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Içami Tiba
trabalha relações humanas em sala de aula
Autoridade em psicopedagogia,
ele diz que muitas instituições de ensino estão interessadas em
mudar paradigmas. "Desenvolvi meu trabalho levando a vida para a
psicologia e daí para a sala de aula. Estou tornando os professores
mais 'psicologizados'."
Leia mais sobre o assunto na entrevista a seguir.
Dr. Içami Tiba é pop. Está entre os mais requisitados
psicopedagogos do país. Em se tratando de psicologia educacional,
é o profissional predileto da mídia – leia-se televisão, onde já teve
quadros fixos (Record e Bandeirantes) e freqüentemente é convidado
para participar de programas. Içami Tiba assina 12 livros, somando
mais de meio milhão de exemplares vendidos. Há 20 meses lançou mais
um sucesso: Disciplina - O Limite na Medida Certa (Editora
Gente), que contém dicas aplicáveis no ambiente escolar e familiar.
A tônica do trabalho do Dr. Tiba é inserir princípios básicos das
relações humanas em todas as instâncias – especialmente a sala de
aula. É a chamada Teoria da Integração Relacional, que traduz a psicologia
para fácil entendimento e aplicação por leigos, principalmente pais
e educadores. Ele trabalha diretamente com várias empresas e instituições
de ensino, como os colégios paulistanos Mackenzie, Arquidiocesano,
Bandeirantes, Batista Brasileiro, Dante Alighieri, Porto Seguro, Santo
Américo e Santa Cruz, além do Bom Jesus (Curitiba) e Pitágoras (Belo
Horizonte).
Dr. Içami Tiba é uma grife brasileira (de origem japonesa) em psicopedagogia,
não apenas por seu extenso e respeitável currículo, mas também pela
maneira bem-humorada e objetiva como ele coloca suas opiniões e conclusões,
acumuladas em 30 anos de estudos e cerca de 65 mil atendimentos psicoterápicos
entre adolescentes. Ele afirma, por exemplo, que "a maioria dos jovens
foi educada para consumir drogas". A frase, obviamente, gera polêmica.
Essa sinceridade devidamente explicada e desenvolvida leva multidões
aos seminários e palestras do Dr. Tiba, no Brasil e exterior. Médico
e psiquiatra (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo),
psicodramista (Federação
Brasileira de Psicodrama), é ex-coordenador Grupo de Prevenção
às Drogas do Colégio Bandeirantes e ex-integrante do Fórum Nacional
de Educação e Sexualidade. Atualmente é Membro da Equipe Técnica da
Associação
Parceira contra Drogas e membro do Board
of Directors of the International Group Psychotherapy.
Na entrevista a seguir, Dr. Içami Tiba discorre sobre seu trabalho
aplicado em questões cotidianas como disciplina, saúde social, comportamento,
modernidade, educação, ética, cidadania e conflitos familiares. O
assunto é árduo, mas soa tranqüilo na linguagem solta desse ex-professor
universitário e de judô.
Em seu livro Disciplina - O Limite na Medida Certa, o sr.
diz que a indisciplina é "o maior mal da educação moderna" e aponta
maneiras de reestabelecer a disciplina, como uma arte do bem viver,
na família e na escola. Como o sr. vê a discussão da disciplina, aos
pés do século 21, quando temos um exemplo polêmico na Inglaterra,
onde escolas que foram obrigadas por lei a extinguir castigos corporais
disseram que iriam recorrer e pedir revisão da lei? O que difere o
conceito de disciplina hoje do de antigamente?
Dr. Içami Tiba - Existe uma diferença fundamental entre autoritarismo
e disciplina. Proponho uma forma disciplinar sem que haja uma relação
vertical. Meu conceito de disciplina é baseado na religiosidade –
que não quer dizer uma prática religiosa específica, relacionada a
Deus, e sim gente que gosta de gente. Trata-se de uma composição.
Essa religiosidade pode se manifestar até em quem é ateu, e serve,
fundamentalmente para unir os seres, um grupo. Aquele que vai coordenar
o grupo é o líder – aquele que vai puxar pelo interesse do grupo.
