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"Livro tem que
ser cozinhado, curtido, guardado, relido, repensado, precisa
sair da prancheta e ficar algum tempo na gaveta, amadurecendo."
Ziraldo |
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Boa parte de
seus quase 70 anos de vida, o mineiro Ziraldo Alves
Pinto passou agitando, criando e fazendo a história
da inteligência brasileira. Resistiu à ditadura militar
e à mediocridade mexendo com a cabeça das crianças e
adultos.
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Para Ziraldo,
se a TV quiser, faz do Brasil um país de leitores
"Tem que acabar com essa história
de transformar a leitura em dever. Aprender a ler é um momento mágico
da vida da gente..."
O humorista, escritor e cartunista fala sobre
seu consagrado trabalho com literatura infantil, sobre escola, educação,
paixão, mídia e, claro, sobre a necessidade de ser "eletrizante" em
tudo que se faz.
Ziraldo é um dos grandes artistas brasileiros que tem se dedicado
às crianças – escrevendo e desenhando. A partir de 1980, com o lançamento
de seu maior sucesso editorial, O Menino Maluquinho, foi consagrado
nessa arte. Recebeu inúmeros prêmios, incluindo UNESCO, pelo conjunto
de sua obra. E também recebeu, em vida, um prêmio de valor inestimável:
viu todos os seus livros infantis se transformarem em peças de teatro
pelas mãos de outros artistas.
Boa parte de seus quase 70 anos de vida, o mineiro Ziraldo Alves Pinto
passou agitando, criando e fazendo a história da inteligência brasileira.
Resistiu à ditadura militar e à mediocridade mexendo com a cabeça
das crianças e adultos. Os pequenos foram contemplados com o gibi
Saci Pererê, que colocava a mais lendária figura do imaginário brasileiro
como chefe de uma "gang" que parecia esquecida, em 1960: bichos e
outros personagens do nosso folclore. As histórias do Pererê passaram,
então, a fazer parte de muitos livros didáticos publicados no país,
ajudando a criança brasileira a conhecer a diversidade da cultura
nacional. Agora, Ziraldo retorna ao ofício de auxiliar o aprendizado
infantil através de sua arte, escrevendo livros para a editora Nova
Didática.
Em 1964, Ziraldo fundou, com profissionais amigos, O Pasquim — o mais
importante jornal alternativo, pensante e bem-humorado da imprensa
brasileira. Foi nessa época que ganhou o "Oscar Internacional do Humor",
em Bruxelas (1969) e o Prêmio Merghantaller, premiação máxima da imprensa
livre latino-americana, concedido pela Associação Internacional de
Imprensa.
Foi em 1969 que Ziraldo pariu seu primeiro livro infantil: Flicts
— a história de uma cor sem lugar no mundo, contada com o máximo de
cores e o mínimo de palavras. A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil
presenteou com um exemplar do livro os astronautas que pisaram na
lua pela primeira vez. Neil Armstrong leu o livro e, comovido, escreveu
num exemplar do autor: "The moon is Flicts".
Para Ziraldo, o livro é maior que o universo, "porque esse cabe interinho
dentro de suas páginas". A seguir, o artista gráfico, humorista, escritor
— de livros para crianças –, ilustrador, cartunista, caricaturista,
dramaturgo, jornalista e bacharel em Direito – quando ele de formou
não havia escolas de arte no Brasil — fala sobre seu trabalho e sobre
novos os tempos.
Quais são, na sua opinião, as inovações que devem ser feitas na
linguagem dos livros didáticos brasileiros? Como serão os didáticos
assinados por você (tema, linguagem e a que séries se destinam)? É
a primeira vez que você faz este tipo de trabalho?
