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Ruy Cezar

"Imagine uma mãe que espera a gestação do filho terminar olhando para ele amarrado ao seu peito, acariciando-o, convivendo dia e noite e podendo conversar com ele. Cria-se um vínculo fenomenal."

 
Roberto Rivetti Suelotto é médico e diretor da Fundação Orsa. Ele é responsável pelo projeto que vai disseminar o Método Canguru, ou Mãe Canguru, nas maternidades que atendem gestantes pelo Sistema Único de Saúde (SUS).





 

Crescendo na bolsa da mamãe

junho, 2001

Uma iniciativa da Fundação Orsa levará o Método Mãe Canguru a todas as maternidades públicas do país até meados do ano que vem. Empregada com sucesso há mais de 20 anos na Colômbia, a metodologia contribui para a sobrevivência de bebês prematuros onde
há escassez de incubadoras.

"Ah! Meu rebento, não era o momento de você rebentar." Ao contrário de outras espécies animais, os seres humanos recém-nascidos exigem dedicação integral de suas mães. Os nenês prematuros, que nascem no sexto ou sétimo mês de gestação, então, nem se fala. São ainda mais frágeis e têm dificuldade para se alimentar e manter a temperatura. Por tudo isso, precisam passar uma temporada na incubadora antes de enfrentar o ambiente. Como uma sementinha, vão precisar de muito calor, carinho e alimentação adequada para poder vingar.

Segundo dados do Ministério da Saúde, entre as principais causas de mortalidade infantil estão os problemas respiratórios e asfixias durante o parto, além das infecções perinatais, isto é, doenças que os nenês contraem pouco antes ou logo depois do nascimento. Os prematuros são as maiores vítimas, especialmente em maternidades de regiões carentes que não têm incubadoras em número suficiente e fazem duas ou mais crianças compartilharem o mesmo aparelho.

Para resolver o problema, médicos do Instituto Materno-Infantil de Bogotá (Colômbia) foram buscar inspiração na natureza. Tiveram a idéia de copiar a bolsa que cangurus e outros marsupiais têm para que os filhotes continuem crescendo, mesmo fora do útero. A idéia é deixar o bebê o mínimo de tempo possível na incubadora. As crianças com mais de 1,25 kg são amarradas ao peito da mãe com uma faixa. Pelo contato pele a pele, recebem calor e a movimentação que mantém o sistema respiratório funcionando.

Além de diminuir as infecções hospitalares, o método favorece o aleitamento materno, que fortalece o sistema imunológico dos recém-nascidos. Mas para Roberto Rivetti Suelotto, da Fundação Orsa, a "coisa mais bonita" é que o método "faz crescer a afetividade entre mãe e filho de forma fantástica".

Com sete anos completados em 2001, a Fundação Orsa é uma das ONGs mais atuantes na defesa dos direitos das crianças. E adora enveredar por searas pouco exploradas pelos poderes públicos. Há dois anos, ela organiza o Prêmio Qualidade na Educação Infantil, cujas inscrições terminam dia 29 de junho. O prêmio valoriza experiências pedagógicas de êxito em creches e pré-escolas de todo o país. E contribui para orientar políticas públicas em um setor que ainda não possui censo escolar.

Na entrevista a seguir, Roberto Suelotto afirma que no tratamento de bebês prematuros acontece coisa parecida. Na falta de estatísticas aprofundadas, ainda não se sabe a real dimensão desse problema de saúde pública. Será a partir dos centros de referência que disseminam o Método Canguru em todas as maternidades públicas brasileiras que se saberá com mais precisão quantas vidas o método pode salvar.

Por que esse tipo de tratamento de crianças prematuras leva o nome de Método Canguru ou Mãe Canguru?
O método foi batizado de Mãe Canguru porque a criança termina seu desenvolvimento fora do útero e enrolada no peito da mãe, à semelhança dos filhotes de marsupiais, que, depois que nascem, ficam na bolsa da mãe até se completar o tempo de gestação.

Qual é a origem desse método?
Há muitos anos, médicos colombianos começaram a perceber que, se você pegasse uma criança que tivesse ficado apenas um ou dois dias na incubadora e, logo em seguida, a prendesse ao peito da mãe com uma faixa, de tal forma que houvesse um contato pele a pele, ela receberia da mãe o calor e a movimentação para manter funcionando o seu sistema respiratório, ainda não totalmente maduro, e poderia sobreviver fora da incubadora. Essa foi a origem do método.

Então, ele substitui somente em parte a incubadora...
Isso. As crianças nascidas com baixo peso, independentemente de serem prematuras ou não, precisam ir para uma incubadora, que é aquela máquina onde a criança fica para receber oxigênio, calor, etc. Só que, com o Mãe Canguru, o tempo de permanência dentro da incubadora é muito menor. Uma criança que ficaria 40 dias dentro dela fica só quatro ou cinco dias quando se utiliza esse método. Nos outros 35, ela fica fora. Quer dizer, é um ganho muito grande.