Ninguém está acima do grupo e o líder é aquele que defende o grupo.
Ele nunca pode colocar seu interesses acima dos do grupo e usar o
poder para benefício próprio. A disciplina antiga era resultado do
interesse individual do autoritário e dono do poder, em detrimento
do grupo. E a disciplina atual é que cada um deve saber e cumprir
seus deveres individuais, a partir da composição do grupo. Exemplo:
o aluno que transgride a norma da classe pode prejudicar outro professor
mas não a classe como um todo. Nessas alturas é que se vê a diferença
entre o líder e o professor-salário. O que proponho com a disciplina
é que todos funcionem de acordo com a saúde social. Na realidade a
proposta dessa mudança está relacionada com a Teoria da Interação
Relacional. Acho ridículo a imposição da força bruta. O viver social
é o caminhar na velocidade do mais fraco. É outro modo de falar que
a corrente arrebenta no elo mais fraco.
Neste novo milênio é preciso mudar o conceito saúde psíquica – não
basta a pessoa ser equilibrada individualmente e sim é preciso que
ela tenha saúde social, ou seja, deve saber que pertence a uma sociedade
e que a sociedade é mais forte que ela como indivíduo. E que o indivíduo
deve contribuir com a sociedade.
Quais são, na sua opinião, os maiores problemas causados pela indisciplina
nas escolas e que reflexos isso vai ter na vida adulta dos indisciplinados?
Dr. Içami Tiba - Uma das piores coisas da indisciplina é a
falta de organização interna do indivíduo. A pior conseqüência é a
queda da qualidade de vida. Não só de si mesmo, mas de todas as pessoas
que dele dependerem. Não dá para contar com os indisciplinados para
atividades de responsabilidade – eles funcionam conforme manda sua
indisciplina e não seus compromissos. Então, quando adulta a pessoa
não conseguirá se adaptar a qualquer atividade pessoal ou profissional.
O sr. acha que a falta de disciplina nas escolas é responsável
pelo declínio da qualidade do ensino? É possível o professor ser amigo
do aluno, sem que este se torne um indisciplinado? Quais são os limites?
Dr. Içami Tiba - A falta de disciplina atrapalhou a vida das
pessoas porque confundiram isso com liberdade. A disciplina é um ingrediente
da liberdade. Não há meio termo. Para ter esta disciplina é necessário
se voltar para a saúde social e não apenas para o bem estar pessoal.
É necessária uma mudança radical, rumo a este conceito. Para esta
mudança é necessário conhecimento. Os professores que desejam aplicar
esse conhecimento precisam estudar. É a Teoria da Integração Relacional.
Os pontos altos das minhas palestras são essas mudanças no conceito
de disciplina. Os professores devem se capacitar – não há como fazer
testes com alunos. É como um cirurgião, que não pode fazer testes
com pacientes. O professor pode ser amigo com disciplina e inimigo
com indisciplina. Os limites são os interesses do grupo.
Relate experiências vitoriosas vivenciadas por meio dos conceitos
de disciplina propostos pelo sr.
Dr. Içami Tiba - Por exemplo, pense numa briga em escola. Um
aluno machuca o outro. Não adianta o pai do que bateu pagar hospital
para o machucado e a escola suspender o agressor. A melhor coisa é
o que bateu cuidar de quem foi agredido: fazer curativos, acompanhá-lo
junto aos médicos. Independente da idade dos alunos. O agressor vai
ver, com clareza, o estrago que provocou vai tentar mudar seus métodos.
Em família isso é muito interessante – as pessoas se redescobrem.
É como alunos que têm uma doença e que querem ser médicos. Outra situação
comum em casa é a criança que brinca e depois não quer guardar os
brinquedos. Por quê? Porque os pais só dão o meio do processo – o
brincar. A criança não cuida dos brinquedos e não quer guardá-los.
Brincadeira tem começo, meio e fim. Para mudar isso, os pais devem
ser duros. Na hora que a criança pegou o brinquedo deve ser avisada
para arrumá-los depois de brincar – senão não vai brincar. O segundo
passo é depois que ela brincou, fazê-la arrumar os brinquedos. Se
não quiser arrumar, os pais têm de combinar o seguinte: sendo assim,
terão de dar os brinquedos para uma criança carente. A criança precisa
sentir que pode perder o brinquedo. Aprender um gesto de cidadão:
o que não nos serve, serve para muita gente. Há crianças que têm de
perder muitos brinquedos para aprender a valorizar.
