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Educação infantil, a melhor referência para (re)pensar a escola

Um só estágio de nossas instituições escolares é digno de elogios sem reservas, porque está realmente na medida das crianças que vêm alegremente encher as classes e os jardins: as escolas maternais. (Georges Gusdorf)

Uma grande educadora norte americana, Deborah Meier, resume o ponto de vista apresentado neste artigo quando, ao explicar o seu grande sucesso na direção de escolas de Ensino Médio em bairros carentes de Nova Iorque, afirma que o mais importante, ao conceber o trabalho com adolescentes, é manter vivas as ideias e o espírito da boa educação infantili.

É nos princípios e nas práticas da boa Educação Infantil, que a Escola, em todos os seus níveis, pode encontrar a inspiração para uma renovação que, sempre anunciada, tarda e falha...

Que princípios fundamentais são esses? Podemos resumi-los em seis itens, que são descritos brevemente a partir de agora:

1 - A importância das relações entre adultos e crianças.

Um dos grandes dramas da escola, em seus níveis mais avançados, é a falta de contato entre jovens e adultos. Na Educação Infantil (EI) encontramos a preocupação prioritária em receber bem e buscar uma boa adaptação de cada criança, o carinho e o respeito à individualidade, o envolvimento de toda a equipe de funcionários na atenção às crianças. A mensagem básica da boa EI, para cada novo aluno ou aluna, é: “Queremos que, aqui, você se sinta em casa”. Mesmo se a escola só pode ser um tipo muito diferente de “casa”, com outras regras e funções, a prioridade à construção de um bom ambiente relacional é o antídoto para um dos mais graves problemas de muitas de nossas escolas, especialmente da 5ª série em diante, que é a falta de familiaridade entre estudantes e professores, que gera ou agrava o desinteresse, o anonimato, a violência...

2 – A importância das relações entre as crianças.

A enorme importância das interações entre crianças, reafirmada nas últimas décadas por inúmeras pesquisas e por experiências pedagógicas, vai ao encontro a uma proposta já clássica em Educação Infantil, que é a de organizar as salas em “cantinhos”. Outra consequência interessante é o estímulo às atividades e brincadeiras feitas em pequenos grupos, em torno de brinquedos, de jogos com cartas e dados, com textos já escritos ou que devem ser escritos, com situações problema, etc. O valor desse princípio para outros níveis apenas começa a ser vislumbrado. Por exemplo, a confrontação de diferentes pontos de vista e os debates podem ser utilizados de forma muito mais intensa do que é possível na Educação Infantil. Em uma escola renovada, o estímulo ao diálogo e à colaboração – mesmo com estudantes de outras turmas e das mais diversas faixas etárias - é constante e, como acontece na boa EI, cada aluno(a) é levado a compreender que “aqui, você tem espaço para interagir com todo mundo”.

3 - O papel do jogo e da imaginação.

O jogo é importante em todas as visões que a psicologia nos oferece. O respeito e o incentivo a ele é um dos fundamentos da Educação Infantil. De importância fundamental é a visão sobre o jogo de Vigotsky, elaborada por seu discípulo Elkonin. Para eles, o jogo é a raiz do desenvolvimento infantil e é ele que está na origem da capacidade de imaginar, que é o que nos torna especificamente humanos. O jogo é visto como uma imitação do mundo dos adultos e a experiência social é a matéria prima do jogo. As implicações pedagógicas são claras: o desenvolvimento da imaginação deve ser uma prioridade em qualquer nível, e precisamos de escolas que digam, a cada estudante:“brinque, imagine, invente, crie, faça de conta...”. É preciso enriquecer a experiência social das crianças e abrir espaços para que ela se expresse em suas atividades, das mais diversas formas, envolvendo não apenas a língua escrita, mas também o desenho, as dramatizações e todas as formas de expressão gráfico-plásticas.

4 - As aprendizagens precoces e as aprendizagens tardias.

Nas últimas décadas, pesquisas em psicologia e a evolução das neurociências deram origem a uma nova visão dos bebês como organismos dotados de imensas capacidades para interagir e para aprender. Somadas aos resultados positivos de experiências de educação precoce em diversas áreas, especialmente na alfabetização, elas levam a uma revisão radical do papel da EI. Os melhores resultados de aprendizagem são obtidos quando, em ambientes ricos em atividades significativas, exploram-se as conseqüências de uma ideia evidente: crianças (e também jovens, adultos e idosos) aprendem melhor quando estão interessadas em algum assunto, e podem pesquisar e falar sobre ele. Uma escola que diz a cada estudante “aprenda (e ensine) o que quiser, quando quiser, como quiser” está preparando melhor para um mundo turbulento e imprevisível.

5 - A Escola Nova e as classes como comunidades, abertas para o mundo.

Boas escolas de Educação Infantil levam suas crianças para passear pelo bairro, visitar circos, museus, teatros, etc. Espaços e momentos especiais são reservados para dialogar, contar novidades, inventar histórias com personagens do mundo real e da televisão, dançar e cantar músicas infantis, etc. É na EI que está a sala de aula que funciona como uma comunidade em miniatura e que busca ser um ambiente dinâmico em íntima conexão com a região e a comunidade, como já pedia, em 1932, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Essas ideias, que já eram importantes antes da explosão da Internet, ganham ainda mais importância no séc. XXI, e uma escola mais relevante para os estudantes precisa abrir espaço para a cultura juvenil, para os contatos e o diálogo com pessoas, tecnologias e instituições do mundo, e dizer: “Sim, sabemos que existe um mundo fora dos muros da escola”.

6 – A importância de dar responsabilidades às crianças.

Encontramos crianças constantemente reorganizando o espaço para brincar, escolhendo jogos, debatendo sobre passeios que serão feitos e discutindo regras de conduta, dentro e fora da classe, em salas de Educação Infantil. O incentivo à autonomia e à iniciativa infantis é um valor importante e encontra aplicação tanto nessas medidas simples quanto no envolvimento das próprias crianças na definição dos temas de estudo e nas tentativas de criar conselhos de classe que assumam parte de gestão coletiva do cotidiano. Essas ideias, sabemos pelo menos desde Freinet e Makarenko, funcionam ainda melhor com faixas etárias mais avançadas. Uma escola renovada convida: “Ajude a criar, mudar e a respeitar regras, assuma responsabilidades”, e procura abrir espaço para que as crianças, e estudantes de qualquer faixa etária, assumam tarefas e tomem decisões, individual e coletivamente. Em um mundo incerto, com estruturas familiares fragilizadas e regras cada vez menos homogêneas, escolas devem ser locais em que crianças e jovens aprendam, também, a criar e a recriar regras.

Concluindo: pensar e fazer a renovação da escola talvez seja mais simples do que se pensa, se levarmos em conta que tudo o que funciona na Educação Infantil pode funcionar ainda melhor quando embasa a concepção da escola do Ensino Fundamental e Médio.

As ideias apenas esboçadas aqui se encontram desenvolvidas mais extensamente - em uma abordagem didática, desenvolvida inicialmente para orientar processos de qualificação em serviço de professoras e de educadoras leigas de creches da região metropolitana de Curitiba – no livro Guia Prático de Pedagogia Elementar – A História do Pequeno Reino (Curitiba: Positivo, 2005), que é o resultado de mais de uma década e meia de envolvimento do autor com a pesquisa e a prática da EI.

iTraduzido de: MEIER, D. The power of their ideas. Boston: Beacon Press. 1995. p.30.

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Luca Rischbieter é Pedagogo e Geógrafo
e escreve especialmente para esse portal.

 
 
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