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Entrevistas   Entrevista da Semana

Wanderson Dias de Oliveira

"Eu queria deixar claro que não estou indo para a Suécia pela diversão. Eu estou fazendo um trabalho, vou representar
o Movimento
Nacional de Meninos
e Meninas de Rua."

 

Wanderson Dias de Oliveira, 15, é artista de circo. Equilibrista, faz apresentações com monociclo e corda bamba no Projeto Circo de Todo Mundo, em Belo Horizonte. Ex-menino de rua, Wanderson é jurado do Prêmio das Crianças do Mundo, oferecido pela ONG sueca Children's World, que elege anualmente o melhor projeto de proteção dos direitos da criança.




conheça:
- a ONG
  Children's World
- os concorrentes
  ao prêmio
- os membros
  do júri

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Prêmio Nobel das crianças

abril, 2001

Parece um Nobel dado por quem tem menos de 18 anos, mas não é. O Prêmio das Crianças do Mundo é o que as crianças precisavam para render sua homenagem a quem se esforça para livrá-las de toda e qualquer injustiça. Wanderson Oliveira, 15, fará parte do júri como representante dos meninos de rua de todo o mundo.

Escravas, refugiadas, envolvidas em conflitos armados, moradoras de rua, vítimas da violência urbana e de todo tipo de abuso. Enquanto você lê essas linhas, pode ter certeza: em algum lugar do planeta, neste exato instante, há crianças passando pelo maior sufoco. Se para muitas a vida não é brincadeira, é verdade também que um bocado de gente percebe, desde cedo, a urgência de exigir que os direitos das crianças sejam cumpridos à risca.

A ONG Children's World teve a feliz idéia de pôr lado a lado jovens ativistas dos direitos humanos e crianças que já penaram muito para sobreviver. Eles formam uma turma de 16 jovens que se reúne em grande estilo pelo segundo ano consecutivo. Dia 18 de abril, no Castelo de Gripsholm, em Mariefred (Suécia), vão eleger o vencedor do Prêmio das Crianças do Mundo.

São três os concorrentes que fazem das tripas coração para, em países pobres, tirar os direitos das crianças do papel e apaziguar seu sofrimento. Entre eles, tem gente como o senhor Asfaw Yemiru, que desde 1957 dá aulas para crianças excluídas na Etiópia. Ele hoje dirige duas escolas e um orfanato, mas, no começo, tudo que tinha era um pé de carvalho para abrigar seus alunos e a si mesmo do sol implacável da África.

Rebecka Göthe é um bom exemplo da equipe de jurados. Aos 15 anos, ela já se mandou por duas vezes de sua Suécia natal para ver, com os próprios olhos, pelo que passam crianças como Zahir Habbas, no Paquistão. Zahir é outro membro do júri, mas, antes disso, fazia trabalhos forçados em uma fábrica de tapetes desde os cinco anos. Era escravo.

Mais que uma simples premiação, o evento dá margem a um rico intercâmbio de experiências. Zahir poderá abrir seu baú de lembranças para as crianças e instituições presentes. Poderá mostrar as marcas de queimaduras e choques elétricos que traz no corpo, provas contundentes dos maus-tratos de que foi vítima. Juntos, todos poderão pensar em estratégias para dar maior visibilidade à causa dos direitos das crianças.

Na entrevista a seguir, o jurado brasileiro Wanderson Oliveira fala do seu envolvimento com os direitos das crianças e do impulso que participar do júri do Prêmio das Crianças do Mundo tem lhe dado para continuar nessa batalha. Ele comenta a responsabilidade que é representar os meninos e meninas de rua e dá pistas sobre quem levará seu voto.

Como começou seu envolvimento com a defesa dos direitos da criança?
Começou desde que eu e meu irmão fugimos de casa. Minha mãe ficou revoltada porque quase toda a noite a gente fugia e, sem saber o que fazer, ela nos colocou no Conselho Tutelar. De lá, nós fomos encaminhados para um abrigo chamado Casa Moradia Provisória, onde a gente encontrava várias crianças que tinham a mesma trajetória de rua que nós. Depois fomos encaminhados ao Projeto Circo de Todo Mundo, em que existem reuniões que se chamam Núcleo de Base. E foram nessas reuniões que comecei a entender mais sobre os meus direitos e deveres.

Como você se sente por representar o Brasil nesse grande encontro de crianças que tiveram seus direitos violados?
Para mim, significa uma responsabilidade enorme porque há várias crianças da minha idade que não estão tendo essa chance. É uma responsabilidade que me dá muito orgulho.

