As professoras que participaram da sua pesquisa diziam
perceber alterações comportamentais em alunos sob o efeito do álcool. Que tipos de
alterações eram essas?
Cristina Bardelli - Todas as 140 professoras relataram que os alunos
cheiravam a álcool e apresentavam alterações comportamentais do tipo: rir demais,
muito alto, desrespeito às regras, agressividade em relação às professoras ou aos
colegas, repetir a mesma pergunta várias vezes... Tais alterações poderiam ser
confundidas com sintomas de outros problemas. Porém, como os alunos também cheiravam
a álcool, pude inferir que as professoras falavam de alunos intoxicados.
E qual era a postura adotada pelas professoras diante dessa situação?
Cristina Bardelli - A postura e a ação das professoras foram diferentes.
44 delas desenvolveram algum tipo de atividade de prevenção acompanhada de uma atitude
que procurava amedrontar os alunos que bebiam demais. Falavam sobre as graves conseqüências
do uso abusivo de bebida alcoólica. As outras 96 professoras nada fizeram, ficaram
indiferentes. Há fortes indícios de que a ação preventiva dessas professoras esteja
relacionada à causa que atribuíram ao beber em excesso. A percepção causal da professora
pode facilitar ou criar um obstáculo à prevenção.
Como assim?
Cristina Bardelli - As 44 professoras que consideraram o abuso como
determinado predominantemente por um contexto mais amplo de vida do aluno - família,
amigos - associado às características do aluno desenvolveram algum tipo de prevenção.
As outras 96 professoras, que atribuíram o consumo de álcool prioritariamente às
características emocionais do aluno, essas não realizaram qualquer tipo de atividade
preventiva.
Que características emocionais são essas?
Cristina Bardelli - Representam uma categoria de respostas na qual são
agrupadas causas que as professoras perceberam estarem relacionadas, por exemplo, ao
baixo nível de auto-estima, à necessidade de auto-afirmação, à dificuldade do adolescente
para lidar com o novo, para encontrar seu papel na sociedade, à falta de sentido para a vida...
Quer dizer que as professoras não fizeram nenhuma atividade de prevenção por achar
que o aluno é irrecuperável?
Cristina Bardelli - As professoras que não fizeram prevenção e consideraram
que a culpa do uso indiscriminado de bebidas alcoólicas era do aluno pareciam entender que
não havia nada a fazer.
Como se desenrolou a pesquisa?
Cristina Bardelli - Entrei em contato com 140 professoras que cursavam o
terceiro ano do curso de Pedagogia e solicitei que respondessem a um questionário construído
com base no estudo piloto. Elas escolheram o aluno que bebia em excesso com o qual tinham mais
contato, relataram por que seu aluno bebia exageradamente, respondendo também a perguntas a
respeito das condições para prevenir o uso indiscriminado do álcool, das características do
aluno e de seu comportamento.
E quais foram os resultados?
Cristina Bardelli - Entre as 140 professoras, 44 relataram fazer algum tipo
de prevenção, enquanto as outras 96 não desenvolveram qualquer tipo de atividade de prevenção.
As 140 revelaram ter encontrado obstáculos relacionados ao desinteresse da direção e da família,
à falta de espaço para tratar sobre o assunto no currículo e na grade horária. Porém, aquelas
44 que consideraram o abuso determinado por um contexto mais amplo de vida do aluno combinado
com as características do adolescente tentavam fazer algo por conta própria, mesmo despreparadas
e sem orientação de especialistas.
Dá para dizer então que a falta de condições ou de tempo não é o que justifica a falta de
um trabalho de prevenção às drogas?
Cristina Bardelli - Eu entendo que as condições e o tempo são fatores importantes
para o trabalho de prevenção. Se as 44 professoras que relataram ter realizado atividades de
prevenção tivessem tido orientação, se a escola tivesse um programa de prevenção às drogas
lícitas, principalmente ao abuso de álcool, possivelmente as professoras não teriam realizado
apenas atividades esporádicas e predominantemente informativas. As condições e o tempo são
importantes. No entanto, como mostram os resultados da pesquisa, há fortes indícios de que
a atividade de prevenção estava relacionada principalmente à percepção causal das professoras
a respeito do uso indiscriminado de álcool.
Que atividades esporádicas eram essas?
Cristina Bardelli - Eram atividades desenvolvidas eventualmente, desligadas de
um programa de prevenção, sem espaço próprio no currículo ou na grade horária das disciplinas.
