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Jovens ilhados no mundo tecnológico

Pesquisas recentes amplamente veiculadas na mídia confirmam o que já se desconfiava: os jovens de hoje, cercados de tecnologia por todos os lados, têm comportamentos diferentes dos jovens de antigamente — ou não tão envolvidos com tecnologia. A novidade é que foi constatado, em uma pesquisa da Fundação Telefônica, que eles também parecem ilhados nesse mundo tecnológico: pais e professores intuem que nem todos os hábitos dos jovens relacionados à tecnologia são produtivos ou saudáveis, mas, aparentemente, também não têm tomado para si a tarefa de orientá-los a esse respeito.

O que as pesquisas revelam é que os jovens envoltos em tecnologia apresentam pouca concentração nos estudos. Como estão sempre conectados, têm interesse por muitos assuntos e são bem informados, mas raramente se aprofundam em algum tema. Eles também têm dificuldade para escolher o que querem em meio a tantas ofertas de produtos, amigos e festas. Além disso, aparentemente, como são pouco cobrados, demonstram pouca responsabilidade. Quanto ao uso de celular, também sabemos que os jovens começam a usar esses aparelhos cada vez mais cedo e que aproveitam com muita naturalidade os múltiplos recursos que oferecem.

Nosso fórum sobre o comportamento do jovem tecnológico recebeu mensagens de alunos dizendo que não é possível estudar ao mesmo tempo em que se ouve música ou se conversa em comunicadores instantâneos. A sugestão deles é que os equipamentos tecnológicos sejam retirados dos jovens para que estes possam adquirir bons hábitos de estudo. Outro participante do fórum afirma que cada um “sabe o que faz” com a tecnologia, mas admite que jovens que não recebem orientações dos pais expõem-se a mais perigos e espera que a escola oriente-os a respeito de onde encontrar material de qualidade na Internet.

O recado está dado: há muito que fazer na Internet ou com os inúmeros recursos tecnológicos que temos à nossa disposição atualmente, mas os próprios jovens pedem orientação. Não é necessário tirar deles os equipamentos ou proibir a sua utilização. Os jovens têm clareza de que as orientações para evitar perigos devem vir da família e que aquelas sobre busca de conteúdo de qualidade na Internet devem vir da escola. O caminho, provavelmente, está nessa direção.

Mas o que fazer? Se as pesquisas estão apontando que ser multimídia e ficar conectado a inúmeros aparelhos diferentes ou a celulares multitarefa é divertido, permite travar conhecimento com mais pessoas simultaneamente e oferece informações amplas sobre o mundo, não podemos querer voltar atrás no tempo e achar que os jovens vão abrir mão facilmente de todos esses prazeres e facilidades.

Mas as pesquisas também indicam que esse hábito do “tudo ao mesmo tempo agora” não gera bons resultados nos estudos, pelo menos não para todos. É importante que cada estudante descubra o que dá e o que não dá certo para si próprio no momento de estudar: pode ouvir música? Pode assistir tevê? Consegue estudar enquanto troca mensagens com os amigos? Ou existe um momento para desligar os aparelhos e se concentrar nos livros? Certamente, cada um tem o seu próprio ponto de equilíbrio, mas os adultos podem ajudar os estudantes a encontrá-lo.

Se as pesquisas indicam que os jovens não se aprofundam, a escola pode tomar para si a tarefa de propor trabalhos que exijam aprofundamento: pesquisas sobre assuntos específicos, com focos distribuídos entre diferentes grupos e apresentadas em diferentes formatos, concretos ou virtuais. No caso de apresentações virtuais, ainda se aproveita o prazer que o jovem sente em se expressar e se comunicar por meio da tecnologia. Se estão com dificuldade para escolher os amigos, as roupas ou as festas, pais e professores também podem ajudar, mostrando como estabelecer prioridades, fazer um planejamento ou auxiliando-os a verificar se a realização de todas as vontades é viável.

Por fim, não precisamos achar que esse mundo tecnológico é restrito aos jovens nascidos depois da década de 90. Quem nasceu antes disso e é um imigrante digital não precisa ter medo, pois o mundo tecnológico não exige visto no passaporte. Basta querer entrar para ser aceito. Sendo assim, professores e pais podem fazer uso dos mesmos recursos tecnológicos que os jovens amam para orientá-los por meio deles: blogs e outras ferramentas de Internet podem ser usados para promover aprofundamento de conteúdos e de conhecimento; celulares e comunicadores podem ser usados para estreitar laços e aumentar a comunicação entre pais e filhos e até para a troca de lembretes sobre as responsabilidades de cada um. Além disso, a tecnologia pode ser usada para se conhecer os gostos dos outros, por meio da troca de músicas, fotos e vídeos prediletos — não existe motivo para adultos e jovens não trocarem esse tipo de material entre si.

Afinal, recursos tecnológicos são simplesmente recursos, que podem ser usados para as mais variadas finalidades. Não precisamos deixar os jovens ilhados nos comportamentos aprendidos com os colegas e amigos. Ao interagir com pais, professores e outros adultos, ou jovens de outras “tribos”, eles certamente aprenderão muito, tanto em termos de conhecimento quanto em termos de atitudes.



Referências:

BUCHALLA, Anna Paula. A juventude em rede. Veja, São Paulo, edição 7/2100 fev. 2009. Acesso em: 31 mar. 2009.

MANSUR, Alexandre; LIMA, Francine. Ligação precoce. Época, São Paulo, edição 564, 9 mar. 2009.

SALA, Xavier Bringué; CHALEZQUER, Charo Sádaba (Org.). A geração interativa na Ibero-América: crianças e adolescentes diante das telas. Fundação Telefônica: São Paulo, 2009. Acesso em: 31 mar. 2009.

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Betina von Staa é coordenadora pedagógica e articulista da divisão de portais da Positivo Informática. Autora e docente de cursos on-line para a COGEAE, a Fundação Vanzolini e o UnicenP, é doutora em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP.

 
 
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