Além de ser o representante brasileiro, você vai à Suécia para falar pelos meninos e meninas de rua do mundo inteiro. Que mensagem você vai levar para esse grande encontro?
Vou falar sobre a minha vida, porque eu dei uma grande virada ao sair das ruas e voltar para a escola e para a casa dos meus pais. E hoje eu sou um artista de circo. O que eu vou contar lá — e que é verdade — é que milhares de crianças brasileiras hoje não moram com seus pais e estão envolvidas com drogas, assaltos e trabalho infantil na rua. Para sobreviver na rua, as crianças trabalham. E isso se chama trabalho infantil, porque elas trabalham como adultos, mas recebem menos. Eles pensam: "É criança, vou pagar um pouquinho de dinheiro que ela já fica satisfeita." Eles sabem que os adultos cobram mais.

E qual é o número que você apresenta no circo?
Eu tenho uma grande participação no número de equilibrismo. Também faço monociclo e corda bamba e tenho alguma participação em acrobacias.

Você já esteve na Suécia uma vez, em abril passado. Nessa reunião de crianças que tiveram seus direitos violados, qual foi a sua impressão do Brasil em relação à proteção dos direitos da criança?
Olha, não é só o Brasil. No mundo inteiro as crianças estão tendo seus direitos violados. Várias crianças estão trabalhando em fazendas, lavando roupas, fabricando bombinhas...

E quanto às crianças de rua, há outros países em que esse problema é tão grave como no Brasil?
O continente mais citado foi a África.

Você preparou alguma coisa especial para levar, algum texto, um documento ou fotos para expor a realidade dos meninos de rua no mundo?
Estou levando um livro do Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua que foi feito no I Seminário Brasileiro de Crianças e Adolescentes Trabalhadores, em Belo Horizonte, e bolinhas de malabares para mostrar como é o nosso circo.

Um dos objetivos dessa premiação é promover um intercâmbio, para que as crianças não só tragam a sua história, contem o que viveram, mas também levem para o seu país experiências de outras crianças do mundo. Que problema vivido por crianças do mundo você contaria aos brasileiros?
Uma menina da África tinha 12 anos quando foi seqüestrada e obrigada a fazer furtos com os caras da máfia e obrigada a manter relações sexuais com eles. Hoje ela tem um filho de dois anos.

Como ela se chama?
O seu nome é Lina. Ela é de Uganda e tem 15 ou 16 anos agora.

E conhecer essas experiências terríveis tem lhe dado forças para continuar o trabalho de defesa dos direitos da criança no Brasil?
Isso me incentivou tanto que já chamei um grupo de pessoas que vivia na rua — umas seis pessoas — e dei uns conselhos para elas. Duas já não estão mais no grupo, cheirando thinner. Isso me dá muito orgulho. Eu queria deixar claro que não estou indo para a Suécia pela diversão. Eu estou fazendo um trabalho, vou representar o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua. São crianças que tiveram seus direitos violados.

Uma das anfitriãs e madrinha do evento é a rainha Silvia, da Suécia. Se eu não me engano, ela é brasileira, não é?
Não, ela é filha de brasileiros. Ela nasceu na Alemanha. Aos três anos, ela veio para o Brasil e viveu aqui até os 14.

E como foi o seu encontro com ela?
Foi emocionante. Ela me deu muita atenção, muito carinho. Ela soube que eu era brasileiro e falei algumas coisas que tinha lido sobre ela. Perguntei por que deu essa virada na sua vida e quis olhar mais para as crianças. Ela me disse que, quando estava no Brasil, tinha visto muito sofrimento nas crianças que trabalhavam, que vendiam balas no sinal.

Nesse encontro será escolhido o melhor projeto de defesa dos direitos da criança no mundo. Você vai eleger, junto com outras 15 crianças, um dos três projetos finalistas. Você já sabe em quem vai votar?
Eu estou indeciso entre o senhor Asfaw [Asfaw Yemiru, candidato ao prêmio por seus projetos educacionais na Etiópia] e o Movimento das Crianças pela Paz, da Colômbia.

Fale um pouquinho de cada um desses projetos...
O Movimento das Crianças pela Paz, da Colômbia, me chamou mais a atenção porque já faz mais de um século que eles vêm lutando para combater a droga em seu país, e pela paz também, porque a droga e a violência tomaram conta de tudo. Eles já têm mais de 100 mil alunos fazendo esse trabalho. Já o senhor Asfaw começou o seu trabalho aos 14 anos. Ele buscava crianças na rua e não tinha onde dar aula. Então, ele ensinava as crianças debaixo de uma árvore. Por coincidência, um dia estava passando por ali o imperador, ou o presidente, eu não sei, e o senhor Asfaw se atirou na frente do carro e pediu um espaço para dar aula. Hoje, ele já oferece ensino fundamental e médio. Ele começou do nada e agora tem duas escolas!

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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional

 


         
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