Ziraldo - Eu não gosto dessa definição de didático para livros
cuja destinação não é, exatamente, a da informação científica, da
informação exata, da aquisição de conhecimento específico, como um
livro de ciências ou de gramática. Os livros que estou fazendo não
são didáticos. Não sei como nomeá-los. É claro que não são livros
que dá pra se fazer assim, com inteira liberdade, falando do que me
dá na telha. Eles têm uma destinação: colaborarem para colocar em
questão os conhecimentos que a criança precisa adquirir em cada momento
do seu trajeto escolar. Por exemplo, vamos admitir que esse é o ano
em que a criança vai estudar a formação política de seu país, sua
história, sua geografia. Ela vai ter que tomar conhecimento de dados
precisos nestas áreas. É bom, porém, que ela chegue à fonte desses
conhecimentos bem estimulada para tratar deles, com seu interesse
despertado para as questões que vão ser colocadas de forma precisa
no futuro. Os livros que estou fazendo para a Nova
Didática, pois, têm como finalidade fazer a criança entrar, de
maneira amena, no futuro do mundo do conhecimento específico. Ela
já vai falando da matéria com naturalidade, como se todas aquelas
informações colocadas ali – que logo serão codificadas pela escola
— fizessem parte do seu mundo. O que estou fazendo, pois, não são
livros didáticos. São o velho livro de história falando de coisas
do universo infantil de nosso tempo. Digamos que são uma forma de
arte aplicada.
Além dos didáticos, você está preparando algum livro novo? O público
infantil é o foco?
Ziraldo - Tenho uma boa quantidade de livros começados, imaginados
ou anotados. Às vezes, me esqueço de anotar e perco o livro para sempre.
Acho que para a Bienal de Abril, em São Paulo, devo lançar uns quatro
títulos. Livro tem que ser cozinhado, curtido, guardado, relido, repensado,
precisa sair da prancheta e ficar algum tempo na gaveta, amadurecendo.
Ou apodrecendo. Às vezes você o tira da gaveta e ele não presta mais.
O Menino Maluquinho e os outros livros que a obra originou
são um marco na literatura para crianças. O que você leva em conta
ao escrever para crianças? A que atribui o sucesso de seus livros
infantis?
Ziraldo - O que eu levo em conta é manter, na história, mesmo
a mais difícil idéia que me ocorra. Não fazer qualquer concessão ao
leitor a que o livro se destina. A não ser a da simplicidade da linguagem.
Procuro não usar qualquer palavra que pressuponho não ser do universo
do meu leitor. Às vezes, porém, me ocorre uma frase com uma palavra
bonita, que lhe dá ritmo. Aí, avalio se vale a pena deixar o menino
parar de ler pra perguntar ao pai ou à mãe o significado de tal palavra.
Se estou certo de que nem o pai nem a mãe vão saber, aí, mesmo morrendo
de amor pela palavra, eu a retiro da frase. Às vezes me parece tão
interessante deixar a frase propiciar uma discussão na família, que
trabalho em volta dela para que isto aconteça. Um texto limpinho,
enxuto, bem fácil, poético e bonito para um livro destinado à criança
dá muito trabalho! Acho impossível acabar de escrever um livro e dizer:
"Pode publicar."
Levando em conta sua frase sobre leitura e crianças (acima), como
você avalia a relação entre os livros e as crianças de hoje? Elas
estão lendo mais por incentivo das escolas? Ou seria resultado do
trabalho de editores, que estão investindo em títulos infantis e fazendo
mais propaganda? Onde deve entrar o prazer de ler no cada vez mais
atribulado cotidiano infantil?
Ziraldo - A escola tem sido o grande veículo para o estímulo
à leitura. Se os pais são leitores, não tem problema, a criança acabará
se interessando por livro. Se os pais nunca leram, vai ser duro. O
problema todo da educação fundamental brasileira — todo ou quase todo
– é que a maioria das professoras brasileiras nunca leram um livro
inteiro. A escola não deve só ensinar a ler. Ela tem que ensinar a
GOSTAR DE LER.