As 44 professoras mais sensibilizadas com os alunos que chegaram cheirando a álcool, por exemplo,
a maioria com o objetivo de amedrontar o aluno, deram uma palestra durante o ano ou contaram uma
história que falava das maléficas conseqüências da ingestão de bebida alcoólica.
Quer dizer que não havia nenhum tipo de programa de prevenção ao álcool?
Cristina Bardelli - Chamou muito a minha atenção o fato de as 140 professoras
de ensino fundamental e médio não conhecerem nenhum tipo de programa de prevenção nas escolas
estaduais em que lecionavam. O governo do estado de São Paulo desenvolveu um programa chamado
Prevenção também se Ensina, que as 140 professoras não conheciam. O que impede a
implantação do programa, que, segundo informações de Tozzi e Bower (1998, p. 108), já está nas
delegacias de ensino do estado?
Antes de aplicar a pesquisa, com que base a senhora formulou a hipótese de que a prevenção
ao álcool está relacionada à percepção das professoras a respeito do uso excessivo de bebida?
Cristina Bardelli - O ponto de partida foi a minha experiência profissional. Há
cerca de 26 anos trabalho com prevenção a comportamentos de risco, orientando professores,
coordenadores e diretores em escolas a respeito da elaboração e implantação de planejamentos
estratégicos para a prevenção. Nesse caminho percebi que o professor era o principal agente
escolar multiplicador, era com quem o adolescente passava a maior parte do seu dia, mais
tempo até do que convivia com seus pais. Alguns professores, independentemente das
dificuldades, estavam mais disponíveis para se aproximar da prevenção aos comportamentos
de risco, enquanto outros não se mostravam sensíveis. Muitos obstáculos eram apontados.
Mas chamou a minha atenção o fato de que as explicações a respeito das causas do uso de
drogas dadas pelas professoras que se propunham espontaneamente a prevenir fossem diferentes
das explicações daquelas que nada faziam. Procurei entender melhor a questão com o apoio da
literatura e, à luz da Análise Ingênua da Ação, desenvolvida por Fritz Heider, decidi fazer
uma investigação mais sistemática sobre o tema, que resultou na minha tese de doutorado.
E onde a senhora fez as suas observações?
Cristina Bardelli - Primeiro, assistematicamente, como consultora, professora
universitária e pesquisadora, observei o trabalho das professoras, futuras pedagogas, a
respeito da prevenção ao uso de álcool nas escolas. Fiz entrevistas com professoras de
escolas particulares, públicas e de universidades. Com os resultados das investigações
preliminares construí o questionário que foi aplicado entre as 140 professoras da pesquisa.
Então, a questão do aluno alcoolizado em sala de aula atinge todas as escolas...
Cristina Bardelli - Sim, está aumentando tanto em escolas públicas como em
particulares o número de alunos não-dependentes que bebem exageradamente e cada vez mais
cedo. Há, no entanto, um certo distanciamento da questão por parte dos professores e dos
pais. Muitos professores relatam que não sabem o que fazer em relação a esse problema do
aluno. Desesperados - na escola particular e na pública -, como vão explicar para os pais
que seus filhos se intoxicam ou como vão lidar com os outros pais cujos filhos podem seguir
o caminho dos amigos e também beber demais? Se contarem para a coordenadora, ela vai
questionar o que o professor fez diante da situação. Parece ficar mais fácil para todos
distanciarem-se do problema, que nem por isso deixa de existir.
E como tratar desse tema nas escolas? Como preparar os professores?
Cristina Bardelli - Seria preciso elaborar planejamentos estratégicos
que contemplassem a capacitação do professor para a ação preventiva. Propor ao professor
programas de valorização da vida que lhe permitissem repensar a qualidade do seu dia-a-dia
e do seu aluno. Sensibilizá-lo para aproximar-se de si mesmo, das suas dificuldades e
possibilidades e para olhar o aluno buscando conhecer as suas necessidades humanas. É
preciso começar a trabalhar a disponibilidade do professor para a prevenção ao uso
excessivo de álcool. Essa disponibilidade depende da crença que cada professor tem
sobre as causas que levam ao comportamento de risco. Seria preciso a elaboração de
um programa inserido no planejamento da escola e não uma palestra uma vez por ano.
O tema prevenção ao uso de álcool poderia constituir um dos temas transversais a serem
tratados, quando pensamos em viabilizar os objetivos propostos nos Parâmetros Curriculares
Nacionais. No entanto, para oferecer condições ao desenvolvimento do cidadão ético no
exercício de sua cidadania, é preciso que o currículo seja repensado, bem como a grade
horária, as condições do ambiente físico e, principalmente, a disponibilidade dos agentes
escolares. Algumas escolas têm tentado mudanças em várias áreas.