Por quê? As incubadoras podem pôr em risco a saúde da criança?
Essas máquinas são caras e difíceis de encontrar, principalmente em hospitais carentes. O que acontecia, então? Às vezes, era preciso colocar duas ou três crianças dentro da mesma incubadora, o que é um problema sério, por causa do risco de contaminação. Além disso, as crianças, dentro da incubadora, não recebem o aleitamento materno e estão mais sujeitas a infecções intestinais, etc.

Além da questão da sobrevivência da criança, o projeto também visa diminuir outros riscos, não é?
É aí que vem a parte mais interessante e mais bonita dessa metodologia. A mãe, principalmente a de baixa renda, quando tem um filho que vai para a incubadora — se o hospital tiver essa máquina —, precisa deixá-lo lá por 40 dias. Nesse tempo, ela acaba voltando ao trabalho, seu período de resguardo termina e, quando a criança sai, a mãe quase esqueceu o filho... Então, é grande a quantidade de crianças que acaba sendo abandonada ou, mesmo sem ser abandonada, perde o vínculo materno-infantil, criado justamente nos primeiros momentos de vida da criança.
Começou-se a descobrir que o Método Canguru, por colocar rapidamente a criança ao lado da mãe, faz crescer a afetividade entre os dois de forma fantástica. Imagine uma mãe que espera a gestação do filho terminar olhando para ele amarrado ao seu peito, acariciando-o, convivendo dia e noite e podendo conversar com ele. Cria-se um vínculo fenomenal.

Quais são as causas mais comuns que levam a criança a nascer prematura ou com baixo peso? É possível identificá-las?
Existem doenças e más formações que você encontra em qualquer camada populacional. Mas algumas causas são identificáveis. No Brasil, as mais comuns são: gravidez precoce, ou seja, gravidez na adolescência, porque nessa fase a mulher não tem o organismo totalmente preparado para uma gestação; gestação malcuidada, que é comum em mães mal-nutridas ou que são judiadas pelo marido, apanham dele; uso de drogas, desde cigarro e álcool até maconha e cocaína, pois todas elas provocam uma queda no desenvolvimento do feto.
Essas são as causas evitáveis. Infelizmente, são a cada dia mais comuns.

Então, convém que todas as mães, inclusive as que tenham tomado todos os cuidados pré-natais, tenham conhecimento do Método Mãe Canguru?
Lógico, porque mesmo uma mãe sem qualquer problema está sujeita a ter um filho prematuro ou com baixo peso. Isso pode acontecer.

A quem deve recorrer um hospital ou uma mãe interessados no Método Canguru?
O hospital deve recorrer à Fundação Orsa. No caso de uma mãe se interessar pelo método, o que podemos fazer é verificar qual é, na sua localidade, o hospital mais próximo que está devidamente capacitado a atendê-la.
Em relação aos hospitais, no nosso programa a meta é atender à comunidade carente, porque somos uma fundação. Acreditamos que, até meados do ano que vem, todas as maternidades que trabalham com o SUS (Sistema Único de Saúde), sem exceção, vão estar devidamente capacitadas a utilizar o Mãe Canguru dentro das normas determinadas pelo Ministério da Saúde.

Além da Fundação Orsa, há mais entidades envolvidas nesse projeto?
Nosso programa de disseminação da metodologia é uma parceria da Fundação Orsa, do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e do Ministério da Saúde.

O senhor poderia nos dar uma dimensão desse problema? Quantas crianças nascem prematuras ou com baixo peso no Brasil? Qual o percentual sobre o total de crianças nascidas no país?
Isso é algo controvertido porque não temos dados seguros sobre o percentual de crianças prematuras no nosso país. O que já foi possível atestar é que o percentual muda bastante conforme a comunidade em que você trabalha e as causas do nascimento prematuro, que eu acabei de enumerar. Quer dizer, quanto maiores os problemas sociais da comunidade que o hospital atende, mais elevado é o percentual de crianças nascidas com baixo peso.

O senhor comentou brevemente a questão do aleitamento materno...
Logo depois do parto, a mãe entra no processo de produção de leite. É um processo que envolve hormônios dentro do organismo da mulher. Uma mãe que tem um bebê prematuro tem uma quebra hormonal. Quer dizer, uma gestação que estava prevista para nove meses é interrompida no sexto ou no sétimo mês, e o ciclo hormonal previamente preparado não chega ao fim. Então, a mãe já vai ter uma maior dificuldade de produção de leite. Porém, como o nenê é pequenininho, ele tem uma menor necessidade de leite nessa fase inicial. Agora, o grande produtor de leite, a partir daí, é o estímulo mecânico, o estímulo da mama pela sucção da boca da criança. Isso faz com que a mulher produza cada vez mais leite. Se a criança ficar 40 dias dentro de uma incubadora, não há mama que resista: seca o leite da mulher!

