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Ruy Cezar

"...os jovens estão sujeitos a piadinhas ou brincadeiras de mau gosto e, quando suspeitam que têm a doença, preferem nem fazer o teste, o que atrapalha o tratamento."

 
Kellen Victor Serique, 19, é estudante em Manaus. Por quatro anos, integrou o projeto Adolescer, que tinha por objetivo levar informações sobre DST, Aids e outros temas ligados à adolescência aos estudantes da rede pública de ensino no Amazonas. Este ano foi convidada pelo Unicef para representar o país na sessão especial da ONU sobre Aids.





 

Adolescer em tempos de Aids

Os 190 países membros da ONU avaliaram, entre 25 e 27 de junho, os planos mais efetivos de combate à Aids. Cinco adolescentes foram convidados para cobrir o evento, escrever artigos e discutir o comportamento da juventude de seus países em relação à Aids. A amazonense Kellen Victor, 19, esteve lá representando o Brasil.

Treze anos é a idade a que se costuma atribuir a entrada na adolescência. Kellen Victor Serique, 19, faz parte da geração de adolescentes que já nasceu em um mundo marcado pelo avanço da Aids. Desde que o vírus HIV foi isolado, em 1983, a epidemia já se alastrou pelos cinco continentes e tirou a vida de cerca de 20 milhões de pessoas. A situação mais crítica é vivida pelos países africanos ao sul do Deserto do Saara (ver reportagem).

Foi justamente aos treze anos que Kellen decidiu não acompanhar tudo de braços cruzados e se engajou no combate à doença. Ela e outros 39 adolescentes do projeto Adolescer percorreram escolas públicas de Manaus com a única arma capaz de impedir a progressão do vírus: a prevenção. Na ausência de vacinas e com a eficácia apenas parcial de coquetéis anti-Aids, a doença continua incurável e seu tratamento consiste em reduzir as taxas de HIV no organismo a patamares aceitáveis.

Durante quatro anos, o grupo de jovens desenvolveu nas escolas atividades sobre todas as questões relativas à adolescência, mas com destaque para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e Aids. O objetivo era formar grupos de multiplicadores capazes de continuar levando essas informações aos demais alunos.
A estratégia era discutir o assunto através de dinâmicas de grupo, e não através de palestras. "Tudo o que é divertido e descontraído chama a atenção dos adolescentes. Se só fizéssemos palestras, o trabalho se tornaria cansativo e intolerável para eles", conta.

Seu esforço foi recompensado. Junto com mais quatro adolescentes — vindos de Zâmbia, Nepal, Costa do Marfim, Jordânia e Estados Unidos — Kellen foi convidada pelo Unicef a participar da sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas sobre Aids, da qual participam representantes de 190 países. A expectativa é que se assine um compromisso para intensificar os esforços no combate da epidemia em todo o mundo.

Além de debater a situação da Aids e o comportamento dos jovens em seus países, o grupo aproveita para trocar experiências. Para Kellen, os problemas relacionados à Aids que afetam os jovens são "o preconceito e a falta de informação". Direto de Nova York, elas nos concedeu uma entrevista em que dá dicas para jovens e escolas sobre como criar grupos de prevenção à doença.

Como e quando começou seu envolvimento no combate à Aids? O que aconteceu para que você resolvesse fazer algo contra esse problema?
Em 1995, aos 13 anos, comecei a freqüentar o Prosad (Programa Saúde do Adolescente), em que recebia informações sobre sexualidade e adolescência em geral. Em 1997, o doutor Manoel Galvão, integrante do corpo técnico do Prosad, teve a idéia do projeto Adolescer, que teria adolescentes como agentes de prevenção e multiplicadores de informações. Quando fui convidada pela coordenação do Prosad a participar do Adolescer, não pensei duas vezes para topar. Desde então, estou sempre envolvida nesse tipo de trabalho.
O projeto foi aprovado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com Prefeitura Municipal de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed), Secretaria Estadual de Educação (Seduc) e Sociedade Amazonense de Pediatria (SAP).

E como era o projeto Adolescer?
Era um grupo de 40 adolescentes, sendo 20 do Prosad e 20 da Semed. A Seduc só nos dava acesso livre às escolas estaduais e o acompanhamento de seus agentes de saúde escolar. O Adolescer treinava 20 alunos em cada escola e eles continuavam o trabalho, com o acompanhamento dos agentes.

No que diz respeito à Aids, que realidade você encontrou nas escolas públicas de Manaus?
Na verdade, a Aids não era o único foco das oficinas, mas também outros temas, como sexualidade, relacionamento familiar, drogas, sexo, gravidez precoce...

No projeto, eram feitas basicamente dinâmicas de grupo. Qual a importância desse trabalho com os jovens e que dinâmica você citaria como exemplo?
A importância das dinâmicas é que tudo o que é divertido e descontraído chama a atenção dos adolescentes. Se só fizéssemos palestras, o trabalho se tornaria cansativo e intolerável para eles.
Vou citar um exemplo de uma dinâmica que é uma das minhas preferidas, sobre gravidez precoce. O treinamento tem duração de três dias. No primeiro, entregamos a cada um dos alunos um ovo, que deve ser devolvido no terceiro dia (o ovo é identificado com nossa assinatura para os alunos não o trocarem). No terceiro dia, poucos trazem o ovo de volta. Uns deixaram o seu na geladeira e o irmão o comeu. Outros o deixaram cair e ele quebrou. Enfim, são muitos os motivos para os alunos não trazerem os ovos.
A moral da dinâmica é que, se não somos suficientemente capazes de cuidar de um ovo, não poderemos cuidar de um filho. Então, começamos a falar sobre prevenção e métodos contraceptivos. Eles ficam indignados por não terem conseguido cuidar de um ovo. Eu particularmente gosto muito dessa dinâmica. Pode parecer boba, porém é significante.