Durante a sua pesquisa, a senhora encontrou alguma escola, estadual ou particular,
que esteja tratando dessa questão de forma sistemática?
Cristina Bardelli - PNão. Em muitas escolas a direção dizia que era
feito um trabalho de prevenção. Eu não encontrei entre as 140 professoras uma que
dissesse: "A prevenção é realizada e é eficaz." Ao contrário, não tinham notícia de
qualquer programa preventivo ao uso em excesso de álcool. Nas investigações preliminares,
eu questionei 200 professoras a respeito do assunto e elas também não conheciam qualquer
programa de prevenção ao uso de drogas lícitas, como o álcool, ou ilícitas. Parece que
agora algumas escolas começam a ter alguma preocupação com a prevenção, que a meu ver
deveria ser realizada desde a educação infantil e não somente nos ensinos fundamental
ou médio, uma vez que os alunos têm bebido exageradamente cada vez mais cedo.
No seu trabalho de consultoria para as escolas, a senhora tem tratado de questões
específicas em relação ao consumo excessivo de álcool?
Cristina Bardelli - A escola inicialmente não requisita trabalhos sobre
prevenção à intoxicação alcoólica. Solicita que seja tratada predominantemente a questão
da disciplina. Em algumas escolas, no decorrer do trabalho, a partir das conversas com
professores, alunos e pais, tenho podido fazer uma reflexão mais ampla sobre a necessidade
de programas de prevenção a comportamentos de risco, que passa por qualidade e valorização
da vida, limites, e toca necessariamente em questões específicas, como beber em excesso.
Tento interferir na cultura alcoólica brasileira, nos padrões comportamentais que passam
de pai para filho.
O que a senhora afirma é que o ponto de partida de qualquer trabalho de prevenção
é saber o que os professores pensam a respeito, não é?
Cristina Bardelli - A crença do principal agente multiplicador, o professor,
sensibilizado para a questão, é o ponto de partida para a prevenção. A proposta seria
conhecer a percepção causal do professor e a partir daí construir planejamentos estratégicos
que estejam envolvidos numa rede preventiva da qual os pais também participem, assim como
outros setores da sociedade. A porta de entrada para prevenir o futuro alcoolista seria
conhecer as crenças de cada um.
Mas voltando ao fato de os alunos irem à aula sob efeito do álcool...
Cristina Bardelli - Ou beberem no recreio. Eles levam latinhas de
refrigerantes com bebida alcoólica que passam de um para o outro.
Isso não seria suficiente para caracterizar uma certa dependência? Afinal,
o consumo não se dá após a aula ou durante uma atividade de lazer...
Cristina Bardelli - Eu não posso garantir isso. Um aluno que bebe
antes da aula ou no intervalo não precisa necessariamente ser um alcoolista. Não
dá para dizer se quem entra com cheiro de álcool é dependente ou bebe levado pelos
outros. Estamos lidando predominantemente com futuros alcoolistas, com idade por
volta dos 11 aos 15 anos. E é preciso atenção, pois o alcoolismo se desenvolve a
longo prazo, de modo sorrateiro. Somente aproximadamente após cinco anos bebendo
é que você pode ter uma dependência já caracterizada.
Então é cedo demais para falar em dependência...
Cristina Bardelli - Nessa pesquisa, não investiguei a dependência.
As professoras selecionaram alunos que bebiam demais e chegavam à aula intoxicados.
A preocupação geralmente é com os já alcoolistas. No entanto, entendo que o maior
problema seriam os não-dependentes que se intoxicam com bebida alcoólica. O maior
índice de acidentes, com mortes inclusive, ou de desestruturação familiar, está
ocorrendo com adolescentes que se intoxicam e não sabem lidar com a situação. Por
isso o interesse de abordar o futuro alcoolista com uma ótica pedagógica. Dos 11
aos 15 anos, é cedo na maioria das vezes para falarmos em dependência. Mas não é
cedo para discutirmos um planejamento estratégico para a redução de danos que
possam ocorrer no futuro, planejamento esse que envolva agentes escolares, pais,
meios de comunicação e outros setores da sociedade numa rede preventiva que tenha
como ponto de partida, para sua elaboração e implantação, a percepção causal do
professor a respeito do uso indiscriminado de bebidas alcoólicas.