores. Como se deu esse encontro?
Eu ia chamá-los e dizia: "Já que você gosta tanto de pichar, vamos fazer uma coisa legal, vamos fazer uma parceria. Eu dou a tinta e você entra com a sua criatividade e vamos fazer coisas que agradem a todo mundo." Então, os professores começaram um trabalho para reproduzir quadros de pintores famosos. O professor de História contava a vida desses pintores, o de Português ajudava e o de Educação Artística levava os alunos a conhecer a obra desses pintores com os livros da biblioteca.

Alunos vindos de três escolas da região percorrem as ruas do bairro até o Cemitério São Luís, onde celebram um culto ecumênico.

Na escola, há reprodução de quadros de que pintores?
Da Tarsila do Amaral, do Volpi, do Caribé, do Salvador Dalí, tudo feito por pichadores, alunos e ex-alunos. Temos a reprodução daquele quadro famoso, O grito, que saiu em diversas reportagens. Eles começaram a fazer e gostaram porque todo mundo vinha e elogiava. A mídia começou a fazer propaganda, entrevistava os alunos e agora eles não têm mais interesse em pichar. Eles vêm para somar com a gente.
Os jovens da comunidade terão um campeonato no sábado e no domingo. Então, os alunos vieram me pedir material para pintar a quadra e as paredes, para cortar a grama e pintar os caules das árvores de cal. Como os alunos sentem a quadra como deles, querem cuidar dela. Se o que eles vêm propor é bom para eles, é bom para mim porque a escola é deles e não minha.

O jornal interno A voz do adolescente foi uma proposta deles?
Foi, e o título passou por uma eleição. Esse jornal fala dos problemas da comunidade, das iniciativas da escola, dos problemas — porque a escola também tem problemas —, dá um recado para os professores, divulga o que está acontecendo na região, tem propagandas. Enfim, é um jornal de bairro. Nós o imprimimos no mimeógrafo eletrônico numa quantidade pequena. Os alunos levam um exemplar para ler em casa, mostram o jornal aos vizinhos e o trazem de volta. É a partir daí que eles trazem as reportagens porque entrevistam as figuras da região que consideram "ilustres", fazem campanha de agasalho. Assim, o jornal sai da escola e as pessoas o conhecem.

Eu imagino que, com todos esses projetos, fóruns e eleições, o jornal deve ter se tornado uma necessidade da escola. Como vocês arcam com os custos para fazer esse jornal?
O jornal veicula anúncios de empresas da região. Como temos um laboratório de informática agora, nosso sonho é transformar esse jornal em um tablóide, porque o papel sulfite e a tinta do mimeógrafo são caros e fica difícil ter uma tiragem grande para atingir mais pessoas. Estamos procurando um voluntário que entenda de informática e de diagramação para ensinar os meninos a diagramar o jornal. Todo mundo acha que parceria envolve dinheiro. Não envolve, só depende de boa vontade.

A senhora recomenda a toda escola buscar parcerias com ONGs, associações e membros da comunidade escolar?
Claro! Você cresce como pessoa, a escola cresce como organização, a comunidade se sente importante porque vê seu trabalho valorizado. Se alguém sabe alguma coisa e tem um tempo para ensinar, cedemos o espaço e as pessoas vão em frente, com iniciativa. Trazemos as ONGs da região para passar uma mensagem importante e os alunos fazem a multiplicação dessa mensagem. O trabalho voluntário é isso.


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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
Colaborou
Lúcia Nader, do Instituto Sou da Paz

agosto, 2001

         
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