Apesar dos avanços comportamentais deste século, problemas com
drogas e gravidez na adolescência entre jovens de famílias de classe
média e alta no Brasil se multiplicam. Então, tirando a problemática
da falta de informação e recursos, onde estaria o principal erro dos
pais e onde as escolas têm falhado nesses aspectos? O sr. defenderia
a inclusão de uma matéria sobre comportamento em currículo, que abordaria
esses temas em sala de aula?
Dr. Içami Tiba - Sobre gravidez precoce e drogas, a verdade
é que nós estamos criando uma geração onde cada um faz o que lhe dá
prazer – isso é errado. E os compromissos como ficam? O que vale é
ter prazer sem medidas de conseqüências. O jovem de hoje foi educado
para usar drogas – é por isso que dizem que o que eu falo é polêmico.
Os pais também têm de fazer o que é correto – se ele usa drogas não
pode exigir que o filho não use. "Uso cocaína e é meu direito", dizem
alguns adultos. É uma mentira, que contraria o conceito de saúde social.
Pais alcoólatras e drogados prejudicam a família, a sociedade. Não
há como ser pai ou mãe sem estar capacitado para tal. A escola também
tem de entrar nessa luta. Os pais estão jogando responsabilidades
para os professores e a escola acha que não tem de educar nesse sentido.
Defendo a educação a seis mãos. As da escola, do pai e da mãe – desde
que sejam coerentes. Escolas têm de incluir trabalhos sobre relacionamentos
humanos. O jovem deve saber que é natural ter tesão e que para isso
não precisa necessariamente amar. Deve ser preparado para enfrentar
situações da vida. Eles não sabem nem colocar uma camisinha. Eu fiz
o manual da camisinha – ela tem de ser filosofia de vida. Os pais
devem falar e conversar muito com os filhos sobre sexo e estudar sobre
drogas – não é ler qualquer livro. Há aqueles que fazem apologia da
droga, o que não é ético.
O sr. acha que o jovem pode ou não experimentar uma droga, para
matar sua curiosidade? Essa justificativa deve ser aceita?
Dr. Içami Tiba - Acho que isso é mais uma falha. Ele não deve
experimentar porque nem tudo que dá prazer deve ser experimentado.
É a mesma coisa de experimentar uma roleta russa ou esportes radicais,
porque o medo dá prazer. É arriscado e quase nunca compensa.
A mídia, principalmente a televisão, exerce uma influência forte
sobre adolescentes com relação ao consumismo, a cultura do prazer
pelo prazer, a erotização e a ausência de limites. Como o sr. aconselha
educadores e pais a lidar e se contrapor a essa influência? Que papel
a escola tem nesse sentido?
Dr. Içami Tiba - Acho que a mídia funciona assim porque tem
mercado para isso que é oferecido. Ela não é muito culpada. Oferece
o que é consumido. O consumo não é problema de uma pessoa e sim de
todas as gerações. É uma questão social. É importante que cada família
reaprenda a ver televisão. Esperar que a TV regule sua programação
por sua ética é algo em vão. São empresas que visam lucro. Se o preço
de um apresentador como o Ratinho cair é porque caiu a audiência.
Casas onde cada um tem um aparelho de TV em seu quarto, multiplica
a oferta para o consumo. Independentemente disso, cada família deveria
ter uma visão crítica dos produtos e comportamentos oferecidos pela
TV. A TV proíbe o diálogo, necessita da atenção visual do espectador.
