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Uma aula sobre
si mesmo
junho, 2001
Conhece-te a ti mesmo.
A frase inscrita há mais de dois milênios no
portal do oráculo de Apolo, em Delfos entrou para
a história. Mas será que entrou em todas as salas
de aula? A essa tarefa se dedica Ruy Cezar do Espírito Santo,
professor da disciplina Autoconhecimento na Formação
do Educador, do curso de Pedagogia da PUC/SP.
Quando Sócrates, o primeiro filósofo a estimular
o autoconhecimento em seus discípulos, ouviu de Querofonte
que o oráculo o considerara o homem mais sábio da
Grécia, ele resolveu examinar a afirmação.
Chegou à conclusão de que não era digno da
honraria e proferiu outra frase pra lá de conhecida: "Só
sei que nada sei." Para ele, a verdadeira sabedoria seria o
autoconhecimento, capaz de livrar a humanidade de falsos conceitos.
Diante da constatação, elaborou um método
a maiêutica para pôr em dúvida
o que era dado por líquido e certo. Em diálogos memoráveis,
ele e seus alunos interrogavam a forma como o conhecimento era apresentado
à época por sofistas e filósofos jônicos
(ou pré-socráticos). Os argumentos para rebater as
teorias vinham das idéias dos próprios pupilos, era
como se brotasse um conhecimento que eles não "sabiam"
que tinham. Sócrates comparava isso a um parto.
Herdeiro do filósofo, Ruy Cezar também questiona
a forma como o conhecimento é apresentado aos alunos. Ele
contesta a fragmentação do saber e propõe,
em vez do "conteudismo", interdisciplinaridade. "O
educador deve perceber que sua disciplina é um pretexto para
ligar a sala de aula ao universo, ao saber maior." No lugar
da avaliação quantitativa, sugere o diálogo.
Em dinâmicas de grupo, os alunos podem encontrar o artista
que "não sabem" ter dentro de si. Ruy compara isso
ao despertar da Bela Adormecida.
Na entrevista a seguir, ele explica por que é importante
que o professor inicie "uma caminhada em direção
a ele mesmo".
O que significa exatamente o título do seu último
livro, O Renascimento do Sagrado na Educação?
Esse livro nasceu do meu trabalho de doutorado, que comecei em 91
e terminei em 98. Foi todo um percurso para resgatar a identidade
do ser humano, a identidade fragmentada pelo paradigma cartesiano,
aquilo que Capra [Fritjof Capra, físico, autor dos livros
O Tao da Física e Ponto de Mutação]
hoje denomina de paradigma ecológico. Nessa direção,
o "renascimento do sagrado" procura retomar a unidade
do ser humano. Esse é o sentido mais profundo da obra.
Como a escola contribui para essa fragmentação
a que o senhor se refere?
A escola que Paulo Freire denunciava como tendo uma educação
bancária é fundada no paradigma cartesiano. É
um paradigma dualista que separa corpo e alma. O positivismo e o
cientificismo são marcados por esse dualismo. Isso acaba
repercutindo na própria personalidade, e o homem passa a
ser um somatório de razão, emoção, corpo
físico e corpo espiritual. A maior parte da nossa educação,
que é marcada pelo positivismo, conduz as pessoas a tal fragmentação.
Então, o trabalho de autoconhecimento visa ao resgate da
unidade da personalidade, que vem sendo fragmentada.
Tal fragmentação talvez seja mais visível
na divisão do conhecimento em conteúdos. O senhor
diz que a escola conteudista termina por afastar os alunos da escola.
Como isso ocorre?
Aos quinze anos, na adolescência, quando esse afastamento
é mais significativo, o aluno acorda para outra realidade
de si mesmo. Ele não se conforma, ainda que sem grande clareza,
de continuar a ser tratado como um repositório de conteúdos.
Isso perde o sentido para ele e daí vem toda a rebeldia.
Ele vai para as drogas, para a violência porque precisa protestar.
Se isso não for trabalhado pelo educador, o protesto cai
no vazio e acontece o fenômeno da Bela Adormecida.
O que acontece com o jovem que é acometido por esse fenômeno?
Como despertá-lo?
A história da Bela Adormecida nos fala de uma adolescente
que, picada no dedo aos quinze anos, adormece e, com ela, adormece
todo o reino... É a situação do jovem que perde
o contato com a realidade. Como diz a Bíblia, transforma-se
num adulto que tem olhos e não vê, que tem ouvidos
e não ouve...
O senhor ressalta que, durante a avaliação, os
alunos novamente não são atendidos em toda a sua singularidade,
dado o elevado número de alunos por sala. Como os professores
podem superar esse problema?
Quando você considera o ser humano em sua integralidade, percebe
que, ao avaliar apenas o certo e o errado do conteúdo, despreza
sua personalidade integral. É preciso ver a raiz do erro,
e isso só acontece se você o trata de forma singular.