Deve ser uma angústia enorme para uma mãe ter de ficar longe do filho, que está frágil, e ver seu leite secar...
Com certeza. Imagine o choque psicológico de ter um filho numa incubadora, sem saber se vai sobreviver ou não... Primeiro, existe uma barreira de vidro impedindo a mãe de tocar o filho. Segundo, às vezes, as crianças têm 1 quilo, 1 quilo e pouco e passam aquela sensação de fragilidade: não pode tocar senão machuca.

Mas a mãe está preparada para lidar com um bebê ainda mais frágil que o normal?
Nessa metodologia, há toda uma orientação para a mãe: como ela tem que cuidar do bebê, trocar a criança, quais são os cuidados básicos de higiene. Você tem que agregar uma série de fatores educacionais à mãe. Isso acaba sendo um diferencial tão importante que hoje já está se começando a aplicar essa metodologia em hospitais que atendem famílias de alta renda e onde não faltam incubadoras nem se enfrenta o problema da perda de afetividade. Não é nenhuma regra, mas normalmente as pessoas com um grau de instrução maior entendem que a criança tem que ficar afastada por um período. E, quando ela sai da incubadora, a mãe está de braços abertos para recebê-la.

Como o Método Canguru estimula o aleitamento?
No período em que a criança permanece na incubadora, que pode durar quatro dias ou até uma semana, dependendo da gravidade do caso, existe um processo para você tirar o leite da mão, que chamamos de ordenha. As pessoas às vezes não gostam desse nome e o acham vulgar, pois parece que se está falando de animais, mas esse é o nome técnico.
Esse leite pode ser oferecido para a criança se ela tiver condições de tomá-lo, mesmo dentro da incubadora, ou vai para um banco de leite. Mas o mais importante é que você comece a fazer esse estímulo de tal forma que, na hora em que a criança sai da incubadora e vai para o peito da mãe, dê tudo certinho.

Esse método apresenta alguma dificuldade especial? Ele aparentemente é tão simples...
Ele é muito simples. Logicamente, exige uma certa técnica e certos cuidados. Então, o que nós estamos fazendo é disseminar a técnica correta, reconhecida hoje pelo Ministério da Saúde, que até mesmo já normatizou isso. Portanto, existe uma norma que tem que ser cumprida para que a metodologia seja benéfica e não apenas uma panacéia.

A faixa, por exemplo, requer algum material específico?
Ela muda conforme a região. Por exemplo, as crianças do Nordeste usam uma faixa de algodão ou linho, quer dizer, um tecido mais leve, só para prendê-las à mãe. As crianças da Região Sul, além de precisarem de uma faixa de um tecido mais grosso, como lã, precisam colocar uma touca para não perder calor e, às vezes, um sapatinho para proteger os pés — as do Nordeste ficam absolutamente nuas. Então existem adaptações por questões regionais e de clima.
Mas a bolsa é muito simples e feita com um tipo de material que qualquer casa ou hospital têm para fornecer: um lençol ou uma colcha. É isso que basicamente se usa.

Como o senhor avalia a adesão dos hospitais brasileiros a esse método?
Ele ainda não está maciçamente difundido, porque começamos nossas ações no final do ano passado. Mas já existem mais de 80 maternidades [até maio] devidamente capacitadas, com pessoal treinado e certificado pelo nosso programa, e até o final do ano queremos capacitar mais 100 maternidades. Nós temos um planejamento e uma equipe técnica contratada pelo programa para dar os cursos nessas maternidades. Além disso, nós já estabelecemos oito centros de referência, espalhados por várias regiões do Brasil, que estão também capacitados a disseminar no seu entorno essa metodologia. São centros de excelência com um volume maior de partos e que dispõem de uma equipe técnica mais bem capacitada, que nós preparamos.

Já é possível calcular em quanto o Método Canguru aumenta as chances de sobrevivência de uma criança prematura?
Isso nós vamos estudar agora. No Brasil e na própria América do Sul, onde a metodologia já é aplicada, não existe nenhum sistema de avaliação que nos permita obter indicadores precisos sobre os reais ganhos que o método proporciona. Mas estamos colocando em nossos oito centros de referência uma central informatizada e um software que vai interligá-los com o intuito de montar um grande banco de dados para comprovar estatisticamente o que está acontecendo com as crianças tratadas pelo Método Canguru. A sensação que temos é que isso vai ser muito positivo. Mas ainda não é o suficiente. Precisamos de dados concretos.

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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional

 


         
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