Mesmo assim, o costume de dialogar e trocar idéias deve ser alimentado
na família – mesmo que seja sobre os programas assistidos. Não dá
para ser uma sessão de ordens, onde os pais dão lições de moral e
impõem seus pensamentos. Deve ser uma conversa gostosa, onde todos
impõem seus pontos de vista. Os pais devem deixar os filhos falarem
e falarem também. Assim estão ensinando que seus filhos devem aprender
a pensar e a discutir, para usufruir da melhor maneira da informação
e da globalização. As experiências devem ser compartilhadas. Isso
fará os pais crescerem. O papel da escola entra em determinadas matérias,
como estudos da atualidade brasileira, ou nos conteúdos transversais
(assuntos vistos por diversas matérias em determinados ângulos). A
TV seria um objeto de debate crítico em sala de aula. Por exemplo:
o programa Você Decide. Para o jovem é importante ele ser participativo.
Esse modelo de que o bom aluno é que aquele que absorve o que o professor
fala, faz as lições, tira boas notas e não dá um pio é totalmente
equivocado.
Como o sr. avalia a influência da internet na educação e formação
do adolescente? O sr. está desenvolvendo estudos a respeito?
Dr. Içami Tiba - Acredito que internet é um grande ganho social
e educacional, desde que se selecione a informação que se quer obter.
Não importa a quantidade de informação, mas sim como se faz uso delas.
Hoje em dia vale muito mais alguém que saiba aplicar bem conhecimentos
específicos do que alguém com uma vasta quantidade de diplomas. Atualmente,
valoriza-se a aplicabilidade da informação. No começo de contato com
a internet é aquele turbilhão de informação. Com o tempo, as pessoas
vão saber selecionar o que querem e porque querem. O que apavora os
pais é quando eles não têm conhecimentos sobre isso. A internet passa
ser vista como um bicho de sete cabeças – e simboliza perda do poder
e do controle dos pais sobre os filhos. É importante que os pais estimulem
os filhos a ensinarem para eles como se mexe na internet – é um dos
princípios do livro Ensinar Aprendendo.
Qual é o maior trunfo do livro Ensinar Aprendendo? Fale
sobre o conceito de ensino e suas mudanças nestes tempos de globalização.
Dr. Içami Tiba - Há um grupo de escolas em Brasília que me
contratou para fazer um trabalho baseado no livro com os professores
e os pais. O livro também está sendo adotado em escolas. Minha consultoria
consiste em pegar as escolas no ponto em que estão para dar um direcionamento
específico. No Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais muitas escolas
estão seguindo meus estudos. É sinal de que, mesmo sem receitas fáceis,
muitas instituições estão interessadas em mudar paradigmas. Desenvolvi
meu trabalho levando a vida para a psicologia e daí para a sala de
aula. Estou tornando os professores mais "psicologizados".
Na sua opinião e de acordo com sua experiência, porque as escolas
brasileiras e professores têm aumentado seu interesse pela psicopedagogia?
Dr. Içami Tiba - Porque a pedagogia pura não funciona mais.
O elemento relacional tem de entrar. Enquanto o adolescente não aceita
uma pessoa, não aceita o que ela diz. Quando um burro fala o outro
baixa a orelha e não escuta. O aluno que abre a boca, abre os ouvidos.
Quando ele fala, se compromete, dá pistas do que pensa e por onde
os professores podem ser melhor entendidos.
Em quase 30 anos de experiência com adolescentes e seus conflitos,
quais foram suas maiores lições?
Dr. Içami Tiba - A minha maior lição é que meus melhores professores
são os adolescentes. Quando comecei na psicologia, quase nada batia
na prática com o que estava escrito a respeito. Até meu comportamento,
quando adolescente, também não batia. Daí o desenvolvimento da biopsicologia
social. Tabelei, por exemplo, que com 13 anos, o menino pode usar
a rebeldia como autoafirmação. Consegui organizar a cabeça dos estudiosos
sobre os adolescentes. Há várias etapas na adolescência. Assim, fica
fácil focalizar o que é patológico ou não. Esse estudo fez com que
as escolas reformulassem até alguns currículos, em decorrência do
mau atendimento ao adolescente. Como educador mexo com a prevenção
– mudando o conceito de saúde social. É o princípio da Integração
Relacional. Essa teoria vem crescendo em mim há 10 anos.
Visite o site do Dr. Içami Tiba:
http://www.tiba.com.br
E-mail: icami@tiba.com.br
Juliana Resende/BR Press
Especial para o Educacional
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