Quando a avaliação é qualitativa e você
escreve ao aluno comentando seu erro, como isso aconteceu e qual
pode ser o ponto de partida para ele começar a andar, inicia-se
um diálogo com aquele aluno e com o tipo de erro que cometeu.
O senhor diz que, em vez de punir, é preciso "acolher
o aluno em seu erro". Como deve ser entendido esse acolhimento
a que o senhor se refere?
Errar significa andar, e isso não é motivo para punição.
Uma criança que esteja aprendendo a andar e for punida ao
levar um tombo vai ter muita dificuldade para aprender. É
assim com qualquer erro cometido. A criança precisa não
ter medo de errar para poder aprender. O aprendizado é conseqüência
da capacidade de errar. O aluno começa a aprender se for
acolhido no seu erro, se for recebido pelo professor como alguém
que é candidato a aprender por não ter medo de errar.
O senhor diz que, para recuperar a unidade na educação,
é preciso que o professor rompa com as práticas pedagógicas
que ele adota com um certo automatismo, que viraram parte do cotidiano.
O senhor teria algum exemplo para ilustrar como isso pode ser feito?
Na medida em que você considerar qualquer acontecimento como
parte do todo, aquilo que hoje nós chamamos de interdisciplinaridade,
que não é uma "mistura" de matemática
e história, mas sim o educador perceber que sua disciplina
é um pretexto para ligar a sala de aula ao universo, ao saber
maior. O educador tem que ser capaz de estabelecer esse vínculo
entre os fatos e a vida. E ainda estabelecer o vínculo entre
os próprios alunos, com práticas e dinâmicas
que os coloquem juntos. São inúmeras as atividades
possíveis. Nesse livro, O Renascimento do Sagrado na Educação,
descrevo algumas atividades para serem realizadas em sala de aula.
O senhor poderia citar uma dessas dinâmicas? Elas têm
a ver com arte, para despertar o artista adormecido a que o senhor
se referiu no início, não é?
Poderia citar o exemplo de pedir um desenho do aluno a respeito
de um conteúdo ou filme assistido. Em seguida, em círculo,
os alunos iniciam histórias inspiradas nos desenhos.
Como o senhor avalia sua experiência à frente dessa
disciplina inovadora do currículo da PUC-SP que trata do
autoconhecimento na formação do educador? Como o senhor
tem procurado acolher seus alunos, futuros educadores?
A disciplina chama-se o Autoconhecimento na Formação
do Educador. Nós fazemos um trabalho que é um misto
de vivências e teoria. Nessas vivências, desenvolvemos
um trabalho de acolhimento, para que o aluno se sinta recebido,
acolhido para iniciar uma caminhada em direção a ele
mesmo. É o artista interior que precisa ser acordado, porque
a obra-prima desse artista é ele mesmo. E o educador pode
ser o príncipe que acorda a Bela Adormecida. Tenho um texto
pequeno sobre isso, uma poesia
que eu vou lhe dar. Ela foi recentemente publicada no livro Dicionário
em Construção: interdisciplinaridade, da Editora
Cortez.
O senhor tem notícia do impacto dessa nova visão
sobre os educadores que fizeram essa disciplina? Eles lhe contam
como têm procurado implementar essa visão em sala de
aula?
Sim, tenho inúmeros depoimentos de alunos desse curso que
estão sendo selecionados para um outro livro em vias de publicação
chamado Histórias que Educam, da Editora Agora.
O senhor diz que o educador que não fizer um percurso
em direção a si mesmo jamais vai compreender os seus
alunos. O que falta a esse educador?
Se a visão do educador é fragmentada, ele se vê
como um ser limitado e isolado, como um ego solitário. É
uma visão "egóica". Ele não vive
sua dimensão plena. Vive aquilo que Jung chamava de "persona".
Mas ele é muito mais que a "persona" de professor.
Se ele não se vê como mais que isso, terá sempre
uma visão míope sobre seus alunos. É aquilo
que a Bíblia diz: "Tem olhos e não vê,
tem ouvidos e não ouve." Ele não tem os olhos
abertos para a espiritualidade, só vê a dimensão
material. Precisa fazer o percurso do autoconhecimento.
O senhor cita parábolas das mais diversas culturas para
ilustrar suas idéias sobre a falta de unidade na educação.
O professor terá dificuldade para implementar essas teorias
em sala de aula, caso se depare com alunos de origens culturais
muito diferentes?
Se eu insisto que o problema é de unidade, de ligação
entre as coisas, é fundamental que o educador consiga ter
uma visão ecumênica, mostrando o vínculo que
existe entre as várias tradições no que elas
têm de essencial. Aquele texto
do índio Seatle, por exemplo, é um documento importantíssimo.
Uma das coisas que ele diz no texto é que, se existe um Deus,
é o mesmo Deus do homem vermelho e do homem branco. Então,
todo resgate de tradição deve ser feito nesse sentido
ecumênico.
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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
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