Pela sua experiência com escolas, há algo que elas possam fazer para orientar os alunos sobre a Aids?

A idéia de um agente escolar em cada escola é legal. Ele é treinado para fazer um trabalho bem dinâmico com os alunos, o que não existe em todos os estados. Aposto em projetos legais como o Adolescer, com as mesmas estratégias e metodologia de trabalho.

E os jovens? Qual é o maior problema que eles enfrentam em relação à Aids?
Ainda é o preconceito, muitas vezes do próprio portador. Assim como os homossexuais, os jovens estão sujeitos a piadinhas ou brincadeiras de mau gosto e, quando suspeitam que têm a doença, preferem nem fazer o teste, o que atrapalha o tratamento. A falta de informação também é muito grande. É uma triste realidade, pois, às vezes, recebemos informações de maneira inadequada de amigos ou de pessoas que não entendem do assunto.

Que dica você daria aos jovens que queiram montar um grupo de prevenção à Aids na sua escola? O que é importante saber para fazer um trabalho semelhante ao do Projeto Adolescer?
O primeiro passo é procurar o Prosad, um programa do Ministério da Saúde que existe em algumas cidades do Brasil, e dar à coordenação do programa a idéia de um trabalho parecido com o do Adolescer, em que o adolescente seja o agente de prevenção e tome a frente dos trabalhos.
Outra boa dica é solicitar a Secretarias Estaduais e Municipais de Educação que disponibilizem um agente de saúde em cada escola. Aqui em Manaus, os agentes são uma iniciativa da própria secretaria. São professores que, por algum motivo, não podem mais lecionar e querem continuar na escola. Depois, com um pouco de boa vontade e esforço da parte de todos, é possível fazer um belo trabalho.

Você é a única jovem brasileira a participar da Assembléia Geral da ONU. Como você se sente representando o país?
Com uma responsabilidade do tamanho do Brasil... Mas é gratificante ver que todo o meu empenho por uma causa justa valeu a pena. Posso dizer a todos que é disso que eu gosto.

É verdade que foi o Unicef que a indicou? Como você foi escolhida?
É verdade, foi o Unicef. Como expliquei antes, o Adolescer é uma parceria entre Unicef, Semed, Seduc, Sap e Prosad. Logo, o Unicef conhece o meu trabalho de perto. Talvez a indicação tenha sido feita por causa do meu empenho, sensibilidade e dedicação ao trabalho com adolescentes. O melhor é que isso motiva ainda mais o meu esforço para fazer tudo "certinho".
Não gosto de usar o termo "escolha", pois estaria desmerecendo outros que fazem trabalhos desse tipo. Só no Adolescer éramos 40 pessoas e, em outros estados, também existem trabalhos semelhantes e de êxito. Foi uma indicação mesmo. O Unicef de Nova York entrou em contato com todos os escritórios do Brasil e o de Belém foi mais rápido na resposta quando indicou o meu nome. Por isso, estou aqui. Estou muito contente. Deus é muito presente em minha vida e agradeço sempre a Ele por estar me iluminando.

Você conhece o trabalho dos cinco jovens de outros países? Eles vão apresentar alguma experiência de êxito no combate à Aids que você destacaria?
Na verdade, três deles vão como jornalistas: Cathy Phiri, de Zâmbia, Cisse Masse, de Costa do Marfim, e eu. As outras duas — Genna Ginzales, das Filipinas, e Yinca Jegede, da Nigéria — são convidadas especiais. Elas são portadoras do vírus e participam como pessoas que querem mudanças, seja no tratamento, seja no acompanhamento médico. Todos falam inglês e eu vou ter uma intérprete à minha disposição para entrevistá-las.

Você preparou alguma coisa para apresentar na assembléia, algum discurso, algum relatório sobre a situação da Aids no Brasil?
Fiquei sabendo um dia antes que não falarei publicamente. O meu trabalho é mesmo como jornalista. Estou entrevistando um pessoal brasileiro que trabalha por aqui e todos estão me recebendo com muito carinho. A experiência está sendo ótima. Tenho relatórios do Ministério da Saúde com dados epidemiológicos da Aids. Participei da entrevista coletiva com o ministro José Serra. Imagina você que eu era a única adolescente presente e disseram que sou uma repórter mirim. Estou gostando demais.

Como você vê a situação da Aids no Brasil, em relação à de outros países?
O Brasil hoje é um exemplo para o mundo todo. Não quero dizer com isso que é a oitava maravilha do mundo. Mas estamos bem encaminhados, com a distribuição gratuita dos medicamentos que compõem o coquetel e o acompanhamento médico, para os soropositivos, que nem sempre estão com Aids, mas somente com o vírus. E tratando o paciente, podemos controlar a doença ou evitar que ela se manifeste. O nosso governo consegue fazer isso bem.

Você vai ficar mandando notícias do evento para o Brasil. Já há alguma notícia aí de Nova York que você ache importante os jovens saberem?
Fiquei contente porque os EUA deram uma trégua e retiraram o processo contra o Brasil sobre a quebra de patentes. Agora o Brasil tem permissão para continuar a produzir remédios genéricos. O governo brasileiro usou como argumento o artigo 71, que permite a quebra de patentes caso os preços dos remédios sejam abusivos. Os EUA vendem os medicamentos com preço pelo menos dez vezes maior que o custo.

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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional

junho, 2001

         
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