INÍCIO > Articulistas > Luca Rischbieter
 
 
 
--últimos artigos deste autor-----------------------------------------------
[24/11/2008] Educação infantil, a melhor referência para (re)pensar a escola
[16/08/2006] “Na tribo, 0; na panela, 10” ou Quando a avaliação engole as crianças...
[01/06/2005] O código Da Vinci para ensinar ciências
 
 

 

Os novos artefatos informatizados e as chances de uma escola mais legal

- E você sabe pra que serve o celular?
- Serve pra tirar foto da gente e também pra falar com as pessoas!
(Maria Eduarda, aos 2 anos e 10 meses)

Em pleno século XXI, será que a escola está usando os computadores com eficiência? Ou será que eles ainda correm o risco de ter o mesmo destino da televisão? Muitos de nós lembramos de como a TV — vista inicialmente como um recurso capaz de revolucionar nossas escolas — acabou sendo engolida pelo conservadorismo didático e completamente “fagocitada” pela inércia de uma instituição que provou e continua comprovando sua incapacidade de se transformar.

Essa é uma pergunta importante, pois vivemos um momento em que as tendências de evolução das tecnologias informatizadas abrem novas perspectivas para uma renovação da escola. Esse potencial existe porque a aceleração das inovações leva à multiplicação de novos artefatos informatizados mais potentes, completos e individualizados.

Dos laptops mais baratos aos telefones que fazem de tudo, surgem instrumentos — cada vez mais ao nosso alcance — que abrem novas perspectivas para a pesquisa, o transporte e o consumo de bens culturais, a troca de mensagens e para a realização de atividades de autoria de todos os tipos. Resta saber se a escola saberá explorar essas possibilidades.

A reflexão sobre o aproveitamento dos computadores e dos novos artefatos informatizados não pode ignorar a situação atual da escola. A universalização do ensino, as crises econômicas e ambientais, a influência crescente das mídias e a perda de autoridade dos pais estão entre os fatores que deram origem a uma crise de legitimidade da instituição. Em uma frase lapidar, Perrenoud resume bem o que acontece: “pede-se à escola que instrua uma juventude cuja adesão ao projeto de escolarização não está mais garantida.”i

A incorporação dos computadores à escola deve ser repensada com base no aumento de suas possibilidades de uso individualizado por alunos e alunas. Talvez, nos próximos anos, possamos comparar escolas em que os computadores continuarem presentes apenas em laboratórios a uma escola que, há algumas décadas atrás, tivesse apenas algumas dúzias de lápis e canetas reunidos e utilizados em uma única sala, visitada periodicamente por cada uma de suas turmas...

Mas como explorar os novos artefatos? De maneira extremamente genérica, podemos esboçar dois grandes objetivos que deveriam orientar a expansão do uso de novas tecnologias em nossas escolas:

— Individualização e multiplicação dos percursos de aprendizagem e dos meios de expressão

Em um mundo em que o acesso ilimitado aos mais diversos conteúdos se democratiza, selecionar, editar e reconhecer o que é ou não confiável torna-se fundamental. Não é mais apenas o professor que exerce a função de ensinar, pois, nas escolas, cada estudante tem espaço para dividir seus conhecimentos, suas produções e suas preferências com os outros. Os artefatos informatizados somam-se a objetos como canetas, pincéis, fantasias e instrumentos musicais para compor um conjunto de recursos que são empregados nas mais diversas situações, que envolvem a expressão artística, a pesquisa, o debate e a (re)interpretação dos eventos do mundo.

— Interações e abertura de novos horizontes em todas as escolas e escalas

Dos processos internos relativos a cada turma e a cada escola - que deve funcionar como “uma comunidade em miniatura” - às interações com a comunidade, com outras escolas e outros lugares, uma escola deve ser “um ambiente dinâmico em íntima conexão com a região e a comunidade”, como já prescrevia, em 1932, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de onde retiramos os dois trechos entre aspas acima. E, de fato, os computadores permitem dar uma nova dimensão às ideias de toda a tradição escolanovista — jamais colocadas em prática em escala significativa, é importante lembrar.ii O seu aproveitamento viabiliza a abertura de novos horizontes, pesquisas e diálogos com qualquer lugar e facilita uma formação que também busca a construção da cidadania planetária.

Com a ajuda dos computadores e das novas levas de artefatos que surgirão nos próximos anos, será mais fácil criarmos uma rede escolar mais interessante, que abrirá cada vez mais espaço para a interação e o imprevisto, para atividades de pesquisa e de autoria, e para processos de autoaprendizagem e de autoavaliação. Portanto, em melhores condições de recuperar uma relevância que vem sendo erodida pelas transformações da sociedade — somadas ao imobilismo de uma instituição que tem grandes dificuldades para repensar suas formas convencionais de se organizar, de ensinar e de avaliar. Talvez, com os novos artefatos, finalmente seja possível mudar a escola para que ela possa se tornar, ao mesmo tempo, mais legal e mais legítima...

i PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999. p. 15.

ii Como afirma Perrenoud de forma conclusiva: “o paradoxo é que denunciam-se os estragos de uma revolução pedagógica que jamais aconteceu ao nível dos fatos.” Traduzido de: PERRENOUD, Philippe. Métier d’élève et sens du travail scolaire. 2. ed. Paris: ESF, 1995. p. 17.

*****


Luca Rischbieter é Pedagogo e Geógrafo
e escreve especialmente para esse portal.

 
 
início
minha página
índice
home----------------------
Voltar à página inicial desta seção
os articulistas-------------
CELSO ANTUNES
LUCA RISCHBIETER
JOSEPH RAZOUK JR.
BETINA VON STAA
outros autores------------
Educação
Tecnologia e educação
Comportamento
Outros