Qual é, na sua opinião, a importância e o papel da televisão na
educação infantil? Comente sobre a série Livros Animados, que
a TV Futura leva ao ar em março, na qual seu livro O Planeta Lilás
ganhará uma versão em desenho animado.
Ziraldo - Se a televisão brasileira quisesse transformar este
país num país de leitores conseguiria isto em um ano de programação.
Acontece que a maioria das pessoas que fazem televisão no Brasil não
têm pelo livro a chamada paixão mobilizadora. Então, quase toda experiência
neste sentido resulta numa coisa sem graça, como a campanha de publicidade
que o governo andou fazendo há algum tempo, com comerciais criativíssimos
mas chatíssimos. Vamos ver se esta experiência da TV Futura dá certo.
Agora, num país de tanta pobreza, você fazer um programa de leitura
numa TV fechada dá uma certa tristeza. Tinha que ser na hora do programa
do Ratinho, na televisão dele. Há tantas maneiras de se falar do livro
de maneira eletrizante! ELETRIZANTE essa é a palavra! Só faz coisas
eletrizantes quem foi eletrizantemente motivado. Pra muita gente,
o livro – em suas vidas – foi uma coisa eletrizante. Estes, dada a
televisão a eles, fariam do Brasil um grande país de leitores. E o
Brasil estaria salvo.
Você vê a internet como um novo instrumento de comunicação com
as crianças, como mais uma ferramenta para que o universo infantil
seja contemplado com inteligência? Comente.
Ziraldo - A gente, hoje, nem pode imaginar o tanto que a internet
vai alterar nossas vidas, a vida de todo mundo, da família, dos pais,
das crianças, todos. Imagina você que o McLuhan falou numa aldeia
global como resultado das conquistas eletrônicas de seu tempo – uns
trinta e poucos anos atrás. Pensa só na aldeia que está vindo aí!
O "neighbour next door", nosso mais íntimo amigo, poderá estar morando
na Ilha de Pascoal e continuará sendo nosso vizinho de porta. Vem
aí a universal "neighbourhood". Escrevi em inglês porque esta vai
ser, inexoravelmente, a língua oficial desta vizinhança. Daqui a pouco
a internet vai ser visual, você não vai mais precisar ler. E aí, o
mundo será dominado por aqueles que deterão este segredo: saber ler.
E gostar de ler. O livro tem, pois, um papel fundamental no nosso
futuro. Porque, assim como o progresso não fará com que o ser humano
perca o prazer do sexo, o prazer de ouvir uma bela canção, o prazer
de olhar um belo quadro, ele não vai perder o prazer de ler uma bela
história ou um belo poema. Se acontecer isto, o homem vai ser uma
outra espécie de animal.
Você participou recentemente do evento Paixão de Ler, no Rio de
Janeiro. Estão previstas outras campanhas de incentivo à leitura com
a contribuição de seu trabalho?
Ziraldo - Este aí, por exemplo.
Sobre as revistas Bundas e Palavra, qual tem sido o retorno mais
significativo das duas revistas, levando em conta que Bundas é um
espaço de análise crítica e bem-humorada dos fatos brasileiros, e
Palavra é a revista que melhor mapeia a produção cultural brasileira?
Dá para dizer que esses tipos de publicações são viáveis comercialmente
no Brasil ou elas ainda são feitas na raça e só fazem sucesso entre
as elites pensantes?
Ziraldo - Adorei esta pergunta, pois ela veio com uma boa análise
e com todas as respostas. É isso aí. Só posso acrescentar que, aos
trancos e barrancos, as duas revistas irão sobreviver. Há espaço para
as duas publicações junto ao povo brasileiro. Nem todo mundo quer
comprar pronto e consumir, consumir, consumir, apenas.
Quais são seus projetos de trabalho para 2000?
Ziraldo - Todos.
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Editora Nova
Didática
E-mail: novadidatica@positivo.com.br
Juliana Resende/BR Press
Especial para o Educacional
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