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"Os índios não têm motivo para comemorar nada."
Ricardo Paes
 
Thini-á deixou a tribo aos 15 anos, depois de uma sangrenta invasão que matou alguns parentes. Começou sua peregrinação por Brasília, depois seguiu para São Paulo — onde cursou Comunicação na USP, com bolsa para estrangeiro, já que não dominava o português

   

Índio ensina que Brasil com mais de 500 anos resiste

No evento 500 Anos de Resistência das Populações Indígenas no Brasil, o fulni-ô Thini-á, de 29 anos, faz da luta pela sobrevivência uma aula de história e tolerância em palestras para alunos do ensino médio

Tudo começou há três anos, quando o psicólogo e artista gráfico Ricardo Paes conheceu o índio fulni-ô Thini-á. Admirado pela vontade de Thini-á de "entender" a cultura dos brancos — e consequentemente achar uma explicação para os seculares conflitos dos "civilizados" com os povos indígenas, incluindo brutais invasões de sua aldeia —, Paes abraçou uma causa. Seu efeito é uma disputada aula de história, sobrevivência e tolerância dada a centenas de alunos de escolas públicas e particulares brasileiras.

Desde 14 de março, está em curso o projeto 500 Anos de Resistência das Populações Indígenas no Brasil, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. O mote é o Brasil e seu quinto centenário sob o ponto de vista do índio. Uma média de 500 alunos do ensino médio, especialmente adolescentes, vão ouvir a história da vida de Thini-á. Sozinho, com um microfone e um chocalho, ele fala da luta cotidiana de sua tribo — a única que restou da etnia fulni-ô, na divisa de Pernambuco com Bahia —, de sua cultura, ritos, memória e questionamentos, embalado por música, alguma dança e muito bom humor.

O resultado é um animado intercâmbio e um debate em torno dos costumes dos fulni-ô — como os índios educam as crianças, como é sua organização social, a importância da família, como lidam com o sexo e questões comportamentais inerentes a qualquer etnia —, quase nunca encontrados nos livros didáticos.

Thini-á tem 29 anos e vem palestrando em escolas desde que chegou ao Rio, onde mora. Sua trajetória já desperta muita curiosidade. Ele deixou a tribo aos 15 anos, depois de uma sangrenta invasão que matou alguns parentes. Começou sua peregrinação por Brasília, depois seguiu para São Paulo — onde cursou Comunicação na USP, com bolsa para estrangeiro, já que não dominava o português. Com a língua afiada e munido de RG, com nome de Araci Pereira da Silva, iniciou suas atividades educativas. "Minha esperança está nas crianças porque são os adultos de amanhã. Resolvi falar diretamente a elas para mostrar como somos, para que elas não tenham medo nem preconceito, quando tiverem voz ativa para decidir como será o relacionamento entre brancos e índios no futuro", diz Thini-á.

São cerca de 180 crianças por apresentação no CCBB. E são quatro apresentações por dia, de terça a sexta-feira, das 11h às 16h, programadas para até 30 de abril. As escolas têm de agendar a participação de seus alunos. Ricardo Paes, o coordenador do projeto, conta que as inscrições foram tão numerosas nos primeiros dias, que o CCBB teve de mudar o evento para o teatro. Nos sábados e domingos, das 13h às 17h, as palestras são abertas ao público em geral.

Na entrevista a seguir, Paes fala do inesperado e bem-vindo sucesso da empreitada, patrocinada pela divisão de educação do CCBB e promovida pela ONG Cineduc — Cinema e Educação, da qual é integrante.

O evento é uma provocação às comemorações pelos 500 anos de descobrimento do Brasil?

Ricardo Paes - É contra-comemorativo, no sentido de expor as feridas e os erros que temos cometido com nossos povos nativos. E também é uma forma de quebrar o clima de festa, de comemoração dos que ganharam a guerra na colonização do Brasil. Os índios não têm motivo para comemorar nada. Thini-á narra o outro lado nas palestras no CCBB. Mas é uma coisa lúdica, encantadora pela dignidade dele e pelo intercâmbio que estabelece. É importante frisar que Thini-á já faz este trabalho há quase seis anos — bem antes da febre dos 500.

Por que você se envolveu neste trabalho com Thini-á?

Ricardo Paes - Primeiramente, porque queria estudar como os índios lidam com questões comportamentais que se mostram presentes na vida de todo ser humano. Eles têm muitas lições a nos ensinar. Hoje, estou envolvido com a causa indígena e também com os resultados do trabalho nas escolas — que começou com um Thini-á formiguinha e está crescendo, felizmente. A partir do evento no CCBB, recebemos diversos convites de secretarias municipais de educação para apresentar o projeto em mais escolas da rede pública. É uma vitória do Thini-á, que transformou revolta em conhecimento.

Em quais escolas Thini-á dá palestras?

Ricardo Paes - Em qualquer escola. Agora, estamos dando preferência às públicas. Mas há escolas de elite, como a Corcovado, no Rio. É uma escola alemã e convidou Thini-á para fazer uma palestra em escolas da Alemanha, durante a Expo 2000, em julho. Ele vai com 30 alunos da Corcovado, que vão traduzir sua palestra para as crianças alemãs. Com certeza, será uma experiência incrível. A escola que quiser receber o projeto pode entrar em contato conosco.

Qual é a relação do Cineduc — Cinema e Educação — com o projeto?

Ricardo Paes - O Cineduc realiza cursos educativos ligados ao cinema há 30 anos. Sempre trabalhamos com escolas. Agora, com base no trabalho com Thini-á, vamos discutir a imagem do índio no cinema, num curso que pretende desmontar estereótipos e estimular um olhar crítico nas crianças. O Cineduc formou uma geração que hoje trabalha com cinema e educação.

Vocês têm algum tipo de patrocínio para o projeto?

Ricardo Paes - Não, ainda não. Meu trabalho é voluntário. Thini-á cobra por palestras em escolas particulares. Com esse dinheiro ele se mantém no Rio. Graças ao evento no CCBB nosso trabalho tem tido muita visibilidade. Quem sabe, aparece um patrocinador. Por enquanto, trabalhamos com um orçamento curto. Mas o projeto superou as expectativas.

Qual é, na sua opinião, o maior mérito deste trabalho?

Ricardo Paes - É poder trazer a questão indígena à tona. E sentir o interesse das crianças. Isso abre novas perspectivas para o futuro do Brasil, no sentido de desmontar fronteiras, derrubar preconceitos através de uma ação educativa. Numa palestra, Thini-á brincou com uma menina perguntando por que o branco é tão curioso. Outra menina virou na hora e disse que ela não era branca e sim negra. Isso ilustra o conceito de que, no Brasil, as diferenças étnicas são tênues mas as culturais são muitas e devem ser respeitadas, entendidas. Falar para tantas crianças é uma oportunidade de reverter a atual forma de extermínio dos índios — que é ignorá-lo.

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Telefones para contato:
CINEDUC: (21) 533-4683
CCBB: (21) 808-2070


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Juliana Resende/BR Press
Especial para o Educacional
         
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